11.8.08

Espaço novo para a ficção científica

No site Overmundo está em votação uma resenha que fiz para um interessante projeto ligado à ficção científica. Trata-se de uma revista, de alta qualidade, reunindo escritores habituados a trabalhar com o gênero e outros que são estreantes no ramo da literatura de especulação. Cito um trecho do texto:



Na edição de lançamento, a revista recebeu o nome de Portal Solaris, em referência à obra-prima de Stanislaw Lem. Ao longo dos próximos três anos, a cada semestre, um novo Portal deve ser lançado, sempre com a mesma intenção de homenagear grandes ícones da ficção científica; pela ordem, são eles Neuromancer, Stalker, Fundação, 2001 e Fahrenheit. A idéia por trás desta lista de títulos é simples, mas pode dar um bom resultado: o projeto pretende despertar o desejo por FC de qualidade em novos leitores, criando uma demanda para ser satisfeita em uma fase posterior. Neste primeiro momento, os autores reunidos se divididem em cotas para bancar a publicação, cuja tiragem reduzida é distribuída entre alguns formadores de opinião por todo o Brasil. Somente após consolidar o conceito, ao longo das seis edições anunciadas, é que os responsáveis pretendem transferir o Portal para uma editora, incubida da impressão e distribuição, passando assim a remunerar seus colaboradores com os direitos autorais.





O texto vai ficar em votação aqui até alcançar 70 pontos e ser definitivamente incorporado ao overblog. Conto com a leitura e o voto de todos. Independentemente do resultado, mais tarde publicarei o texto no blog irmão deste, depositário de resenhas e de entrevistas, o Ponto de Convergência. Aqui ao lado, você pode conferir a bela capa da edição de lançamento do projeto Portal, coordenado pelo escritor e ensaísta Nelson de Oliveira.

8.8.08

A menina e o palhaço

Uma paranóia de infância por Clinton Davisson

Apesar do medo, a menina largou a mão do pai. Foi procurar a bola que havia caído de sua mão. O circo estava transbordando de gente. A noite se fazia sentir fria e escura. O vento vinha com cheiro de poeira de cascalho.

Com cinco anos, ela era medrosa. Mas o pai lhe disse em casa, antes de sair, que não compraria outra bola se ela a perdesse de novo. Mesmo assim, ela insistiu em levar a bendita bola de plástico. Nunca mais o pai tornaria a vê-la.

Por isso ela correu atrás da bola de plástico, que quicou e entrou numa porta aberta. Era a porta de um barraco de madeira velho. Lá dentro, tudo era escuro. Uma escuridão sufocante, claustrofóbica. Ela sentiu a barriga congelar de medo. Sentiu náuseas, mas seu pai disse que não compraria outra bola.

Ela chegou na porta, mas tudo continuou escuro lá dentro. O cheiro de mofo era forte. Lentamente seus olhos foram se adaptando à escuridão. Das diversas formas escuras que podia discernir no chão do barraco, uma era arredondada. Deu um passo para dentro daquela escuridão e imaginou que monstros podiam habitar naquele ambiente mofado. Deu dois passos e procurou um interruptor de luz, mas não achou. Imaginou que alguma coisa poderia segurar sua perna, algo que teria a mão peluda e molhada. Seu coração acelerou. Sentiu vontade de correr para fora do barraco, mas seu pai não compraria outra bola. Ele que nem sentira sua falta!

Deu o terceiro passo para frente. A escuridão pareceu engoli-la. Imaginou novamente uma coisa saltando sobre ela. Algo que teria um hálito de repolho podre e dentes afiados. Mesmo assim deu o quarto passo. Desta vez pode ver bem a bola. Abaixou-se para pegá-la. Sentiu a poeira do chão lhe sujando as mãos. Levantou-se e caminhou apressadamente para a porta. Seu medo foi aumentando, o coração disparou. A coisa agora poderia puxá-la para dentro da escuridão, fazer coisas com ela que seriam mais horríveis do que qualquer imaginação, qualquer pesadêlo.

