16.9.08

The Schroedinger show

A primeira apesentação quântica de rock por Carlos Orsi

Um dia, o super-pop-megastar ouviu falar da experiência do Gato de Schroedinger: um gato numa caixa, com um tubo de veneno. O tubo ligado a um detector, ligado a um átomo. Se o átomo se desintegra, o veneno escapa, o gato morre. Mas, até que alguém olhe, diz a ciência, o átomo está numa “sobreposição de estados”: inteiro e desintegrado ao mesmo tempo. Portanto, o gato está vivo e está morto. Ele só decide pra valer quando aparece um xereta.

“Qualé, meu?”

“Mecânica quântica, cara. Maior piração”.

“Não é assim que o teletransporte funciona?”, perguntou então o super-pop. E a resposta: “Sei lá, cara. Acho que sim”. Dois segundos depois, entediado, o megastar ativou o biochip atrás da orelha e mergulhou na GWN, a Galaxy-Wide-Neuronet.

E era isso aí: o teletransporte usava a tal “mecânica quântica”. “Maneiro, meu”, disse o megastar, pois vivia-se numa era de gírias retrô.

“Superbacana”.

Duas horas depois, a mídia anunciava que o super-pop-megastar iria realizar um “Schroedinger Show”. Palcos seriam montados nos principais planetas. Em cada palco haveria equipamento de som, além de um terminal de teletransporte, um gerador holográfico e um único átomo isolado, ligado a um detector. No alto do palco, no que seria o ponto mais visível para a platéia assim que as cortinas caíssem, um medidor registraria o estado do átomo.

Três segundos antes da hora H, o super-pop-megastar entraria no teletransporte de sua casa.

Nos palcos, no mesmo instante, as cortinas cairiam.

E onde o megastar iria surgir? No palco onde a platéia visse que o átomo havia se desintegrado!

E as outras platéias?

Elas ficariam com a transmissão holográfica subespacial.

Neuro-sites especializados denunciaram o “Schroedinger Show” como um esquema para cobrar por duas centenas de shows ao vivo onde haveria apenas um. O megastar respondia: “Eu vou estar presente e ausente ao mesmo tempo, cara. Piração, meu. Mecânica quântica, cara. Quântica. Sacou?”

Cientistas evitaram comentar o assunto. Havia um mau pressentimento no ar.

Pois, e se o indicador desse positivo em mais de um palco?

No final, num paradoxo físico sem precedentes, 199 platéias realmente viram o show ao vivo – e o holograma falhou na última, onde, na verdade, quase só havia críticos e convidados.

Não houve uma crise cósmica, nem foi preciso chamar a frota ou a legião. Mas 199 artistas idênticos – processando-se mutuamente por pirataria – foi algo que manteve as cortes ocupadas até o fim do Universo.


Este texto foi originalmente publicado na revista Play

15.9.08

Leituras do TerrorCon

Um apanhado de mini-resenhas de contos publicados aqui por Fernando S. Trevisan

Mais um homem que nunca existiu
Por Ludimila Hashi
milahashi.livejournal.com

Contra a cobiça e destruição que a Amazônia enfrenta, um grupo resolve agir para proteger e restaurar a floresta - no futuro! Primeiro conto da Ludi no "multiverso" da Intempol, a história/personagens são pouco desenvolvidos - a própria Ludimila diz, no espaço de comentários após o conto, que tem mais facilidade para "delinear" histórias do que realmente desenvolvê-las - mas é um início promissor. Muita coisa pode ser desenvolvida ali e a Ludi diz que ainda dará atenção a isso. Fico na expectativa.

Uma nota: ainda preciso ler os Terroristas da Conspiração (com certeza, haverá resenhas mais abaixo neste mesmo "Leituras Web") para sacar algumas conexões - quem nunca acompanhou a comunidade de FC do Orkut também vai perder algo - mas a história vive por si mesma.

A Teoria na Prática
Por Romeu Martins
terrorcon.blogspot.com

O Romeu é mais conhecido on-line - ao menos por mim - pelas resenhas e entrevistas que fez no Projeto Ponto de Convergência (aqui e/ou aqui) e pela participação insana na comunidade de FC do Orkut.

Mas o "terrorcon" é um blog de contos e o texto de abertura é este excelente "A Teoria na Prática". Bastante atual e aterrorizante, situado inacreditavelmente em Santa Catarina, o texto apresenta um obscuro grupo - os "Terroristas da Conspiração" - que usam e abusam da famosa "sabedoria do povo" para atingir objetivos aparentemente escusos. Excelente texto, espero ver continuação e/ou outros desenvolvimentos nesse cenário em breve!

Apagão no Tempo
Por Romeu Martins
terrorcon.blogspot.com

Entrando de cabeça no "multiverso" da Intempol, Romeu assume a vocação FC (Ficção Científica) de seu blog e entrelaça o universo dos Terroristas da Conspiração com o da Intempol. Excelente texto, fluência e idéia; muito divertido. Correndo para ler os textos restantes no "Terroristas"...

O Herói
Por Rafael "Lupo" Monteiro
terrorcon.blogspot.com

Os Terroristas da Conspiração atacam novamente! Um conto rápido, divertido e inteligente do "Lupo", ampliando o cenário criado originalmente pelo Romeu. Ótima leitura!

Another Day
Por Horacio Corral
terrorcon.blogspot.com

Novamente o cenário em que os "Terroristas da Conspiração" vive é ampliado, desta vez pelo Horacio, argentino radicado no Brasil e que eu conheço "virtualmente" por ter organizado as mesas-redondas sobre FC e Fantasia na Livraria Cultura, onde ele trabalha.

O conto começa um pouco devagar e eu tive medo de que, eventualmente, este pudesse ser uma queda no nível do Terroristas - porém, longe disso. O começo devagar tem um por quê e vale a pena ler para chegar até ele. Um conto de reflexão, surpresa e inteligência, ótimo!

E Atenção: Notícia Urgente
Por Romeu Martins
terrorcon.blogspot.com

Os terroristas da conspiração atacam novamente! Em um conto excelente, cheio de referências e de pistas falsas, o Romeu mostra que seus terroristas estão mais infiltrados - e são ainda mais insidiosos - do que se imaginava. Muito bom!

Romeu Martins, por sua vez, voltou a atacar no Overmundo com "Ficção Científica Semestral", uma resenha da elogiada revista Portal Solaris - que não tem representação on-line e nem venda, apenas distribuição selecionada. Aliás, o Fábio Fernandes também resenhou a revista, no "diplo" - eu disse que ele é onipresente, não disse?

