26.11.08

Sem conspirações


Amigos, este é um texto sobre um assunto muito sério.


O primeiro conto publicado neste blog, chamado "A teoria na prática", não se passa na capital de Santa Catarina à toa. É aqui que eu moro, é daqui que eu escrevo. Por um acúmulo de circunstâncias meteorológicas, geográficas e muita, mas muita, incompetência política - nas esferas municipal, estadual e federal - o estado inteiro está sofrendo com uma tragédia anunciada.

As chuvas deixaram dezenas de mortos e milhares de desabrigados em diversos municípios catarinenses. Se eu der números aqui, infelizmente, logo eles devem estar desatualizados.

Em momentos trágicos como este, sem demagogia, quando podemos fazer algo para ajudar o próximo tornamos nossa realidade um pouco melhor.

A Defesa Civil de Santa Catarina abriu contas em três bancos para quem puder dar sua contribuição às vítimas das cheias:


Banco do Brasil – Agência 3582-3, Conta Corrente 80.000-7

Besc – Agência 068-0, Conta Corrente 80.000-0

BRADESCO - 237 Agência 0348-4, Conta Corrente 160.000-1


O nome da pessoa jurídica é Fundo Estadual da Defesa Civil.
CNPJ - 04.426.883/0001-57.


Quem puder dar alguma ajuda a essas pessoas, saiba que isso pode fazer a diferença de verdade.

Recomendo também este blog para quem estiver interessado em acompanhar notícias sobre a catástrofe político-ambiental que nos atinge.

Obrigado a todos pela atenção e tempos melhores para todos nós.

24.11.08

Sobre os 50 contos e agradecimentos múltiplos

O texto do antepenúltimo post representa uma marca e tanto para este blog. Com ele, completamos 50 textos de ficção publicados por aqui de nada menos que 23 autores diferentes. Tirando desta lista Machado de Assis, que não teve a oportunidade de se opor à minha apropriação de “A Igreja do Diabo” – a exemplo do que ocorreu com Paulo Leminski e o haikai que serve de mote a esta página –, todos os demais participantes cederam voluntariamente seus textos à minha edição.

Como fazem no cinema, vou creditar essas pessoas pela ordem de surgimento no TerrorCon e dar-lhes o devido agradecimento:


Ludimila Hashimoto

Rafael Monteiro

Horacio Corral

Jessie Spiner

Clinton Davisson

Leonardo Siviotti

Maria Helena Bandeira

Rodolfo Londero

Ana Cristina Rodrigues (e digníssimo esposo, Estevão Ribeiro, pela ilustra)

Alexandre Lancaster

Fábio Fernandes

Cristina Lasaitis

Tibor Moricz

Ataíde Tartari

Carlos Orsi

Camila Fernandes

Rita Maria Felix da Silva

Richard Diegues

Octavio Aragão

Flávio Moutinho

Lúcio Manfredi


Desses todos eu ainda destaco três, Ludimila Hashimoto, Rafael Monteiro e Alexandre Lancaster por me terem dado a honra e o prazer de ler textos escritos especialmente dentro do contexto do grupo que dá nome a este blog.

Um outro agradecimento vai para aquele que é, muito provavelmente, o único ser humano além de mim a ter lido todos os textos aqui publicados, os de ficção ou não, ainda ter se dedicado a resenhá-los em sua página pessoal e, como se não fosse suficiente, ter me permitido compilar suas impressões em postagens aqui, Fernando S. Trevisan. No post logo abaixo deste, reuni suas resenhas produzidas até este momento. (Caso ele escreva sobre os textos que ainda não teve a oportunidade de ler, darei um upgrade ao tópico e apagarei estes parênteses).

Devo ainda um agradecimento especial a outras duas pessoas que estão me dando a felicidade realmente indescritível de adaptar contos que escrevi neste blog para outras mídias – espero poder dar novidades sobre isto logo – Laura Mayumi e André Aguiar.

Ufa! Fora essa multidão, agradeço ainda a quem leu, comentou, opinou, sugeriu, linkou ou simplesmente lurkou por aqui ao longo destes meses, desde o finalzinho de maio até agora, finalzinho de novembro.

Acho que com esta marca alcançada – meia centena de contos! É meio difícil de acreditar, ainda –, o melhor é dar um tempo para renovar o tesão da parte de quem edita, de quem escreve e de quem lê. Vamos dar um tempo esperando retomar o contato em breve.

