25.9.08

Oh... Crianças!

Um conto sobre molecagens no espaço por Rita Maria Felix da Silva


Sholovat Yrkyalum era funcionária da Corporação Malkin, o grupo responsável pela produção de quase metade dos artigos consumidos na Galáxia, desde alimentos sapientes (moda entre os habitantes dos braços espirais galácticos) a implantes oníricos — usados, principalmente, pelos Farinads (“sonhos e pesadelos, a seu gosto!”, dizia a propaganda na OminiRede, vendidos para uma raça que há 1213 gerações perdera a capacidade de sonhar). Sendo telepata, foi colocada no setor encarregado de produzir e monitorar software psíquico inteligente, que compunha a própria base da OmniRede. Era tarefa penosa, mas pagava bem e dava status.


Naquela vez, após cinqüenta e dois turnos seguidos, Sholovat conseguiu uma folga. Transferiu sua mente, que ficava na OmniRede enquanto ela trabalhava, e baixou-a para um dos trinta e dois corpos que utilizava. Escolheu o mais adequado para descansar.

O cansaço atingiu-a impiedosamente e ela adormeceu contra a vontade. Ao despertar, sentia-se revigorada. Como ainda lhe restava três fases-de-tempo antes de voltar ao serviço, decidiu visitar sua casa. Sentia saudades do lar e, acima de tudo, de seus quinhentos e doze filhos. Sholovat jogou sua mente de volta à OmniRede e buscou outro corpo, um que havia deixado preparado em casa. O modo mais prático era esse: pela transferência mental chegou a sua residência quase instantaneamente. Se tivesse de usar uma espaçonave, enfrentaria uma viagem de, pelo menos, uma centena de fases-de-tempo. Numa galáxia dividida em castas, tinha pena das multidões de párias, incapazes de acessar a OmniRede, rejeitados por todos os outros grupos e condenados a viajar apenas fisicamente pelo universo.


Ela morava em Plactos-Zero-X, um dos trinta e dois mundos artificiais orbitando a estrela também artificial de Plondaxos-IX na área mais povoada da Galáxia. Logo, abriu os olhos em sua cama, no cubo de habitação que dividia com os filhos e outras vinte famílias. Era um corpo adorável aquele. Seu favorito. Uma obra-prima da engenharia genética. A sensação de estar nele era quase orgásmica. Se pudesse, passaria a vida toda ali dentro.


Cumprimentou um dos robôs que lhe servia de escravo. Fazia tempo que desistira dos servos orgânicos. Caros, frágeis e desobedientes. Achava uma estupidez a insistência daqueles liberais do Núcleo Galáctico nesse assunto.


Caminhou pela casa e foi até o quarto de Kyrlycrux, seu filho número 419. Seu preferido também. Ansiava muito abraçar aquela criança.



Mas logo, após cruzar a porta do quarto (feita de gelatina sapiente esverdeada, que se encolheu para dentro das paredes, deixando-a passar), pisou em algo mole e cheio de sangue. Muitas daquelas pequenas coisas estavam espalhadas pelo recinto. Contou mais de cinqüenta criaturas, algumas com braços ou pernas arrancados, diversas sem a cabeça e, em várias outras, todas essas partes estavam faltando. E havia muito sangue pelo chão e paredes, aquele sangue avermelhado fedendo a ferro. Um dos seres ainda estava respirando. Sem as pernas e braços e com um olho esmagado, ele gritava naquela língua estranha e incômoda. Numa mistura de pena e raiva, ela o esmagou com um pé.


Foi até Kyrlycrux. Sentou-se na cama e questionou com ternura o filho:


— Meu amor, por que você faz essas coisas com seus brinquedos? São caros, sabia?


A criança olhou para ela, com aqueles olhos grandes, redondos e alaranjados, que Sholovat tanto adorava, e apenas abraçou-a sem saber responder.


Nem a mãe sabia. Conversara com psicólogos, mas ninguém conseguiu explicar porque toda aquela hostilidade de Kyrlycrux. A ausência da mãe, querer chamar atenção... Uma centena de teorias e nenhuma resposta. Num povo pacífico, que abandonara o crime, a violência e as guerras, como era o dela, as atitudes do filho pareciam inexplicáveis.


A babá-robô veio e desculpou-se por ter deixado o pequeno fazer aquela bagunça no quarto. Sholovat vociferou que o autômato mandasse alguém limpar a sujeira. Decidiu que, pela manhã, a babá seria desmontada e vendida para a reciclagem. “O universo é um lugar injusto”, pensou “mesmo escravos robóticos não são perfeitos”.


Continuou abraçada a Kyrlycrux, enquanto cantalorava uma antiga música de ninar. Passou os olhos pelo quarto mais uma vez, para todas aquelas coisinhas nojentas sem braços, pernas ou cabeça.


Ia parar de gastar dinheiro à toa – jurou para si mesma. Nunca mais compraria humanos para Kyrlycrux brincar.


FIM



Dedicado a Davi Mello

23.9.08

Fatalidade

Uma comédia de humor negro por Cristina Lasaitis

O carrilhão deu seis horas da tarde. O encosto da poltrona rangia contra a carcaça do velho Dr. Aristeu Salgado.

– Como assim, Dona Maria?

– Ela me persegue, doutor!

– Quem a persegue?

– Aquela facínora! – A velhinha tinha o vocabulário da novela na ponta da língua. – Aquela que todo mundo têm medo: a moça da foice!

– A “morte”, a senhora quis dizer?

– Essa mesma, doutor!

Era um caso muito curioso. O Dr. Aristeu viu-se subitamente remetido aos seus remotos tempos de Juqueri, quando tinha sob sua responsabilidade toda uma enfermaria de pobres diabos psicóticos. Quantos delírios de perseguição! Os desditados fugiam de Deus e do demônio, do papa e de Elvis Presley, do presidente e da polícia, das vozes e das sombras… Mas alguém perseguido pela morte em pessoa? Essa era novidade!

– Quantos anos a senhora tem, Dona Maria?

– 81, Doutor.

– 81… – Repetiu ele.

O psiquiatra, dois anos mais velho que a paciente, levantou sua múmia da poltrona e foi buscar alguma coisa numa estante arruinada pelos cupins. Os malditos siriris começavam a invadir a cidade àquela hora, e o velho médico foi obrigado a trancar as labaredas de calor do lado de fora do consultório. As tesourinhas e as traças assustaram com o estalo seco da janela e fugiram pela fresta da porta. A sala não tinha ar condicionado, e no ambiente abafado o carpete fedia, fermentando a sujeira acumulada de muitas décadas.

O psiquiatra pegou uma caixinha e voltou para se sentar à mesa.

– Este era um paciente meu. Dona Maria, Zé Miolo. Zé Miolo, Dona Maria. – Ele os apresentou.Era um cérebro em conserva numa caixinha de acrílico com formol, cinzento e feio como uma uva passa mofada; no hemisfério esquerdo, um rombo do tamanho de uma laranja indicava a causa provável da morte.

