3.11.08

Os olhos de quem vê

Alguns flashes da próxima epidemia por Octavio Aragão


– Como sabe, perdi a conta de quantas vezes sonhei com essa cena: eu, ela e o mundo.

– Vai contar outra vez?

– Estou sendo chato? Nunca sei quando parar.

– Continue, – disse Beto – gosto de ouvir.

– Ok. – respondi – Eu, ela e o mundo. Bom, não é bem como imaginei: o mundo não está vivo, ela não está apaixonada e eu não sou um super-herói.

Oficialmente tudo começou com aquela conjuntivite. Dois dias de sofrimento e morte. Você ouviu os especialistas que diziam que o vírus percorria o nervo ótico e se alojava no cérebro? A propagação aeróbica infectou médicos, mendigos, militares e meliantes. “E o Rio de Janeiro continua lindo... O Rio de Janeiro continua sendo...”.

Eu morava com minha mãe e minha avó que, com 85 anos, tinha sofrido um derrame e ficou quase cega, surda e meio doida. Coisas simples como alimentação e levá-la ao banheiro viravam batalhas campais. Mamãe, que não era nenhuma criança, foi definhando até que não consegui perceber diferenças entre as duas. Mas o que ficou marcado foi quando eu, meio bêbado, e minha mãe percorremos quase todos os hospitais da zona sul procurando uma emergência para socorrer a velha. Naquela noite tomei conhecimento da situação da cidade.

Sem vagas. Sem leitos. Sem médicos. Sem porra nenhuma. Minha avó estava respirando com dificuldade, fazendo um som como se tivesse o escapamento furado. Minha mãe berrava no ouvido da velha qualquer bobagem que vinha à cabeça procurando alguma reação e isso me deixava mais tonto, com um gosto horrível na boca e dirigindo com o pé na tábua, desviando de mendigos doentes, matilhas de cães vadios ou grupos que fechavam ruas com a intenção de assaltar carros perdidos.

O quarto hospital que tentamos foi o da Lagoa e infelizmente conseguimos atendimento. Infelizmente porque o cheiro era insuportável. A Lagoa Rodrigo de Freitas estava coberta por um tapete – não, uma crosta – uma camada rígida de peixes mortos. Aquele hospital acabou sendo o único a ter vagas porque ninguém aguentava respirar. Ainda assim, tive de subornar dez pessoas, para que a velha fosse atendida: gente na fila, duas enfermeiras e um dos dois únicos médicos presentes, um garoto de seus vinte anos, que não devia ter diploma, mas que parecia ter enterrado muitos pacientes. Apesar da propina ser uma prática antiga e constante, fiquei irritado por gastar os mantimentos que guardava no carro para tentar salvar a vida da mulher que espancou os filhos por motivos idiotas e que achava que a correia ou um pedaço de pau eram instrumentos educacionais mais úteis que um quadro-negro.

Estava quase indo embora quando o rapaz de branco disse em voz baixa que eu não me espantasse se ela não sobrevivesse. Respondi “por mim, tudo bem” e ele ficou me encarando entre o surpreso e o cansado.

Voltamos para casa pela manhã e minha avó continuava incólume dois meses depois, quando minha mãe contraiu a doença. Prevendo o que aconteceria, invadi um apartamento abandonado, mudei livros e mantimentos para lá e, quando mamãe morreu, olhei para aquela sobrevivente estúpida que não entendia nada do mundo, babando sentada no meio da sujeira. Dei meia volta, enchi a mala com roupas e desejei boa sorte. Alguém que sobreviveu à gripe espanhola, ao governo de Getúlio Vargas e a um golpe militar sem esmorecer podia se virar sozinha e passar por mais uma crise.

Oficialmente foi assim que começou, mas, para mim, o início foi pouco antes do aparecimento das primeiras vítimas, quando conheci Carmen. Hoje me pergunto por que ficou comigo durante um mês. Mas era apenas o corpo, a cabeça estava com um cara de quem nunca mais ouviu falar. Um homem que estava morto num mundo que ia pelo mesmo caminho. Nós permanecíamos, por milagre, vivos. O reencontro aconteceu uma semana após a fase crítica da epidemia, quando ainda se podia ver corpos pelas ruas, mas nenhum andando.

Desde então passamos a morar, comer e dormir juntos. Eu amava por nós dois
.
Algumas vezes, durante as peregrinações pelo bairro, invadindo supermercados procurando comida, repetia para mim mesmo que cumpria meu papel e que a vida era perfeita. Ontem jantamos à luz de velas. Pernil regado a chianti. Depois, à meia-noite, entregamos os presentes: dei um vestido de noite que tínhamos visto naquela loja que ela adorava, onde as vendedoras atendiam a gente com cara de nojo – para ver como são as coisas... agora quem torce o nariz para elas sou eu – , e ganhei uma gravata de crochê feita à mão. Depois do vinho, gargalhamos abraçados e ela disse: “Acho que estou grávida”.

Foi um estrago: quebrei a louça ao me apoiar na mesa, quebrei a mesa ao cair no chão e arranhei o sinteco depois da queda. Ela riu como há muito tempo não fazia. Foi nessa noite que me senti como um super-herói.

– Sei. E hoje ela está morta. – diz o Beto, saindo da minha frente e deixando o corpo de Carmen aparecer pendurado na luminária do corredor – que era antiga e resistente – enforcado pelo vestido de noite. Eu devia ter fechado a janela. O vento faz com que os pés descalços balancem.

– É – respondo – Ela se matou no meio daquela noite, mas ao menos não foi embora.

Beto continuou sorrindo:

– Rapaz, você ainda não entendeu. Não é guardando o corpo que vai fazê-la ficar. Mas pode contar a história outra vez, já que não tenho mesmo o que fazer.

Encaro o rosto simpático. Ele não está sendo meu amigo. Fecho a mão e dou um soco bem no nariz de Beto. O sorriso parte ao meio. Continuo batendo até que pedaços do espelho ensangüentado se espatifam no chão do banheiro.

“Quem precisa de amigos?”, penso diante do armário quebrado onde alguns cacos refletem os olhos de Beto. A música tinha razão: “Quem gosta de mim sou eu”.

O Criador e o Espírito

Uma história sobre finais trágicos
por Rita Maria Felix da Silva

Num recanto fora da realidade, o Criador do Universo ponderava. Estava de pé, braços cruzados, o semblante pesaroso e sombrio. Em seu ombro direito, o Espírito, segundo membro da Trindade, repousava.

Após o que pode ter sido alguns segundos ou até mesmo uma eternidade, ele apontou para sua obra e assim falou:

— Veja, Espírito, o que tragicamente ocorreu com este universo: corrompido de modo irrevogável, irremediavelmente degenerado, desviado e perdido de qualquer propósito original. Um reino de caos e maldade, uma abominação que ofende a si mesmo... E a mim. Que isso termine agora!

E estalou os dedos da mão direita e o universo se contorceu, gritou e explodiu. Da infinidade de energias liberadas, o Criador ordenou que um novo cosmo começasse a se formar, enquanto lágrimas escorriam-lhe dos olhos.

— Mais uma vez você chora. — observou o espírito.

— Sim. Essa foi a versão 2718 do universo. Uma das que mais gostei... Particularmente aquele mundo...

— A Terra?

— A Terra. Eu tinha muita esperança sobre ela. Você me conhece: não há maior felicidade para mim que criar um universo... Nem tristeza mais profunda que destruir um. Trilhões de seres extintos num só instante. Nada me machuca o coração mais que isso.