A menina fechou os olhos e correu. Sentiu os ouvidos zumbirem, a respiração ofegante. Um suspiro em sua nuca, uma eletricidade em seus cabelos. Quase podia sentir a presença da coisa!

Quando abriu os olhos, estava do lado de fora do barraco. A bola em sua mão. Novamente o vento soprava em seu rosto. Finalmente suspirou aliviada.

– Como vai?

Ela olhou para o lado e viu uma coisa estranha, porém engraçada: um palhaço olhava para ela de uma pequena janela, de um outro barraco. Ele estava com a cabeça e um braço para fora da janela.

– Quem é você? – perguntou a menina.

– Me dê a mão, eu estou preso aqui! – disse o palhaço sorrindo.

A menina também sorriu. O palhaço tinha cabelos vermelhos, a cara grande e branca. A boca era vermelha e enorme.

– Como você ficou preso? – perguntou a menina.

–Uns homens maus me prenderam aqui, me dá a mão!

A menina começou a estender o braço, mas parou. Olhou para os lados. Não havia ninguém por perto. Todos deviam estar dentro da lona vendo o espetáculo. Onde estava seu pai?

– Eu tenho medo! – protestou.

– Por favor! Os homens maus me colocaram aqui. Se me tirar daqui, eu faço você rir. Você vai ser feliz para sempre!

A menina hesitou, mas estendeu de novo o braço e segurou a mão do palhaço. Ele segurou a mão dela e puxou para dentro do barraco.

A menina gritou, mas ninguém escutou.

O rosto do palhaço se transformou numa coisa muito mais feia do que todas as coisas que a menina imaginava. Os dentes cresceram e saltaram para fora da boca. A menina gritou ainda mais quando os dentes se encravaram em sua barriga!

– Você vai sorrir para sempre! – gargalhava o palhaço – Todos aqui sorriem!

Ouviu-se um som perturbador! Algo como um braço sendo arrancado do corpo, músculos sendo arrancados dos ossos e os gritos cessaram. Dentro do barraco, só se escutavam sons de mastigação. No dia seguinte, a polícia ainda encontrou a bola, mas o pai nunca mais viu a menina.


Este conto teve uma influência absurda de Stephen King e foi escrito após uma visita de Clinton Davisson ao circo com sua filha quando ela tinha sete anos.

Outros segredos

A metacontiuação do conto “O segredo” por Leonardo Siviotti


— Clinton Davisson? quis certificar-se o homem vestido com o uniforme dos correios. —Esta encomenda é para você.

Clinton segurou o pacote. Estranhou, pois não esperava nenhuma entrega e nem leu seu nome ali. Alguém rabiscara à caneta sobre a linha do destinatário e o endereço.

— Tem certeza que é para mim?

— Tenho.

— Preciso assinar em algum lugar?

— Não.

— Não mesmo? Sempre assino quando recebo uma encomenda. Normalmente é um outro carteiro quem trás. Ele está de férias ou foi transferido?

— Nada sei sobre ele.

Mentira. O carteiro estava jogado em meio aos vários pacotes e cartas na traseira do veículo de entregas, com o pescoço quebrado e apenas de cueca e meias. O restante de seu uniforme era vestido pelo interlocutor de Clinton.

— Tá bom. Obrigado — agradeceu, prestes a fechar a porta.

— Espere! — o homem gritou. — Tenho mais uma coisa para você.

— E o que é?

— Isso! — socou com força o rosto de Clinton, fazendo-o decolar junto com o pacote que não lhe pertencia. Tonto e caído, ainda recebeu um chute nas costas que o fez rolar pelo chão.

— Quem é você? — perguntou assustado. — O que quer comigo?

— Sou um representa da Coca-Cola Company, marca de refrigerante mundialmente famosa e vendida em mais de 140 países — disse de forma mecânica. — Perdoe-me por essa introdução ridícula, mas não posso evitá-la.

O homem fechou a porta e sacou uma pistola com silenciador acoplado.

— Lemos um conto seu, escrito em seu blog no dia 3 de Agosto de 2008, que citava a nossa empresa.