– Se eu não me engano, o Zé Miolo tinha seus 44 anos quando esta tragédia lhe aconteceu. Praticamente um menino. – Lamentou ele. – Ele viveu alguns meses como um vegetal, hoje é um peso de papel muito bom. Pobre rapaz!

A velhinha apertou a risquinha vermelha que ela tinha por lábios. Que importava a morte do Zé Miolo?

– O que eu quero dizer, Dona Maria, é que na sua idade a senhora já devia saber que também vai morrer. – Ele profetizou com toda a delicadeza que não tinha. – A morte é um privilégio de todos! Diga, o que a senhora acha que tem de tão especial?

Os olhos da velhinha viraram olhões por trás das rodelinhas das lentes bifocais.

– Está desdenhando de mim, doutor! O senhor não está entendendo nada! Pois eu vou lhe contar o que eu tenho passado esses anos todos, tim tim por tim tim!

O Dr. Aristeu se acomodou. Alguma coisa estalou, talvez a poltrona, talvez o esqueleto.

– A primeira coisa que eu me lembro aconteceu quando eu era menina, na década de 30. Foi numa tarde cinzenta com cheiro de tempestade. Quando o aguaceiro desmoronou, minha mãe correu para cobrir os espelhos, meu pai correu para fechar as janelas, e eu escapuli pela lavanderia para buscar a boneca que tinha esquecido no quintal. Lembro que de ter ouvido a porta batendo, papai correndo atrás de mim com a cinta na mão, um estrondo do tamanho do mundo, um clarão, uma explosão, fogo e cheiro de queimado. Quando eu me virei para dar uma olhadela, papai tinha virado churrasquinho! O raio o levou.

– Foi um trauma para a senhora, eu imagino.

– Mas foi só o começo! Alguns anos depois, em 1938, foi a minha irmã Zulmira. Naquela época nós morávamos na Mooca, e mamãe sempre nos levava nas matinês do Cine Oberdan, aquele do Brás. Eu era bem nova, tinha 12 anos, e – o senhor sabe – naquela época as pessoas iam ao cinema de terno e gravata, as mulheres iam de chapéu, luva, bolsa… Eu lembro que nós entramos no cinema, sentamos, o filme começou, mas eu não consegui assistir, doutor. Eu não podia assistir porque a mulher que estava sentada na minha frente usava um chapéu deste tamanho! – Ela sacudiu um metro de vazio com as mãozinhas encarquilhadas. – E eu fiquei com raiva e comecei a desfolhar as flores do chapéu dela. Foi quando mamãe me deu um beliscão, gritando: “Pára, Maria! Você é fogo, menina!” Aí o senhor já viu! Alguém assustou e começou a gritar: “fogo!” E deu naquela correria toda, as pessoas sendo pisoteadas… Um horror! Trinta crianças morreram esmagadas como baratas. Trinta e mais minha irmã Zulmira.

O psiquiatra ficou olhando para ela em silêncio, as duas taturanas grisalhas estremecendo no limiar da testa.

– Bom, e o senhor vai me perguntar: o quê vem depois? Depois eu virei moça, comecei a trabalhar, juntei dinheiro para comprar nossa primeira televisão no Mappin, em vinte e quatro prestações – a mesma TV que matou mamãe alguns anos depois, quando caiu da estante. E eu me casei, doutor. Casei com o meu finado marido em 1950, na Igreja de São Paulo Apóstolo, no Belenzinho. No fim da cerimônia, minha sogra tropeçou na cauda do meu vestido e saiu rolando escadaria abaixo. Na semana seguinte, estávamos todos lá na Igreja de novo, para a missa de sétimo dia da dita cuja. Depois disso não aconteceu nada realmente catastrófico, nada que eu me lembre. Eu tive dois filhos e trabalhei como secretária por muitos anos. E nesses anos as tragédias foram só pequenas tragédias: alguém que morria atropelado logo atrás de mim, alguma pedra que caía da construção e acertava a cabeça de alguém andando ao lado, um carro que batia no poste pelo qual eu acabava de passar; coisas assim…

– E então vieram grandes tragédias?

– Pois é doutor! Eu quero mostrar ao senhor a minha carteira de trabalho.

E ela tirou da sua bolsinha preta com fecho de bolinhas uma carteira azul carcomida pelas traças. O Dr. Aristeu deixou os óculos escorrerem até a ponta do nariz para analisar as folhas amareladas com seus olhinhos opacos de catarata.

– Secretária das Casas Pirani até 1972.

– Avenida São João com a Rua Pedro Américo. – Confirmou a velhinha, sorridente.O nome do prédio estava na ponta da língua, mas o psiquiatra sofria para encontrá-lo em seus arquivos mnemônicos de 83 anos.

– Edifício Andraus. Eu estava lá quando começou o incêndio, doutor. Mas não é tudo, vire a página.

Ele virou.

– E depois trabalhou em um escritório na… na Rua Santo Antônio!

– Edifício Joelma.

As taturanas arquearam em espanto.

– A senhora tem uma biografia notável, Dona Maria!

Ela assentiu com um riso triste.

– Eu não sei que coincidências são essas, doutor, mas é tragédia demais perto de uma pessoa só. Foram dezesseis mortos no Andraus, quase duzentos no Joelma! Eu vi tudo acontecendo muito de perto, e algo me diz que a primeira fagulha, de um jeito ou de outro, partiu de mim. Eu fumava naquela época.

– A senhora se sente culpada?

Uma lágrima intrometida saiu rolando sem pedir licença.

– Ah, doutor… No começo eu achava que o problema era meu, mas chega a ser tão absurdo que hoje eu me sinto a maior vítima de todo esse azar.

Ela limpou a lágrima, fungou, suspirou, assoou o nariz e prosseguiu:

– Depois disso eu resolvi me aposentar, me afastei de tudo: da igreja, das festas da vizinhança, das reuniões de família, deixei de ir ao supermercado, deixei de ir à feira, deixei de sair… Eu me sepultei em casa. Fui uma morta-viva por anos e anos! Mas ela vinha atrás de mim, doutor! Aquela salafrária estava sempre me rondando! Eu não precisava sair de casa para a desgraça acontecer: era a panela de pressão que caía em cima do cachorro, era a vizinha que tropeçava e batia a cabeça no meu portão, uma criança que despencava da árvore e se estatelava na minha calçada, um carro que batia bem em frente à minha casa… Por anos e anos! Até que eu cheguei à conclusão de que não adiantava eu me trancar, ela viria atrás de mim onde eu estivesse.

Zé Miolo e o Dr. Aristeu estavam absorvidos na narrativa. Tanto que o psiquiatra nem se deu conta quando um siriri caiu e ficou grudado no suor de sua careca.

– Até que a vida me deu netos, doutor! E os netos, os netos nos obrigam a viver!

