11.8.09

Mais novidades no 13 de agosto

Ivan Hegenberg autor de um dos livros de Ficção Científica mais interessantes lançados nesta década - Será, da editora Ragnarok, já resenhado por mim que também entrevistei o escritor - também vai por uma obra nova nas livrarias. Aproveitando para agradecer o exemplar do Portal Stalker que ele me enviou - mais comentários em um post futuro - reproduzo abaixo a capa de Puro Enquanto e a chamada que o paulistano fez em seu blog para o evento, que ocorre no Espaço Barco Virgílio. Rua Dr. Virgílio de Carvalho Pinto, n° 426, São Paulo, a partir das 19h. Muito sucesso ao meu esteta favorito da FC nacional!



Amigos
Convido a todos para, no dia 13 de agosto, celebrarmos uma série de erros. O primeiro deles, claro, é a pretensão de um jovem de se declarar escritor em pleno século XXI e em um país de iletrados. Os erros não param aí: o autor poderia ao menos escrever sobre auto-ajuda, ocultismo, fofoca, feng shui ou dicas de relacionamento. Não, o pobre insiste na literatura. Consome dez anos em um livro, tão sonhador quanto o personagem principal, tão afastado da realidade quanto aquele que delira em coma. Ousa experimentar, mistura texto e arte visual, procura a dicção dos sonhos, e apesar dos pesares, acredita que a arte está viva. Falando um pouco mais sério, Puro enquanto já começa sob um certo fracasso. Ganhei uma bolsa para realizá-lo – o PAC, Programa de Ação Cultural - mas o livro estourou o orçamento. A vontade de inovar custou caro, e mesmo com patrocínio, estamos no vermelho. Isto significa que, se eu não contar com o prestígio de vocês, simplesmente não vou poder lançar voos semelhantes no futuro. Quem é da área sabe o quanto é difícil convencer um editor a correr riscos, e se o livro não chegar aos leitores, meus próximos projetos não vão deslanchar. Peço, humildemente, para que me deem uma força da maneira que puderem.


Compareçam, tragam amigos, divulguem, participem.
Grande abraço para todos e até logo!

10.8.09

Dia 13 de agosto vem ai

Este blog dedica mais espaço à Ficção Científica que a outros representantes da literatura fantástica, mas é bem verdade que o terror também aparece vez ou outra por aqui. E na próxima quinta-feira celebra-se uma data importante para este gênero: o dia do Vampiro. Criado pela atriz e escritora Mariliz Marins - intérprete da Vampira LizVamp, filha do Zé do Caixão - a efeméride é uma boa oportunidade para festejar a criatura mais emblemática e preferência nacional quando se pensa em terror no Brasil.

Neste ano, está programado um cortejo de vampiros na Avenida Paulista, com a presença deLizVamp. O encontro será no vão livre do MASP ÀS 10 h da manhã, e de lá, todos irão para o Hemocentro, onde os participantes inverterão o fluxo natural e doarão sangue ao invés de sugá-lo.

Também no dia 13, haverá o lançamento de uma coletânea dedicada às criaturas da noite. O livro se chama Território V - Vampiros em guerra, publicado pela editora Terracota, que reúne vinte autores, entre novatos e veteranos. O organizador da obra, Kizzy Ysatis, falou sobre o projeto para o portal Fantasik. Leia um trecho a seguir:

Eu sabia que encontraria os contos certos, e encontrei, e são maravilhosos. Foi verdadeira caça ao tesouro. Os vampiros estão lá, claro que não trairia o mito, mas também está O NOVO. Então, não vou estragar as surpresas falando mais, mas tem muito conto mascarado de mesmice, só para “Nhackt!” (como diz a Lygia), te abocanhar com a surpresa, acaso não é essa a função do bom conto? E a maioria das narrativas vem na sutileza da literatura, nada à mostra, você só vai encontrar os sabores se degustar o perfume, mesmo lendo de uma assentada, como sabiamente instrui Poe.


O evento começa às 18h30 na Livraria Martins Fontes, também na Avenida Paulista, 509 (perto da estação Brigadeiro do metrô).

Para comemorar a data, devo publicar nos próximos dias um conto vampiresco de Martha Argel, que já participou deste blog com treze microcontos de terror, e também uma antiga entrevista com o cineasta Zé do Caixão, que nos respondeu treze perguntas sobre sua vida e obra tempos atrás. Boas mordidas a todos!

6.8.09

Novas impressões sobre Paradigmas

A Coleção Paradigmas já se encontra em seu terceiro volume, dando mostras de que é um projeto consolidado da Tarja Editorial. Para minha surpresa, a edição de estreia - na qual foi publicado o primeiro conto do universo dos Terroristas da Conspiração - continua atraindo atenção dos leitores e mais de leitores resenhadores.

Descobri duas novas resenhas do livro, com opiniões diversas mas bastante coerentes e equilibradas sobre a obra em geral e meu conto em particular. Pela ordem, a primeira foi a crítica de Ana Carolina Silveira em seu blog Leitura Escrita (belo nome!).

Ela abre sua resenha com uma introdução aos objetivos da Coleção Paradigmas:

O que se produz hoje em matéria de ficção fantástica no Brasil? Nós, brasileiros, deixamos a desejar comparados com autores de outras nacionalidades?

Com o objetivo de responder a primeira pergunta, em um manifesto de “estamos aqui, produzindo, e não devemos nada para ninguém”, a Editora Tarja lançou a coleção Paradigmas: por que não mostrar que nós estamos aqui, produzindo e criando?