A todos os citados um abraço e, por favor, continuem conspirando.

Outras Leituras do TerrorCon

A mais recente compilação de miniresenhas por Fernando S. Trevisan


Uma Arca para Marte - Uma história clássica reescrita

Por Flavio Moutinho
terrorcon.blogspot.com

Excelente, este conto do Flavio, recriando em ficção científica (new weird, talvez?) um clássico bíblico. Ironia e sarcasmo sutil além de humor inteligente, com uma prosa deliciosa de ler.

Os olhos de quem vê - Alguns flashes da próxima epidemia

Por Octavio Aragão
terrorcon.blogspot.com

Uma história de amor, morte e loucura em um futuro apocalíptico, bem escrita como sempre, no caso do Octavio, e com um gosto amargo no pós-leitura, o que é raro para as histórias dele.

O Criador e o Espírito - Uma história sobre finais trágicos

Por Rita Maria Felix da Silva
terrorcon.blogspot.com

Tenho certeza que já li - e já mini-resenhei - esse texto da Rita, mas não consegui achar, então aqui vai: inteligente, criativo, gostoso de ler e com o tamanho certo. Uma excelente alegoria de um criador tipicamente cristão mas com características humanas.

A gruta de vênus - Um exemplar sado-erótico escrito e ilustrado

Por Maria Helena Bandeira
terrorcon.blogspot.com

Em um ambiente surreal, algo proibido acontece, que não poderá ser esquecido... outro conto curto da MHell, com a mesma qualidade de estilo e escrita, desta vez misturando ficção científica e sexualidade. Bom!

Dezembro (dia 4, no Bardo Batata) marca um lançamento há muito anunciado: o livro Fome, de Tibor Moricz, pela Tarja. Elogiado por seu romance de estréia (Síndrome de Cérbero), o novo livro traz histórias de um mundo destruído, apocalíptico, onde a fome é catalizador do instinto de sobrevivência mais básico dos seres humanos restantes. Dando início à divulgação do lançamento, Romeu Martins publicou o prefácio escrito por ele, bem como republicou o conto de abertura, "O Caçador", que mini-resenhei antes e reproduzo aqui:

"Chocante, intenso e sangrento. Neste conto o Tibor consegue colocar diversos temas comumente tratados como tabu de forma crua e direta. A história prende, flui bem e tem um final condizente, infelizmente um pouco previsível, mas nada que realmente estrague o conto - minha opinião, é claro. O resultado final é instigante e estou ansioso para ler os demais contos no livro "Fome", que será lançado em breve pela Tarja, segundo o autor.

Um aviso: tenho certeza que muitos leitores sentem-se realmente chocados com algumas situações retratadas no texto; eu também fiquei desconfortável... mas não é realmente chocante para mim. O "universo" em que a história se passa permite isso, é algo comum aos personagens, um fato da vida. Mas, esteja avisado! Não é leitura para qualquer um, com certeza.
"

23.11.08

um melancólico coaxar


A busca pela magia perdida.
Por Rita Maria Felix da Silva

Genésio Rodopio crescera fascinado por magia, como, porém, ensinaram-lhe que esta não existia, contentou-se em ser, apenas, mágico.

Por um tempo, os truques de salão, as técnicas de ilusionismo e os aplausos de um público que apreciava ser enganado serviram para animá-lo, mas, dez anos naquele ofício enfastiaram-lhe a alma. Ansiava por magia, como nos livros e desenhos animados, como nos quadrinhos e filmes: vibrante e miraculosa; impossível e explosiva.

Dedicou-se, então, a estudar Ocultismo. Naquelas páginas e segredos, nos rituais, cerimônias e tomos antigos, buscava reencontrar a magia, que já habitara o mundo em alguma época e, assim pensava, ele poderia trazê-la de volta.

Seu espírito, todavia, descobriu somente frustração e recorrentes dores de cabeça que os médicos não souberam explicar. Afundou-se em remédios e bebidas e começou a errar os truques na hora do espetáculo.

Até que uma vez foi pior que todas. Confundiu-se ridicularmente e a platéia gargalhou tanto que lhe feriu a honra e a alma. A dor de cabeça voltou mais forte que nunca e algo estourou lá dentro. Dizem que vacilou, tremeu, balbuciando como se procurasse uma palavra, e então gritou algo terrível e antigo, do tipo que não deveria mais ser ouvido neste planeta...

