14.8.08

Eu mesmo

Um thriller psicológico e especulativo
escrito e ilustrado por Maria Helena Bandeira

Tenho medo de abrir a porta porque sei que eu estou lá, no corredor, me esperando.
O sistema envia imagens do exterior deserto, mas isto não me engana. Eu tenho meios de iludir a vigilância.
Assim, fico ao lado da porta, com o coração aos pulsos, tentando me acalmar.
Depois, corro de volta para o interior do quarto e me atiro entre as cobertas que rodopiam suavemente ao meu redor, quando pressiono o botão de controle.
Nem ali estou seguro, mas tenho uma falsa sensação de proteção.

Eu estava com medo de abrir a porta porque sabia que eu estou aqui, no corredor, me esperando.
Não acreditava nas magens do sistema porque sabia que eu não sou enganado. Tenho meios de iludir a vigilância. Espero ao lado da porta porque sei que vou sair. Corria para o quarto, ligava o botão que ativa os cobertores, mas sabia que não adiantava. Tinha uma falsa impressão de segurança, eu não vou desistir.
Estou esperando há muito tempo.
Preciso de mim.
Abandono o corredor e me instalo na portaria. Terei de passar pelo portão magnético para comer. Se não realimentar meu organismo, vou morrer.
Não desejo isto. Quero apenas me encontrar. Mas posso ficar aqui, pois sei que, em algum momento, vou passar pela portaria.

Esperava havia muito tempo e não ia desistir. Tenho a boca seca e uma leve sensação de náusea. Sei que preciso de mim, mas não quero. Eu abandonei o corredor. Sinto um alívio passageiro. Agora estou sentado na portaria. Preciso sair para me alimentar. Não quero morrer, mas não desejo este encontro. Eu estava na portaria porque sabia que em algum momento vou precisar sair. Minha astúcia me irrita. Jogo fora os cobertores e tento me concentrar numa solução.
Nenhum disfarce me enganará.
Conheço tudo que escondo.
Aperto a cabeça com força, meu estômago se contrai, lembrando-me que há dois dias não recoloco combustível nas células enfraquecidas.
Tomo uma resolução súbita.
Eu vou sair e me enfrentar.

Jogava fora os cobertores, tentava encotrar uma solução. Não havia nada que eu pudesse fazer.
Eu estou aqui esperando na portaria e nenhum disfarce me enganará. Tenho fome. Meu coração se acelera e agito-me contra o metal frio da porta.
Finalmente, eu venho ao meu encontro.
Atravesso os corredores silenciosos.
Não há ninguém além de mim.
Minha presença está cada vez mais forte. Terei de passar por aqui.
As pernas estão dormentes pela espera. Ou talvez seja a falta de alimento. Mas não posso deixar meu posto agora porque, depois de tanto tempo, estou chegando. Preparo meus sentidos e minha mente para o acontecimento.
Os sentimentos são afetuosos.
A adrenalina corre pelas minhas veias, e a boca parece um pergaminho.
Posso me avistar no túnel escuro por onde caminho, cautelosamente.

Estava encostado no portão de entrada. Esperava pacientemente. Sabia que eu teria de ir. Atravesso os corredores. Infelizmente não há ninguém. Gostaria que um outro cruzasse meu caminho e me fizesse esquecer que estou à espera no fim do túnel, onde a luz se destaca, ofuscando meus olhos.
Vou passar rapidamente e tentar escapar.
Preparo-me para a luta.
Odeio a idéia de me defrontar. Há tanto tempo estou fugindo.
O cilindro prateado do elevador desliza pelas estruturas e pára, bem perto de mim. Entro precipitadamente.
Corro para o elevador, mas a porta se fecha no meu nariz.
Entre as paredes circulares, sinto meu sangue pulsando dentro das veias. Cruzo suavemente os duzentos patamares.

No último instante, escapei.
Atiro-me pela escadas, escorregando nos degraus muito lisos. Minha respiração está ofegante. No segundo patamar encontro outro elevador. Entro e me apóio nas paredes sextavadas, enquanto procuro acalmar as pulsações enlouquecidas.
Eu estou lá no alto, dentro do cilindro prateado, em direção ao terraço. Logo também chegarei ao último andar e então nos encontraremos.
Sei que amo e desejo este momento, mas eu odeio e fujo de mim.
No entanto, somos iguais.