Dona Maria buscou na bolsinha as fotos das crianças e deixou-as orgulhosamente em cima da mesa para que o médico as visse.

– Depois que os meus netos nasceram, eu passei a sair mais do meu esconderijo e ir à casa da minha filha em Osasco para ver as crianças. E o senhor sabe como são essas crianças da cidade, elas querem ir passear no shopping! Pois bem, um dia nós fomos ao shopping na hora do almoço. Pra quê? Aquele estrondo, aquela correria, o susto, o teto caindo… – Ela fez o sinal da cruz. – Acho que o senhor já sabe do que eu estou falando, não é?

– A senhora não vai me dizer que também estava lá!

– Pois é, doutor! Nessa foram mais de 40 pessoas, meu Deus! As crianças ficaram terrivelmente assustadas, mas estão bem, estão bem. Minha filha não entendeu porque eu nunca mais fui visitá-la. Ela deve ter ficado triste de ver a mãe fugindo das visitas de família. Eu só não queria que nada ruim acontecesse aos meus netos.

Zé Miolo deixou escapar uma bolhinha de piedade por ela.

– Mas as coisas pioraram muito depois disso, doutor! Um dia, poucos meses depois do acidente com o shopping, eu me aventurei a sair de casa para ir comprar pão na padaria da esquina. Enquanto eu comprava os meus pãezinhos, ouvi um estrondo horrível! Um estrondo que até me lembrou o raio que matou papai. E quando eu voltei pra casa, eu não tinha mais casa, o sobradinho no Jabaquara em que eu morei durante 45 anos da minha vida não existia mais! Um avião caiu bem em cima dele e matou o meu Alonso e outras cem pessoas!

Nesse ponto ela parou. Uma romaria de lágrimas cedeu sob o nome do marido. O Dr. Aristeu estava compungido, tão penalizado que sentiu amolecer aquela coisinha palpitante ligada ao marca-passo. Inadvertidamente, o doutor rabugento revelou-se um velhinho babão, e esboçou um gesto inédito nos seus 60 anos de psiquiatria: segurou a mão da paciente! Dona Maria se emocionou com a gentileza e sorriu para o médico, tímida.

– Eu fui vivendo, como o senhor vê. Todas essas tragédias passaram por mim como uma tempestade, levando centenas de pessoas embora, sem me deixar um único arranhão! Às vezes eu acho que essa malfeitora da foice gosta de brincar comigo, doutor. Eu arrumei outra casinha, bem pequenininha, e nela eu me escondo do mundo tentando evitar outros estragos. A gente chega numa idade que ninguém mais liga pra gente; a família esquece, a sociedade ignora, a gente fica invisível e nem o atendente do INSS enxerga. Eu tinha esperanças de que aquela destrambelhada fosse me esquecer também, mas parece que ela não quer deixar essa velha em paz! Há algumas semanas atrás minha filha foi me levar para fazer uns exames lá na zona oeste. Da janela da clínica nós vimos as ambulâncias chegando, os bombeiros, a polícia, a multidão… Uma cratera gigante apareceu no lugar onde eu tinha passado quinze minutos antes e tragou as pessoas que andavam na rua! Foi triste, doutor.

A velhinha estava cabisbaixa, sua mãozinha encrespada apertando a mão fria do médico. Zé Miolo apreciava a cena, comovido.

– Por isso eu me chamo Maria das Cruzes, e vou carregando a cruz até que a cruz me carregue. Eu não entendo que sorte é essa que a vida me deu, mas com certeza não é sorte alguma, é um tremendo de um azar, uma maldição! Eu sei que aquela desgraçada vai me pegar um dia, eu não tenho delírios de imortalidade como o senhor pensou. Eu estou bem lúcida! Ela vai me pegar e eu até torço para que seja logo, porque dói muito no coração ver essas catástrofes acontecendo debaixo do meu nariz, ver as pessoas sofrendo, e saber que é essa minha sorte infeliz desgraçando tudo! Nesses 81 anos eu nunca contei minha história a ninguém, nem ao padre da paróquia, só ao senhor, doutor. Eu sei que estou no fim, sei que não vou muito longe, mas até que a maledeta me encontre ela vai continuar aprontando das suas! Por isso, enquanto o Alzheimer não vem, tudo o que eu queria do senhor é um remedinho que me ajudasse a esquecer. É estranho, quando a gente fica velho tem medo de perder a memória, ficar gagá, e essa velha vem aqui pedir justamente pra ficar desmemoriada! Mas entenda que eu só quero um pouquinho de sossego no fim da vida. Então, se o senhor puder, por obséquio, me receitar um remedinho pra dormir em paz, doutor… doutor?…….. doutor?……………………………..



Este texto foi originalmente publicado no site Novas Visões de São Paulo.

17.9.08

Sombras

Uma narrativa sombria escrita por Maria Helena Bandeira com arte de Leonor Fini

Antes que eu me esqueça de tudo, vou digitando este documento.

Fui um dos primeiros candidatos ao programa de implante de memórias para pacientes de Alzheimer Minor .

Como todos os outros, perdi meu passado e vivo um eterno estar aqui, o que me torna um ser onipotente e solitário. Esqueço todos os que se aproximam de mim no momento em que somem de minha presença e sei que existem apenas por causa do meu implante, ao qual agreguei este aspecto importantíssimo.

Pessoas me dão comida, pois não saberei o que fazer ao sentir fome, na verdade nem conhecerei o que é fome em termos abstratos, apenas a sentirei, como qualquer necessidade fisiológica, quando se corromperem as memórias implantadas. A única coisa que os Minor mantém e os distingue é a capacidade de ler e escrever. Porque acontece este fenômeno, que região do cérebro permanece intacta é algo para os pesquisadores – sei apenas que é assim. Vejo, ouço, digito e leio - estas capacidades não perdi.. Mas como não tenho lembranças originais, de nada adiantará sem o implante. Por isto me candidatei assim que soube da abertura do programa e do meu diagnóstico irreversível.

Roubei, subornei, gastei quase tudo que tinha para recapturar e implantar minhas próprias memórias e algumas alheias.

Consegui ser o primeiro candidato. Misturei acontecidos e desejados, criei um passado que me satisfaz. Já que pude escolher a doença, fui o meu próprio Deus neste resgate.

E te revejo, linda, em Paris, tomando chá enquanto chove - há gotas nos vidros das janelas ...

...e já não sei o que vivi e o que comprei... mas na memória implantada eu te amo, talvez tenha te amado sempre, não importa.

O implante não é confiável, sinto que as lembranças estão se corrompendo... confundo datas, lugares.. foi em Veneza que nos encontramos? Chovia em Londres naquele verão? Ou foi Paris? revejo sua boca, cada vez menos nítida, olhos misteriosos de marzipan... o que é marzipan? Lembro da frase, mas não do rosto ou dos motivos.


Meu terror é voltar a viver apenas nesta clínica onde estou encerrado. Eu e o micro que me deram para relatar as sensações e experiências - sou uma cobaia humana.