— “O Segredo”? Foi minha filha quem escreveu.

— Covarde! Querendo fugir da responsabilidade?

— Quem é você? O advogado deles? É assim que processam alguém, apontando-lhe uma arma?

— Como soube?

— Soube do quê?

— Do segredo?

— Que segredo? Aquilo é ficção, cara!

— Não! Aquilo é ficção cara, tão cara que pode fazer desmoronar o nosso império. Vim até aqui evitar a propagação da notícia. Não vai dizer como soube? Tudo bem, isso não muda nossa história. Tenho um final pouco original, mas plenamente satisfatório para mim. Vou matar o protagonista. Vou matá-lo, senhor escritor, em sua própria casa.

— Se vai matar o protagonista, atire na própria cabeça. Sou um coadjuvante. Foi você quem conduziu a história até aqui. Olhe as minhas falas; estou sempre te fazendo perguntas, levantando a bola para você contar a história. Eu quase fechei a porta e o conto teria acabado ali. Você que me socou, dando algum dinamismo a esses diálogos que nunca sairiam do lugar. É o grande responsável pela virada que nos trouxe até o segundo ato. Como assim não é o protagonista?

— Isso não é verdade — envergonhado, coçou a cabeça. Tinhas dúvidas. — Será? Eu sou o protagonista?

— Para mim, está claro. Atira logo na sua cabeça, não é bom ficar mudando o final. Acaba deixando tudo incoerente e dá um trabalho inacreditável na revisão.

— Pilantra! — gritou após uma breve reflexão, quando já apontava a arma para a própria cabeça. — Eu nem tenho um nome, você até sobrenome tem. Portanto, quem é o protagonista?

— É, bom argumento — disse Clinton, que havia se arrastado até o armário.

— O que está fazendo? Tentando abrir a gaveta?

— Não — negou, embora tivesse acabado de abri-la puxando a maçaneta.

— Como não? Você ...

— Olha aqui — Clinton interrompeu. — não estou tentando abrir gaveta nenhuma. Ela está aberta. Já está aberta, entendeu? Como posso tentar abrir o que está aberto?

Confuso, o homem distraiu-se. Aproveitando-se disso, Clinton pegou uma chave de fenda na gaveta e arremessou contra o sujeito, cravando-a em seu pescoço. Para a sua surpresa, o corpo do homem “cuspiu” a chave quase imediatamente, fazendo desaparecer qualquer buraco ou vestígio do ataque.

O homem sorriu.

— Sou um agente Coca-Cola, Clinton. O pouparei das explicações, você conhece o segredo, sabe do que sou feito. Aliás, é por isso que estou aqui. Para eliminá-lo. Agora toma; cada gota vale a pena!

Atirou três vezes.

O sorriso desapareceu de seu rosto quando percebeu que o corpo do atingido também devolvia as balas.

— Como é possível? — questionou perplexo.

— Sou um agente Pepsi — respondeu Clinton tranqüilamente. — Como acha que conheço o segredo de vocês? Ele é semelhante ao nosso. No fundo, somos parecidos, apenas com rótulos diferentes. Somos um mal necessário para o outro. Estamos sempre brigando, envolvidos em disputas. Dessa forma nos fortalecemos. Assim dominamos o mundo. Menos no Oriente Médio, onde eles preferem a Mecca-Cola.

Passaram quase meio minuto encarando-se em silêncio. Então, o homem tomou a iniciativa: largou a arma e caminhou até Clinton. Estendeu a mão para ajudá-lo a se levantar.

— Desculpe. Perdoe-me por invadir sua casa assim.

Clinton estava novamente de pé.

— Tudo bem. Também quero me desculpar por ficar espalhando o segredo de vocês por aí. Foi uma grande sacanagem da minha parte.

— Não tem problema. Ninguém lê seu blog mesmo. Se tivesse feito um vídeo no Youtube, aí sim estaríamos ferrados.

Apertaram as mãos.

— Quer beber algo para comemorar nossa trégua? — Clinton perguntou empolgado.

— Tem cerveja?

— Claro!