— Criador, embora nenhuma coisa possa ser escondida de mim, sempre escolhi respeitar sua privacidade. Há, porém, uma pergunta que, há tempos, desejo fazer. Importa-se?

O Criador do Universo sorriu, um riso que poderia gerar uma centena de sóis numa galáxia e apagar uma centena em outra:

— Não. Entenderei como uma cortesia entre nós. Pergunte o que desejar.

— 2718 universos. Todas essas vezes, em nenhuma ponderou sobre a moralidade disso? Quero dizer, não seria mais correto deixar que o universo — se corrompido, pervertido, como fosse — continuasse existindo, do que retirar a vida de tantas criaturas? Nunca se questionou sobre o que está fazendo?

— Todo o tempo, Espírito, todo o tempo... — respondeu o Criador e naquelas palavras havia dor suficiente para que a população de um bilhão de mundos cometesse suicídio — Mas... Vamos. Devemos agora ir falar com o Terceiro de nós... Meu Filho. Suponho que ele vai querer tentar salvar este novo universo também.

Lá foram ambos. O Criador nada mais disse o resto do caminho. O Espírito cantarolou a melodia mais triste que se possa imaginar.


FIM

Dedicado a Jean Gabriel

2.11.08

A GRUTA de VÊNUS

Um exemplar sado-erótico escrito e ilustrado por Maria Helena Bandeira

As rubras paredes esponjosas pulsavam em espasmos fazendo balançar o líquido e o barco.

Senti tonteira outra vez - a mesma vertigem que experimentei ao entrar no buraco escuro da Vagina, entre as duas coxas imensas, sob a floresta de pelos encaracolados.

Por toda parte o cheiro almiscarado das fêmeas terrestres.

A menina ao meu lado na embarcação percebeu minha expressão aturdida e sorriu. Profissionalmente.
Mas havia uma ligeira ironia escondida em algum lugar. Corpo esguio, seios altos, olhos apertados de um negro profundo. Veste transparente e molhada colada às coxas fortes e ao vértice entre elas.

Minha boca estava seca, uma excitação como nunca sentira em nenhum planeta anterior. Desajeitadamente,circundei sua cintura tentando não machucá-la. Ela riu, me apertou forte. Com o braço livre remou em direção a uma saliência, onde o barco se encaixou, rodopiando. Agilmente, pulou sobre a carne, deitou-se na sua maciez vermelha e me puxou.

O cheiro de fêmea do ambiente me enlouquecia, comecei a nadar sobre ela batendo os braços, como um peixe alucinado. Habilmente, abriu meu macacão, procurando o pênis rígido com a boca. Eu olhava sua nuca macia, nunca sentira coisa igual, tinha medo de acabar antes de conseguir a sensação jamais imaginada de penetrar em um corpo de mulher com meu membro gerado para o trabalho. Havia ainda o proibido, a sensação de estar fazendo algo que era inacessível aos meus iguais.

Lembrei as regras rígidas do bordel carnal e me senti grato à linda terrestre que me ajudara a quebrá-las e a conhecer este ambiente inesquecível..

Ela manipulava meu pênis com competência até que, desesperado, empurrei sua cabeça, joguei o corpo leve no chão pegajoso, abri suas pernas com força e comecei a empurrar meu membro entre elas. A jovem prostituta se debateu, gritou, me advertiu, pediu socorro, mas isto só serviu para me excitar ainda mais - enlouquecido, empurrei e empurrei, penetrando a carne macia até que ela ficou silenciosa e eu gozei – algo que nunca sonhara acontecer comigo...

No mesmo instante luzes violentas invadiram o bordel, sirenes, um cheiro adocicado.

Acordei no hospital do presídio. Médicos terrenos olhavam assustados meu corpo nu e sangrento. Queria perguntar pela minha jovem acompanhante, mas tinha medo de saber.

De qualquer maneira, não havia salvação para mim. Violara todas as leis da Convivência Estelar e da Companhia.

Invadira um bordel orgânico de Marte, acompanhado de uma puta terrestre. Tivera relações carnais com ela e a forçara a fazer sexo genital comigo.

Isto era terminantemente proibido aos Mecanos de pênis dentado, trabalhadores na área de montagem de objetos eróticos.

Ao longe, ouvia música e alucinava um odor de almíscar. Nunca mais esqueceria este cheiro. Ou a sensação macia da carne sendo penetrada.

Nem que eu vivesse os mil anos que a Companhia promete aos seus compradores.


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29.10.08

Sobre "O caçador" e a Fome

O texto que publiquei no tópico anterior é o conto de abertura de um dos principais destaques deste ano na área da ficção científica no Brasil. A coletânea Fome é o segundo livro do publicitário paulistano Tibor Moricz e está programado para ser lançado no início de novembro pela Tarja Editorial, que vem a ser a editora que mais tem investido na produção nacional deste nobre gênero da literatura fantástica. Eu, que já havia resenhado e entrevistado Tibor anteriormente para o site Overmundo e para meu outro blog, tive a honra de ser convidado por ele para assinar o prefácio da obra. Abaixo reproduzo com a devida autorização do escritor e de seus editores a introdução escrita para um livro que, provavelmente, entrará com justiça para as listas dos melhores e mais ousados exemplos do que se pode esperar da FC produzida em nosso país.


Nas páginas seguintes, você terá a oportunidade de testemunhar a morte de, pelo menos, dois mitos. Um deles é a tradição bem-comportada da Ficção Científica brasileira, uma vez que o bom-mocismo desse gênero da literatura nacional raramente encontrou quem o desafiasse ao longo dos anos. Já nas linhas iniciais do primeiro dos quinze contos, Tibor Moricz trucida tal padrão estabelecido ao ir muito além do que fez, por exemplo, lá no início da década de noventa, o pioneiro e decano André Carneiro em sua singular utopia sexual Amorquia.

O paulistano descendente de húngaros (mais especificamente, sobrinho-neto de um dos maiores escritores e dramaturgos daquele país, Zsigmond Móricz) criou nesta coletânea uma distopia nada ambígua. Se em seu romance de estréia, Síndrome de Cérbero, ele fez uso de um tema clássico da FC mundial – a viagem no tempo – para analisar a angustiada relação de um filho com o pai ausente, aqui o autor volta a trabalhar com um cenário bastante conhecido, o do futuro pós-apocalíptico, mas com resultados bem mais cruentos.

Em Fome, o Caos e o Abismo de Nietzsche abusam, torturam e canibalizam um segundo mito, o do Bom Selvagem de Rousseau. A civilização acabou, os governos não existem mais, as relações familiares e as religiões ou se extinguiram ou surgem apenas como caricaturas farsescas. O que move os poucos sobreviventes é a urgência em atender àquela necessidade física que dá nome à obra. A fome, em suas diferentes e variadas manifestações, é a protagonista onipresente.

“Não eram tempos para analogias”. Dessa maneira se define o mundo descrito a seguir, em um dos primeiros contos. Mais à frente, em outro texto, retoma-se o assunto. “Um tempo onde a comida não existia. Um tempo onde a água pura não existia. Onde a sobrevivência suplantava tudo. Mas um tempo, sobretudo, onde todos, sejam caça ou caçador, sabiam que a vida é uma
questão de sonho e decepção”. É nesse tempo e nesse lugar que você está entrando agora, no espaço da Entropia. Não é bem o caso de dar as boas vindas, mas a verdade é que você está prestes a conhecer a distópica entropia de Tibor Moricz.

Vire a página por vontade própria.