Mais tarde, quando a polícia chegou para investigar acontecimento tão bizarro, encontrou apenas estátuas de uma perfeição artística invejável, conforme afirmaram os jornais da época, sentadas onde deveria estar a platéia daquele teatro. No palco, aninhado entre as roupas que pertenceram ao mágico Genésio Rodopio, podia-se ver um sapo de pele azulada, do tamanho de um punho humano fechado, de cujos olhos, assim ainda contam, saltava a maior tristeza imaginável e que coaxava melancolicamente.


FIM

Mãos de Borracha

Humor e erotismo no futuro.
Texto e arte por Maria Helena Bandeira

Mãos de Borracha levantou-se de seu esquife prateado, atendendo ao chamado do Mestre. Sua cliente da Nova Esplanada estava marcada para aquela tarde. Uma mulher estranha. Mãos de borracha não fora criado para julgar. Sua função era bem específica.

O Mestre lhe deu as coordenadas exatas, embora ele conhecesse o endereço - no bairro dos Novos-Ricos, rua dos Corruptos. Ignorava porque recebera este nome, já fazia muito tempo e Mãos de Borracha fora criado na época da Salvação, quando tudo se tornara informatizado e não havia mais como roubar, ou o que roubar, exceto tecnologia limpa. Mas era muito difícil burlar a hacker-segurança.

Ativando seu discriminador, subiu verticalmente acima dos prédios flutuantes e continuou sob as nuvens calmas, até avistar a Esplanada.

A mansão estava aberta a sua espera. Na sala uma jovem mulher nua e preparada. Mão de Borracha sentiu uma espécie de felicidade percorrer seus circuitos. Tinha orgulho do seu dom.

Dirigindo-se para a prancha onde a jovem aguardava, começou suavemente a massagear os pés. A técnica de Info Do In que usava era essencial para o relaxamento dos estressados membros da elite. Especialmente jovens esposas de executivos que manipulavam as complexas estruturas alimentadoras do Sistema. Desde que as mulheres voltaram ao Lar, não conseguiam se adaptar sem relaxamento especial. E Mãos era o mais solicitado dos massagistas.

Passou para as pernas e tocou os pontos delicadamente, conseguindo um profundo repouso.

De repente, suas mãos flexíveis começaram a se comportar estranhamente. Deixaram a conhecida massagem, passando a um ritual erótico de manipulação, toques estratégicos que faziam gemer a jovem senhora em um estado perigoso de excitação. Apavorado, perplexo, Mãos tentava controlar seus membros lascivos mas não conseguia. Enquanto, aterrorizado, inutilmente buscava se conter, aqueles dedos libidinosos continuavam sua caminhada pelo corpo nu e a paciente, cada vez mais enlouquecida, retorcia-se de gozo na prancha.

Finalmente a mulher parou, arquejante e as mãos repousaram.
Ela se levantou, olhos quebrados, pagou os créditos devidos e saiu.
Mãos de Borracha fiou parado, destruído, incapaz de raciocinar sobre o que acontecera, como seu programa fora invadido de forma tão perniciosa.

Na central de atendimento, o Mestre recebeu a ligação esperada:

- Funcionou perfeitamente. Podemos explorar o protótipo.

O massagista voltou para seu esquife. Colocou as mãos de borracha no desmaterializador de lixo e aguardou até que nada mais restasse de suas fibras enganadores.

Depois juntou os tocos dos braços sobre a barriga e dormiu dez anos.

Na Idade da Inocência, finalmente, foi reutilizado e programado pra ser cabeleireiro maquiador.

22.11.08

Ressaca

Sabedoria popular no espaço
Por Ana Cristina Rodrigues

Ai. Que puta ressaca. Misturar destilados hidrolíticos marcianos com licores da Nuvem de Magalhães não podia dar certo mesmo. Droga. Melhor pegar o cartão de ignição e sair dessa espelunca...

Opa, calma aí. Cadê meu cartão? Sem ele, não consigo dar a partida no meu velho XTR 450, modelo adaptado pro Sistema Solar. Será que eu perdi em algum canto? Bom, não vai ser difícil entrar sem ele, e lá dentro eu faço uma ligação direta na corrente de neutrinos azuis...