E logo estavam brindando e rindo como velhos camaradas. Até que, após seu terceiro gole, o homem fez uma careta e soltou um longo arroto.

— Que cerveja é essa? O gosto na minha garganta, parece até ...

— Refrigerante? Não, é cerveja mesmo. Cerveja Pepsi! — Clinton anunciou triunfante.

— O quê?

— Cerveja Pepsi, bebida secreta e exclusiva para membros do alto escalão da empresa. Tem uma fórmula semelhante a do refrigerante.

O homem desesperou-se.

— Está blefando! Você nem é alguém importante lá.

— Não era. Até nosso serviço de espionagem descobrir que um de vocês viria me pegar. De repente passei a ser peça chave. Afinal, qual é a maneira mais eficiente de assassinar um de nós dois?

— Ingerindo a bebida do concorrente — o homem disse cabisbaixo.

— Exato. Pode imaginar o quanto você será útil para empresa em que trabalho e, especificamente, para a minha carreira? Queremos estudar o seu corpo. Sua autópsia será minha promoção.

Sentindo fraqueza e dificuldade de respirar, o homem admitiu:

— Você me pegou, Clinton.

— Eu sei. Você vai morrer no fim, e não tenho mais dúvidas sobre quem é o protagonista. Garanti o posto nesse terceiro ato.

— Os dois — o homem falou com dificuldade.

— Os dois são protagonistas? Discordo.

— Não. — tossiu. — Os dois vão morrer. Tenho um sistema de defesa que me faz explodir assim que a bebida do concorrente for identificada em meu corpo. Vai acontecer a qualquer momento. Por isso não existem agentes duplos no nosso meio. É impossível traí-los.

Clinton arregalou os olhos. Sentiu a mão de seu oponente segurar com força seu braço. Ou escapava do sujeito que tossia sem parar ou entraria em contato direto com vários litros da bebida concorrente prestes a sair do corpo dele.

— Me solte, por favor! — implorou. — Não vê o quanto ficará ridículo se o conto acabar com todos mortos?

— Você tem uma única chance.

— Qual?

— Um final abrupto que encerre o conto antes da explosão.

7.8.08

Plano infalível

Quase uma ficção alternativa por Romeu Martins
com assitência técnica de uma psicóloga poliglota



Este conto está em avaliação para uma coletânea impressa, por isso foi retirado do blog enquanto durar o processo.

4.8.08

O segredo

Uma missão de espionagem industrial por Jessie Spiner

Mike não exibia aquele sorriso bobo desde que dera seu primeiro beijo. Sua mãe perguntara se ele havia se divertido e tudo que fazia era mostrar o sorriso.

Agora a situação era a mesma. Pois ele sabia o segredo.

Juntos com ele estavam Jane, assistente administrativa da Coca-Cola, e Joe, espião pago pela CIA especialmente para aquela situação. Eles haviam conseguido, pegaram o segredo.

Tudo começou no início do mês, quando Joe, seu primo, batera na porta de sua casa e disse:

- Temos que invadir a Coca-Cola.



Inicialmente, Mike não entendeu. Só após horas de conversa entendeu que seu primo foi contratado pela CIA para roubar o segredo químico da Coca-Cola, já que a assistente administrativa da empresa também era uma espiã enviada para pegar o segredo, e iria ajudá-los.


Joe precisava de alguém forte, ágil e de confiança, para ajudá-lo no roubo. “Ora, quem seria mais confiante do que alguém que me ensina a dar ‘hadouken’ no Street Fighter?”, ele argumentou, pedindo para Mike ir. No fim, Mike cedeu.

Foi numa sexta à noite. E, debaixo da roupa preta, o calor infernal de Miami piorava. Estavam do lado de fora do prédio da empresa, quando Jane finalmente apareceu e abriu a porta para eles.

Mike se apaixonou por seus longos cabelos ruivos na hora.

- Consegui desligar a câmera da escada oeste, vamos por lá. – disse ela.

- Quantos andares temos que subir?

- Sete. – “Ah, ótimo”, pensou Mike.