O caçador

O cotidiano em um mundo faminto por Tibor Moricz

Ajeitei a mira. Foquei o alvo e depois de um breve suspiro puxei o gatilho. A cabeça explodiu num emaranhado de massa encefálica, sangue, ossos e cabelos. O corpo cambaleou alguns metros até cair sobre o meio fio. Uma das pernas saltando em espasmos cada vez mais espaçados.

Levantei, pendurei o rifle sobre o ombro e observei a desolação antes de caminhar até o freguês. Ruas cobertas por destroços... prédios arruinados. Vasculhei os bolsos do morto. Quase nada. Moedas inúteis... Um canivete. Puxei os sapatos mas deixei as calças puídas e a camisa sem botões. Não carregava nada. Uma lástima.

Cocei a barriga, soltei um arroto e larguei o defunto para trás. Nada havia nele que pudesse me interessar, fora o canivete. Talvez o quarto traseiro, mas ainda pretendia ir mais além. Avançar, vasculhar lá na frente. Arrastei-o pelas pernas até sob uma laje inclinada. Lá estaria meio escondido. Voltaria mais tarde e faria os cortes necessários.

As caçadas eram mais vantajosas no passado. Havia mais gente perambulando em busca de alimento. Alvos fáceis. Nos últimos meses houve um declínio na população. Doenças por um lado, fome por outro.

Caminhei a esmo por algumas ruas. Atento a qualquer movimento. Sabia que era silenciosamente vigiado. Olhares atentos que me espreitavam das janelas. Gente acuada. Um tempo atrás ainda era possível roubar sem matar. Apontar a arma, ameaçar, humilhar o freguês e carregar o butim sem maiores problemas. A escassez levou as pessoas a resistir. Não entregar seus valiosos bens sem luta. Assim, puxar o gatilho sem fazer perguntas se tornara o melhor jeito para trabalhar.

Contornei um monturo de escombros e sentei num pedaço grande de pedra. Tirei do bolso um pedaço de carne seca. Mastiguei com calma engolindo cada naco sem tirar os olhos do perímetro. Busca constante de fregueses. Houve época em que abatê-los rendia bom sortimento de provisões, já que ninguém saía de casa sem elas. Não se arriscavam a abandoná-las, desprotegidas, à sanha de vizinhos mal intencionados. Hoje ninguém tem nada, a não ser pequenos rasgos de carne.

Peguei o canivete recém adquirido e testei o fio. Até que estava bom. Daria para despelar um cão com relativa facilidade, se eles ainda existissem. Tateei minha faca, presa na cintura e me levantei, esticando as pernas preguiçosamente. Em tempo de ver um vulto passar correndo alguns metros à frente, contornando obstáculos, se ocultando sob as sombras. Sorri sentindo a adrenalina jorrar. Empunhei o rifle e saí sorrateiro atrás do próximo freguês.

O sol estava inclemente. Nenhuma nuvem no céu. Dois urubus passaram em vôo ligeiro lá para os lados de onde atendera meu último. Esses também lutavam pela sobrevivência. Uns limpando a sujeira dos outros.

Corri ágil por entre os escombros, sentindo no ar o cheiro de suor. Suor que não era meu. Marcas recentes no chão mostraram a direção que o freguês tomara. Pés pequenos. Olhei para além.

Vislumbrei paredes e ruínas. O pó suspenso, sendo atirado para lá e para cá pela brisa. Apurei os sentidos, avancei cauteloso por alguns metros e finquei o dedo no gatilho. Quase um nada para fazer a arma disparar. Girei o corpo com leveza, saltei uma pilastra e enfiei as mãos num vão, agarrando cabelos.

Puxei com força, colando o cano do rifle na cara do freguês.

Ou da freguesa, melhor dizendo.

Olhar enraivecido. Não demonstrava nem um pouquinho de dor, embora a sustentasse pelos longos cabelos. Rosto sujo, roupas em farrapos. Pés no chão. Apertei o rifle entre seus lábios, forçando-a a abri-los. Ela o fez. Os dentes despontaram. Muitos escurecidos, alguns em bom estado. Quantos anos? Não mais que dez, ou onze. Mirrada e subnutrida. Renitente naquele olhar desafiador.

Soltei o rifle e levei a mão livre até seus peitinhos. Senti as leves protuberâncias sob o tecido gasto. Apalpei mais abaixo. Nádegas magricelas, mas que me deram pensamentos sórdidos. Soltei um risinho sacana e fui arrastando a menina pelos cabelos por longos quarteirões. Era uma freguesinha jovem. Dar-lhe um tiro na cara nada me acrescentaria. Mas era companhia, ora se! Sabia que ia ter que amarrar a danada num lugar qualquer. Talvez até amordaçar. Ah, ia tentar fugir e fazer um barulho daqueles... Eu não deixaria.

Os olhares me acompanharam. Os mesmo que espreitavam das janelas, dos prédios destruídos. Um par de sapatos com cadarços amarrados, pendurados num ombro. Um rifle pendurado no outro. Um canivete num bolso, uma boa faca na cintura e uma menininha que me fazia estremecer de desejo bem presa por entre os cabelos. Ela enfiava os dedos, como garras, em minhas mãos. Tentava me ferir, me fazer soltá-la.

Mas o máximo que conseguia era me deixar ainda mais excitado. As perninhas trotavam atrás de mim, tentando acompanhar o ritmo acelerado. Os olhos marejavam mas dos lábios não escapava nenhum som. Nenhum protesto.

Entrei na bocarra que se abria à minha frente. A guarita da garagem ainda mantinha um calendário que ostentava uma pin-up peituda, loira de olhos azuis. Carnes abundantes. Eu a deixara lá. Era uma espécie de mensagem de boas vindas para todas as vezes que retornava das caçadas, com butim ou sem. O prédio acima estava demolido. Nenhum andar de sobra. Quatorze andares jaziam esparramados numa área de muitos e muitos metros quadrados. Montes de entulho. Atravessei o portal formado por uma ampla placa metálica, verifiquei as armadilhas para ver se não tivera visitas enquanto estava fora e então joguei a menina com força contra uma parede. Ela bateu num choque surdo, soltou um gemido e desabou. Os cabelos desgrenhados. Alguns tufos ainda bem presos entre meus dedos.

Esfreguei as mãos me livrando dos cabelos e vasculhei minha mochila. Peguei um naco de carne e o joguei na direção da menina. Ela olhou a carne, lambeu, mordeu e foi mastigando, olhos bem fixos em mim.

Era raro encontrar meninas jovens assim e solitárias. Raríssimo. Difícil também ver adultos, principalmente durante o dia. Eles escolhiam a noite para perambular. Buscavam a escuridão. Grupos esparsos, as matilhas, existiam aqui e ali. Vagueavam pela urbe e fora dela, se alimentando do que podiam achar. Grupos até organizados. Eu era um caçador solitário, evitava grupos e aglomerações. O que caçava era meu e não precisava dividir com mais ninguém.

Me agachei diante dela e voltei a tocá-la. Ela não esboçou nenhuma reação. Corri os dedos pelas ancas estreitas. Acariciei as coxas magras. Tateei as costas que exibiam as costelas de maneira impudente.

Eu a queria. E naquele momento.

Arranquei os trapos que a cobriam. Ela recuou o que pôde, se espremendo contra a parede. Dois pequenos montículos se sobressaiam onde um dia ela (se continuasse viva) teria peitos. A vulva mostrava pequenos e sedosos pelinhos que iam cobrindo a região. Agarrei-a pelas pernas e a arrastei para o meio do esconderijo, sobre folhas de papelão. Virei-a para ver as nádegas. Brancas e exíguas. As espalmei. As apertei. Bati nelas. Avermelharam até parecer fogo.