Pó, eu devo estar olhando a escotilha errada, só pode ser. Cadê a sucata que eu deixei ali, noite passada? Ah, droga. Meu cronômetro deve estar errado. Não podem ter passado 5 dias-padrão solar desde que eu cheguei aqui, e ele diz que foram 3 semanas!

Ih, não é meu cronômetro não. O da parede está marcando a mesma data.Ai, não; perdi a data da entrega da mercadoria. Quer dizer, acho que até a mercadoria eu perdi. Vamos recapitular aos poucos, se a cabeça não rachar no processo.

Peguei a carga de urânio ultra fino, coloquei no XTR e parti em direção ao sistema solar. Era uma encomenda para as usinas termo-nucleares de Marte. Só que, ao chegar na órbita de Júpiter, senti sede e resolvi parar.

Era o bar mais falado entre os carregadores de todo o braço inferior da Galáxia. Também, merecia. Bebida boa, comida farta, e companhia à vontade. Para todos os gostos e preferências, machos e fêmeas de todas as raças conhecidas. Foi ali, no salão principal do bar que eu a vi.

Todas as marcianas são maravilhosas – seleção genética apuradíssima dos colonos e dos fetos autorizados a completar a gestação – mas aquela ali era simplesmente divina. Pele negra como ébano, cabelos brancos até a cintura e olhos com a cor das nuvens de tempestade, veio em minha direção com um sorriso nos lábios perfeitos e um copo na mão.

O que foi que ela disse? Merda de dor de cabeça. Ah, ela veio com algum papo mole desses, elogiou meus dois tentáculos laterais ou coisa do tipo.Não lembro, só consigo sentir o gosto da bebida e ...Piranha, vadia, ela me dopou. Ela deve ter pego meu cartão de ignição, roubado minha nave e...

****

Os pensamentos do arcturiano foram interrompidos pela vozinha aguda de um insetóide.

- Senhor? Senhor? Com licença, ficamos felizes que tenha se recuperado. Parece que sua raça tem uma alergia especialmente forte a algumas bebidas do sistema solar. O senhor ficou em coma durante alguns dias. Sua nave foi colocada em uma vaga a parte, e seu cartão ficou conosco para sua maior segurança.

Com um resmungo, pegou o cartão e foi embora sem agradecer. Não viu o sorriso cínico da funcionária, e não reparou que estava sem seus dois tentáculos laterais, situados atrás dos braços.

Atrás do balcão da recepção, um cartaz piscava:

“Atenção, tentáculo e outras partes corporais dispensáveis de pessoas embriagadas serão consideradas sem proprietário legítimo”

20.11.08

À nossa imagem e semelhança

Por que tantos ETs humanóides na TV e no cinema?
Texto e ilustrações por Romeu Martins

Jack Cohen é um biólogo especializado em reprodução que se diverte criando imaginários seres alienígenas, levando em conta fatores como a influência da gravidade e a questão da adaptação em ambientes diferentes do nosso planeta. As versões que ele faz dos ETs são bem distintas daquelas que estamos acostumados a ver no cinema e na televisão. "Encontrar outro planeta com dinossauros ou pessoas iguais às da Terra é mais improvável do que encontrar uma ilhota do Pacífico cujos habitantes falem alemão fluentemente", escreveu Cohen para o semanário de divulgação cientifica New Scientist (no Brasil, o artigo foi traduzido e publicado pela Superinteressante, em 1992). Apesar do ceticismo científico e da crítica bem-humorada de Cohen, e apesar do fato de que as princiais apostas da Ciência em termos de alienígenas sejam simples bactérias e microorganismos, os alienígenas antropomórficos ainda são a maioria, tanto nos relatos supostamente reais quanto na ficção científica.

Isso acontece, até mesmo, no caso mais famoso em que esses dois extremos estão unidos. Estamos falando daquelas fitas que correram o mundo em 1995 mostrando o que seria a autópsia dos ETs do "Incidente Roswell". Esse é o nome pelo qual ficaram conhecidos os boatos de uma nave espacial que, muitos juram, teria caído nos EUA, no dia 4 de julho de 1947 (vários filmes fazem referência à história, os mais recentes são Independence Day e Caso Roswell, respectivamente de 1994 e de 1996). Por todo o mundo, especialistas em imagem garantiram que tais fitas são uma farsa e que os autopsiados são bonecos de borracha como aqueles dos seriados japoneses.