Ave, Lúcifer - Mutantes (ou A Diabólica Comédia)
Por Romeu Martins
letraevideo.wordpress.com (ou nos terroristas da conspiração); análise sobre o conto e uma nova visão do conto, "Diabólica Perséfone", por Ludimila Hashi

Revolta, traição, guerra e muito simbolismo. O Romeu escreveu um conto fantástico (em ambos sentidos, de gênero e de qualidade) que mereceu uma análise excelente da Ludimila. A bem-vinda e instigante adição feita pela Ludi em "Diabólica Perséfone" traz a sensibilidade feminina para a versão alternativa do conto. Vale conferir o conjunto.

O Segredo - Uma missão de espionagem industrial
Por Jessie Spiner

Existem algumas coisas que aguçam a imaginação e o medo de conspirações nas pessoas; o que há biblioteca do Vaticano? O que esconde a Área 51? E... qual o segredo da coca-cola? Neste conto curioso, os heróis vão atrás de um dos segredos mais bem guardados do mundo moderno...

Plano Infalível - Quase uma ficção alternativa
Por Romeu Martins (assistência técnica de Ludimila Hashi)

Excelente e divertido conto, que poderia figurar facilmente em um "Terroristas da Corrupção". Desde o título até o conteúdo extremamente bem pensado, as referências pipocam e, ao menos pra mim, foi chocante ir entendendo de onde veio - e para onde ia - a história.

A menina e o palhaço - Uma paranóia de infância
Por Clinton Davisson

O Clinton prova que, além de sua excelente veia cômica, pode ser um escritor aterrorizante... ótimo!

Outros segredos - A metacontiuação do conto "O segredo"
Por Leonardo Siviotti

Evitando soltar um palavrão dos cabeludos aqui (embora tenha soltado um em meu comentário lá no blog), este é um dos melhores contos do "Terroristas". Descobrir um segredo não é nada, revelá-lo é que pode trazer conseqüências funestas... o protagonista (!) que o diga!

Filho de deputado morre sob encomenda - Cobertura jornalística de um crime político na cidade de Big Field
Por R. R. Londero

Um estagiário atrás de seu maior furo; o assassinato do filho de um dos líderes políticos; uma corrida louca - de ônibus - para falar com velhos que jogam dominó, camelôs e travestis. Esses são os elementos do curioso conto de um "universo" interessantíssimo que o Londero inventou - vale ler os comentários para ter chaves de interpretação/inspiração do conto.

A revolução dos bichos - Um novo tour pelas ruas de Big Field
Por R. R. Londero

Mais uma incursão no território de "Big Field", onde "agroboys", gangues de índios motociclistas e novos-ricos entediados formam um bizarro cenário social.

Eu mesmo - Um thriller psicológico e especulativo
Por Maria Helena Bandeira (inclusive as ilustrações)

Excelente republicação de um conto da saudosa Isaac Asimov Magazine - que eu, infelizmente, era novo demais para acompanhar. Ficção científica e psicológica de qualidade, com uma ilustração ótima e apropriadíssima da própria autora.

Correndo nas sombras - Uma saída feminina para uma cybercaçada
Por Ana Cristina Rodrigues

Homenagem da Ana ao sistema de RPG/video-game ShadowRun, este excelente "Correndo nas Sombras" apresenta uma personagem e situação clássicas - a menina mimada fugindo para a vida de aventuras longe da proteção paterna, o cara bonito contratado para capturá-la e devolvê-la ao pai - mas passa longe do lugar-comum.

Em camadas - Uma experiência sinestésica
Por Fábio Fernandes

Eu não digo que o Fábio é onipresente? Agora temos uma excelente participação no "Terroristas", republicação de um conto de seu livro "Interface com o Vampiro", onde o mundo em que o protagonista vive inesperadamente muda de forma surreal, "kdickiana".

O homem atômico - Uma lenda urbana paulista
Por Cristina Lasaitis

Eu sou fã confesso da moça desde que li este conto no "Visões de São Paulo". O Homem Atômico é uma fábula inteligente sobre lendas urbanas, descaso com a ciência e inexistente auto-estima do brasileiro. Mas é também uma bela demonstração de como a ciência pode maravilhar e destruir ao mesmo tempo.

O espelho do rei - Uma trama niilista
Por Maria Helena Bandeira (projeto visual incluso)

Maria Helena apresenta uma fábula futurista de um príncipe - futuro rei - que atravessa universos, conhece os mais diversos seres e viaja no tempo para descobrir, enfim, o sentido da vida. Inteligente e instigante, ainda que um pouco melancólica.

Vingança - Uma amostra do que os Terroristas fazem com quem falha com eles
Por Romeu Martins

Um novo conto no universo original dos "Terroristas da Conspiração", um inventor enfrenta sua esposa e um perigo ainda maior - sem nem desconfiar. Um conto que mostra como os "Terroristas" agem e as conseqüências de dizer "não"... ou mesmo "sim", para eles.

Franco-atirador - Reflexões edipianas de um fuzileiro
Por Tibor Moricz

Mais um excelente conto do Tibor, tocando - como é especialidade dele - em um tema polêmico, neste caso, a relação sempre conflituosa entre mãe e filho. Durante a guerra, um atirador de elite - um sniper - observa sua próxima vítima se aproximar e reflete sobre a infância e sua família.

Folha Imperial - O que aconteceria se a conspiração republicana tivesse falhado?
Por Ataide Tartari

Uma fantástica viagem por um Brasil imperial em muito diferente dessa nossa república confusa... mas ainda com todo o "jeitinho brasileiro".

O homem bomba - Um atentado espacial
Por Ana Cristina Rodrigues (arte de Estevão Ribeiro)

Excelente conto da Ana que, se não me engano, já havia aparecido no antigo Portal do CLFC. Uma cientista que trabalha com soja transgênica depara-se com um homem que afirma ter uma bomba, pronta para explodir as plantações de soja. Mal sabe ela que os terroristas tem outros planos...

Para Nunca Mais Ter Medo - A história do homem que matou a morte
Por Fábio Fernandes

Um conto clássico - e excelente - do Fábio "o onipresente" Fernandes, que foi publicado originalmente na (hoje famigerada) Dragão Brasil, está disponível no Overmundo e é sempre uma ótima leitura.

O Santo da Maldade em prol do Dragão Guerreiro - Uma biografia não-autorizada do cinema nacional

Por Alexandre Lancaster
terrorcon.blogspot.com

Por alguma falha entre os fechar-e-abrir do Firefox com mais de 50 abas abertas, o texto do Lancaster se perdeu e eu não "mini-resenhei" ele no "Leituras Web" anterior. Uma intrigante versão da história do cinema nacional é desenhada neste conto, acusando a esquerda ingênua de se deixar levar por propósitos que iam contra a arte, sufocando-a sob o discurso político. O conto perde um pouco por ser "panfletário" demais, mas a polêmica é ótima e é inegável que grupos que desejam abolir determinadas formas de expressão artística, sejam quais forem, mais prejudicam do que ajudam qualquer projeto cultural - seja de um povo, nação ou mesmo mídia. Excelente e instigante contribuição do Lancaster aos Terroristas da Conspiração!