Somos diferentes.
Chego ao terraço e contemplo a cidade, parcialmente adormecida. Uma bruma colorida de gases sobre seus segredos. Mas não tenho tempo. Estou subindo pelo elevador sextavado e breve chegarei aqui. Sentindo câimbras no estômago, pressiono o alarme de emergência e aciono os deslizadores.
No momento exato em que estou entrando no terraço.
Envolvo-me no deslizador e atiro-me no espaço.

Eu só quero me unir. Descansar, afinal.
Mas estou fugindo em direação ao parapeito. Jogo-me no vazio.
Corro atrás e arrebento o outro alarme. Deslizo velozmente para baixo.
É agora, ou nunca.

Chego ao chão.
Salto.
Consigo escapar.
Persigo.
Corro.
Corro.
Colidimos violentamente.
O embate do metal do veículo contra minha carne quase não me causa dor. Meu sangue escorre por entre as fendas na pele. Ouço gritos e imprecações. A presença de muitos outros em volta de mim, levantando-me do chão, colocando meu corpo sobre algo intensamente macio e branco, acariciando-me, dizendo palavras doces.
Sou, finalmente, incrivelmente, espantosamente.
Sou.
Eu mesmo.

– Programa Interação completado. Fusão Total da Personalidade.
A voz inefável do Ultracomputador Psíquico do Centro de Ajustamento para Doenças Mentais e Similares sussurou no meu ouvido:
– Final do Psicodrama Intracerebral. São 250 kontacts.
Através de contrações rítmicas e muito suaves, fui expelido para o exterior.
Com certa pena, abandonei a superfície uterina.
Passei o cartão magnético, transferindo os kontacts de minha conta na União de Bancos Interplanetários e saí.
Contemplei o céu. Qualquer céu.
Era bom estar em casa outra vez.

Este conto foi originalmente publicado no número 19 da edição nacional de Isaac Asimov Magazine

19 comentários:

milahashi disse...

AAAHhhhh...! O que será que eu estava fazendo que deixei de ler esse texto por tanto tempo?
Não vou desacerelar nunca mais.

Minha admiração pela Mhel não pára de crescer.

Obrigada pelo presente, Romeu.

Romeu Martins disse...

Você merece.

Helena disse...

Tanques, Romeu, por ter publicado meu texto. Foi emocionante rever, através dele, uma época passada.

beijão,

merrel

Helena disse...

Ludi, querida, a admiração crescente é recíproca.

grande beijo,

merrel

Octavio Aragão disse...

Uma beleza de conto, Mhell.
Eu já conhecia, da saudosa IAMagazine, mas foi ótimor reler agora.

Romeu Martins disse...

Eu quem tenho a agradecer, merrel

Helena disse...

Tanques Octa, um elogio seu vale muito para mim

beijão,

merrel

milahashi disse...

A ilustração ficou ótima com a arte da Mhel.
Parabéns à artista!

Romeu Martins disse...

Ela manda muito bem; gostaria de editar algo impresso unindo os textos e as imagens feitos por ela...

Helena disse...

A artista agradece em dobro, querida.

É uma ilustração que eu mesma fiz de um quadro antigo meu. Agora vou ter coragem de ilustrar meus textos do Ovo com coisas minhas. devo isto ao Romeu

beijão aos dois,

merrel

Romeu Martins disse...

>>devo isto ao Romeu

Se alguém deve alguma coisa aqui, sou eu, MHell

Beijão

ronaldo disse...

como sempre, impecável.
beijos.
Tom

Romeu Martins disse...

Obrigado pelo comentário, Tom Ronaldo

pam disse...

Adorei,você merece.beijos

parla marieta disse...

Minha querida Mhel. Você é mesmo especial. Novidades dizer que o texto é ótimo? A ilustração é maravilhosa, e não me venha com:
"-Você é suspeita" pq não é verdade.
É muito bom, muito bom, muito bom. Lindo. Parabéns, como sempre.

Helena disse...

Você É suspeita hehehe

tanques, querida pela força sempre

beijão,

merrel

Fernando S. Trevisan disse...

Fantástico, excelente. E pensar que isso já tinha sido publicado há uns bons anos atrás! :D

E, sei lá se isso vai soar idiota, mas não tive como não lembrar de um conto meia-boca que escrevi:

http://fernandotrevisan.com.br/5v/2007/03/fuga.cfm

Obrigado, MHell, fantástico teu conto! :)

Romeu Martins disse...

Acabei de salvar teu conto, Trevisa.

Fernando S. Trevisan disse...

Valeu, Romeu. Presta pra aparecer aqui?

Abs!

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