Depois de sete andares de bufadas e suor, finalmente chegaram. Setor 16, dizia a porta amarela enferrujada.

Ao abrir a porta, o coração de Mike foi acelerando, e assim que viu a pasta amarela, o tempo parou. Ele iria descobrir o segredo.

A fuga foi mais rápida do que a entrada, mas, por descuido, esqueceram de ligar novamente a câmera da escada oeste. Mas não importava, pois tinham o segredo.

Estavam agora na sala, e sabiam o segredo. Leram a pasta toda, letra por letra, sabiam de tudo. Sabiam da substância J e da substância B, que causava a dependência da coca. Sabiam que coca destruía neurônios. Sabiam que...

- PARADOS! MÃOS NA CABEÇA!

Apareceram, no quarto, cinco homens de óculos escuros e terno Tweed, logo apontando uma 38 Special na cabeça dos três.

- A Pasta. – pediu o homem mais alto e feio do bando, estendendo a mão. Joe, Mike e Jane se entreolharam, como se implorassem um ao outro para não entregar a pasta.

- A PASTA! – repetiu, desta vez dando um chute no joelho de Mike, que caiu no chão urrando de dor.

- Está aqui. – mostrou Jane. O homem alto e feio pegou a pasta e a deixou bem junta de si, como um cão fiel ao dono.

- Vocês três serão presos por roubarem informações da Coca-Cola e entregar para a Pepsi. – disse um outro homem alto e feio, com uma voz mecânica.

- Mas isso é mentira! Não mostramos as informações a ninguém!

O homem da voz mecânica fez cara de ‘quem liga?’ e começou a algemá-los.

E assim foram presos por furto. Mas sabiam o segredo. Sabiam que não viveriam por muito mais tempo, pois aqueles não eram agentes normais. Sabiam que cada molécula do corpo daqueles agentes era feita de pura Coca-Cola. Afinal, eles sabiam o segredo.

27.7.08

Sobre livre-arbítrio e simbolismos

Uma análise do conto "A Diabólica Comédia" com base na palestra
de Borges sobre Emanuel Swedenborg por Ludimila Hashimoto

A referida palestra, várias vezes citada por aqui, apresenta uma breve biografia de E.S. e se refere à sua extensa (em volume e temas científicos tratados) bibliografia produzida, segundo Borges, com lucidez inquestionável e num estilo muito tranqüilo.

De acordo com Borges, o mais misterioso dos súditos de Carlos XII foi seu engenheiro militar, E. Swedenborg. E a Swedenborg, após uma revelação precedida por sonhos eróticos, foi-lhe permitido visitar o outro mundo, com seus inumeráveis céus e infernos.

Na Divina Comédia (a que o título do conto faz referência), o livre-arbítrio cessa na hora da morte. Há a condenação por um tribunal ao céu ou ao inferno.

Na obra de E.S. é diferente, o oposto, pois o livre-arbítrio não cessa. O outro mundo- Swedenborg sabe porque esteve lá - é mais intenso, concreto, colorido, fazendo este parecer uma sombra. Corroborando a opinião de Santo Agostinho, para Swedenborg o gozo sensual também é mais forte no paraíso (leia-se nos “inumeráveis céus e infernos”) do que aqui. Se assim não fosse também no céu/ inferno retratado no conto, Perséfone jamais teria exercido tamanha influência no enredo. Com essas obervações, podemos dizer que o "A Diabólica Comédia" é um texto ficcional que se encaixa com coerência, por vontade própria ou fruto de especulações bizantinas da minha parte, no mundo nada ficcional e nada convencional de Swedenborg.

Quanto ao papel do livre-arbítio na história, sua importância é total, uma vez que as personagens estão, o tempo todo, exercendo o poder de escolher suas ações, originadas na sua vontade mais visceral.

Borges frisa, recordando uma frase de Emerson, que, na construção de sua obra quase absurda, E.S. não argumenta em momento algum, pois os argumentos não convencem ninguém.

