30.9.08

Pela Deusa

O evangelho de uma divindade altiva por Maria Helena Bandeira com arte de Gustav Klimt


Eu acreditei em Petrus Amon Teth, o Elevado.

Como todos naquela época.


Enviei discos de propaganda que percorreram o território Valgoo e alimentei com meu leite as simbalas, abatidas para o banquete da vitória. Gastei os próprios pés e mais alguns, adquiridos em Moebius seguindo seus shows e comícios, trançando guirlandas de abelhas, atirando em ziguts inimigos, bebendo sangue ardente nas noites sem luas.


No dia da vitória estava na primeira fila dos barcos, singrando o mar de algodão em direção ao Zenith.


Fui lâmina e lupa, pesadelo e esperança. Eu fui seu tudo e seu nada, seu meio e seu fim.



Vi o exército petroriano esmagar as populações que comerciavam às margens do Estinges e derrubar os muros de Alma e Singhor. Acompanhei os passos da decadência quando fartos de carne e luxúria se amontoaram em carniças nos diques de Alambra.


Cada vez mais gordo e oleoso, os cabelos grudados ao crânio redondo, vi sua imensa boca jamais saciada, seu pênis nunca flácido, a procura de toda a comida humana ou zigota, ardeliana, almíca ou singhata. Vi-o abandonar a luta, se entregar à devassidão e ao ócio.



Então eu decidi agir.


Todas as luas negras, Petrus levantava dos coxins o enorme corpanzil e era carregado até as águas da purificação. Lá, em meio ao fedor do enxofre e ao borbulhante líquido azulado, pedia perdão à Deusa e ofertava nove jovens virgens nuas a Seu serviço.


Eu estaria entre elas. Manobrei para conseguir, subornei, comprei, menti e matei. Virgem não sou, mas me tornei. Em Moebius comprei a peso de ouro um corpo escultural. Conhecia, como ninguém, o gosto de Petrus.


Durante o ritual, trabalhei para que me visse, para que seus olhos contemplassem minha beleza e mocidade. Triunfei.



Vi olhos ávidos me percorrerem, dancei como nunca, como sabia que era preciso. Ele desafiou a Deusa e me chamou para a sua tenda.


A lua negra pesava e relâmpagos cortavam o ar em chamas violetas. Um silêncio mole percorria as flores apagadas ao redor. Soprava um vento de cadáveres.


Entrei na tenda e me curvei. Ele flechou meu corpo, me despiu. De todo jeito o satisfiz, como prostituta cristã, marafona zagaia, cortesã de alambra.


Chafurdava ainda em mim quando o raio de Lilith penetrou a tenda, gelado.


Deu um salto, assustado, gelatina de pavor .


Tarde demais. Nossa Deusa entrou pelos seus olhos, comeu os ouvidos, derrubou o sexo pagão. Quando os outros o encontraram, remoçado e alegre, era Petrus Amon Teth na aparência.


Na verdade era eu.


FIM

16 comentários:

Anônimo disse...

A Mhel não só usa todas as palavras certas, como reinventa as mais inusitadas.
Ainda é estranho pra mulher ter a liberdade de ir mais longe que a superfície normalmente propagada por todos os lados. Pro homem também, imagino.

(tenho um quadro do Klimt que trouxe do Japão. sou fascinada pelo olhar refletido nos seus retratos femininos. free effect?)

(Ludi)

Fábio disse...

Concordo com a Ludi.
Muito, muito bom. Acachapante.

Helena disse...

Obrigada, Ludi,querida, eu gosto mesmo de palavras deslocadas. E dos seus ocmentários hehe

As religiões com perfil masculino têm predominado no mundo mas a ascensão da nova mulher permite supor um ressurgimento da deusa com toda esta liberdade de ir mais longe. Fora que uma vingancinha básica contra tiranos é muito bom hehe

Eu amo o Klimt(free effect mesmo), uso de vez em quando no Ovo. Não tinha reparado no olhar, exceto neste quadro, mas vou até revisitar as imagens que eu tenho

beijão

Helena disse...

Obrigada ,Fabio, putz, acachapante me deixou com o ego quase como a minha personagem hehe

E obrigada ao Romeu que me dá esta visibilidade.

beijão,
merrel

Giseli Ramos disse...

Uau, hein! Admiro muito esses escritores que escrevem contos curtos mas bem autocontidos e com palavras inusitadas, como a Ludi falou.
E concordo que é divertido mesmo fazer uma vingança básica hehehe

Romeu Martins disse...

MHell, você é um das mais constantes e queridas colaboradoras deste blog. Sou eu que me sinto honrado de ter uma das melhres escritoras fantásticas do país me permitindo publicar seus textos aqui.

Obrigado a todos pelos comentários.

Helena disse...

Obrigada, Gi, eu fiquei treinada em escrever mini-contos na Oficina de Escritores onde temos concursos quinzenais há anos deste formato - este é um dos poucos que não foi feito para lá.

E vingancinhas básicas são ótimas hehe

Helena disse...

Romeu,

Nossa estamos gastando a seda toda do inferno hehe. Mas eu é que fico feliz e honrada com o espaço que está me dando.

beijão,

Mhell

Romeu Martins disse...

Não se preocupe, MHell, há bastente seda por esses lados. Gostamos de luxo por aqui ;-)

ronaldo disse...

Esse negócio de se comprar um corpo escultural e virgem é ótimo.
Como sempre, arrasador.
Beijos,
Tom

Nédier disse...

Como Lilith, a Mhel também é uma deusa, destrói mitos com suas palavras certeiras.
"Pela Deusa" é fantástico!
Sua leitura me inspirou, senti que sou capaz de reinventar e reescrever a lenda de minha vida.

Nédier

Rita Maria Felix da Silva disse...

Mhel,

O que mais posso dizer desse conto exceto que é simplesmente perfeito?
Beijos
Rita

Helena disse...

Nedinha,

Você é a própria Lilith, a deusa personificada - reinventa sempre sua vida e admiro isto. Tanques por vir comentar

beijão,

merrel

Helena disse...

Rita,

Foram seus elogios a este conto que me fizeram escolhê-lo para o Romeu. Obrigada pela força sempre

beijão,

Mhel

Romeu Martins disse...

Neste caso, só posso ficar feliz pelo apoio da Rita ao texto da MHell ter incentivado a publicação dele por aqui... Ganhamos todos. :)

Nexus-7 disse...

Cheguei tarde para fazer um elogio ao conto? Mhel, uma pessoa que respeito, Ana Cristina, que indicou os seus textos. O pouco que li gostei, gostei muito, mas as imagens que você evoca neste conto transcendem o convencional e beiram a poesia em seu jeito onírico. Amo uma boa prosa poética, cheia de imagens e jogos de palavras sem pudor ou vergonhas, mas isso é raro. Era raro, devo dizer. Obrigado pelo conto e continue a escrever.

Ibope