Mas o fato é que, sendo uma farsa ou não, os seres correspondiam à descrição da maioria dos relatos dos chamados contatos imediatos de terceiro grau (além de ser nome de filme de Steven Spielberg, o termo em jargão ufológico trata do encontro entre humanos e extraterrestres). Ou seja, eram humanóides atarracados, com cabeça e olhos enormes e a pele em um tom que vai do cinza ao verde. Dessa forma, chega-se a uma questão interessante: os filmes retratam as criaturas espaciais como seres antropomórficos para serem fiéis a tais relatos ou cada vez mais pessoas, influenciadas pelo que vêem no cinema e na TV, são levadas a crer na existência de homenzinhos verdes? Seria muito simplista dizer que os cineastas procuram ser realistas quando apresentam aliens em seus filmes, afinal essa é a explicação em poucos casos, por exemplo no telefilme Intruders, mas na maioria das vezes as razões são bem diferentes.

A mais famosa delas é a de que ETs infiltrados entre nós são a metáfora perfeita para tratar do medo que temos de quem pensa diferente. Os exemplos de filmes pós-II Guerra apresentando versões espaciais dos soviéticos são clássicos. Em Vampiros de almas (também conhecido por aqui como Os invasores de corpos), a história contada em flash-back mostra uma cidadezinha americana invadida por uma espécie de vagens das quais brotam clones perfeitos dos moradores. O ano era 1956, e bastava dormir para ser substituído por um desses invasores. As criaturas contam seus planos para o casal de mocinhos (Kevin McCarthy e Dana Wynter): criar uma sociedade "em que todos são iguais" e desprovidos de sentimentos como "amor, desejo, ambição, fé". Poderia haver uma melhor descrição da visão de um americano em relação aos comunistas, naqueles tempos de Guerra Fria? Mas é bom lembrar que o diretor, Don Siegel, sempre afirmava que na verdade estava fazendo uma caricatura de seres bem mais próximos da realidade dele: os produtores de cinema.

Exatamente 40 anos depois, A invasão, de David Twohy, utilizou o mesmo princípio para tratar de um novo inimigo dos EUA. É bem verdade que uma cena na qual um alienígena ataca o herói com uma foice faz lembrar do tempo dos comunistas do espaço, mas agora os invasores não são mais da cortina de ferro, do segundo mundo. São do terceiro. Estranhos seres montam bases nos países subdesenvolvidos ("onde não há leis rígidas de controle ambiental") para alterar a Terra, transformando-a em uma segunda versão do planeta deles. Os Ets, que já são antropomórficos por natureza, disfarçam-se de mexicanos, com as características étnicas dos descendentes dos astecas. Quando o mocinho (Charlie Sheen) conta para a namorada a história de aliens invasores, ela responde aproveitando-se do duplo sentido do termo em inglês: "É melhor que você esteja falando de imigrantes ilegais". Os novos invasores da América somos nós, "brazucas", "chicanos" e "cucarachas" em geral que não sabemos cuidar de nossos países e vamos para lá incomodar os coitados.

Outra questão que deve ser levada em conta são as implicações religiosas de ETs antropomórficos nos filmes. A visão de mundo ligada ao cristianismo diz que fomos criados à imagem e semelhança de Deus. Se existir vida fora da Terra, Ele deve ter usado a mesma lógica ao povoar outros planetas - dessa maneira, os alienígenas, e nós mesmos, seriamos todos seres teomorfos, certo? Dando um giro de 180 graus e analisando o caso pela ótica da "religião das ciências", os fatos são bem outros: segundo os positivistas, foi o homem quem criou a idéia de deus à sua semelhança, e não apenas Jeová, como todos os demais panteões, do hindu ao egípcio, são criações antropomórficas. E, em última análise, o que é o conceito de Deus além do de um ser de fora do planeta, ou seja, um extraterrestre?