7.9.08

O homem bomba

Um atentado espacial, com texto de Ana Cristina Rodrigues e arte de Estevão Ribeiro

Marte, Metrô de Nova Escócia, 05:30 Hora Padrão Terra

A luz da estação, artificialmente controlada, era um alívio para os olhos cansados de Lenora. Vinte anos vivendo em Marte, e ainda não estava acostumada aos tons avermelhados deste estranho mundo.

Trabalhava ao ar livre, nos grandes campos de soja transgênica, sustentáculo das colônias. Não se importava com os protestos de alguns grupos radicais, defensores da pureza genética da natureza sem a interferência humana. Fazia o seu trabalho, e os retrógrados que rugissem.

Reparou que o homem ao seu lado estava coberto por um manto pesado, e carregava uma mala parecendo pesada. Intrigada, Lenora tentava adivinhar o que estaria ali dentro. O desconhecido percebeu e virou-se em sua direção. Um movimento, e estava com uma arma em sua mão.

- É uma bomba, para destruir seus preciosos campos de soja.

Em pânico, Lenora não sabia o que fazer. Talvez o mais sensato fosse esperar a segurança do metrô agir. As câmeras deveriam estar gravando tudo, com áudio e vídeo, e em breve alguém a ajudaria. Enquanto isso, dedicou-se a distrair o eco-terrorista, não fosse ele tentar algo.

- Como assim? Por quê?

- Vocês acham que são muito espertos, modificando a Obra. Vamos mostrar que somos melhores que vocês...Aqueles que seguem a Natureza triunfarão sobre vocês e seus estratagemas vis!

A cientista, sem tirar os olhos da arma, tentou acalmar o sujeito.

- Não é bem assim, poderíamos falar sobre isso e...

- Tarde demais! Assim que o próximo trem passar, o destino dessas plantações estará selado.

Para alívio de Lenora, uma voz grave ecoou na estação vazia.

- Largue a mala. Aqui é a Polícia Metroviária. Temos ordem para atirar se necessário.

Um esquadrão inteiro, vinte oficiais armados. Todos olhando o terrorista com olhos duros. O coração da mulher voltou a bater, e ela sorriu de leve, em triunfo.

Atrás de si, passou a composição, sem parar. Provavelmente fora avisada do tumulto. Lenora não se importou, chegaria atrasada, mas o louco seria detido. Estranhou quando o sujeito começou a gargalhar, alto, como se realmente tivesse enlouquecido.

Os guardas entreolharam-se, com a mira ainda no sujeito. De repente, um eco surdo ao longe e na mesma hora o rádio do chefe policial toca. A gargalhada ainda ressoava, alta, debochada, abafando a voz do oficial. Quando terminou a comunicação, olhou ao seu redor, espantado. Sua voz era baixa.

- O metrô acabou de explodir embaixo da principal plantação de soja do planeta. Parece que, por não ter parado aqui, os terroristas conseguiram cronometar exatamente o momento de maior estrago.

Sem parar de rir, o louco abriu a mala, de onde jorrou uma infinidade de grãos de soja. Foi a última coisa que Lenora viu antes de desmaiar.


Este texto também ganhou uma versão em espanhol na revista on line Sinergia.

4.9.08

Para Nunca Mais Ter Medo

A história do homem que matou a morte por Fábio Fernandes


Time is the space
Between you and me (...)
Seal, Prayer for the Dying


Marta era muito bonita viva. Mas conseguia estar ainda mais linda depois deressuscitada.

Eu estava terminando um café no foyer do Centro Cultural Banco do Brasil quando elachegou. Os olhos pretos, elétricos, me procuravam feito loucos no meio da multidãoque não parava de chegar. Ela hesitava. Pensei em ajudá-la, mas me lembrei do que osmédicos costumam recomendar nesses casos: não trate o ressuscitado como um doente.Depois da alta, ele está tão bem quanto qualquer pessoa em sua primeira vida, talvezaté mais. Esperei.

E então ela me encontrou. A boca se abriu num sorriso, e seus dentes perfeitos metrouxeram de novo a sensação de normalidade, de que tudo realmente era como antes.

Sorri aliviado.

Não resisti à tentação. Assim que ela se aproximou de mim, tomei-a pelas mãos e cantei baixinho, só para ela ouvir:

- Talvez, quem sabe, um dia, pela alameda do zoológico ela também chegará...

- O século trinta vencerá... - ela emendou.
- Ela e tão linda que por certo eles a ressuscitarão - terminei em seu ouvido. E nos abraçamos.

Ela chorou. E eu também. Ressuscitar nunca é fácil.

- Por que não marcamos no zoológico, então? - ela perguntou sorrindo, depois de algum tempo.

- Vamos ter muito tempo para visitar o zoológico - respondi, enquanto a levava na direção do elevador. - Hoje é o dia do Bicentenário.
- Eu não lembrava - ela disse. - Estive inconsciente por uma semana. O período normal é esse mesmo ou eu tive alguma complicação?
- Não, de jeito algum - eu a tranqüilizei. - O seu acidente não danificou o cérebro. Me disseram que o impacto do carro danificou seus pulmões e seu coração. O transplante e o Método foram realizados no mesmo dia. Os outros foram para descanso e adaptação.

- Ah - foi tudo o que ela disse. Seu rosto havia ficado tenso de repente. A cabeça baixa olhava a pequena tatuagem que todo ressuscitado traz no pulso esquerdo: um oito invertido, símbolo do infinito, e, por extensão, da vida eterna, ou quase. Fiquei sem graça. Não devia ter falado do acidente. A morte foi a dela, afinal de contas.

O elevador chega rápido, nosso destino é no segundo andar. Saindo do saguão, viramos à esquerda. Na entrada do salão, uma placa anunciava o nome da exposição que viemos ver: O HOMEM QUE MATOU A MORTE - 200 ANOS DO MÉTODO FRANKENSTEIN.


A sala era uma cópia aproximada do laboratório de Victor Frankenstein. Pendurada no teto, uma cópia do estrado de metal usado para sustentar o protótipo. Nas paredes, cópias dos esboços e croquis usados pelo cientista suíço em suas investigações sobre o uso da eletricidade no estímulo da musculatura e dos órgãos de animais e do corpo humano. Pequenas bancadas repletas de tubos e peças cuja função não consegui decifrar tornavam a visita algo de labiríntico. Marta olhava tudo como quem descobria o mundo pela primeira vez. E era verdade, pensei com meus botões: só dá valor à vida quem a perde. A incidência de acidentes entre os de segunda vida é bem menor que entre os de primeira.