No conto tampouco há argumentos, no sentido de raciocínio com objetivo de gerar conclusões menos imediatas. Há ações que, uma vez transcorridas todas nesse outro mundo de imortalidade, são acertadamente intensas, sensoriais, concretas e coloridas.

Para Swedenborg, tudo deve ser lido e interpretado – metáforas, símbolos, hipérboles -, o que nos remete a mais um tema de sua enorme obra: a doutrina das correlações. Ele diz que cada palavra na Bíblia tem pelo menos dois significados. Dante (vale a pena mencioná-lo mais uma vez) acreditava que havia quatro significados para cada trecho.

Em sua aula na Universidade de Belgrano, Borges dá um ou outro exemplo (dois, na verdade) de palavras incluídas na taxionomia do sistema de correlações de E.S.

A luz, por exemplo, é símbolo evidente da verdade.

O outro símbolo mencionado tem presença bastante relevante no conto. (Para minha sorte, uma vez que não tive acesso à obra original de Swedenborg e me guio exclusivamente e com confiança cega – sem trocadilho – pela palestra do escritor argentino).

O cavalo representa a inteligência pelo fato de nos levar de um lugar ao outro.

Nos seguintes trechos da "Diabólica Comédia":


“- Vou levar tua montaria como símbolo dos meus intentos.”



“(A) rainha estava ao lado de seu amante, montada com ele no cavalo encarnado”



o cavalo é também, numa das leituras possíveis do conto, um símbolo da inteligência que dá mobilidade aos anseios. Ela constitui um dos quatros caminhos para a salvação, uma inovação na doutrina de Swendenborg, uma vez que a salvação tradicional da igreja sempre foi apenas a de caráter ético, exaltando a justiça e a bondade.

A inteligência abstrata é aqui um segundo caminho, que deve incluir, segundo E.S., os gozos e os prazeres da vida. O terceiro caminho ou tipo de salvação é acrescentado por William Blake: o exercício da arte.

Insistindo nos paralelos: A inteligência do guerreiro revoltoso do conto é vermelha, vigorosa e indócil. A ética, intricada demais entre diversos níveis de motivações pessoais para que tenhamos disposição para analisá-la aqui. Quanto à arte, esse protagonista poderia ser considerado, de alguma forma, um artista?

Seria mais interessante que essa pergunta ficasse solta, lembrando apenas que, metalinguisticamente, suas ações nos dão a impressão de conter, sim, uma preocupação estética subliminar, especialmente na primeira parte do texto. São, ao menos, cheias de uma dignidade teatral.

A quarta via para a salvação, a mais negada em versões comuns do céu-inferno, seria a dos prazeres originados no corpo sensorial. Aí entra Perséfone, despertando o poeta no guerreiro, o amor no coração revoltoso. O homem que chega ao céu após uma vida de renúncia aos gozos sensuais, segundo anedota narrada por Swedenborg, não é capaz de compreender as conversas dos anjos, nem de apreciar a arte, "por se haver empobrecido. É, simplesmente, um homem justo e mentalmente pobre."

Não devemos ir mais além nas considerações iniciadas cinco parágrafos acima. Afinal, não cabe a ninguém decidir, sequer imaginar, quem será salvo ou não.

Sobre o livre-arbítrio recai toda a pressão de existir, qualquer que seja o mundo.

E parece que a salvação passa longe do intento dos personagens. O desejo de Lúcifer, Gabriel e Perséfone exclui rezas, adorações a deuses e apegos a entes queridos e é, tomando versos de Tennyson citados na aula magistral em que me apoio para esta análise: simplesmente possuir o dom de permanecer, de não cessar.



Referência bibliográfica: Borges, Jorge Luis, Cinco Visões Pessoais, Brasília, Editora Universidade de Brasília, 1985.

Ilustração: Inferno Canto XXV - William Blake (1790)

A Diabólica Comédia

Uma conspirata apocalíptica por Romeu Martins


– Nunca mais um eunuco do senhor!

