6.7.09

Baumgart

Uma história no universo do Baronato de Shoah
Por José Roberto Vieira

Usando máscaras etéreas de mentiras reais, os cidadãos de Wünder vestiam–se como personagens do teatro dos vampiros. Meras sombras e sussurros de um poder paralelo golpeando a luz.

- Rápido –dizia o patriarca da família ao cocheiro – Vamos perder as melhores mercadorias. – os cavalos aceleraram subjugados pela dor do açoite.

- Sim senhor – respondeu o serviçal – Chegaremos a tempo, Senhor, não se preocupe. – ele abaixou o chapéu vermelho sobre o rosto e acelerou, fazendo os cavalos mecânicos que levavam a carruagem acelerarem.

Máquinas desalmadas, não sentiam a força dos golpes, e tudo que faziam era andar. Sua carapaça brilhava sob os archotes e postes da cidade, que, com suas luzes artificiais, revelavam as faces mentirosas de um povo egoísta e perverso.

Trilhos cortavam as ruas, formando uma complicada teia metálica. Vista de cima, parecia um poliedro sinistro, pronto para abraçar a cidade lentamente.

Eles tremeram, prenunciando a chegada do colosso férreo. Distante, na orla da cidade, o grito da locomotiva quebrou todas as conversas e rachou todos pensamentos. A carruagem que levava os nobres parou embaixo da ponte de aço e aguardou.

Como um monstro demoníaco rasgando o véu de maya, dobrando o tempo à sua vontade e a vida ao seu desejo, a locomotiva adentrou Wünder, humilhando o cidadão comum com baques de aço sobre a terra.

- Eles chegaram – disse o patriarca, tirando Cartola. – Rápido, homem! Os Escravocratas chegaram!

A névoa rastejava a seus pés, Nebeldumpf, névoa do vapor, a energia que movia aquelas monstruosidades, fazendo-as ter vida própria num mundo sem vida.

Wünder era um milagre arquitetônico, templos gigantescos adornados com arabescos, arcos, torreões e gárgulas, rosáceas e estátuas de santos. O templo de Shoah, com suas sessenta e nove torres e o descomunal obelisco perolado, podia ser visto de outros reinos, a anunciar o poderio da fé.

Tudo na cidade era grandioso, extremo, abusivo. Vinho, mulheres, festas, aço e bronze, vapor e névoa, carvão e lenha. Carros, as novas maravilhas da ciência, passavam, impressionando o populacho; motos, absurdos da humanidade, eram disputadas por jovens ricos e mimados.

O exército observava, guardava, com suas armaduras de placas cheias de detalhes dourados, com mascas ocultando suas faces.

E os trens?

Cruzavam a cidade, estuprando-a por trilhos maculados de dor e desespero. Eram eles que agora passavam, fazendo os trilhos vibrarem terrivelmente. Cuspiam fumaça preta na cidade pintando-a da cor do céu, mais tarde escravos seriam mandados para lavar as torres, morreriam intoxicados, e novos escravos seriam trazidos pelos trens para lavarem a cidade enquanto novos trens passavam, trazendo novos escravos. Pelas frestas dos vagões, eles viam os torreões negros apinhados de outros escravos.

Era um círculo negro de sujeira e morte, abaixo da riqueza e das máscaras de sombras, que se repetia e repetia, em palavras usadas insistentemente em cada parágrafo.

- Levantem-se! – ordenou o feitor, estalando o chicote. – Levantem, desgraçados!

A locomotiva apitou ao parar na estação, seus vagões centrais se abriram. Era um sonho dantesco, tinir de ferros, estalar de açoites, legiões de homens negros como a noite. Sua pele era preta (de carvão ou natural?), os corpos um dia fortes enfraqueciam e definhavam, outrora risonhos e camaradas, eram agora uma raça fraca e subjugada.

Seus rostos, um misto de fera e homem, não passavam de faces maltratadas de bichos dominados. Que tinha acontecido com aquele povo?

Clamavam pela mãe-terra, mas, sem poder ouvi-la, esqueciam-se de seu orgulho, seu poder. Pretos, negros, escuros, honrados, corajosos, valentes, senhores de sua liberdade, apagada pelo homem branco de cartola.

De fora ria-se a orquestra irônica, jogando preços pelas cabeças tontas. – Cem drakkars1 pelo filhote! –gritou um mercador. –Setenta pela fêmea! –gritou outro.

O trem apitou. O chicote estalou alto novamente. – Um lindo exemplar de força e coragem! –gritou o feitor, puxando um jovem para frente. – Músculos sem alma ou cérebro, tudo que um patrão quer!

Excitados pela mercadoria, os compradores avançaram. Alguém levou um soco, outro levou um chute, uma criança foi derrubada no chão e pisoteada, para desespero da escrava que a seguia. Uma espada foi sacada, uma mancha de sangue pintou os paralelepípedos.