Na parede do fundo, uma série de painéis resumia a vida de Frankenstein. Segundo sua biografia - a autorizada, claro; a não-autorizada, escrita pela feminista inglesa Mary Shelley no início do século dezenove, até hoje causa uma certa espécie - no início ele teria se perguntado: o que foi que eu fiz? Mas a sensação de haver cometido um erro contra as leis da Natureza durou pouco. Como todos os homens de seu tempo, ele já havia visto coisas muito piores em termos de estética: deformidades de toda sorte, naturais ou provocadas por doenças como varíola ou cólera. Seria ridículo esperar que ele fosse se espantar com o aspecto físico de sua criatura, ainda mais depois de todas as cirurgias que havia realizado para juntar suas partes. Logo ele começou a educar a criatura - que batizou de William, em homenagem a seu irmão menor, morto precocemente no mesmo ano de 1794 - e ao final de um ano, após sucessivas cirurgias corretivas para melhorar o aspecto de seu rosto, ele o apresentou à sociedade.

A repercussão foi terrível. Por muito pouco ele não foi enforcado por um crime que muitos tentaram antes dele, mas nenhum havia conseguido: brincar de Deus. Felizmente, o resultado de sua experiência acabou superando todas as expectativas: William cativou os cientistas alemães com sua força e inteligência, e - muito mais importante se Victor quisesse continuar suas pesquisas sem problemas com as autoridades - a nobreza alemã.

Victor era novo: não contava vinte e sete anos quando realizou a experiência com William. Teve, portanto, tempo de sobra para continuar seu trabalho e aperfeiçoar o método que o tornaria famoso mundialmente. Por ironia do destino, entretanto, jamais chegou a ter uma segunda vida: aos quarenta e seis anos, defendendo sua mansão das tropas de Napoleão, morreu no incêndio que destruiu a propriedade. Mas sua obra continuou.
Hoje em dia, entre outros apoios terapêuticos, existe a terapia genética, que clona órgãos só para transplante. Alguns fazem a terapia preventiva, submetendo-se ao rejuvenescimento antes do fim da primeira vida. Mas o método eletromecânico, ou simplesmente Método Frankenstein, ainda é muito popular, principalmente entre as classes menos favorecidas - há anos a Santa Casa de Misericórdia o utiliza - e em casos de acidentes. Se não fosse assim, Ayrton Senna ainda estaria morto e não teria vencido o campeonato de Fórmula Um deste ano. Ou Tom Jobim. Não teríamos tido aquele concerto espetacular no réveillon em Copacabana se a família dele não tivesse concordado em usar o Método.

E inumeráveis outros casos. É o que penso ao sair do Centro Cultural, os dedos tocando quase distraídos a tatuagem minúscula no meu pulso esquerdo. Do lado de fora, o centro do Rio fervilha nessa tarde muito especial de sábado; milhares de pessoas - em suas primeiras, segundas e até terceiras vidas - enchem as ruas do verão de cores e sorrisos. Reconheço várias pessoas, muitas das quais já em suas segundas vidas. Respiro fundo e sorrio, olhando para Marta, que faz a mesma coisa. É como o dia do Juízo Final, todos se reencontrando depois de mortos. Mas aqui na Terra. Pode haver coisa melhor?

Não que seja um mundo perfeito, pelo contrário: a República de Weimar continua em negociações com a Rússia pelos espólios da última guerra, e ainda não vencemos a fome e a doença. A superpopulação é um fantasma mais do que presente agora, mesmo com as colônias na Lua e em Marte. Mas pelo menos um dos quatro cavaleiros do apocalipse já foi derrotado. Os outros também cairão. Tudo a seu tempo. E agora nós temos todo o tempo do mundo.

Este texto foi originalmente publicado na revista Dragão Brasil número 11 e também pode ser lido no site Overmundo.

31.8.08

Folha Imperial

O que aconteceria se a conspiração republicana tivesse falhado? Por Ataide Tartari

Devia ser umas onze horas da noite, ou até mais tarde do que isso, quando o figura arrombou a porta da redação e entrou xingando todo mundo. Quer dizer, na verdade ele não arrombou nada. E nem conseguiria; o cara não é mais forte do que um pardalzinho com fome. Quem entrou chutando tudo foi o seu guarda-costas. Agora que ele tinha conseguido o título de barão, Barão do Dona Marta, ele só andava com guarda-costas. Para a nobreza carioca, ter um guarda-costas era tão importante quando o título em si, era uma espécie de complemento indispensável. O que não deixa de ser um bom negócio para os guarda-costas.

Mas esse barão, não se sabe exatamente por quê, estava irado com um dos mais novos talentos jornalísticos a serviço de Sua Majestade Imperial, o repórter Ronaldo Cetro. Cetro tinha escrito, é verdade, um artigo sobre a outorga do título ao Barão do Dona Marta devido aos serviços por ele prestados ao Império por ocasião da visita do pop star plebeu Michael Jackson. O Barão cedeu sua casa no morro Dona Marta, aquela favela, como camarim para o astro plebeu. Em vista disso, o título lhe foi outorgado às pressas para evitar que o astro plebeu fosse hospedado por um favelado igualmente plebeu. Agora ele era favelado, sim, mas não obstante um membro da nobreza imperial brasileira!

Era natural, portanto, que a Folha Imperial, um jornal sempre a serviço de Sua Majestade Imperial, colocasse o novo barão na primeira página, deixando o visitante estrangeiro, um plebeu, na página interna. A manchete, é claro, era tipicamente Folha Imperial, exaltando o talento que preenche todas as suas páginas:


NOBREZA FAVELADA:
NOVO BARÃO QUER O SEU EM CACHAÇA


E, abaixo dessa manchete, cobrindo a outra metade da página, uma foto do novo barão segurando o título de nobreza impresso em letras góticas com uma das mãos e um copo de cachaça com a outra. A legenda da foto dizia: "Posso trocar esse troço por um vale-cachaça?"

Obviamente o barão, na sua nobre ignorância, não sabia apreciar o verdadeiro talento jornalístico. Ao invés de ficar grato por sua recém-adquirida notoriedade, o barão preferiu investir contra Cetro e a Folha Imperial.

A bem da verdade, Cetro não ficou sabendo de todos os detalhes do que aconteceu naquela noite na redação da Folha, mesmo porque nesta mesma hora ele estava passando mais uma noite em frente ao Paço Imperial. Um dos camelôs que ocupam esta praça durante o dia tinha cedido as instalações de sua barraca para Cetro passar a noite na vigília.