Levantei e tirei as calças. Desprendi a faca e a coloquei de lado, ao alcance da mão. Virei a menina mais uma vez. Abri suas pernas com força, me colocando entre elas. A Agarrei pelos cabelos e a fiz olhar para meu pênis antes de penetrá-la.

— Você vai gostar, vaquinha. Pode crer que vai.

Deitei sobre aquele corpo miúdo. Me infiltrei para dentro dela, fazendo-a, pela primeira vez, soltar a voz. O grito foi agudo. As pernas começaram a chutar, os braços a sacudir, desferindo socos nas minhas costas. A boca, nervosa, tentava me morder o rosto. Num golpe seco completei a penetração. Ela urrou, arregalando os olhos. As pernas pararam de se mover e os braços tombaram, inertes. Ela passou a me observar sem emoção enquanto ia e vinha.

Maravilha das maravilhas. Uma pequena prostituta para me satisfazer os desejos. Um objeto de prazer à disposição dia e noite. Uma jovem freguesa. A mais tenra, a mais atraente, a mais sedutora, a mais gostosinha. Freguesa para muitos e muitos atendimentos.

—Minha freguesinha deliciosa – Sussurrei ao seu ouvido, enquanto me preparava para explodir.

Momentos de êxtase. O mundo era perfeito. Destruído, arrasado, despovoado. Vida animal quase extinta. E menininhas como aquelas, gazelinhas correndo por entre escombros, exibindo graciosidade à sanha de caçadores implacáveis. Doze, onze, dez anos. Tanto faz. Carne é carne. Prazer é prazer.

Dei uma estocada final. Profunda. Ergui o olhar para o teto, respirei fundo e gemi, enquanto uma faca era enterrada nas minhas costas. Abaixei o rosto. Ela estava lá: sorrindo. Ambas as mãos apoiadas em meu peito, me empurrando. As pernas flexionadas, joelhos colados em meus quadris. Eu ainda túrgido dentro dela. Com um movimento me fez tombar de lado, arrastando-a comigo. Se Livrou de meu aperto, desvencilhou a jovem vulva de meu pênis e se ergueu lentamente. Ao lado surgiram várias outras crianças. Um deles com meu rifle nas mãos. Outro com a minha própria faca, ensangüentada. Outro com o canivete. Outra arrastava minha mochila para fora do esconderijo. Outros vasculhavam o lugar atrás de aproveitáveis. Um grupo considerável olhava para mim e os olhares não escondiam desejos.

Tossi, lambi os lábios e sorri para a putinha que estava ao lado. Corpinho magro e que estivera sob o meu há tão pouco.

— A freguesia vai querer o quê? – perguntei num suspiro, soltando uma golfada de sangue. A resposta veio num instante: um tiro à queima-roupa. Meu crânio explodindo em milhares de fragmentos ensangüentados. Lançaram-se sobre mim. Unhas e dentes buscando pedaços para matar a fome.

Novas leituras do TerrorCon

Novo apanhado de mini-resenhas de textos deste blog por Fernando S. Trevisan




M.U.A. - Um conto uniformemente acelerado
Por Fábio Fernandes

Publicado originalmente em "Interface com o vampiro e outras histórias", este conto fantástico - como bem falou o Romeu, em todos os sentidos - faz boa parceria com o anterior do Orsi. Maldição? Experiência que deu errado? Apenas loucura? Sem sequer pensar em apresentar soluções, Fábio brinca com o conceito de viagem no tempo em uma trágica relação amorosa. Genial.

Visitante - Uma excursão a um estranho museu
Por Carlos Orsi

A qualidade do texto do Orsi já é conhecida e este conto é apenas mais uma prova. Misturando fantasia com ciência, atualizando - melhor seria dizer projetando para o futuro - antigos mitos. Guerra, paixão, mundos exóticos e tecnologia à décima potência são acessórios utilizados com inteligência para alcançar o objetivo final: uma boa história. Excelente!

O Último Flávio - Uma ida ao zoológico
Por Rita Maria Felix da Silva

Bom conto da Rita - curto, eficiente e bem construído. No futuro, um alienígena encontra o último ser humano e tenta travar contato, com conseqüências não de todo inesperadas. Adorei o fato - improvável - do último humano falar português...

A ilha de Tobias - Uma pulp fiction insular
Por Leonardo Siviotti

Bom conto, com suspense e ritmo, costurado precisamente. Já publicado na Ficção de Polpa 2 - que eu ainda não tenho, por isso para mim foi inédito. Não concordo com os comentários de que o final era previsível - a situação era, mas o final, não exatamente

Pela Deusa - O evangelho de uma divindade altiva
Por Maria Helena Bandeira (arte de Gustav Klimt)

Novamente primando pela qualidade - dá até medo mandar algo para o Romeu avaliar e eventualmente publicar - vem este excelente conto da Maria Helena. Um comentário - da Giseli Ramos - tem a palavra-chave para mim: autocontido. Menos de 500 palavras, mas quanta história e emoção!

O Messias Decidido - I - Prelúdio - Uma treta em Capão Redondo
Por Richard Diegues

Justiceiros, "zorros" e "robins hood" são freqüentes em todos os tipos de mídia - literatura, cinema, quadrinhos. Agora, a mescla de religião, vigilantismo e favelas paulistanas é uma bem-vinda - e atrevida - inovação. Excelente.

A Igreja do Diabo - Um mestre analisa as contradições humanas
Por Machado de Assis

A literatura fantástica está em todo lugar. Neste ano de centenário da morte daquele que é considerado o maior escritor brasileiro, nada mais apropriado que apontar obras dele que se enquadrem no gênero, como este excelente "A Igreja do Diabo" - que, como todas as grandes obras, é sempre um prazer reler. Aproveito a mini-resenha para indicar o site com a obra (quase) completa de Machado de Assis, lançado em setembro pelo governo federal, com material para horas e horas de leitura.

Meio que abduzidos - O relato de um suposto contato imediato
Por Ataíde Tartari

Ótima seqüência para o perfil anterior - em uma prosa envolvente, Tartari descreve o relato - hilário - de um rapaz urbano sobre um contato imediato ocorrido na famosa cidade paulistana Campos do Jordão.

O carteiro das galáxias - O perfil de um ufólogo grego que transmite mensagens de ETs em Florianópolis
Por Romeu Martins

Um raro caso (único, talvez?) de não-ficção do blog Terroristas da Conspiração... ou seria ficção? Fico mais assustado do que bem humorado com perfis desse tipo, mas o trabalho "pré-foca" do Romeu foi excelente e é uma leitura divertida, com humor fino entre as linhas...

Hiroshima Acelerada - A prequel do conto "Estupidez artificial"
e
Estupidez Artificial - Uma desventura cyberbeat
Por Ludimila Hashimoto

Mini-resenha dos dois, pois pertencem ao mesmo "universo" e estão em seqüência lá no Terroristas. Intrigantes e melancólicos, os textos referem à morte, culpa, perdão, renascimento e decepção. Ecos de "Brilho eterno de uma mente sem lembranças". Misterioso e muito bom, como os melhores textos da Ludi.

Oh... Crianças! - Um conto sobre molecagens no espaço
Por Rita Maria Felix da Silva

Seco e inteligente, este conto de ficção científica da Rita une o horror a um cenário centenas (ou milhares, quem sabe) de anos no futuro. Ótima história curta.