Não se trata de fazer a defesa das idéias de Erich Von Daniken, o escritor de arqueologia fantástica que acredita na interferência direta de seres de outros planetas na Terra, cujos sinais de sua presença seriam os cultos de figuras míticas. Mas é inegável que o homem procura encontrar repesentações de si mesmo naquilo que escolhe para adorar ou para temer. É natural que se transfira essa analogia para as criaturas de outros mundos que ele se propõe a imaginar. A partir de pequenas variações desse formato é posível construir uma série de simbolismos em torno dessas figuras - as presas e garras com que H. R. Giger produziu os monstros de Aliens e de A experiência representam perfeitamente a idéia do mal; enquanto que os grandes olhos brilhantes e a pequena estatura do ET, de Spielberg, e do mestre Yoda, de Guerra nas Estrelas, despertam simpatia.

A motivação para se criar alienígenas de forma humana pode ter ainda razões bem prosaicas, tal como a falta de dinheiro. E pouca verba e muita imaginação é sinônimo da série clássica de Jornada nas Estrelas, criada por Gene Roddemberry, que deu origem até agora a uma dúzia de longa-metragens para o cinema, desde 1979, e quase meia dúzia de seriados televisivos. Uma de suas inovações estava na tripulação da USS Enterprise. Além de um oficial russo, o piloto Pavel Chekov (interpretado por Walter Koening), em plena época de Guerra Fria, o segundo-em-comando da nave era um alienígena. Para fazer o papel do vulcano sr. Spock, Leonard Nimoy só contava com as famosas orelhas pontudas e um irritante senso de lógica. Outras diferenças anatômicas, como o sangue verde e o coração no lugar do fígado eram só sugeridas ao longo dos episódios.

Existe outra série que também sabe lidar bem com a semelhança entre ETs e humanos que o formato televisivo praticamente obriga a seguir. Arquivo X é aquela mistura de policial-suspense-ficção científica-terror, criada por Chris Carter em 1993. O ponto forte do seriado é o relacionamento de dois agentes do FBI, um extremamente crédulo e outra completamente cética, que investigam casos inusitados, com ênfase nos ligados a extraterrestres. Nos melhores episódios existem evidências que podem se encaixar tanto na ficção quanto em uma perspectiva científica. Um exemplo são os episódios "Os Japoneses" e "O Falso Alienígena" (o título em português é bem inadequado), do terceiro ano da série, disponíveis em vídeo no Brasil na fita Autópsia. O caso parece envolver experiências com híbridos humanos-aliens, mas também há evidências de que os seres encontrados na trama possam ser humanos portadores de hanseníase.

A verdade é que nenhuma das características vistas aqui exclui as demais, e duas ou mais delas (ou ainda outras, como a simples falta de imaginação, presente em dezenas de produções, ou a intenção satírica de filmes do tipo Spaceballs e Mars attacks) podem coexistir em uma mesma obra motivando a apresentação de alienígenas antropomórficos. E quanto a disputa do biólogo Jack Cohen e dos cieneastas para ver quem está certo nessa história toda, só podemos esperar para ver. Veremos se no dia em que fizermos contato vamos encontrar do outro lado da linha homenzinhos verdes ou simplesmente um bando de melecas esverdeadas.

19.11.08

Lamentações de Jeremias

Uma vingança em ritmo pulp por Lúcio Manfredi


Jeremias Moranu odiava esse tipo de clichê, mas tinha de admitir que aquilo era uma arma-laser e estava diretamente apontada para a cabeça dele. De pouco adiantaria sugerir ao autor que ele deveria ter optado por uma abordagem mais sutil e que muita água rolara por baixo da ponte desde os bons tempos da space opera, quando os heróis andavam pra cima e pra baixo brandindo suas pistolas. Pode até ser que fosse verdade, mas uma das virtudes do crítico descolado é saber o melhor momento para compartilhar sua sabedoria e este, definitivamente, não era um desses momentos. Em vez disso, o melhor a fazer seria ganhar tempo até que pudesse usar suas armas favoritas, racionalização e subterfúgio.


— Vamos conversar? — sugeriu o vocalizador.


Para surpresa do próprio Jeremias, o autor depositou sua arma na mesinha diante do aquário e sentou-se.


— É, vamos conversar.