Desde que Sua Alteza Imperial Príncipe do Grão-Pará, herdeiro do trono, tinha retornado ao Paço Imperial no Rio de Janeiro após alguns meses de descanso no Palácio Imperial de Petrópolis, vários jornalistas faziam plantão em frente ao Paço, tentando flagrar o príncipe saindo para mais uma de suas grandes noitadas. Já era a quarta noite seguida que Cetro e Dida, o fotógrafo, passavam sentados atrás da droga da barraquinha do camelô.

Quando deu meia noite o fotógrafo já não aguentava mais:

-- Mas que porra, Cetro! O Joãozinho não vai sair mais hoje. Eu acho melhor a gente ir dormir em casa, só pra variar um pouco.

-- Tu tá duvidando? Boêmio que é boêmio não aguenta passar quatro noites seguidas em casa.

Sentado num banquinho e com uma cópia da agenda imperial na frente, Dida apontou pra página que descrevia o dia de Sua Alteza:

-- Olha aqui. O Joãozinho não vai inaugurar nenhuma casa nova do Ricardo Amaral hoje. A agenda dele terminou às oito da noite e ele voltou pro Paço. Eu não acredito muito nessa coisa de fugir escondido. Ele não é invisível e ele sabe disso. Quando ele tem compromisso à noite ele aproveita pra dar uma esticada, mas quando não tem ele não pode fazer nada porque tá todo mundo de olho nele.

-- Cala a boca e olha pr'aquela janela lá -- disse Cetro, apontando pro Paço.

Dida olhou pela teleobjetiva da máquina: -- Num tô vendo ninguém.

-- Mas a cortina abriu...Se liga. Fica com o dedo no botão.

De repente Cetro viu um vulto passando pela janela.

Dida clicou. Ele não usava flash à noite, só filme sensível.

-- Quem era? -- Cetro perguntou.

-- A Terezinha; acho.

Cetro pegou a agenda imperial para ver se a Terezinha,

Sua Majestade Imperial d. Maria Teresa I, Imperatriz do Brasil, estava mesmo no Paço. Ele tinha certeza de que o príncipe herdeiro estava, mas não a atual chefe de Estado.

-- Não, Dida, não pode ser ela. Ela tá junto com o Visconde de Higienópolis e o Duque de Pinel numa festa na embaixada britânica. Ela e o corno consorte.

O assim-chamado corno consorte, primo do rei da Espanha e esposo de d. Maria Teresa, era uma pobre vítima do humor brasileiro desde o casamento. D. Maria Teresa nunca tinha escondido de ninguém sua queda pelos astros estrangeiros que visitavam o Brasil no carnaval e que brilhavam nos cassinos cariocas. Seu novo alvo, diziam, seria Mel Gibson, apesar de ela ser mais velha do que a mãe dele. Ninguém nunca provou nada, mas que o Príncipe do Grão-Pará tinha a cara do Marcelo Mastroiani, tinha.

-- Festa?! Então por que que não mandaram a gente pra lá?

-- Porque não tem nada pra gente lá. Além da Terezinha, do primeiro-ministro e do prefeito do Rio não tem mais nenhum nobre por lá. Eles tão comemorando a chegada do novo embaixador britânico, que nem sangue azul tem.

-- É ruim...Bem que a Lady Di podia ter vindo junto...

Cetro riu: -- Se ela tivesse aqui, o Joãozinho tava colado nela.

Meses antes, a Folha Imperial tinha lançado a nova bomba: o príncipe estava a fim da Lady Di. Eles tinham sido vistos--e fotografados!--juntos numa praia do Caribe. Ambos vestidos, infelizmente. E acompanhados por outras pessoas.

Mas isso não era importante; o importante era que a idéia estava lançada, a semente estava plantada. A partir daquela foto centenas de páginas da Folha puderam ser preenchidas durante meses. Graças à Folha não se falava em outra coisa no Império; as pessoas discutiam por causa dos preparativos imaginários do casamento, dos nomes que teriam seus filhos (se em português ou inglês), das implicações constitucionais para ambas as monarquias (sendo ela princesa de Gales e do Grão-Pará ao mesmo tempo), e até por causa da imaginária fusão do Reino Unido ao Império do Brasil. E tudo isso por causa de uma foto! O poder da Folha Imperial espantava até aos seus próprios autores.

E era de uma nova e poderosa bomba como esta que a Folha estava precisando. Barões favelados não duram mais do que duas manchetes. Era preciso algo realmente grande, e de preferência apresentado e monopolizado por este jovem e leal súdito de Sua Majestade, Ronaldo Cetro.

Dida mirava sua teleobjetiva para o pequeno estacionamento ao lado do Paço quando viu o portão ser aberto. Ele virou pro Cetro e perguntou:

-- Os funcionários do Paço não saem às cinco?

-- Quando não tem nenhuma solenidade à noite, sim.

-- É que tem uma loira saindo num chevetinho podre. Só pode ser funcionária.

-- Então é.

Cetro não estava muito interessado.

O chevetinho podre passou em frente à barraquinha onde eles estavam. O escapamento estava detonado. Cetro então olhou pro chevette e pra loira:

-- Nossa! Que coisa horrível! Parece um travesti!

A loira acelerou fundo e, quando chegou na esquina, reduziu a marcha antes de fazer a curva cantando os pneus.

Cetro deu um pulo: -- Putaquepariu! Corre pro carro!

-- Que foi?

-- Corre pro carro, caralho!

Dida nem tinha fechado a porta do passageiro quando Cetro arrancou pra ir atrás do chevette.

-- Tu tá achando que aquela loira é ele?

-- É só um pressentimento...

-- Mas ele ia se arriscar saindo assim, sem guarda-costas nem nada?

-- Tu ouviu a reduzida que ela deu antes de fazer a curva?

-- Ouvi, e daí? Tu acha que mulher não faz isso?

-- Não, não é isso. Acontece que aquela não foi uma reduzida comum; foi um "taco".

-- Um o quê?

-- Taco. Punta-taco. Isso é coisa de piloto. Antes de fazer uma curva, todo piloto freia e acelera ao mesmo tempo, com o mesmo pé, enquanto reduz a marcha. Se ele não der essa acelerada na redução, o cambio estoura.

-- O meu nunca estourou...

-- Eu tô falando de pista, alta velocidade, rotação máxima, essas coisas; é claro que isso não vai acontecer na rua...

-- Pode parar, Cetro. Eu num tô entendendo nada.

-- Tudo bem. Eu só tô te dizendo que esse "taco" é um vício de piloto. É isso. Tu acha que o Paço tem alguma funcionária pilota?

-- Bom, o Joãozinho é piloto, mas isso não quer dizer nada. Ele é um piloto de merda. Quer dizer, ele nunca chegou aos pés do falecido Conde de Interlagos.

E nem o Ronaldo Cetro. O que não o impedia de tentar.

