14.6.08

Mais um homem invisível

Um novo crossover Intempol/TC por Ludimila Hashimoto

Visualize uma floresta. É enorme. Antiga, com mais de 100 milhões de anos. A multidão de árvores lembra torres majestosas percorridas pela seiva incessante. A fauna é rica, a flora se diversifica entre rios, matas alagadas e vasta terra firme.

Agora acrescente os homens e suas atividades econômicas. E os homens que temem o avanço irrefreável dessas atividades.

E não se preocupe em adicionar mitos, controvérsias e disputas internacionais. Eles se proliferam espontaneamente, mesmo quando o solo não é tão fértil.



No escritório da organização não-governamental, o movimento de transações comerciais era mais intenso que nos outros dias do mês, em que a atividade era mais discreta. Era dia de despachar um carregamento especial. Nada de madeira, minérios ou plantas medicinais. A carga a ser transportada era basicamente humana.

O assessor para assuntos estratégicos da ONG aguardava contato por celular no jardim da sede. A organização com projetos de utilização sustentável dos recursos da floresta era uma boa fachada para um projeto mais arriscado.

O grosso do trabalho incluía o envio de informações para o futuro, que auxiliariam a reprodução minuciosa, questão de uns cem anos depois, da floresta tropical.

Os assuntos mais importantes nunca eram discutidos por telefone fixo. Essa medida deveria servir para tranqüilizá-lo, mas a sensação de estar sendo monitorado o perseguia desde a noite anterior.

– Quem já não passou por isso – pensou, não em voz alta, mas com movimento labial. Desconfiar de uma mala esquecida no carro por um carona ou de um varredor de rua com um uniforme que não lhe cai nada bem.

O melhor a fazer era se concentrar na missão. Sentir que uma centena de anos no futuro estavam ao seu alcance e que seu trabalho de pesquisador era infinitamente mais valorizado em Marte terraformada que numa floresta cobiçada por muitos, superestimada por outros e vítima de jogos de interesse mesquinhos.

A paranóia foi desaparecendo à medida que ele pensava nas belas florestas do planeta já não mais vermelho, no seu laboratório bem equipado e no ótimo tratamento que recebia lá de pessoas cuja nacionalidade não era fator crucial das relações.

Tranqüilo, esqueceu em que bolso estava o celular que tocaria para marcar o encontro dos outros pesquisadores com a poderosa maquininha portátil.

Nesse momento de esquecimento reconfortante, o pesquisador sentado no jardim da sede da ONG – que, entre outras coisas, calculava o tempo entre o desaparecimento da Amazônia e a chegada das suas réplicas em Marte – levou um susto que disparou o batimento cardíaco a níveis insuportáveis.

Tiros. Dentro do escritório. Ele pensou em se esconder no jardim, mas mais parecia uma estátua.

Ele sabia. Os agentes da Intempol chegariam a ele em segundos.

Foi o que aconteceu. Em pouco tempo, o pesquisador simplesmente deixou de existir.

De um modo muito diferente dos outros funcionários lá dentro do escritório, que perderam sangue e não entenderam nada. Ele entendeu. E deveria ter ouvido a intuição.

Na madrugada anterior, a intuição lhe dizia para tomar cuidado, a razão dizia que a polícia do tempo não poderia ser tão eficiente. Especialmente quando se tratava de viajar para o futuro, coisa em que a empresa não se sentia tão à vontade.


Por isso aceitara embarcar no projeto “Amazônia: Espaço Multiplamente Conectado”.


Os cientistas e pesquisadores envolvidos até acharam que o nome do projeto revelaria uma juventude nerd radical, mas não ligaram, o mundo finalmente se ajoelharia diante deles com gratidão. No caso, pela tão sonhada salvação definitiva da floresta.


A abertura da ONG “Amazônia Conectada” no município de Jutaí facilitou o acesso dos pesquisadores clandestinos a dados sobre o bioma, o avanço do desmatamento e as possibilidades de clonagem ecológica.