Fatalidade - uma comédia de humor negro
Por Cristina Lasaitis

Bom conto, com pitadas generosas de humor negro, embora com final um pouco previsível. Publicado anteriormente no Novas Visões de São Paulo.

Resenha:
Romeu Martins retoma suas resenhas no Overmundo com Viagem ao Centro da FC, ótima resenha de "Volta ao mundo da ficção científica", organizado por Edgar Nolasco e Rodolfo Londero.

Sombras - Uma narrativa sombria escrita

Por Maria Helena Bandeira com arte de Leonor Fini
terrorcon.blogspot.com

A Maria Helena conta aqui um conto melancólico, mostrando como é triste a realidade de quem sofre de doenças que afetam a percepção - mesmo com a ajuda da tecnologia para mitigar seus efeitos, ou talvez, devido exatamente a estas tentativas...

É foda existir - Uma ficção fantástica sobre o amor

Por Camila Fernandes
terrorcon.blogspot.com

Confesso que até as últimas linhas, este texto não me agradava. Parei de ler e retomei umas duas vezes. Mas, quando terminei, me arrependi de não ter ficado um pouco mais atento e ido de uma vez até o final. O "TDC" mantém o nível com este incrível texto da Camila Fernandes!

The Schroedinger show - A primeira apesentação quântica de rock

Por Carlos Orsi
terrorcon.blogspot.com

Genial conto curto de Orsi, brincando com a mídia, mecânica quântica, ignorância científica e direitos autorais.

27.10.08

M.U.A.

Um conto uniformemente acelerado por Fábio Fernandes

1980

O murmúrio no interior da igreja já virou um burburinho a essa altura. Da limusine alugada Renata ouve tudo com uma clareza assustadora: o choro de um bebê, a voz esganiçada de uma tia velha, o riso gostoso do filho de uma amiga. Ao seu lado, o pai tenta disfarçar a décima-quinta consulta ao relógio, mas ela percebe.

- Que horas são? - pergunta.

- Ele já deve estar chegando, filha - responde o pai sem muita convicção.

Renata pega o braço esquerdo do pai e vira o pulso. Seis e quarenta. O casamento estava marcado para as seis.

- Deve ser o trânsito, Renata.

- O Ramón mora em Botafogo, papai. De lá pra cá não demora mais que dez minutos, vinte com tráfego ruim.

O pai não argumenta.

Os convidados começam a sair. Os parentes e agregados ficam nas escadas; os amigos de faculdade de Renata se espalham lentamente pelas imediações, admirando a paisagem do alto do Outeiro da Glória. Ninguém foi embora, mas Renata sabe que isso não vai demorar: quando o primeiro tomar coragem, os outros irão atrás. Pedindo desculpas, com um pouco de constrangimento, mas irão. Renata não chora. O que ela sente é raiva, uma raiva tão grande que evapora qualquer possível lágrima antes mesmo de sair de seus olhos; de algum modo, ela sabia que isso iria acontecer. Não era de hoje que Ramón vinha se comportando de forma estranha, sumindo por dias, às vezes semanas. Na última vez em que se viram, três dias antes, ela lhe perguntara se ele realmente ainda queria se casar. Ele respondera que sim, era o que ele mais queria; mas Renata viu em seus olhos uma hesitação, um desespero, alguma coisa que o sufocava e ele não conseguia revelar o que era. Ela não forçou a barra para que ele contasse; agora se arrepende.

E jura que, se Ramón não aparecer, não haverá perdão nem volta.

1986

O murmúrio no interior do shopping já virou um burburinho a essa altura. Porra, desabafa Renata, no Natal tudo bem, mas já passou um mês. Mas a chuva que cai lá fora, e só agora ela percebe, foi a causadora da aglomeração. Bom, a lista de presentes já foi providenciada, ela pensa. A tentação de tomar um sundae enquanto espera a chuva passar é grande, mas Renata opta simplesmente por ficar embaixo da marquise do shopping à espera de um táxi. Consulta o relógio: oito e meia da noite. Ela gostaria que Maurício estivesse ali, mas seu noivo não dispensa o chopinho das sextas com os amigos do trabalho.

Nem por ela. Nessas horas ela lembra de Ramón. Ele também tinha sua ânsia de liberdade, seus sonhos, mas era incapaz de deixá-la sozinha. Nessas horas ela só lembra das coisas boas. Foi tudo o que sobrou. Renata nunca mais o viu.

- Renata?

Renata nunca mais ouviu o som de sua voz.

Ela se vira.

O rapaz à sua frente não tem mais de vinte e quatro anos, a idade que ela tinha no dia do casamento que não houve. Está vestido com um jeans semi-baggy e uma camisa amarela bufante
com hibiscos roxos. Os cabelos pretos cheios, batidinhos sobre as orelhas, parecem anos setenta demais para ela. Ramón não mudou absolutamente nada.

Renata respira fundo.

- Como vai, Ramón? - ela pergunta, tentando parecer fria.

O rosto de seu ex-noivo não tem a mesma pretensão.

- Você não está notando nada? - ele responde com outra pergunta, a voz embargada.

- Estou - ela o olha de alto a baixo. - Sua cara de pau não mudou.

Ramón respira fundo. Renata percebe que ele está muito agitado.

- Renata, me escute com atenção - ele chega bem perto dela, como se quisesse sussurrar. Mas seu tom de voz não diminui: - Cheguei há dois dias. Não sei quando vou embora. Preciso falar com você, é muito importante. Por favor.

- Você está morando fora? Onde? - ela pergunta, tentando aparentar mera cordialidade. Mas ela quer mesmo saber.

Por um momento, Ramón age como se ela não existisse; levanta a cabeça, olha para o shopping como se não o conhecesse, abaixa os olhos e percorre a paisagem ao redor.

- Aquele bar onde a gente costumava ir ali na rua da Passagem ainda existe? - ele pergunta de repente.

- Existe. Quer ir até lá?

- Quero.

Eles saem do shopping e vão na direção do bar. Mal conseguindo disfarçar o nervosismo, Renata anda a passos largos. De repente, percebe que deixou Ramón para trás. Vira-se: ele avança devagar, como se estivesse passando mal. Ou não quisesse andar depressa.


Pedem dois chopes. Renata espera: Ramón não fala uma palavra até que o garçom traz as bebidas e o cardápio. Ele pega a tulipa e toma um longo gole. Renata percebe que a mão do rapaz treme.

Mão exatamente igual a da última vez em que beberam, naquele mesmo bar. Renata olha Ramón com mais cuidado.

Ele parece tão novinho... Por um momento todos aqueles anos de namoro voltam, e nada mudou. Os olhos de Renata ficam marejados.

- O que você tem para me dizer, Ramón? - ela pede, antes que desabe em lágrimas que não quer mostrar.

- Eu quero pedir perdão, Renata. E te dar uma explicação... de porque é que eu não fui ao... - a voz morre na garganta.

Cachorro, não tem sequer a coragem de pronunciar a palavra “casamento”, pensa Renata.

- Não precisa explicar nada - Renata diz, procurando um cigarro na bolsa. Jurou a Maurício que ia parar, mas uma ocasião dessas é mais que desculpável. - Já passou, Ramón. É uma página
virada.

- Página? Claro, claro! - O semblante de Ramón se ilumina tão subitamente que Renata sente uma pontada de medo. Parece doido. Ela acende o cigarro e dá a primeira tragada - longa - enquanto aguarda que ele termine de mexer em sua bolsa.