Neste exato momento Cetro pilotava pelas ruas da capital do Império como se fosse o próprio Conde fugindo de Schumacher no circuito de Ímola. A esperança de Dida era de que não houvesse uma curva Tamburelo no seu caminho.

Para alívio de Dida, a perseguição não durou muito. O chevetinho podre parou em frente à casa noturna do Sargentelli e os manobristas de repente não sabiam o que fazer com aquela poluição visual na porta da casa. Eles deram risada do carro antes que um deles fosse falar com a loira. Enquanto isso, Cetro parou do outro lado da rua.

Dida e sua teleobjetiva voltaram a ver a loira de perto: -- A loira tá saindo do carro...

-- Tu tá vendo ela direito?

-- Tô, mas...ela é um cara! Um cara de boné!

-- Isso eu também tô vendo...Olha! O manobrista se curvou pro cara!

O drive da máquina fotográfica do Dida estava rodando sem parar; ele deve ter tirado mais de vinte fotos de uma vez. Cetro estava louco pela confirmação:

-- E aí? É ele?

-- É, é o Joãozinho.

-- Nossa! Que demais, cara! Que flagra!

A cabeça de Cetro estava a mil. Todas as conclusões naturais daquilo apareciam de uma vez só: Sargentelli... mulatas...sexo!...devassidão imperial na primeira página!

Ele abriu a porta do carro, virou pro Dida e disse:

-- Eu vou até lá. Continua fotografando tudo. Se acontecer alguma coisa comigo, fotografa tudo.

O porteiro da casa perguntou se ele ia entrar e ele disse que não, que estava apenas esperando uma pessoa. Ele sabia que o príncipe não ia demorar muito porque os manobristas tinham deixado o chevetinho bem na porta, com poluição visual e tudo.

Cetro chegou mais perto de um dos manobristas: -- Tu sabe de quem é esse carro? -- ele perguntou, apontando pro Chevette.

-- É de um amigo da casa. O carro principal dele deve tá quebrado.

-- Tu conhece ele?

-- Já falei: ele é amigo da casa.

-- Então ele vem sempre aqui...

-- Não muito...

Cetro tirou um documento do bolso e mostrou pro manobrista: -- Olha, eu sou repórter da Folha Imperial e eu tô sabendo que foi o príncipe que chegou aqui neste carro. Será que tu não poderia me dizer com quem é que ele tá saindo...

Ele olhou pro lado e disse: -- Eu num sei de nada.

Cetro tirou os quarenta réis que ele tinha no bolso e ofereceu pro manobrista. Ele pegou e disse:

-- Ele tá saindo com a Rosinete.

-- Só com essa?

-- É. Só com a Rosinete.

-- Quantos anos ela tem?

-- Dezoito -- ele disse e riu.

Cetro riu também: -- Já entendi...Faz tempo?

-- Uns dois meses, acho.

-- Mas ele tava em Petrópolis!

-- Eu sei. Todas as meninas foram fazer um show lá e ele escolheu a Rosinete.

-- Ela é bonita?

-- A Rosinete é a mais bonita de todas; é uma princesinha.

Neste momento, o motorista do Chevette, ainda usando um boné, saiu correndo em direção ao seu carro com uma mulata ao lado. Cetro levantou a voz:

-- Vossa Alteza!

O príncipe parou e olhou pra ele: -- Pois não?

Cetro ficou surpreso com a sua cordialidade. Ele estava até sorrindo!

-- Perdoe-me por esta intromissão, Alteza, mas eu sou o repórter Ronaldo Cetro da Folha Imperial...

O príncipe estendeu a mão: -- Ah, sim, muito prazer.

-- O prazer é todo meu, Alteza. Eu só estava interessado em saber, em nome da Folha Imperial, quais são os seus planos com relação a esta jovem dama, dona Rosinete.

O príncipe deu uma gargalhada. Obviamente ele não esperava que este jovem e talentoso repórter estivesse tão bem informado. Cetro tinha conseguido impressionar Sua Alteza!

-- Posso lhe pedir um favor, Ronaldo?

-- Sem dúvida. Será uma honra, Alteza.

-- Não se deixe levar por especulações sórdidas. Dona Rosinete é uma moça séria e que merece o maior respeito por parte de todos os súditos do Império. Se tudo suceder como espero, eu farei um anúncio oficial no momento oportuno.

Cetro ainda estava meio atordoado pela cordialidade imperial de d. João quando voltou pro carro.

-- E aí? O que é que ele te disse? -- o Dida perguntou.

-- "Muito prazer".

* * *

A redação da Folha Imperial nunca tinha sido um lugar muito especial para ele. Quer dizer, ela não era aquele tipo de lugar em que, logo quando você entra nele, você sente que é o lugar onde você quer passar o resto da sua vida.

Bom, mas não era isso o que ele estava sentindo hoje; hoje a redação da Folha era o melhor lugar do mundo. Cetro entrou nela com o peito estufado e com um dos exemplares da Folha de hoje nas mãos. A manchete, em letras garrafais, dizia:


PLACAR IMPERIAL:
LADY DI 0 x 1 MULATA DO SARGENTO


E, logo abaixo, a foto tirada por Dida. Cetro pôs o jornal mais perto do seu rosto pra ver os detalhes: a foto mostrava Sua Alteza o cumprimentando, com a Rosinete no primeiro plano, prestes a entrar no carro. Graças à nova tecnologia, o chevetinho podre já era; em seu lugar aparecia um Omega novinho. O mesmo tinha acontecido com o boné que Sua Alteza usava naquela noite; ele tinha sido banido da foto. De resto, era uma foto 100% autêntica. Sua legenda dizia: "Ladeado por sua nova paixão, Sua Alteza Imperial cumprimenta Ronaldo Cetro."

O artigo--na verdade uma narrativa na primeira pessoa por Ronaldo Cetro--descrevia tanto a aventura daquela noite como a nobre e incansável luta de Sua Alteza em busca da futura imperatriz e mãe de seu herdeiro. Em respeito ao pedido de seu novo amigo, o príncipe, Cetro não exagerou no detalhamento das atividades profissionais de uma mulata do Sargentelli. Ao mesmo tempo, ele não afirmou--ao menos não categoricamente--que ela era menor de idade.

Ao chegar à sua mesa de trabalho, Cetro encontrou uma folha impressa em cima do seu teclado. Preso à folha, havia um bilhete que dizia: "busque confirmação sobre isto". A folha era um rascunho para o editorial do dia seguinte, escrito pelo editor, um velho monarquista, fanático e tradicionalista. Neste editorial em particular, ele se protegia muito mal de qualquer futura alegação de preconceito ao chamar Rosinete de "jovem mestiça"...jovem mestiça!