Memórias são minha única viagem - por elas saio daqui... mas cada vez mais me distancio das lembranças. Vivo um eterno presente sem sombras... fui implantado ou inventei?

Releio o que escrevi - Veneza?... Olhos de marzipan?... Chuva em Paris?.. implante.. não sei mais o que significam..... tudo parece absurdo, confuso...

Estranho texto... quem terá escrito? Às vezes penso que existem outros como eu em algum lugar, mas é uma impressão fugidia. Meu mundo é aqui e neste micro onde leio coisas que não compreendo.

... Vivo um eterno presente sem sombras.... Gosto desta frase. Mas, por algum motivo que não consigo recapturar, parece triste.

E repito: você, na chuva, em Paris, para me consolar. Embora não tenha a menor noção do significado.
Há vidros em Veneza no verão...


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É foda existir

Uma ficção fantástica sobre o amor por Camila Fernandes


Existir é isso: beber-se a si próprio sem sede.
A Idade da Razão
- Jean-Paul Sartre

Eu soube quando te vi passar, séria como um genocídio, no seu casaco preto e saia curta demais. Soube por seus cabelos cortados com tesoura cega, sua palidez enferma, sua beleza tristonha, seus olhos que ainda sonhavam apesar da vida. Sonhavam? Engano meu: habitavam pesadelos, e não tinham medo de nenhum.

Eu soube. Do quê? Você sabe. Acredita em amor à primeira vista, esse consolo dos medíocres solitários? Nem eu. Mas os olhares se cruzaram mesmo assim, e você sorriu amarga como se também soubesse – também sabia – que só podia ser fatal.

Nós.

Não demorou nada, uns dias, quantos? Nem sei, te chamei, você pegou na minha mão, te pedi um beijo, me levou pra cama. E falou quase sem voz: me faz mulher. Louca, com quê? Com o dedo e o desejo.

E com a mão me conduziu num caminho novo, coxas adentro, lábios por todos os lados, te fiz mulher e fui sua mulher, brega e desvairada. Virgem, você? Percebi com o gosto de sangue que ficou nos meus dedos. Você sentiu dor, eu sei, mas não me deixou parar, nem eu quis. Um estupro consentido que rasgou seu corpo e minha alma. Eu era sua e chorei por isso.

Você é tão linda que dói, falei, e você, sem me olhar, respondeu: menina, é foda existir.

Escreveu esse mantra no meu ventre, como um berço para o umbigo. Eu, o mesmo na folha branca da sua coxa esquerda. Tatuamos no dia seguinte. Ficou horrível, não ficou?

Ouvi demais isso de você, ouvi demais também da minha própria boca, eu, seu papagaio humano, a repetir seu estilo de vida. Aprendi de você a ser quem sou, a ser melhor quem eu já era: seu reflexo. Você, meu espelho no teto, imagem de mim mesma eternamente em repouso na cama que também era eu. Nós.

Nas festas – e como era absurdo estarmos em festas –, julgavam-nos irmãs, e era perverso confirmarmos isso. Perversas, sim, por que não? É só mais uma palavra feia. Em casa, ninguém sabia, e era gostoso não dizer. Proibição é fermento para o desejo, segredo é calda de chocolate, torna doce e molhado o que já é delicioso. Vez por outra havia brigas, eu mentia só para te ver frágil, você me deixava só para ser forte. Eu tinha outras. Outros. Mas continuava sendo sua, de coração eu era sua, e você sabia, chorava só para me enlouquecer, já estando louca. Você me arranhou, me disse não volto mais, nunca mais, foi triste e engraçada. Mas voltou, porque quando eu chamava você só sabia voltar. Recua-avança, estapeia-beija. Nosso caso era um tango. Nossa loucura, um meio de vida.

Mas eu te amava, e se para ser sua eu não podia ser de outros, que fazer? Jurei fidelidade, parei mesmo, fiquei séria. Mesmo assim você jurou vingança. Contou tudo em casa e achou lindo ser tão corajosa e gostar de confusão. Ninguém concordou. Não os olhos decepcionados da sua mãe, ó coitada, aquela vai morrer sonhando com netos, não vai?, dizíamos. Nem os berros do meu pai, para fazer isso com sua família, sua sem-vergonha, era melhor não ter nascido, ele falava. E o engraçado, menina, é que eles ainda não tinham visto nada.

Mas de que importava a família, se encontráramos numa esquina do bairro aquilo que boa parte de toda a gente roda o mundo a procurar e passa a vida sem ter visto – amor?

E se você me amava como ninguém antes e eu te amava como ninguém nunca, e se éramos perfeição nos olhos uma da outra, e se ninguém duvidava que éramos doidas de matar ou morrer por isso – por que éramos infelizes? Por que não uma vida menos egoísta, eu te perguntava, por que não salvar as baleias ou servir sopa aos pobres? Por que viver só para nós e não um pouquinho para os outros? Por que não buscar alegria lá fora?

Menina, isso tudo é tão prosaico, você decretava. Eu te amo, e o amor é egoísta, só dá quando quer de volta, só cuida para possuir, só possui para não dar aos outros. Não querer mais que bem querer é balela de poeta, e ninguém sabe menos de amor do que os poetas. Egoísta, eu sou, tu és, ele é, o amor. Os outros? Também. Para que toda essa luta se amanhã vamos embora? Foda-se o jardim, vamos sapatear nas flores.

Só na sua boca impiedosa algo tão errado podia ser tão certo. Mas talvez nos falte propósito, eu te dizia. E você, entre beijos e cigarros, baforava: ninguém tem propósito, nem nunca terá. Enquanto os outros procuram, nós trepamos.

Não me envergonho de dizer que você reinava na minha terra. Deveria? O amor é assim, egoísta ou como seja, põe um demônio no nosso trono, nos obriga a adorá-lo e nos escraviza ao prazer e ao desprazer. Fez da sua tristeza as minhas lágrimas, da sua desgraça o meu ódio, do seu riso, ah, tão pouco riso, a minha delícia. Você me domou. Não te culpo. Eu disse, e já sabia, o amor é isso, e nós o quisemos. Éramos infelizes porque assim decidíramos. Declináramos a ilusão pelo direito de ter culpa, de viver no erro, no pecado, talvez, segundo uns, no prazer, segundo outros, para quem a tristeza é apenas a ausência do prazer e a alegria, a sua presença constante. Hedonistas? Não, não éramos. Incapacidade natural, talvez. Achávamos foda existir – e isso nos dava um gozo descomunal, doente, orgástico, como se, detentoras de uma verdade só nossa, olhássemos para os outros de cima de um prédio e apontássemos quem iria morrer.