Renata reconhece a bolsa: uma sacola riponga azul e verde trançada, que ele comprou em Ipanema um mês antes do casamento. Mas não pode ser a mesma, ela pensou: a bolsa da qual Ramón tirava agora uma folha de jornal era nova em folha.

- Dá uma olhada na data deste jornal - ele pede, estendendo o papel quase na cara de Renata. Ela pega a folha: é o caderno B do Jornal do Brasil. A data é 16 de janeiro de 1980. Uma quarta-feira. O dia em que Renata o viu pela última vez.

O jornal está como novo.

- Não estou entendendo nada, Ramón - ela pergunta, a irritação se misturando com o estranhamento. - O que é que você veio me dizer de tão importante?

- No shopping, você me perguntou se eu estava morando fora. Não, Renata: eu fui mandado para fora.

- Como? - ela pergunta, imediatamente imaginando mil possibilidades. Recém-formado em jornalismo na época do noivado, ele vivia endividado. Será que havia se comprometido com algum agiota e tivera que fugir para não ser morto? Ou seriam drogas? Ela apura o ouvido: não quer perder essa explicação.

- Eu viajei no tempo, Renata - Ramón diz bem devagar, medindo palavras que não podem ser camufladas.

E nem assimiladas.

- Francamente, eu achei que a gente estava falando sério - Renata se levanta. Ramón barra sua passagem.

- Pelo amor de Deus, Renatinha, me ouve - seus olhos estão cheios de lágrimas. - Eu estou desesperado, não sei o que fazer. Preciso falar com alguém.

- Você precisa é de um psiquiatra, isso sim - e Renata se arrepende no instante em que as palavras saem de sua boca.

Pois deve ser exatamente disso que ele precisa, e ela não devia tornar as coisas mais difíceis com sua crueldade. Afinal, ela parece estar em melhor estado que ele.

Que reconhece isso de alguma forma.

- É, eu pensei nisso - ele admite, sem medo de esconder as lágrimas que escorrem pelo rosto. - Mas como é que as coisas mudaram tanto e eu não mudei nada? E minhas roupas? E as coisas que eu tinha comigo?

Renata torna a se sentar. Ramón faz o mesmo.

- Isso começou a acontecer uns seis meses antes do dia do casamento. Eu comecei a ter brancos estranhos. Atravessava uma rua de manhã, e chegava do outro lado à tarde. Entrava na cozinha à noite e voltava para a sala ao meio-dia.

- Você procurou alguma ajuda? - ela pergunta, agora com mais sutileza.

- Procurei um neurologista - responde Ramón. - Fiz exames, mas o médico não achou nada de errado comigo. Cheguei a marcar um psicólogo, mas foi exatamente naquele período que eu sumi uma semana. Lembra como você ficou puta comigo?

- E como é que eu ia esquecer? Ainda lembro da raiva que eu senti do Zé Carlos. Pensa que eu não lembro que ele tinha te convidado para um churrasco em Pedra de Guaratiba logo antes de você sumir? Teu sumiço nunca me desceu pela garganta.

- Nem pela minha, Renata. Pra mim não se passou um dia. Eu saí da padaria no sábado de manhã com um litro de leite e um pão quente debaixo do braço. Quando cheguei em casa era sexta-feira, perto do meio-dia. Mas foi aí que eu vi que tinha algo de errado.

- Custou tanto assim pra perceber? - ela diz, irônica.

- Não, não é isso. Foi aí que eu vi que não era nenhum problema meu. Eu não estava tendo branco algum. O leite continuava gelado e o pão quente. Eu estava exatamente como quando saí de casa. Até então, esses lapsos só haviam acontecido num espaço de horas. Mas depois de uma semana, como é que eu podia explicar o fato do leite não ter estragado e nem o pão envelhecido? E minha aparência? Nem a barba havia crescido!

- E o que você fez?

- Nada - Ramón confessa, o rosto desanimado. - Fazer o quê, Renata? Quem é que ia acreditar em mim?

Ela o encara irada.

- Que tal eu, Ramón? Por que você não me contou nada na época? Não tinha confiança em mim?

Ramón baixa a cabeça.

- Você não ia acreditar, Renata. Depois daquele incidente com a Janaína...

- Sei, sei, não precisa entrar em detalhes. - O caso de Ramón com Janaína foi bastante concreto, ele não tinha como inventar nenhuma desculpa estúpida para ocultar a verdade.

- Isso aconteceu três meses antes do casamento. Aí eu comecei a me prevenir: falei para meus pais e para você que tinha pintado um trabalho com cinema em São Paulo, e que eu poderia ir pra lá sem avisar, lembra? Pois então; foi pra tentar ocultar qualquer futuro salto.

- Como aquele de três semanas - Renata lembra.

- Como aquele de três semanas - repete Ramón. Aí já faltava pouco tempo pro casamento, e eu bem que tentei te avisar. Mas me deu um medo filho da puta na hora: você ia achar que eu estava de sacanagem com a sua cara e ia querer acabar tudo. Preferi ser covarde e esperar a cerimônia. Aí eu ia poder te provar que estava falando a verdade.

- Como?

- Levando você comigo - ele explica.

- Ah - Renata não sabe o que dizer.

- Pois é, é isso - e ele entorna a tulipa de chope. Pede ao garçom mais uma.

- Duas - corrige Renata.

- Você nunca foi de beber muito - ele observa, tentando amenizar o clima.

- Depois do que você me contou agora, vou precisar - ela diz. - Vem cá - ela o chama, fazendo um gesto para a cadeira ao lado. Ele troca de lugar. Renata acaricia o rosto de Ramón. A barba de dois dias é cerrada; ela lembra que seu pescoço ficava todo lanhado quando trepavam. Doía um pouco, mas Renata gostava.

Renata está toda molhada.

- Você está tão lindo - ela diz. E o beija.

Renata sente as mãos de Ramón acariciando seu rosto, seus cabelos, sua nuca. Há quantos anos ela não sentia aquelas mãos tão macias. É como se o tempo não tivesse avançado.

Delicadamente, ela interrompe o beijo.

- O que você disse é verdade, Ramón? - pergunta, pela primeira vez na dúvida.

Ramón faz que sim com a cabeça. A emoção é tanta que não consegue falar.

Renata pega sua tulipa de chope - que obviamente chegou durante o beijo - e toma um gole.

- Você não acredita em mim - diz Ramón, enxugando as lágrimas.

- Eu acredito - diz Renata.

- Não, eu te conheço bem. Você é muito teimosa. - Ambos riem. - Mas só há uma maneira de provar, Renata. - e ele estende a mão. - Vem comigo.

- Pra onde?

- Não sei - ele confessa. - Pela lógica, é somente para o futuro. A cada salto eu passo menos tempo em tempo real e o espaço percorrido é maior que o anterior. Ainda não tive cabeça para
calcular a progressão, se é que existe uma.

- Parece M.U.A. – diz Renata.

- O quê?

- Movimento Uniformemente Acelerado. Aprendi isso no ginásio. Isso ocorre quando um objeto atinge uma aceleração determinada constante.

- E a velocidade do objeto vai aumentando proporcionalmente, não é isso?

- Exato.

- Por isso tenho ficado menos tempo em qualquer época que eu esteja. O salto seguinte me deixou a seis meses depois do casamento. Fiquei quinze dias aqui. Então, de repente, fui no supermercado e voltei com as sacolas de compras dois anos depois.

- Pelo menos você tinha comida.

- Pelo menos... Porque eu já não tinha mais onde morar. Soube da minha mãe?

- Soube. Lamento muito.