Bom, mas a alegação do velho era outra; era sobre velhas regras e tradições. Como ela certamente era plebéia, não havia possibilidade de casamento e ponto final. O velho, por conveniência, tinha esquecido o fato de que na monarquia brasileira títulos de nobreza eram distribuídos a granel. A confirmação de que o velho precisava era a de que Rosinete não tinha nenhum ancestral nobre. Isso ia ser fácil; alguns telefonemas iam resolver esse assunto.

Mas a redação da Folha estava mais do que agitada nesta manhã. Depois de ter ligado pra casa noturna do Sargentelli, conseguido o telefone da Rosinete, ligado pra ela e ter sido aconselhado por sua mãe a ligar para um certo advogado que esclareceria tudo, Cetro parou tudo para receber a visita do dia, uma senadora do PTR, junto com os seus deodoros.

Era incrível como os deodoros adoravam essas visitas de provocação! E, dentre todos os deodoros, os do Partido dos Trabalhadores Republicanos eram os mais radicais. Eles até achavam que o Deodoro em pessoa, Deodoro da Fonseca, o traidor dos traidores, condenado à morte pela tentativa de golpe contra d. Pedro II e anistiado pelo mesmo -- eles até achavam que essa desprezível figura histórica, origem do apelido dos republicanos brasileiros, devia ser homenageado como herói. Que insolência!

Cetro não fez mais nada além de levantar de sua cadeira enquanto os deodoros passavam; eles não mereciam mais do que isso. Depois que eles entraram na sala do editor, Cetro voltou ao seu telefone e ligou para o tal advogado de Rosinete para saber o quê, afinal de contas, ele tinha a esclarecer.

* * *

A sala do editor estava lotada, mas o Cetro entrou assim mesmo. O que foi um alívio pro velho, que já não estava mais aguentando aquela velha cantilena dos deodoros. No meio de todos aqueles deodoros, ele deu um sorriso de orelha a orelha e levantou a voz pra dizer pro editor:

-- Eu não consegui a confirmação daquilo que o senhor pediu. Pelo contrário, o advogado dela me disse que tem um processo de paternidade correndo na justiça. A mãe dela é solteira.

O velho não entendeu nada: -- E o que é que isso tem a ver com o fato de ela ser plebéia ou não?

-- Segundo o advogado, o exame de DNA vai provar que ela é filha do Marquês de Santos.

O Marquês de Santos e atual ministro extraordinário dos esportes no gabinete do Visconde de Higienópolis tinha namorado várias mulheres, tanto famosas como desconhecidas, de misses a rainhas de baixinhos, e por isso processos de paternidade não eram surpresa em sua vida. O negrão já tinha comido todas!

Antes de sair daquela sala infestada de deodoros, Cetro virou pro velho editor monarquista, ergueu o punho direito, e gritou:

-- A monarquia está salva! Viva o Império!

Ao ouvir isso, o sangue do velho ferveu. Ele se levantou, ergueu o punho, e gritou:

-- Abaixo os deodoros! Viva o Império do Brasil!

Bom, no final das contas esses deodoros acabaram colhendo o que plantaram. Onde já se viu uma coisa dessas, querer transformar o Império, com todo esse agito saudável, esse charme internacional e esse alto astral, numa republiqueta violenta e miserável como tantas outras...

Esses deodoros são ridículos!

Este texto foi publicado, entre outros lugares, na coletânea de história alternativa Phantastica Brasiliana.

A revolução dos bichos

Um novo tour pelas ruas de Big Field por R. R. Londero

2055. Big Field. Cidade-corredor. Aqui tudo passa: gringo, contrabando, pirataria, drogas, remédios ilegais. Se tudo passa, é cidade-de-ninguém. Faroeste dos magnatas da bio-pecuária, boi cultivado geneticamente. Big Field é a cidade-das-saídas: saída para Cuiabá, saída para São Paulo, saída para a puta que te pariu. É desespero dos sem-saídas é Big Field.

Minha história começa perto do Bariloche, residencial periférico com nome de balneário glacial. Mas aqui, bugrinho, faz muito calor, mesmo de noite. Pela enésima vez, Enéias me descolou o material de trabalho, restos de algum holocausto ecológico. Agora espero o bonde, 508 ou 509. De longe avisto a gangue dos guaicurus motorizados realizando manobras ancestrais: encurvados em suas motos, eles rasgam o chão com lanças artesanais. Índios motoqueiros com jeitão de Akira.

Não demora, pego o Rita Vieira. Desço na Rui Barbosa, subo a Afonso Pena, chego na Praça do Rádio. Rasantes corujões me fazem lembrar que, apesar da cicatriz na testa, não sou Harry Potter. Minha mágica não é bruxaria, mas cirurgia plástica ecológica. Sou especialista na última moda big-fieldense. Cansada de vestir pele de onça, cansada de ver pintura de boi, cansada de ler romance de tuiuiú, a elite big-fieldense radicalizou: querem costurar pele de onça em seus corpos, querem chifres de boi em suas cabeças, querem bicos de tuiuiú em suas bocas. Aberrações saídas de uma versão pantanal da Ilha do Dr. Moreau. Então, bugrinho, é fácil ver madames com penas de arara azul em volta dos braços, com pêlos de lobo-guará saltando do busto, com escamas de jacaré cobrindo as mãos.

Chego no consultório. Quarto de pensionato. Abaporu sétima série abençoa o recinto enquanto baratinhas se escondem. O doutor já espera do lado de fora. “Olhos de jacaré, chifres e cascos de boi, está tudo aqui”. O doutor sorri imaginando o novo visual. Faço o serviço sem demora. Quando tudo termina, ele diz: “Sensacional! Sensacional! Você realmente é o Pitanguy do Pantanal”. “Obrigado, doutor! Em que mais posso servir?”. Daí surge a proposta: “Anca de anta para minha esposa”. Caralho, é bicho raro! Mas acerto o trato com o otário.

Preciso ligar para o Enéias. Lembro daquele maldito jingle das Pernambucanas: “Cadê meu celular?”. Acho no meio dos livros (entre Graham Bell: uma biografia e Iniciação à telepatia). Menu, Agenda e 3 duas vezes: Enéias. Túúúúú-iúiúúúúú (norma governamental do novo toque telefônico). Enéias atende: “Fala, brother”. “Anca de anta! Preciso de anca de anta!”. “Puta merda, isso tá foda, brother!”. “E agora?”. “Improvisa com capivara, ninguém sabe a diferença”. “Boa idéia!”. “Beleza, brother. Até mais!”. Desligou, obviamente. Ninguém precisa do Enéias para achar capivara. Existem milhares no antigo campus da UFMS. Depois dos experimentos nucleares do Dr. Alberto Estevão, PhDeus em Física Canônica, a população de capivaras cresceu absurdamente, obrigando os discentes, docentes e doentes do HU (sobreviventes do incêndio na Santa Casas Bahia) abandonarem o campus.