Quem vai morrer hoje?, eu brincava lá de cima, até que um dia te fiz chorar. Já não suportávamos... o quê? Uma à outra. Não. A vida? É provável. O mundo era feio e nós, sem vontade de mudá-lo. Nossas famílias nos odiavam e nosso amor era sujo, egocêntrico, fadado aos êxtases amargos, noites sem sono, dias sem sentido. Viver pra quê?, você perguntou um dia, e eu tive medo de verdade pela primeira vez. Não vá me deixar, falei. Eu te mato, entendeu? E você sorriu para mim, flor, menina, patricinha rebelde, você sorriu e me disse: sim, por favor.

Não! Por que não? Porque a gente se ama. E de que vale isso? Eu não tive resposta.

A vida é uma coisa besta, você me revelou. A nossa, principalmente. A gente sempre soube e nunca fez nada pra mudar. Mas por que agora? Eu quero sair, amor, quero sair daqui, no mundo, da vida, disso, de você, até. Não! Então vem comigo.

E eu fui.

Se a vida era uma bobagem, ao menos a morte tinha de ser um evento sofisticado. Questão de estilo, você não podia morrer como viveu, apagada e sem propósito. A morte tinha de ser grande, bonita, solene. Um imenso alívio, sem dor nem convulsões nem caretas nem sangue. Por isso, pílulas e algo bem forte pra beber antes de ir. Pílulas para dormir e nunca mais acordar.

No meu quarto ou no seu? Sua cama é maior. Conhaque e comprimidos, um brinde a nós, querida. Durma. Pus minha mão na sua e meu olhar no seu até perder o foco, devagar, suave... não lembro se sorria. Terminava nossa história com o fim que escolhemos, não o que os outros queriam, e assim tinha que ser. Bons sonhos.

Só que eles vieram. Claro que não vimos. Mas eles derrubaram a porta, já sabiam, não sei como, você por acaso deixou um bilhete, tonta? Arrombaram a porta, roubaram depressa nossos corpos da cama, eu e você em macas rumo ao pronto-socorro. Lavagem estomacal? Quem sabe o que fizeram. O que sei é que arruinaram nosso momento. Era para sermos apenas nós duas, mãos dadas, nuas sob os lençóis em nossas núpcias de morte, rumo à luz ou às trevas, juntas, sem vínculos, mágoas, arrependimentos. Mas tiraram isso de nós. Eles não tinham o direito!

O que na vida não souberam fazer, na morte tiveram sucesso. Eles nos separaram. Tentaram nos trazer de volta. E conseguiram, mas só com uma de nós.

Quando acordei, não estava mais ao seu lado e soube que nunca mais íamos nos ver.

Bem, não exatamente. Eu vejo você. Todo dia.

Vejo que se tranca no quarto, passa dias sem comer ou dizer palavra, abraça uma foto e lembra de mim, como deve ser. Depois você sai. Adquire novos costumes na sala. Vê pessoas. Elas conversam com você e sorriem. Mostram coisas diferentes. Até te levam à igreja. Você usa um vestido florido. Você se transforma. Consegue sorrir para quem se lembra da tragédia – ah, então é assim que eles chamam, a tragédia? Depois, você joga fora nossos discos. Nossos livros também.

Algo deu errado, tão errado, menina, seu corpo te traiu, traiu a nós duas quando resistiu à decisão, estragou tudo... Eles te tiraram de mim. Eu fui, e te prenderam aqui. Você ficou, e a morte não me remediou.

E o mais errado de tudo, querida, é o meu retrato agora esquecido no fundo da gaveta. E esse cara, quem é ele? Por que você o traz para o quarto? Quando te pergunta quem é a garota na foto, você diz: uma amiga, já morreu, a pobre... era meio doida, sabe?

Mas eu ainda existo, e isso é foda.

16.9.08

The Schroedinger show

A primeira apesentação quântica de rock por Carlos Orsi

Um dia, o super-pop-megastar ouviu falar da experiência do Gato de Schroedinger: um gato numa caixa, com um tubo de veneno. O tubo ligado a um detector, ligado a um átomo. Se o átomo se desintegra, o veneno escapa, o gato morre. Mas, até que alguém olhe, diz a ciência, o átomo está numa “sobreposição de estados”: inteiro e desintegrado ao mesmo tempo. Portanto, o gato está vivo e está morto. Ele só decide pra valer quando aparece um xereta.

“Qualé, meu?”

“Mecânica quântica, cara. Maior piração”.

“Não é assim que o teletransporte funciona?”, perguntou então o super-pop. E a resposta: “Sei lá, cara. Acho que sim”. Dois segundos depois, entediado, o megastar ativou o biochip atrás da orelha e mergulhou na GWN, a Galaxy-Wide-Neuronet.

E era isso aí: o teletransporte usava a tal “mecânica quântica”. “Maneiro, meu”, disse o megastar, pois vivia-se numa era de gírias retrô.

“Superbacana”.

Duas horas depois, a mídia anunciava que o super-pop-megastar iria realizar um “Schroedinger Show”. Palcos seriam montados nos principais planetas. Em cada palco haveria equipamento de som, além de um terminal de teletransporte, um gerador holográfico e um único átomo isolado, ligado a um detector. No alto do palco, no que seria o ponto mais visível para a platéia assim que as cortinas caíssem, um medidor registraria o estado do átomo.

Três segundos antes da hora H, o super-pop-megastar entraria no teletransporte de sua casa.

Nos palcos, no mesmo instante, as cortinas cairiam.

E onde o megastar iria surgir? No palco onde a platéia visse que o átomo havia se desintegrado!

E as outras platéias?

Elas ficariam com a transmissão holográfica subespacial.

Neuro-sites especializados denunciaram o “Schroedinger Show” como um esquema para cobrar por duas centenas de shows ao vivo onde haveria apenas um. O megastar respondia: “Eu vou estar presente e ausente ao mesmo tempo, cara. Piração, meu. Mecânica quântica, cara. Quântica. Sacou?”

Cientistas evitaram comentar o assunto. Havia um mau pressentimento no ar.

Pois, e se o indicador desse positivo em mais de um palco?

No final, num paradoxo físico sem precedentes, 199 platéias realmente viram o show ao vivo – e o holograma falhou na última, onde, na verdade, quase só havia críticos e convidados.

Não houve uma crise cósmica, nem foi preciso chamar a frota ou a legião. Mas 199 artistas idênticos – processando-se mutuamente por pirataria – foi algo que manteve as cortes ocupadas até o fim do Universo.


Este texto foi originalmente publicado na revista Play

15.9.08

Leituras do TerrorCon

Um apanhado de mini-resenhas de contos publicados aqui por Fernando S. Trevisan

Mais um homem que nunca existiu
Por Ludimila Hashi
milahashi.livejournal.com

Contra a cobiça e destruição que a Amazônia enfrenta, um grupo resolve agir para proteger e restaurar a floresta - no futuro! Primeiro conto da Ludi no "multiverso" da Intempol, a história/personagens são pouco desenvolvidos - a própria Ludimila diz, no espaço de comentários após o conto, que tem mais facilidade para "delinear" histórias do que realmente desenvolvê-las - mas é um início promissor. Muita coisa pode ser desenvolvida ali e a Ludi diz que ainda dará atenção a isso. Fico na expectativa.