- Tudo bem - ele toma mais um gole. - Ainda não deu tempo de sentir. Uma semana depois eu virei uma esquina e estou aqui.

Renata respira fundo.

- Você me dá um tempo pra pensar?

Ramón arregala os olhos.

- Renata, você ouviu o que eu te disse? A cada salto eu passo menos tempo em tempo real! Isso quer dizer que eu não sei quanto tempo tenho! Da última vez, foram sete dias antes um salto e o último. Já estou no segundo dia. Pode ser amanhã, ou daqui a pouco! Eu não tenho tempo a perder!

- Calma, Ramón - Renata procura medir as palavras da melhor forma possível; não vai ser fácil. - Você está se esquecendo que para mim se passaram seis anos? Seis anos! Como é que você acha que eu me sinto com você aparecendo assim de sopetão, me contando tudo isso, pedindo que eu
acredite e ainda por cima que vá com você?

- Se você se despedir de mim agora, pode ser que a gente nunca mais se veja.

- Isso é uma ameaça, Ramón?

- Não, Renata, eu já disse - ele fala, exasperado. - É uma constatação.

- Onde você está?

- Na casa de um amigo. Você ainda mora no mesmo apartamento?

- Moro.

- Posso te ligar amanhã de manhã?

- Pode.

Os últimos minutos apagaram o fogo de Renata. Tudo o que ela quer agora é ir embora. Chama o garçom, paga a conta e sai apressada. Ramón vai com ela até o ponto de ônibus.

Os quinze minutos que a separam do Humaitá não são suficientes para tantos pensamentos. A surpresa de rever o homem que ela tanto amou só não é maior que o pasmo por tudo o que ele lhe disse. Ela não quer, mas tudo o que lhe vem à cabeça nesse instante é uma notícia que ela soube nos tempos de faculdade, de uma colega cujo noivo era tão ciumento que um dia, após uma briga, tentou estrangulá-la. Ramón nunca teve tanto ciúme assim, mas Renata sabe que ele não é mais o mesmo de antigamente. Ela não custou tanto a superar seu abandono na porta da igreja para acabar como essa colega da faculdade.


O telefone toca às sete da manhã. Sonolenta, Renata se levanta, vai até o corredor e atende.

- Renata? Sou eu, Ramón.

A realidade a desperta na hora.

- Oi, Ramón.

- Podemos nos ver?

- Agora? - sente um frio na barriga.

- É muito importante, Renata.

Ela suspira. - Tudo bem. Onde?

- Estou aqui no Largo dos Leões.

Meu Deus, ela pensa. Ele está obcecado.


- Que bom que você veio - ele diz ao vê-la chegar. Tenta esboçar um sorriso, mas Renata sente a tensão.

- Vamos recapitular uma coisa, Ramón - diz ela, lembrando que nessas horas é melhor não discutir nem discordar. - Se eu for com você, não haverá volta, certo?

- Até onde eu sei, não há.

- E provavelmente vamos para muitos anos no futuro.

- Exato. - Ele morde o lábio inferior, preocupado. - Está com medo?

- Estou.

- Eu também.

Mas ele abre um sorriso de orelha a orelha. Estende a mão para Renata. Ela aceita.

Caminham durante horas, quase em absoluto silêncio.

Descem a Rua Humaitá na direção do Jardim Botânico, percorrem as ruas transversais à Lagoa, esperando que algo aconteça. Ramón consulta sem parar o relógio. Propõe para Renata irem ao Parque Lage, mas ela recusa. O Parque tem estado abandonado ultimamente, e ela não quer ficar sozinha com Ramón.

Compaixão tem limite. E paciência também. Ao final da tarde, voltando ao Humaitá, quem consulta o relógio é Renata.

Maurício já deve estar puto com ela. Eles haviam combinado ir ao cinema e depois a um bar com amigos. Ela quer ajudar Ramón, mas não quer arriscar um segundo noivado por causa dele. - Vamos ter que deixar isso para outro dia - ela diz com suavidade, tentando tranqüilizá-lo.

- Não, Renata, não dá - ele argumenta, a voz cansada porém firme. - Meu prazo está se esgotando. Eu posso ir a qualquer momento.

- Não digo eu - ela diz, soltando a mão dele.

- Como? - pergunta.

- Ramón, não vou ficar pra cima e pra baixo com você todo dia pra tentar provar uma coisa impossível. O que houve com você nesses últimos anos? A quem você está querendo enganar?

- Renata, pelo amor de Deus - ele diz, a voz embargada. - Não desiste. Fica comigo mais um pouco, eu vou te provar tudo.

- Não! - ela quase grita, mas já é o suficiente para chamar a atenção de todo mundo ao redor. Não é muita gente, mas as poucas pessoas que passam pelo Largo dos Leões viram a cabeça para ver o barraco. - Por favor, Ramón, me deixa. Eu estou noiva, e não quero perder esse casamento por sua causa. - Ela sobe pela Alfredo Chaves, confusa, envergonhada, cansada. Ouve os gritos de Ramón, esganiçados, nervosos. Penalizada, ela se vira uma vez para vê-lo.

E quase não há tempo.

No exato instante em que Renata bate os olhos na figura ofegante de Ramón, ela passa imediatamente a crer em tudo o que lhe foi dito pelo noivo fugitivo. Porque é como se o espaço
à frente de Ramón se dobrasse como um origami, se amassasse como uma folha de jornal, e ele fosse sugado para dentro dessa ruptura. Os gritos de Ramón são cortados ao meio, e por um
instante Renata pensa tudo: ele morreu, ele foi seqüestrado por discos voadores, ele realmente foi para o futuro, eu enlouqueci.

Renata não desmaia. Não tem a menor vocação para perder os sentidos em situações-limite. Mas gostaria de ter. Porque ela vai passar os próximos dias sem dormir, e seu sono nunca mais será o mesmo.

1996

O murmúrio no interior da sala de aula já virou um burburinho a essa altura. Renata volta com um copinho de café numa das mãos e um cigarro aceso noutra, o terceiro desde o começo da aula, há vinte minutos. Renata não consegue ficar na sala por muito tempo. Ser a professora não ajuda em nada, pelo contrário; foi preciso muito jogo de cintura ao longo dos anos para poder entrar e sair sem prejudicar a turma nem fazer com que o dono da faculdade ameaçasse demiti-la.

Renata é um feixe de nervos. Não pára quieta com a cabeça um instante: olha para os lados sem parar, como se estivesse à procura de alguma coisa, ou melhor, como se achasse que algo pulará à sua frente a qualquer momento, vindo do nada. Para Renata, o mundo não é mais o que costumava ser.

Ela retorna à sala.

- Vocês leram o texto? - ela pergunta da porta mesmo.

Dos vinte e dois alunos, apenas sete respondem que sim. Olhando o livro de Borges em cima da mesa, ela solta o ar ruidosamente pela boca, mais cansada que desapontada. Quando Renata começou a lecionar, seu entusiasmo era tão grande que ela fazia de tudo para conseguir que os alunos lessem e discutissem o texto. Hoje ela percebe que todo esse esforço foi em vão.

Como tudo em sua vida, aliás. A única coisa que Renata conseguiu completar na vida foi a faculdade de Comunicação. A mulher magra e nervosa que entra ligeira no carro também
não pára quieta em relacionamentos. O segundo noivado não resistiu às crises sucessivas de Renata em janeiro de 1986. Ninguém entendeu por quê, e Renata precisou se refugiar na
casa de uma amiga no interior do estado para que os pais não a internassem num sanatório.