De manhã, aguardo o 061 enquanto vejo imagens ininterruptas no telão da Praça Ari Coelho. Parte 84 da famosa série trash big-fieldense A Matança do Jacinto. Não demora, pego o Branquinhas–Shopping (nome alterado após trágico acidente nas indústrias de cal). De longe avisto o Paliteiro com cabeças empaladas de ousadas pessoas que invadiram o território das capivaras. Frio na espinha dorsal, mas boçal como sou sigo adiante. Desço em frente ao Estádio Morenão, carrego minha flecheira Molly com dardos envenenados. Voz de videogame na cabeça: “Are you ready? Go!”. Mato uma, duas, três, quatro... São 26 capivaras até o final do dia. “New record! Register your name”. Madame vai ter muita anca para escolher.

Agora mereço descanso, comer sobá na feirinha com visual Blade Runner. Enquanto como, vejo aquele garoto numa mesa distante, conversando com amigos. Menino maluquinho imaginando mundos paralelos, universo cyberpunk em Campo Grande. Levanta e se despede dos amigos. Precisa terminar a dissertação de mestrado... Mas antes escreve o epílogo de “A revolução dos bichos”:

2056. Big Field. Cidade deserta. Não restou ninguém após a mega-epidemia de dengue.

O espelho do rei

Uma trama niilista escrita e com projeto visual de Maria Helena Bandeira


O príncipe herdeiro de Aleph, na constelação Azul à leste de Andrômeda, tinha uma peculiaridade – era um obsessivo buscador. Ao contrário dos irmãos que procuravam aproveitar a vida, percorrendo bordeis da galáxia e entornando todas as combinações etílicas, Malthus só se interessava por descobrir o sentido da existência. Para isto vinha gastando o tesouro do reino em viagens às mais distantes partes do Universo.

No terceiro planeta, que orbitava a estrela amarela de uma galáxia distante, ele, finalmente, encontrou uma resposta. Malthus percorreu planícies e montanhas, navegou por mares azuis e suportou temperaturas geladas sobre seu corpo adaptado. Em algum lugar na Terra, diziam os livros antigos de Aleph, se escondia o maior sábio do universo - Ibn Al Said, o simples.

E ele o encontrou.

O deserto parecia escaldante mesmo aos sentidos adaptados do navegador corporal. Uma fina neblina de areia se levantava sob o sol, excessivamente próximo para os padrões alephianos, onde a noite se alongava por ciclos gigantes, o que favorecia a proliferação de adivinhos e magos.

Estava próximo de encontrar aquele que lhe daria a resposta esperada e seu coração batia.

A gruta era apenas um amontoado de pedras e sentado em frente a elas, o velho permanecia absolutamente imóvel.

Ligou o intercomunicador e perguntou com voz trêmula:

- Mestre?

O ancião não moveu um músculo. Repetiu a pergunta:

- Mestre? Ibn Al Said?

Nenhuma manifestação de vida. O príncipe sabia que esta não era a atitude habitual dos habitantes daquele planeta e ficou indeciso. Mas em Aleph paciência é virtude e Malthus era um obsessivo buscador.

Sentou-se ao lado dele e esperou.

Muitas luas cruzaram o céu noturno e o sol se levantou sobre a areia incontáveis vezes antes que o mestre respondesse:

- Sou eu

O príncipe, cuja nutrição, realimentada pelo navegador corporal, começava a ficar em estado de colapso, respondeu animado:

- Mestre, há anos eu o procuro, por milhares de planetas nesta galáxia, para fazer uma simples pergunta, que é a mais importante de todas – qual o significado da vida?

O mestre levou outras muitas luas para responder e quando o príncipe já quase desistia, no limite de seu traje adaptador, abriu a boca desdentada e emitiu apenas uma frase.

Depois, recaiu na posição de estátua, da qual não saiu mais durante todo o tempo em que o príncipe permaneceu lá, tentando entender.

O que significaria aquilo? Sabia que o mestre não iria explicar nada, cabia a ele descobrir.

Voltou para seu planeta e durante o resto da vida, mesmo após assumir o trono, dedicou-se a decifrar aquelas palavras enigmáticas. Consultou astrólogos de Júpiter, magos de Andrômeda, bruxas de Ashtar XIX, as mais poderosas do Universo. Penetrou nos domínios tenebrosos da bruxa de Pher, em fragmentos temporais distantes, onde quase perdeu a razão. Navegou pelo tempo e pelo espaço, procurou lingüistas de idiomas estranhos, até mesmo os tradutores dos guturais sons reptilíneos de Alighator. Nada. Ninguém sabia decifrar o significado da frase, muito menos o sentido da vida.

Quando, depois de quinhentos anos, sua própria existência estava no fim, continuava com a mesma interrogação sem resposta, a mesma angústia infinita.

Resolveu fazer uma última e desesperada tentativa, usando todos os recursos da ciência e da cosmetologia. Reformou seu aparelho biológico e apoiado por um ultra-sofisticado navegador corporal, viajou até o pequeno planeta, Terra, o terceiro a partir da estrela daquela galáxia distante.

Com suas últimas forças, atravessou o deserto e conseguiu chegar à gruta onde encontrou o mestre exatamente na mesma posição.

Sentou-se lado do velho e permaneceu calado algumas luas, as derradeira que lhe restavam na contabilidade do futuro.

Já mal conseguindo articular as palavras, finalmente se atreveu a perguntar:

- Mestre, passei a vida toda procurando, viajei pelos confins do universo, conheci seres de todas as espécies e gêneros, mas nunca, ninguém, conseguiu decifrar a frase que me ensinaria o significado da vida. E repetiu reverente: “ da escada de alcebíades ao aeroplano romântico.”

As palavras ressoaram, através do intercomunicador, no deserto silencioso e estrelado.
- Gastei fortunas, subindo e descendo escadas, das simples às mais estranhas do universo. Através de pesquisa arqueológica aqui na Terra, consegui fórmulas da construção de aeroplanos diversos e neles procurei viver românticas noites e dias.

Tudo em vão. Jamais descobri o significado.

Agora que estou chegando ao fim da jornada, acho que mereço a resposta. Por favor, mestre, me diga o significado de tal frase.

Pela primeira vez, o mestre se moveu em direção a ele, uma silhueta escura contra as estrelas

- Querido rei, você olhou para o lado errado do espelho, ignorando o real pela imagem. Gastou o tempo de sua existência procurando o sentido das palavras e voltou sobre os próprios passos. No entanto, elas significam o mesmo que a vida.

E fechando os olhos do velho rei que agonizava:

- Nada.



********************

30.8.08

Vingança

Uma amostra do que os Terroristas fazem com quem falha com eles por Romeu Martins

Este conto está disponível como ebook da Editora Estronho




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