Jeremias Moranu não se chamava realmente Jeremias. Essa era apenas a melhor solução a que o vocalizador chegara numa tentativa de traduzir seu verdadeiro nome, um padrão de cores que, no idioma dos críticos, significava qualquer coisa como “aquele que lamenta sem parar”. Jeremias deveria ter sido uma larva particularmente gritalhona para receber esse nome da rainha. Agora, porém, não estava com muita vontade de gritar. E percebeu que tampouco tinha muito a dizer. Esperara que o autor reagisse dizendo que não havia nada para conversar e estava preparado para responder com a arenga habermasiana padrão sobre como as partes em conflito sempre podem chegar a algum tipo de consenso, mas a concordância do outro pegara-o desprevenido. Ergueu o segundo de seus dezesseis pares de tentáculos e friccionou uma pata na outra diante do terceiro par de olhos esbugalhados, um gesto que, para os críticos, traduzia a mais profunda perplexidade. Para o humano confortavelmente instalado numa poltrona do escritório, entretanto, o gesto não tinha o menor significado.


— Achei que você quisesse conversar — resmungou, tamborilando a impaciência no braço da poltrona.


— Suponho que você está aqui porque não gostou da resenha que eu fiz de Trimalchia IV — tateou Jeremias.


— Não, eu adorei a resenha que você fez de Trimalchia IV — retrucou o autor.


Agora, o crítico esfregava nada menos que cinco pares de tentáculos diante de seus seis pares de olhos esbugalhados.


— Mas eu praticamente destruí o teu trabalho! Falei que havia tantas falhas de carpintaria que era de se espantar que a obra ficasse em pé sozinha. Disse que não passava de um amontoado de lugares-comuns que você parece ter colhido mais ou menos ao acaso no armazém da esquina... — o vocalizador fazia acompanhar cada palavra de um ruído de estática, sobrecarregado pela tentativa de capturar a tantalizante mudança de cores na carapaça do crítico.


— Eu sei.


— E mesmo assim, você adorou?


O autor levantou da poltrona. Jeremias se encolheu no fundo do aquário, mas o outro deu-lhe as costas e se aproximou da placa de transparência subjetiva. A segunda das três luas de Morania levantava-se no horizonte, banhando a sala com seu brilho violáceo.


— Ouvi dizer que, quando você era mais jovem, também se arriscou como autor.


Jeremias enrubesceu, o que, num crítico, não envolvia ficar vermelho e sim escoicear a parede do aquário com seu sétimo par de pernas.


— Ah, uma bobagem de juventude. Eu mal tinha entrado na minha oitava articulação — era impossível não notar uma certa vaidade na sintaxe das cores. — E foram só nove ou dez mundos.


O autor se aproximou do aquário, fazendo Jeremias estremecer novamente.


— Mas eu li cada um deles — assegurou. — Fui em todos os sistemas solares que você assinou, mergulhei minuciosamente na estrutura de seus mundos. De onde você acha que eu tirei os lugares que você acha tão comuns?


A carapaça de Jeremias soltou a explosão de azul que se poderia traduzir como um eureka. Era por isso que Trimalchia IV lhe parecera tão familiar!


— Você criou Trimalchia IV como um pastiche deliberado dos meus mundos?


— Mais do que isso. Trimalchia IV tem um campo ontológico configurado para a tua estrutura ôntica específica. Uma vez que você ponha seus tentáculos lá, estará preso pra sempre no envelope de realidade daquele mundo.


Jeremias emitiu a exalação fedorenta que, entre os críticos, passava por uma gargalhada.


— Acontece que eu nunca piso num mundo que tenha resenhado negativamente.


— Eu sei — disse o autor, recuperando a arma da mesinha. Só então Jeremias notou que sua primeira avaliação sobre a natureza do artefato fora precipitada.


— Eu faço parte da décima-sexta articulação de críticos! — protestou.


Não era uma pistola-laser.


— Sou um dos críticos mais respeitados de Morania!


Era um teleportador.


Jeremias se fechou completamente dentro da carapaça, um gesto inútil de defesa que não o impediu de desvanecer em uma nuvem de partículas azuladas. Antes mesmo que a nuvem se dissipasse, o autor sabia que o corpo do crítico estava sendo reconstruído por um terminal de conexões não-locais instalado numa floresta de Trimalchia IV, onde Jeremias passaria o resto das duzentas e quarenta e três articulações que ainda lhe restavam. Talvez até se sentisse bem. Afinal de contas, os menores detalhes daquele mundo haviam saído de seu inconsciente. Mas o autor preferia que não. O que ele tinha odiado mesmo era a resenha de Esperia XI.

Ibope