30.8.08

Vingança

Uma amostra do que os Terroristas fazem com quem falha com eles por Romeu Martins

– O que tu quer mesmo é costurar calcinha e sutiã pro resto da tua vida.

O casal discute no fim de tarde, sentando um de frente para o outro, em uma das mesas externas do restaurante, no centro de Porto Alegre. É a mulher, muito gorda, quem fala alto, agita os braços e quase derruba os copos de bebida – vinho para ela, água mineral sem gás para ele. O marido, esquálido, tenta acalmá-la, respondendo em voz baixa e olhando para baixo, como se fosse achar uma porta para se esconder no prato de comida sem sal, gordura, cor ou graça que está à sua espera, esfriando.

– Você sabe que não é tão simples assim, querida...

– Como não? Como não? Finalmente aparece uma oportunidade de ganhar dinheiro com essas tuas pesquisas e o que tu faz? Joga fora, fica com medo, banca o fresco. Ah, se eu tivesse ouvido minha mãe! – Ela enche e toma de uma vez a taça de vinho tinto, não sem fazer uma careta com o gosto amargo da bebida, balançando a papada e o queixo duplo. Abocanha em seguida um pedaço farto da picanha ao sal mal passada que estava no garfo que ela gira com força cada vez que fala.

– Mas eu não tomei a decisão do nada. Era muito arriscado aceitar aquela proposta – o coitado remexe a salada no prato sem criar coragem para levar nenhuma porção à boca.

– Cagão, é isso o que tu és. Frouxo barbaridade. Uma chance como essa só aparece uma vez na vida, uma empresa oferecer tanto dinheiro por uma ideia tua. Logo de quem? De um cagão feito tu.

– Aí é que está, era muito dinheiro e vindo de uma empresa que eu nunca tinha ouvido falar. Sabe-se lá de onde eles ficaram sabendo da minha pesquisa, ainda está tudo na fase confidencial. Por isso eu pedi pro meu primo da Brigada Militar...

– Outro inútil, como todos os homens da tua família! – A mulher grita com tanta ênfase que um pedaço de carne é cuspido no prato do marido. – Sorte na vida teve minha irmã, que mesmo sem merecer, arrumou um marido que sabe ganhar dinheiro e garantir uma vida de novela pra ela, aquela vaca.

– ...por isso eu pedi a ele para puxar a ficha da tal de Tecidos Colômbia que estava tão disposta a investir dinheiro no meu projeto de pesquisa. E ele descobriu que o negócio era uma subsidiária da TransCiência, aquela multinacional que teve um laboratório atacado e destruído no oeste do Paraná por um grupo de sem-terra, em julho, acusada de estar metida, clandestinamente, na criação de armas biológicas. E não era só isso: os caras da Tecidos Colômbia tinham envolvimento com os antigos chefões do Cartel de Cali e com a Farc. Devia ser tudo uma fachada fantasma para lavar dinheiro ou coisa parecida.

– E o que isso importa? O que eles iriam fazer com aquele teu maldito tecido antifedor? Meias pro chulé de guerrilheiro da selva? Calcinha pras vadias das amantes dos narcotraficantes milionários? Pra que merda eles podiam usar aquela tralha que tu deixa espalhada em nosso apartamento?

– Ora, o que um bando de traficantes poderia querer com meu projeto? Com um tecido inteligente, dotado de nanotecnologia de partículas e filtragem tripla em gel que isola qualquer tipo de odor? – ele engole um copo de água, com a mão um tanto trêmula, antes de continuar a falar. – Imagine algo assim sendo usado para revestir os recipientes onde eles transportam drogas... Com uma camada do tecido tratado pelo meu método, um container carregado de cocaína, ou algum outro produto qualquer, passaria pelos cães farejadores sem despertar suspeita. Nem mesmo sensores químicos seriam capazes de captar partículas odoríficas numa situação dessas. O cheiro do material contrabandeado ficaria isolado do mundo exterior, encapsulado em gotas gel que não interagem com as outras moléculas presentes no ar – sentindo um desconforto real pressionando sua garganta, inconscientemente o homem passa o dedo pelo pescoço para afrouxar uma gravata que na verdade nem está usando. – Desconfiei que essa fosse a intenção deles pela atitude das pessoas que vieram negociar comigo na faculdade. Exigiam comprar a tecnologia sem me deixar patentear nada, sem que eu pudesse terminar minha tese de doutoramento, nem fazer um relatório descritivo que fosse.