Uma nota: ainda preciso ler os Terroristas da Conspiração (com certeza, haverá resenhas mais abaixo neste mesmo "Leituras Web") para sacar algumas conexões - quem nunca acompanhou a comunidade de FC do Orkut também vai perder algo - mas a história vive por si mesma.

A Teoria na Prática
Por Romeu Martins
terrorcon.blogspot.com

O Romeu é mais conhecido on-line - ao menos por mim - pelas resenhas e entrevistas que fez no Projeto Ponto de Convergência (aqui e/ou aqui) e pela participação insana na comunidade de FC do Orkut.

Mas o "terrorcon" é um blog de contos e o texto de abertura é este excelente "A Teoria na Prática". Bastante atual e aterrorizante, situado inacreditavelmente em Santa Catarina, o texto apresenta um obscuro grupo - os "Terroristas da Conspiração" - que usam e abusam da famosa "sabedoria do povo" para atingir objetivos aparentemente escusos. Excelente texto, espero ver continuação e/ou outros desenvolvimentos nesse cenário em breve!

Apagão no Tempo
Por Romeu Martins
terrorcon.blogspot.com

Entrando de cabeça no "multiverso" da Intempol, Romeu assume a vocação FC (Ficção Científica) de seu blog e entrelaça o universo dos Terroristas da Conspiração com o da Intempol. Excelente texto, fluência e idéia; muito divertido. Correndo para ler os textos restantes no "Terroristas"...

O Herói
Por Rafael "Lupo" Monteiro
terrorcon.blogspot.com

Os Terroristas da Conspiração atacam novamente! Um conto rápido, divertido e inteligente do "Lupo", ampliando o cenário criado originalmente pelo Romeu. Ótima leitura!

Another Day
Por Horacio Corral
terrorcon.blogspot.com

Novamente o cenário em que os "Terroristas da Conspiração" vive é ampliado, desta vez pelo Horacio, argentino radicado no Brasil e que eu conheço "virtualmente" por ter organizado as mesas-redondas sobre FC e Fantasia na Livraria Cultura, onde ele trabalha.

O conto começa um pouco devagar e eu tive medo de que, eventualmente, este pudesse ser uma queda no nível do Terroristas - porém, longe disso. O começo devagar tem um por quê e vale a pena ler para chegar até ele. Um conto de reflexão, surpresa e inteligência, ótimo!

E Atenção: Notícia Urgente
Por Romeu Martins
terrorcon.blogspot.com

Os terroristas da conspiração atacam novamente! Em um conto excelente, cheio de referências e de pistas falsas, o Romeu mostra que seus terroristas estão mais infiltrados - e são ainda mais insidiosos - do que se imaginava. Muito bom!

Romeu Martins, por sua vez, voltou a atacar no Overmundo com "Ficção Científica Semestral", uma resenha da elogiada revista Portal Solaris - que não tem representação on-line e nem venda, apenas distribuição selecionada. Aliás, o Fábio Fernandes também resenhou a revista, no "diplo" - eu disse que ele é onipresente, não disse?

Ave, Lúcifer - Mutantes (ou A Diabólica Comédia)
Por Romeu Martins
letraevideo.wordpress.com (ou nos terroristas da conspiração); análise sobre o conto e uma nova visão do conto, "Diabólica Perséfone", por Ludimila Hashi

Revolta, traição, guerra e muito simbolismo. O Romeu escreveu um conto fantástico (em ambos sentidos, de gênero e de qualidade) que mereceu uma análise excelente da Ludimila. A bem-vinda e instigante adição feita pela Ludi em "Diabólica Perséfone" traz a sensibilidade feminina para a versão alternativa do conto. Vale conferir o conjunto.

O Segredo - Uma missão de espionagem industrial
Por Jessie Spiner

Existem algumas coisas que aguçam a imaginação e o medo de conspirações nas pessoas; o que há biblioteca do Vaticano? O que esconde a Área 51? E... qual o segredo da coca-cola? Neste conto curioso, os heróis vão atrás de um dos segredos mais bem guardados do mundo moderno...

Plano Infalível - Quase uma ficção alternativa
Por Romeu Martins (assistência técnica de Ludimila Hashi)

Excelente e divertido conto, que poderia figurar facilmente em um "Terroristas da Corrupção". Desde o título até o conteúdo extremamente bem pensado, as referências pipocam e, ao menos pra mim, foi chocante ir entendendo de onde veio - e para onde ia - a história.

A menina e o palhaço - Uma paranóia de infância
Por Clinton Davisson

O Clinton prova que, além de sua excelente veia cômica, pode ser um escritor aterrorizante... ótimo!

Outros segredos - A metacontiuação do conto "O segredo"
Por Leonardo Siviotti

Evitando soltar um palavrão dos cabeludos aqui (embora tenha soltado um em meu comentário lá no blog), este é um dos melhores contos do "Terroristas". Descobrir um segredo não é nada, revelá-lo é que pode trazer conseqüências funestas... o protagonista (!) que o diga!

Filho de deputado morre sob encomenda - Cobertura jornalística de um crime político na cidade de Big Field
Por R. R. Londero

Um estagiário atrás de seu maior furo; o assassinato do filho de um dos líderes políticos; uma corrida louca - de ônibus - para falar com velhos que jogam dominó, camelôs e travestis. Esses são os elementos do curioso conto de um "universo" interessantíssimo que o Londero inventou - vale ler os comentários para ter chaves de interpretação/inspiração do conto.

A revolução dos bichos - Um novo tour pelas ruas de Big Field
Por R. R. Londero

Mais uma incursão no território de "Big Field", onde "agroboys", gangues de índios motociclistas e novos-ricos entediados formam um bizarro cenário social.

Eu mesmo - Um thriller psicológico e especulativo
Por Maria Helena Bandeira (inclusive as ilustrações)

Excelente republicação de um conto da saudosa Isaac Asimov Magazine - que eu, infelizmente, era novo demais para acompanhar. Ficção científica e psicológica de qualidade, com uma ilustração ótima e apropriadíssima da própria autora.

Correndo nas sombras - Uma saída feminina para uma cybercaçada
Por Ana Cristina Rodrigues

Homenagem da Ana ao sistema de RPG/video-game ShadowRun, este excelente "Correndo nas Sombras" apresenta uma personagem e situação clássicas - a menina mimada fugindo para a vida de aventuras longe da proteção paterna, o cara bonito contratado para capturá-la e devolvê-la ao pai - mas passa longe do lugar-comum.

Em camadas - Uma experiência sinestésica
Por Fábio Fernandes

Eu não digo que o Fábio é onipresente? Agora temos uma excelente participação no "Terroristas", republicação de um conto de seu livro "Interface com o Vampiro", onde o mundo em que o protagonista vive inesperadamente muda de forma surreal, "kdickiana".