Hoje Renata mora só. Ela e Deus, dizem uns. Mas para ela este último inquilino sumiu há muito tempo.

Ela vira a chave e o motor pega. Do lado de fora, a garoa que cai firme reduz sua visibilidade. Um homem passa apressado por trás do carro. Assustada, ela confere as janelas do carro: todas fechadas. Pisa no acelerador.

E então o rosto do homem se nivela com o vidro do lado do carona.

- Renata, pelo amor de Deus - pede Ramón.

Ela freia. Não tem outra alternativa: seu corpo treme da cabeça aos pés. Não consegue respirar; abre de sopetão a porta do carro e salta. A chuva que cai no seu rosto é a prova de que o que restou de sua sanidade ainda está no lugar.

Ramón corre para Renata. Ela abre os braços. O abraço é como um choque elétrico.

- Meu Deus, meu Deus - ele diz, a cara enterrada no ombro dela. - Como as coisas mudaram!

- Você já sabe... - ela começa.

- Não, não! - ele quase grita na cara dela. Seu rosto dói. - Não me conte nada! Vim direto. - E, como se lembrasse de seguir um manual de etiqueta: - Mas soube dos seus pais. Sinto muito.

- Você está bem? Chegou quando?

- Há duas horas. Foi o tempo de descobrir onde você estava.
-
Você veio direto? - ela pergunta, mas antes da resposta ela olha melhor as roupas dele: são as mesmas daquela tarde no Humaitá há dez anos.

- Renata, eu não agüento mais - ele diz, ameaçando chorar. - Me ajuda, pelo amor de Deus!

Renata chora sem parar. Como se tivesse vivido todos esses últimos anos integralmente, sem parar, Ramón se deixa vencer pelo cansaço. Desaba no chão.

- Me dê a mão, Renata - Ramón implora, a voz num fiapo.

As pernas de Renata tremem. O rapaz sentado no chão ao seu lado subitamente parece mais velho que ela, e Renata aparenta bem mais que os seus trinta e nove anos.

Renata estende a mão.

- Vamos - ela diz baixinho.

?

À primeira vista, nada mudou. O ponto de transição, como Ramón lhe explicou, é o mesmo: o
deslocamento não ocorre no espaço. Para Renata, não ocorreu absolutamente nada.

- O que você sentiu no instante em que sumiu na minha frente? - é a primeira coisa que lhe ocorre dizer.

- Nada - responde Ramón, olhando para os lados. - Num instante você estava lá, olhando para mim assustada, e no outro não estava.

- E o que vamos fazer agora? - pergunta Renata.

- Saber quando estamos - ele responde.

Então Renata também começa a olhar ao seu redor. As cores das casas estão diferentes: estão mais alegres, mais berrantes, mais díspares, como bandeirinhas de Volpi. O futuro parece bom, ela pensa.

Ao descerem a rua, não mudou muita coisa. Um colégio que antes ficava perto da praça agora virou um canteiro de obras; os operários ainda continuam trabalhando da mesma forma, com as mãos e sem equipamento sofisticado de proteção.

De mãos dadas, eles chegam a uma banca de jornais. A banca é maior, maior que os “aquários” de 96; é quase uma drugstore, mas nada que assuste.

Eles entram. Os jornais continuam de papel, e as revistas atulham todo o espaço, agora também com vários notebooks espalhados pela banca, exibindo jornais multimídia.

Renata está fascinada. Tão fascinada que nem percebe o bando que entra logo em seguida e assalta a jornaleira.

Mas o estrondo dos tiros ainda é o mesmo.

Todos gritam e se atiram ao chão. Renata faz o mesmo, e bate com o nariz em alguma coisa metálica. Por um momento sua mente desorientada pensa que foi um tiro, e que ela vai morrer. Mas nada acontece. Os gritos e as pessoas se levantando avisam para Renata que os ladrões já foram embora. A jornaleira diz a um policial alguma coisa sobre refugiados de Ruanda.

E então Renata vê Ramón. Caído no chão, uma mancha de sangue começando a se espalhar pelas costas da blusa branca.

Imóvel.

O último grito é dela.

? + 10

O murmúrio nas ruas já virou um burburinho a esta altura. Nas ruas, as pessoas andam de um lado para o outro, cabeças baixas na chuva. Entre elas, uma mulher anda para um lado, para o outro, em círculos, ziguezague; às vezes corre, às vezes pára. Ninguém mais olha para ela; todos já estão acostumados, ela está aí há anos, não faz mal a ninguém. Às vezes ela fala para o vento, ou solta um grito angustiado, mas o conteúdo é sempre o mesmo: ela chama um nome com o qual há muitos anos ninguém mais é batizado. Vive no passado, coitada, dizem os passantes.

Este texto faz parte da coletânea Interface com o vampiro e outras histórias, que pode ser adquirida gratuitamente aqui.

12.10.08

FC na academia

Acaba de entrar em votação, no site Overmundo, uma resenha minha do livro Volta ao mundo da ficção científica. A obra é uma coletânea de artigos acadêmicos que tratam de vários aspectos da FC produzida no Brasil e em outros países. Abaixo, segue um trecho:

A ficção científica costuma ter uma relação curiosa com público e crítica. Nos países em que o gênero literário conta com uma maior carga de tradição, como os EUA ou a Inglaterra, alguns escritores se tornam fenômeno de venda, mas tamanha popularidade costuma gerar desconfiança entre os críticos. Por outro lado, existem países em que a literatura, falemos na de gênero ou não, desconhece o que seja atingir uma massa de leitores. Nem é preciso dizer que este é o caso do Brasil. Por aqui, mesmo sem fazer valer o adjetivo de “popular”, com livros nacionais ou mesmo traduções de material estrangeiro raramente chegando à casa dos milhares de exemplares, a FC é relegada a segundo, terceiro ou último plano pela crítica. Todavia, se a interação com público e crítica não tem sido das mais profícuas, há um terceiro território em que os textos fictícios sobre especulações científicas recebem cada vez mais atenção: o ambiente universitário.

Pode não chegar a ser um avanço que inspire otimismo, mas não deixa de ser uma evolução o que vem ocorrendo. Entre 1967 e 1987, foram publicadas seis obras nacionais dispostas a analisar o tema. Meia dúzia de títulos em duas décadas. Nos anos 2000, mais exatamente de 2002 a 2006, já havia se conseguido igualar aquele número. Em 2007, um sétimo livro foi lançado, o mesmo de onde foram retirados os dados para este parágrafo, e com isso se renova a esperança de que a FC possa entrar cada vez mais na agenda do público, da crítica e da academia. Volta ao mundo da ficção científica presta uma contribuição e tanto neste sentido ao abrir espaço para discutir, sob vários ângulos, este gênero da literatura fantástica, irmão mais novo da fantasia e do terror.

De início, o interesse da dupla de organizadores, Edgar Nolasco e Rodolfo Londero, era se restringir a estudos sobre a produção brasileira. Com o tempo de elaboração, o escopo do livro lançado pela editora da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul (UFMS) se ampliou: dos nove artigos, dois terços realmente tratam de temas locais; o restante traz visões de brasileiros a respeito de obras e de autores de outros países. Uma outra contribuição, muito bem-vinda, foi a inclusão de um conto inédito na coletânea.


Durante 48 horas, O texto aguarda o recebimento do número de votos necessários para entrar definitivamente no site. Conto com o voto de leitores e colaboradores do TerrorCon. Independentemente do resultado, mais tarde o artigo será postado no blog ao lado, o Ponto de Convergência.

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