Simultaneamente ao trabalho fora da Terra e fora do tempo, os poucos funcionários da ONG que não sabiam de nada calculavam burocraticamente o tempo estimado para que os ousados viajantes fossem perfeitamente bem-sucedidos. Não sabiam por que estavam calculando, mas calculavam mesmo assim. Por amor à estatística, talvez. E não desconfiavam que sua vida corria risco por isso.


Sua ignorância estava quase em pé de igualdade com a dos agentes da Intempol que, de tanto correr atrás do passado, tinham menos tempo para agarrar os criminosos no futuro.


Um ranço newtoniano sutil atingia até mesmo o escalão mais alto da empresa. Não suspeitaram que, num caminho inverso ao da maioria, os ex-nerdizinhos acabariam truncando uma linha temporal com o efeito colateral de suas ações bem-intencionadas.


Desconfortáveis com os insetos e o ar puro, os agentes já estavam em posse do celular do pesquisador agora inexistente. O cartão cronal e a máquina registradora furtados estavam bem próximos, chegando junto com o resto do carregamento de heróis inconseqüentes. Enquanto isso, trocavam gentilezas:


– Imbecil, que história é essa de sair atirando?


– Você também atirou.


– Claro. Você me fez de cúmplice com quatro testemunhas.


– Foi mal, tava ansioso. Mas se não fosse eu, não teríamos eliminado o problema tão rápido.


– Rápido? Levamos seis meses.


– Mas eu tive que ler muito pra descobrir o que tava acontecendo por aqui.


Ficou ansioso de tanto estudar?


– Não, é que o futuro me deixa mais apreensivo que o passado – filosofou o agente franco-atirador.


– Só espero que nossos superiores reconheçam que a chacina era inevitável. E o que vão dizer sobre o caso amanhã nos jornais?


– Tudo sob controle. O pessoal do Terrorismo da Conspiração tá em alerta pra escrever a matéria em primeira mão.


– Aposto que vão culpar a polícia, falar em falta de pistas pra a causa do crime...


– Ou isso, ou uma investigação da ONG por uso não-sustentável de recursos da floresta.


– Hum... Amanhã quero entrar no blog daquele menino que escreve esquisito.


– O Fabi On Eves? – perguntou o agente que andava tenso, mas tinha boa memória.


– Hã, com certeza a versão dele vai ser mais complexa e muito mais divertida.

16 comentários:

Daniel Default disse...

QUAQUAQUAQUAQUA!!!
Acho que eu vou escrever a minha versão dessa história... :-)

OBS: Aqui é o Fábio, Romeu! Você não habilitou a opção de quem não está no Blogger (entrei com uma conta antiga)

Romeu Martins disse...

Olá, Fabion :D

Escreve, sim, véio, terei o maior prazer em publicar. Valeu o comentário (e a esportividade)

milahashi disse...

Hum. O Fabion também se divertiu, tá valendo a pena.

Romeu Martins disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Romeu Martins disse...

Oi, Ludi

Valeu mesmo, né?

E ainda bem que já tive a chance de te agradecer o conto de viva voz.

milahashi disse...

Oi, Romeu. Tá melhorando, né. Aos poucos.
E "ainda bem" mesmo.

Romeu Martins disse...

Sem falar que o prazer foi todo meu

Alexandre disse...

Não entendi a versão do Fabi. :D

Romeu Martins disse...

Entender o Fabi, Alexandre, que é capaz de?

milahashi disse...

(sumiu meu comentário?)

Boa, Alexandre! Nem eu, que pus ele lá, entendi.

Romeu Martins disse...

Sumiu comentário seu, Ludi?

Não percebi... o que consta como excluído foi um meu que saiu todo errado (isso que dá, escrever depois de chegar meio de porre em casa :D)

milahashi disse...

talvez não, deve ter sido excesso de sobriedade meu

Romeu Martins disse...

O Ministério da Saúde adverte:

Escesso de sobriedade pode ser prejudicial à saúde :)

Beijão

Romeu Martins disse...

Urgh, escrevi escesso (e desta vez, nem tô bêbado!)

Maranganha disse...

Gostei do Blog. Acredita que estou nas comunidades de Antônio Luiz desde 2006 e nunca vi esses blogs?

Romeu Martins disse...

Hein? Comunidades do Antonio Luiz?

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