O homem atômico - Uma lenda urbana paulista
Por Cristina Lasaitis

Eu sou fã confesso da moça desde que li este conto no "Visões de São Paulo". O Homem Atômico é uma fábula inteligente sobre lendas urbanas, descaso com a ciência e inexistente auto-estima do brasileiro. Mas é também uma bela demonstração de como a ciência pode maravilhar e destruir ao mesmo tempo.

O espelho do rei - Uma trama niilista
Por Maria Helena Bandeira (projeto visual incluso)

Maria Helena apresenta uma fábula futurista de um príncipe - futuro rei - que atravessa universos, conhece os mais diversos seres e viaja no tempo para descobrir, enfim, o sentido da vida. Inteligente e instigante, ainda que um pouco melancólica.

Vingança - Uma amostra do que os Terroristas fazem com quem falha com eles
Por Romeu Martins

Um novo conto no universo original dos "Terroristas da Conspiração", um inventor enfrenta sua esposa e um perigo ainda maior - sem nem desconfiar. Um conto que mostra como os "Terroristas" agem e as conseqüências de dizer "não"... ou mesmo "sim", para eles.

Franco-atirador - Reflexões edipianas de um fuzileiro
Por Tibor Moricz

Mais um excelente conto do Tibor, tocando - como é especialidade dele - em um tema polêmico, neste caso, a relação sempre conflituosa entre mãe e filho. Durante a guerra, um atirador de elite - um sniper - observa sua próxima vítima se aproximar e reflete sobre a infância e sua família.

Folha Imperial - O que aconteceria se a conspiração republicana tivesse falhado?
Por Ataide Tartari

Uma fantástica viagem por um Brasil imperial em muito diferente dessa nossa república confusa... mas ainda com todo o "jeitinho brasileiro".

O homem bomba - Um atentado espacial
Por Ana Cristina Rodrigues (arte de Estevão Ribeiro)

Excelente conto da Ana que, se não me engano, já havia aparecido no antigo Portal do CLFC. Uma cientista que trabalha com soja transgênica depara-se com um homem que afirma ter uma bomba, pronta para explodir as plantações de soja. Mal sabe ela que os terroristas tem outros planos...

Para Nunca Mais Ter Medo - A história do homem que matou a morte
Por Fábio Fernandes

Um conto clássico - e excelente - do Fábio "o onipresente" Fernandes, que foi publicado originalmente na (hoje famigerada) Dragão Brasil, está disponível no Overmundo e é sempre uma ótima leitura.

O Santo da Maldade em prol do Dragão Guerreiro - Uma biografia não-autorizada do cinema nacional

Por Alexandre Lancaster
terrorcon.blogspot.com

Por alguma falha entre os fechar-e-abrir do Firefox com mais de 50 abas abertas, o texto do Lancaster se perdeu e eu não "mini-resenhei" ele no "Leituras Web" anterior. Uma intrigante versão da história do cinema nacional é desenhada neste conto, acusando a esquerda ingênua de se deixar levar por propósitos que iam contra a arte, sufocando-a sob o discurso político. O conto perde um pouco por ser "panfletário" demais, mas a polêmica é ótima e é inegável que grupos que desejam abolir determinadas formas de expressão artística, sejam quais forem, mais prejudicam do que ajudam qualquer projeto cultural - seja de um povo, nação ou mesmo mídia. Excelente e instigante contribuição do Lancaster aos Terroristas da Conspiração!

7.9.08

O homem bomba

Um atentado espacial, com texto de Ana Cristina Rodrigues e arte de Estevão Ribeiro

Marte, Metrô de Nova Escócia, 05:30 Hora Padrão Terra

A luz da estação, artificialmente controlada, era um alívio para os olhos cansados de Lenora. Vinte anos vivendo em Marte, e ainda não estava acostumada aos tons avermelhados deste estranho mundo.

Trabalhava ao ar livre, nos grandes campos de soja transgênica, sustentáculo das colônias. Não se importava com os protestos de alguns grupos radicais, defensores da pureza genética da natureza sem a interferência humana. Fazia o seu trabalho, e os retrógrados que rugissem.

Reparou que o homem ao seu lado estava coberto por um manto pesado, e carregava uma mala parecendo pesada. Intrigada, Lenora tentava adivinhar o que estaria ali dentro. O desconhecido percebeu e virou-se em sua direção. Um movimento, e estava com uma arma em sua mão.

- É uma bomba, para destruir seus preciosos campos de soja.

Em pânico, Lenora não sabia o que fazer. Talvez o mais sensato fosse esperar a segurança do metrô agir. As câmeras deveriam estar gravando tudo, com áudio e vídeo, e em breve alguém a ajudaria. Enquanto isso, dedicou-se a distrair o eco-terrorista, não fosse ele tentar algo.

- Como assim? Por quê?

- Vocês acham que são muito espertos, modificando a Obra. Vamos mostrar que somos melhores que vocês...Aqueles que seguem a Natureza triunfarão sobre vocês e seus estratagemas vis!

A cientista, sem tirar os olhos da arma, tentou acalmar o sujeito.

- Não é bem assim, poderíamos falar sobre isso e...

- Tarde demais! Assim que o próximo trem passar, o destino dessas plantações estará selado.

Para alívio de Lenora, uma voz grave ecoou na estação vazia.

- Largue a mala. Aqui é a Polícia Metroviária. Temos ordem para atirar se necessário.

Um esquadrão inteiro, vinte oficiais armados. Todos olhando o terrorista com olhos duros. O coração da mulher voltou a bater, e ela sorriu de leve, em triunfo.

Atrás de si, passou a composição, sem parar. Provavelmente fora avisada do tumulto. Lenora não se importou, chegaria atrasada, mas o louco seria detido. Estranhou quando o sujeito começou a gargalhar, alto, como se realmente tivesse enlouquecido.

Os guardas entreolharam-se, com a mira ainda no sujeito. De repente, um eco surdo ao longe e na mesma hora o rádio do chefe policial toca. A gargalhada ainda ressoava, alta, debochada, abafando a voz do oficial. Quando terminou a comunicação, olhou ao seu redor, espantado. Sua voz era baixa.

- O metrô acabou de explodir embaixo da principal plantação de soja do planeta. Parece que, por não ter parado aqui, os terroristas conseguiram cronometar exatamente o momento de maior estrago.

Sem parar de rir, o louco abriu a mala, de onde jorrou uma infinidade de grãos de soja. Foi a última coisa que Lenora viu antes de desmaiar.


Este texto também ganhou uma versão em espanhol na revista on line Sinergia.

4.9.08

Para Nunca Mais Ter Medo

A história do homem que matou a morte por Fábio Fernandes


Time is the space
Between you and me (...)
Seal, Prayer for the Dying


Marta era muito bonita viva. Mas conseguia estar ainda mais linda depois deressuscitada.