Aquilo foi dito com tamanha determinação, ainda no interior do palácio real, que não deixou dúvidas quanto à seriedade do momento. O guerreiro deu as costas a seu antigo comandante e mais à frente, quase na saída daquele ambiente opressor, se voltou para tornar a gritar, agora batendo o punho direito contra o peito largo:

– Deste dia em diante exerço a força em meu nome, estás ouvindo? Apenas em meu nome.

Já na rua, não houve necessidade de outras demonstrações tão enérgicas. Aos descontentes que o esperavam, só um sinal de cabeça já bastou; eles o seguiriam para onde quer que ele fosse, sem hesitações. Assim foi feito. Das mãos de um serviçal que o aguardava, subserviente, o guerreiro pegou a espada flamejante, responsável por tanta desgraça e destruição evocadas em nome do mestre que acabara de abandonar.

Novamente armado, ele rumou com passadas largas às estrebarias do reino. A multidão de seus seguidores se limitou a observá-lo de longe. O soldado amotinado escolheu, entre os garanhões ali guardados, o de cor vermelha, o mais vigoroso e indócil de todos. O cavaleiro, dono daquele animal, se aproximou para tentar entender a situação e ouviu a voz que não pode ser desobedecida.

– Vou levar tua montaria como símbolo dos meus intentos. Mas esperai, tu e teus irmãos, pois voltarei aqui em breve para pôr fim a esta ociosidade que atormenta a todos que não suportam mais os desmandos deste déspota. Será o dia em que a guerra saciará a fome e a sede com recompensas por tanto tempo adiadas em nome da covardia.

O cavaleiro não demonstrou nenhuma objeção, pelo contrário; abriu passagem ao revoltoso com um sorriso nos lábios, só escondido pela barba grossa. Depois, tomou o caminho de casa para avisar os três outros gêmeos: os dias de glória, há tanto anunciados, não tardariam a chegar.

Espada nas costas, montaria entre as pernas, o soldado se retirou do reino escoltado por uma legião de guerreiros fiéis. Muitos outros o teriam seguido, mas o temor de desagradar a ira do senhor daqueles domínios não permitiu tamanha ousadia. Porém, mesmo o mais inocente dos querubins sabia que os dias nunca mais seriam os mesmos. A semente da dúvida, naquele momento semeada, logo geraria frutos. As noites das Grandes Fogueiras voltariam a produzir muitas vítimas.

A jornada dos revolucionários que abandonaram as Terras Altas não seria rápida nem seria fácil. Antes de chegar a seu objetivo, eles passaram por cidades intermediárias, na nação em eterno litígio entre as duas potências da época. Mesmo sabendo da importância da disciplina entre as tropas, o general do exército rebelado permitiu o saque àqueles lugares durante a longa travessia. Pilhagem, bebidas e mulheres fariam bem ao moral da soldadesca, há tanto tempo vivendo sob regras que a todos incomodavam e que, ao fim e ao cabo, foram o motivo fundamental para terem escolhido seguir um novo líder. O intervalo seria útil também para que o guerreiro pudesse mandar batedores avançados ao destino final da marcha, com isso adiantaria os planos que tinha em mente e que compartilhara com bem poucos de seus legionários. Usaria o tempo ainda para escrever e reler cartas que falavam de promessas de amor macio como flor cheia de mel, de uvas negras, de festas e flores, de corpos e dores, de incensos e odores.

Nestas horas, ele, o veterano de tantas e tão sanguinoletas batalhas, se pegava suspirando como um reles poeta apaixonado.

Quando finalmente chegaram às portas do Reino Inferior, para a surpresa de muitos dos comandados, já havia um exército para recepcioná-los. As forças locais excediam em muito o contingente dos visitantes, tanto em número de soldados, quanto na força das armas. Um único disparo daqueles arqueiros era o suficiente para matar mil aves no ar. Além disso, os defensores estavam muito mais bem posicionados, num ponto elevado de uma escarpa inexpugnável. Tantas vantagens deram coragem ao soberano para acompanhar pessoalmente esta campanha, ao contrário do esperado de um ser conhecido por operar nos bastidores e por evitar, quando possível, embates físicos. Lá estava ele, à frente de seus muitos generais, olhando com ar zombeteiro os recém-chegados. Certamente, ele iria exigir que todos depusessem armas e lhe jurassem fidelidade e lhe prestassem honras para só então serem admitidos em seus domínios.