A carruagem da nobre família chegou nesta hora, sem poder passar, estacionou distante. – Eu mandei você correr! – gritou o patriarca, colocando a cabeça pra fora da janela e apontando para o cocheiro.

Não havia ninguém sentado ali. O homem de vermelho tinha sumido.

Do trem, do tablado, do frio, os escravos tremeram de medo. Em nenhum lugar de Nordara a compra e venda de escravos era tão selvagem quanto em Wünder.

– Calma! –berrou o vendedor, a multidão se afastava. – Não precisam temer, senhores, vamos aos negócios? –os nobres baixaram as armas, ainda com os olhos fixos no feitor.

Ou em algo atrás dele.

Ele se virou, pronto para anunciar a mercadoria. Parou atônito, medindo a figura atrás de si. Primeiro achou tratar-se de um golem, um dos inúmeros guardas de aço de Wünder.

Mas não era.

Assemelhava-se a uma armadura de placas, vermelha, cheia de tubos e engrenagens, rangia alto e tinha uma espécie de escapamento nas costas, de onde saía fumaça. Os olhos prateados fitavam o homem com ira, apesar da inexpressão.

A máscara era uma aberração sorridente, envolta por um elmo meio triangular com abas levantadas e chifres. Em cada mão trazia uma espada: uma curta de cabo perolado, outra longa de cabo ébano.

O Espectro Rubro.

O mais temido abolicionista de Nordara, o libertador, aquele que se lembrava que o povo negro era um igual e não o deixava se esquecer: lutem. Ninguém sabia se era negro ou branco, vermelho ou amarelo, azul ou cinza.

O que importava, é que ele fazia alguma coisa.

Com um rápido golpe com as espadas, o Espectro quebrou as correntes que prendiam os escravos. O primeiro deles jogou o corpo para o lado empurrando o feitor para dentro da multidão.

Alvoroçadas, as pessoas correram, pisoteando o homem com a mesma crueldade que havia matado o menino segundos antes. – Peguem o Espectro!- berraram, apesar do medo. Não se aproximavam, esperavam a guarda chegar para prendê-lo.

O vendedor tentou puxar a arcabuz da cintura, mas o inimigo foi mais rápido e cortou-lhe o braço com o sabre negro. Girou o corpo com velocidade espectral e atirou a mesma espada num guarda que vinha em sua direção.

A arma, presa por uma fina corrente que saía de seu pulso mecânico, voltou para o atacante obediente.

Algo criou uma sombra sobre a multidão. Cem cabeças voltaram-se para o céu e viram, aterrorizadas, mais um inimigo se aproximando. Inimigo dos homens, amigo da liberdade.

Era um pássaro. Mas, assim como o Espectro Rubro, não era um pássaro de carne e sangue: suas penas eram feitas de malhas de aço sobrepostas, seu bico era de ferro e seus olhos o mais puro vidro escurecido. Ela não guinchava. Sobrevoava em silêncio a multidão estarrecida.

Arremetendo agilmente, ela agarrou um homem qualquer e o ergueu, sem que seus protetores pudessem reagir. Um deles tentou disparar uma pistola, mas a bala resvalou nas camadas de metal e caiu novamente no chão.

Apreciando o pavor que causara, o Espectro sorriu. À maneira das máquinas. Seus escapamentos soltaram mais vapor e ele apitou como se fosse uma locomotiva, empunhando as espadas, triunfante.

O ar tremeu. Uma bola de fogo explodiu violentamente, erguendo do chão o trem dos escravos. Casas queimaram, escravagistas rasgaram-se em pedaços borbulhantes, destroços quentes atravessaram corpos. Uma viga abriu ao meio um soldado, um telhado soterrou algumas senhoras da nobreza, que tinham vindo só para assistir e agora eram a cena principal.

- Linkululeko! – gritou o Espectro.

- Linkululeko! – respondeu o escravo que havia empurrado o feitor na multidão. Empolgados com a liberdade e a possibilidade de lutar, os outros o seguiram em uníssono: - Liberdade, Linkululeko!

A locomotiva tombou, levando consigo os vagões num jogo de dominó brônzeo e cruel, que foi derrubando prédios e casas ao longo dos trilhos até as montanhas.

O Espectro Rubro observava, satisfeito. Ao seu lado, o agora líder que empurrara o feitor, ria-se fartamente da destruição e da dor de seus inimigos.

– Com os cumprimentos da Maffia Rouge. – sussurrou a voz metálica do Espectro.

A escuridão avançou quente, plácida, abraçando-os carinhosamente. Quando a luz voltou a acender nada mais restava.

Além de uma cidade de rosto cortado e orgulho ferido.

Marcus Baumgart, o escravo, mergulhou na escuridão.

E dela fez parte para sempre…

1 O dinheiro usado no reino, um drakkar equivale a R$10,00

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