Eu estava terminando um café no foyer do Centro Cultural Banco do Brasil quando elachegou. Os olhos pretos, elétricos, me procuravam feito loucos no meio da multidãoque não parava de chegar. Ela hesitava. Pensei em ajudá-la, mas me lembrei do que osmédicos costumam recomendar nesses casos: não trate o ressuscitado como um doente.Depois da alta, ele está tão bem quanto qualquer pessoa em sua primeira vida, talvezaté mais. Esperei.

E então ela me encontrou. A boca se abriu num sorriso, e seus dentes perfeitos metrouxeram de novo a sensação de normalidade, de que tudo realmente era como antes.

Sorri aliviado.

Não resisti à tentação. Assim que ela se aproximou de mim, tomei-a pelas mãos e cantei baixinho, só para ela ouvir:

- Talvez, quem sabe, um dia, pela alameda do zoológico ela também chegará...

- O século trinta vencerá... - ela emendou.
- Ela e tão linda que por certo eles a ressuscitarão - terminei em seu ouvido. E nos abraçamos.

Ela chorou. E eu também. Ressuscitar nunca é fácil.

- Por que não marcamos no zoológico, então? - ela perguntou sorrindo, depois de algum tempo.

- Vamos ter muito tempo para visitar o zoológico - respondi, enquanto a levava na direção do elevador. - Hoje é o dia do Bicentenário.
- Eu não lembrava - ela disse. - Estive inconsciente por uma semana. O período normal é esse mesmo ou eu tive alguma complicação?
- Não, de jeito algum - eu a tranqüilizei. - O seu acidente não danificou o cérebro. Me disseram que o impacto do carro danificou seus pulmões e seu coração. O transplante e o Método foram realizados no mesmo dia. Os outros foram para descanso e adaptação.

- Ah - foi tudo o que ela disse. Seu rosto havia ficado tenso de repente. A cabeça baixa olhava a pequena tatuagem que todo ressuscitado traz no pulso esquerdo: um oito invertido, símbolo do infinito, e, por extensão, da vida eterna, ou quase. Fiquei sem graça. Não devia ter falado do acidente. A morte foi a dela, afinal de contas.

O elevador chega rápido, nosso destino é no segundo andar. Saindo do saguão, viramos à esquerda. Na entrada do salão, uma placa anunciava o nome da exposição que viemos ver: O HOMEM QUE MATOU A MORTE - 200 ANOS DO MÉTODO FRANKENSTEIN.


A sala era uma cópia aproximada do laboratório de Victor Frankenstein. Pendurada no teto, uma cópia do estrado de metal usado para sustentar o protótipo. Nas paredes, cópias dos esboços e croquis usados pelo cientista suíço em suas investigações sobre o uso da eletricidade no estímulo da musculatura e dos órgãos de animais e do corpo humano. Pequenas bancadas repletas de tubos e peças cuja função não consegui decifrar tornavam a visita algo de labiríntico. Marta olhava tudo como quem descobria o mundo pela primeira vez. E era verdade, pensei com meus botões: só dá valor à vida quem a perde. A incidência de acidentes entre os de segunda vida é bem menor que entre os de primeira.

Na parede do fundo, uma série de painéis resumia a vida de Frankenstein. Segundo sua biografia - a autorizada, claro; a não-autorizada, escrita pela feminista inglesa Mary Shelley no início do século dezenove, até hoje causa uma certa espécie - no início ele teria se perguntado: o que foi que eu fiz? Mas a sensação de haver cometido um erro contra as leis da Natureza durou pouco. Como todos os homens de seu tempo, ele já havia visto coisas muito piores em termos de estética: deformidades de toda sorte, naturais ou provocadas por doenças como varíola ou cólera. Seria ridículo esperar que ele fosse se espantar com o aspecto físico de sua criatura, ainda mais depois de todas as cirurgias que havia realizado para juntar suas partes. Logo ele começou a educar a criatura - que batizou de William, em homenagem a seu irmão menor, morto precocemente no mesmo ano de 1794 - e ao final de um ano, após sucessivas cirurgias corretivas para melhorar o aspecto de seu rosto, ele o apresentou à sociedade.

A repercussão foi terrível. Por muito pouco ele não foi enforcado por um crime que muitos tentaram antes dele, mas nenhum havia conseguido: brincar de Deus. Felizmente, o resultado de sua experiência acabou superando todas as expectativas: William cativou os cientistas alemães com sua força e inteligência, e - muito mais importante se Victor quisesse continuar suas pesquisas sem problemas com as autoridades - a nobreza alemã.

Victor era novo: não contava vinte e sete anos quando realizou a experiência com William. Teve, portanto, tempo de sobra para continuar seu trabalho e aperfeiçoar o método que o tornaria famoso mundialmente. Por ironia do destino, entretanto, jamais chegou a ter uma segunda vida: aos quarenta e seis anos, defendendo sua mansão das tropas de Napoleão, morreu no incêndio que destruiu a propriedade. Mas sua obra continuou.
Hoje em dia, entre outros apoios terapêuticos, existe a terapia genética, que clona órgãos só para transplante. Alguns fazem a terapia preventiva, submetendo-se ao rejuvenescimento antes do fim da primeira vida. Mas o método eletromecânico, ou simplesmente Método Frankenstein, ainda é muito popular, principalmente entre as classes menos favorecidas - há anos a Santa Casa de Misericórdia o utiliza - e em casos de acidentes. Se não fosse assim, Ayrton Senna ainda estaria morto e não teria vencido o campeonato de Fórmula Um deste ano. Ou Tom Jobim. Não teríamos tido aquele concerto espetacular no réveillon em Copacabana se a família dele não tivesse concordado em usar o Método.

E inumeráveis outros casos. É o que penso ao sair do Centro Cultural, os dedos tocando quase distraídos a tatuagem minúscula no meu pulso esquerdo. Do lado de fora, o centro do Rio fervilha nessa tarde muito especial de sábado; milhares de pessoas - em suas primeiras, segundas e até terceiras vidas - enchem as ruas do verão de cores e sorrisos. Reconheço várias pessoas, muitas das quais já em suas segundas vidas. Respiro fundo e sorrio, olhando para Marta, que faz a mesma coisa. É como o dia do Juízo Final, todos se reencontrando depois de mortos. Mas aqui na Terra. Pode haver coisa melhor?

Não que seja um mundo perfeito, pelo contrário: a República de Weimar continua em negociações com a Rússia pelos espólios da última guerra, e ainda não vencemos a fome e a doença. A superpopulação é um fantasma mais do que presente agora, mesmo com as colônias na Lua e em Marte. Mas pelo menos um dos quatro cavaleiros do apocalipse já foi derrotado. Os outros também cairão. Tudo a seu tempo. E agora nós temos todo o tempo do mundo.

Este texto foi originalmente publicado na revista Dragão Brasil número 11 e também pode ser lido no site Overmundo.

Ibope