Porém, antes de qualquer um dos dois comandantes das frentes antagônicas proferir palavra, uma voz se fez ouvir vinda da liteira de aspecto frágil que seguia os defensores do Reino Inferior. Era a voz da mulher que já era rainha de lá antes mesmo da chegada do atual mandatário, o usurpador que matou seu primeiro marido, tomou a coroa ensanguentada e ela mesma como despojos de batalha.

– Tragam a cabeça de Lúcifer, em uma bandeja, para mim.

Acostumado a trair, o Príncipe das Mentiras não esperava por aquele golpe. Não teve nem tempo de esboçar reação quando as mãos daqueles que, ele esperava, fossem seus mais fiéis servidores o agarraram e o puxaram para uma sessão de torturas cruéis. Garras rasgaram a carne que não é carne e fizeram jorrar o sangue que não é sangue. Muitas vinganças ansiosamente aguardadas foram saciadas naqueles momentos de fúria.

Foi Belzebu o demônio encarregado de cumprir os detalhes da ordem pronunciada a partir daquela liteira. Mas Perséfone não se encontrava mais no objeto luxuosamente decorado. Agora que não precisavam mais se preocupar em não serem vistos juntos, a rainha estava ao lado de seu amante, montada com ele no cavalo encarnado excitado com o cheiro de sangue vindo da cabeça de olhos arregalados e boca entreaberta que jazia entre seus cascos. Não se sabe ao certo quem puxou o coro, mas ele logo foi acompanhado pelas milhares de vozes dos anjos e demônios ali reunidos, a tal ponto de o brado ser ouvido nitidamente por todos os habitantes dos três reinos:

- Ave, Gabriel, novo Imperador do Inferno! Nos guie na vitória final contra Deus e a Humanidade!

26.7.08

Leia esta canção

Tem um conto meu no mui interessante blog Letra e Vídeo, criado pela presidente do Clube de Leitores de Ficção Científica - CLFC. Segue abaixo a apresentação que ela fez do projeto:

Todas as formas de arte se ligam de alguma forma, ainda mais no mundo do Pós-Contemporâneo (pois sou historiadora e chata - quase um pleonasmo - e o que vem depois da época contemporânea não pode ser meramente pós-moderno!). Livros podem virar filmes que geram trilhas sonoras que geram vídeos que inspiram pessoas a escreverem contos. Mídia e suporte são entrelaços, deixaram de ser amarras e tornaram-se opções não excludentes.



O projeto do blog Letra e Vídeo nasceu no coletivo Fábrica dos Sonhos, onde havia o desafio de criar um conto de 500 palavras com base/inspirado/sobre uma música. Por algum tempo, o projeto foi um sucesso até se desgastar. Olhando alguns dos contos que criei para essa atividade, tive vontade de fazer ressurgir essa idéia, abrindo para quem quisesse participar.

Eis a origem do Letra e Vídeo, um blog de textos literários - sem restrição de gênero, estilo, nem mesmo de ficcionalidade - inspirados em/por músicas. Aceitamos contos, noveletas, poemas, haikais, crônicas, ensaios…

Seja bem-vindo e comente os contos, mesmo que seja para fazer críticas duras. O projeto é aberto inclusive para isso.

Saudações,

Ana Cristina Rodrigues

Dito isso, meu texto levou o título “A Diabólica Comédia” e foi inspirado na música “Ave, Lúcifer”, do melhor disco, da melhor banda que o Brasil já teve. O conto pode ser meia boca, mas o vídeo da canção vale a pena. Confira aqui.

Em tempo: meu despojado texto foi merecedor de um verdadeiro ensaio teórico-hermenêutico da mais alta qualidade e densidade, escrito por minha adorada amiga Ludimila Hashimoto à luz de Borges, o Maradona da literatura. É um raio-x impressionante, mas não impressionista, sobre minhas intenções com aquela história.

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