– Papelada, papelada! O que interessa é que eles iam pagar muito bem e na hora! Muito mais dinheiro que tu e a merda do teu laboratório na faculdade vão receber pela invenção, se é que a burocracia da reitoria e daquela fundação de pesquisa picareta vai deixar sobrar alguma coisa, depois de tantos semestres de trabalho extra e de todos esses relatórios, teses e dissertações... Contigo perdendo tempo e só preocupado com aquela bosta de currículo Prates...

– É Lattes, amor.

– ...e com isso, teu salário vai continuar mal dando pra pagar nosso aluguel ou pra comprar alguma coisa melhor que este vinho vagabundo. Olha só o frisante que tão bebendo naquela mesa ali, aquilo sim é uma bebida de gente rica, não esse suco de uva nojento... Por falar nisso, garçom, traz mais uma garrafa desta porcaria. E mais uma porção de picanha que essa já esfriou.

O que o inventor não tem coragem de confessar é o medo que sente das repercussões de seu ato. O convívio com sua esposa foi o suficiente para torná-lo, ao longo dos anos, mesmo sendo uma pessoa naturalmente despreocupada em relação a bens naturais, seus ou dos outros, um PhD em inveja. Ele bem sabe que, muitas vezes, quando gente muito poderosa é contrariada e não pode ter por bem algo que queira muito, o passo seguinte é se assegurar que ninguém mais possua o objeto de desejo. No momento, esta possibilidade é a única coisa que ele teme mais do que a reação negativa da mulher à sua frente.

Quanto a ela, enquanto agitava o braço flácido, segurando a garrafa quase vazia, bateu o olho no marido, cabisbaixo. De repente, pareceu notar algo que não tinha visto antes e que teve a capacidade de deixá-la ainda mais possessa.

– Peraí, que merda é essa aí, no teu peito? Uma mancha vermelha de... batom?! Tu tens a coragem de vir se encontrar comigo com a camisa manchada por alguma estagiária vagabundinha da tua universidade? – A mulher, para total espanto do marido, se levanta da cadeira onde estava sentada e avança sobre ele por cima da mesa, enfiando uma das mãos sobre o prato do qual ele vinha tentando comer. – Ué? Pra onde foi aquela mancha? Sumiu?

Não, não sumiu. O ponto de luz vermelha que antes estava pairando na camisa do homem foi parar nas costas largas de sua esposa. Para ser preciso, no exato local onde uma bala vinda de trás e de cima penetra, rasgando blusa, camisa, pele, músculos, camadas de gordura, órgãos internos e, por fim, se aloja em uma costela, quando se fragmenta em múltiplos pedaços. A vítima alvejada desaba seus mais de cento e vinte quilos sobre a mesa, derrubando o pesquisador e respingando de sangue tudo à sua volta.

Começa uma correria após não mais que alguns segundos de hesitação. Os fregueses que lotavam o restaurante porto-alegrense gritam e procuram abrigo em um arrastão pela rua, em direção ao interior de lojas, farmácias e qualquer local que parece oferecer alguma proteção contra o que quer que tenha ocorrido com aquela mulher.




Em um prédio do outro lado da rua, mais exatamente em uma sala no último andar, aquela agitação toda causa desespero no homem que observava tudo através de uma mira telescópica.
– Merda, merda, merda! Tô fodido.

Ele ainda segura o fuzil, apoiado em um tripé, de onde partiu a bala que provocou aquela confusão seis andares abaixo. De seu ponto de observação, afastado o suficiente da janela para que o cano da arma não apareça do lado de fora, o atirador tenta em vão voltar a mirar em seu alvo original. Só que diversos obstáculos o impedem: primeiro o corpo esburacado da mulher. Depois a toalha e a mesa que o casal ocupava. Em seguida diversas pessoas que correm a esmo, por todas as direções.

Ao final de menos de um minuto, já não havia sinal do homem que se recusara a vender sua invenção.

Algumas pegadas sujas com sangue indicavam o lado para onde ele teria ido, mas elas logo se perdiam em um mar de cabeças aparentemente iguais. Mais uns segundos, e a rua estava esvaziada, com a exceção de um corpo desarticulado que espalha uma poça vermelha a seu redor, misturado ao vinho, igualmente vermelho, que escapa entre estilhaços de vidro.

A única coisa que passa pela cabeça do assassino é a necessidade de fugir. A rota de fuga, preparada com antecedência, era só para evitar o contato com as autoridades policiais que inevitavelmente estavam sendo acionadas naquele exato instante. Mas agora, uma vez que falhara na sua missão, ele tinha consciência de algo terrível: teria que escapar de perseguidores muito mais eficientes que qualquer força policial do mundo.

O celular toca. O aparelho que o homem recebeu com ordens expressas de sempre atender, sem se importar o que estivesse fazendo no momento da chamada. Condicionado a obedecer sempre, ele saca o telefone, porém o bom senso faz com que pare para pensar antes de pressionar a tecla verde. Será que é melhor ignorar o chamado ou ele deve ouvir o que seus contratantes têm a dizer para ganhar tempo?

Um, dois, três toques. Com a mão trêmula e o nariz fungando, ele decide encarar o dever. Nem precisa olhar o visor para saber quem está do outro lado daquela linha exclusiva.

– Sim, senhor, senhor Capitão Barbosa.

– Então quer dizer que o senhor Primeiro-Lugar-na-Academia-Militar-das-Agulhas-Negras errou o disparo?

De algum modo eles já sabiam, claro. Sempre sabiam de tudo. Estavam observando cada movimento daquela missão, de algum lugar desconhecido. Estavam de olho nele.

– Nem sei o que dizer, senhor. Eu tinha o contrato na mira, senhor, mas a interlocutora dele se pôs na frente da trajetória da bala no momento em que apertei o...

– Silêncio! O que importa é o resultado, não suas desculpas. Em nosso ramo de atividade não podemos nos dar ao luxo de cometer erros. Pelo visto, serei obrigado a recrutar um novo especialista em tiros a distância.

– Senhor, se me permitir...

– Imagino que agora esteja planejando sua fuga, não é mesmo? Já desmontou a arma e guardou na maleta?

– Agora, mesmo, enquanto falo com o senhor – ele de fato faz algum malabarismo, manuseando com destreza o equipamento, dobrando, desatarraxando e desencaixando as várias partes do fuzil ao mesmo tempo em que segura o celular com o queixo e o ombro.

– Muito bem, e o senhor estaria interessado em uma segunda chance, uma nova oportunidade de reparar seu erro e voltar a ser uma figura de confiança de nossa organização, posso supor?

– É tudo o que mais quero, senhor Capitão Barbosa – agora o fuzileiro volta a segurar o telefone com a mão direita, e enxuga a testa suada com o dorso da esquerda, a maleta com o fuzil desmontado descansa em seus pés, já fechada e pronta para a partida – Basta o senhor dizer que farei o que for preciso para recuperar o respeito do grupo.

– Você tem sorte. Estou me sentindo particularmente compreensivo e generoso esta noite. Então ouça bem, escute com atenção, pois só vou falar uma única vez o que você deve fazer para merecer esta nova chance.

– O senhor tem toda minha atenção, Capitão Barbosa – o homem dá um sorriso, finalmente, menos tenso, e contente por ter atendido aquele telefonema, afinal de contas.

Acontece que o som que se escuta em seguida naquela sala não é o da voz de ninguém. Apenas o estalido seco e abafado de uma explosão que parte do celular e arranca três dedos da mão direita e um pedaço equivalente a meia laranja do topo da cabeça do atirador solitário. Nem bem o corpo do homem desmorona no chão, feito um edifício implodido, um segundo ruído surge naquele ambiente. Parece o chiado de uma lata de cerveja sendo aberta, mas que fica cada vez mais alto, mais intenso. Desta vez, a detonação ocorre na maleta, na forma de faíscas do tamanho de fogos de artifício, e é imediatamente seguida de um princípio de incêndio.

Logo as chamas de um branco químico consomem tudo na sala apertada. O corpo caído no chão, os restos do aparelho celular e da maleta de espuma preta, o tapete, as cortinas, os móveis de plástico e de madeira. Até mesmo o fuzil de metal deforma-se diante de tanto calor. Quando as sirenes da Brigada Militar e do Corpo de Bombeiros abrem espaço nas ruas, já não há mais muitos sinais que possam identificar o ocupante daquele cômodo, muito menos a serviço de quem ele estava. Apenas a fumaça espessa que leva para o lado de fora o cheiro de napalm ao anoitecer.

4 comentários:

Helena disse...

Nossa, Romeu, um conto fortíssimo e bem atual. Gostei também do humor cruel e dos personagens - a mulher gorda dominadora, o cientista esquálido, o atirador e o napalm final hehe

Que invenção legal esta sua - um tecido anti-fedor - o cara iria ficar milionário... hehe

beijão,

merrel

Romeu Martins disse...

Bem que eu gostaria de inventar o tal tecido, mesmo... Daria uma bela grana, hehe.

Brigado por comentar minha piada cruel, merrel (urgh, rima involuntária)

beijão

milahashi disse...

Way to go, Romeu! Muito bom do princípio ao fim.

Romeu Martins disse...

Brigado, Ludi

Ibope