E, também, por que não podemos quebrar paradigmas antigos – e até mesmo criar novos?

Foram escolhidos então, para o primeiro volume, treze contos de treze escritores de estilos e temáticas diferentes.


Passa então a comentar cada um dos contos, como pode ser lido neste post, mas vou capturar o trecho que fala do meu texto:

A Teoria na Prática, de Romeu Martins: Um conto que não é fantástico mas que versa sobre um tema que mora ao lado: a teoria da conspiração (às vezes ela é mais fantástica do que uma horda de orcs de vestidos de oncinha dançando a macarena, afinal). Doses maciças de ironia e humor negro em uma trama bem-construída. Fiquei curiosa por mais contos no mesmo universo e temática. :D


Minha outra descoberta é uma resenha da Rede RPG assinada por Igor "Valente". Curiosamente, a estrutura do texto é a mesma da anterior. Vamos, então, a introdução:

Lançado pela pequena Tarja Editorial com o intuito de “quebrar paradigmas” no campo da literatura de ficção científica, o livro Paradigmas – Volume 1 já vale a pena pelo preço, meros R$ 13,00. É interessante ressaltar que propostas assim deveriam ser mais comuns em se tratando de literatura nacional, pois é um estímulo a mais para comprarmos. Além disso, o livro é bem diagramado, possui uma bela capa e alguns bons contos em suas quase 120 páginas.

Apesar disso, o livro peca em alguns pontos. Em primeiro lugar, pela falta de unidade no que se refere ao gênero literário abordado. Muitos contos não podem ser incluídos, definitivamente, no gênero ficção científica, tendendo para o fantástico. Em segundo lugar, há a própria questão da qualidade dos textos. Há contos excelentes e contos mais fracos, alguns tendendo para uma sexualidade forçada. Em terceiro lugar, há a própria proposta do livro (quebrar paradigmas) que, sem sombra de dúvida, não acontece. A grande maioria dos contos, por exemplo, se vale de uma estratégia absolutamente comum na literatura brasileira contemporânea, a releitura, o diálogo com outras obras e gêneros para fundar a narrativa. É claro que a motivação da obra (lançar um livro de ficção científica com autores brasileiros) é louvável e muitos contos são realmente interessantes e, nesse sentido, é uma obra que merece ser comprada.

Portanto, como é uma obra de altos e baixos, não vamos fazer uma análise global, preferindo deixar algumas observações sobre cada um dos contos apresentados.


E, novamente, vou pinçar a opinião sobre meu conto:

A teoria na prática, de Romeu Martins: O conto se vale mais de uma linguagem dissertativa, em primeira pessoa, com muitos diálogos, para construir a sua história. Dessa forma, consegue mostrar um ponto de vista interessante, mas, como o anterior, explica demais. Seria uma história muito mais interessante se sugerisse mais e nos deixasse na dúvida, em vez de com todas as respostas prontas.


"Valente" ainda faz uma avaliação dando notas, de 1 a 6, para Trama, Texto e Narrativa da obra como um todo, marcando uma média de 5 para o livro.

São duas excelentes resenhas e fiquei muito feliz por ter tido a oportunidade de encontrá-las. Acho que só devo fazer alguns esclarecimentos quanto a questões de enquadramento de gênero. "A teoria na prática" foi pensado como um representante de uma vertente pouco conhecida no Brasil da Ficção Científica chamada Mundane. É uma versão um tanto mais restritiva e, na minha opinião, cínica, da FC. É algo fronteiriço com a literatura mainstream, por isso acho natural que alguns críticos não a considerem dentro do gênero fantástico, como fez Ana Carolina.

Um outro ponto, que talvez tenha afetado a visão de "Valente" em relação ao livro, é que Paradigmas não se trata de uma coletânea exclusivamente de FC como ele diz. A ideia original do organizador, Richard Diegues, era de lançar, sim, edições temáticas com as três grandes áreas da literatura fantástica: FC, Fantasia e Terror. Mas acabou optando por não fazer distinção tão clara entre os contos, até porque, na maioria das vezes, os melhores textos fogem a interpretações tão rígidas, unindo elementos de dois ou mais desses gêneros e de outros mais, como o policial, suspense, contos filosóficos e mainstream.

No mais, meu muito obrigado aos dois resenhistas!

5.8.09

O alienígena perdido

Uma história de primeiro contato
Por Afonso Luiz Pereira

Observo, pensativo, o alienígena à minha frente.

Que criatura horrível! Creio que já decidi o seu destino!

Quando o trouxemos para dentro de nossa espaçonave, adotamos todas as medidas de prevenção, como exigia a situação. A criatura estava inconsciente, mas limpa! Os micro-organismos que constituíam parte de seu corpo não podiam nos atingir. De qualquer forma, dada a singular descoberta daquela cápsula de sobrevivência a deriva no espaço, pelos menos assim se apresentava, achamos sensato mantê-lo isolado até que obtivéssemos informações mais consistentes.

A tecnologia da cápsula de sobrevivência alienígena era, até certo ponto, sofisticada e muito prática, porém não se poderia comparar com a eficiência das nossas. O sistema de manutenção de vida deles era arcaico não permitindo um controle rígido sob o retardamento sistemático e rápido da renovação celular, característica pertinente à natureza de sua formação física. Aquele ser envelhecera no espaço e, ao que tudo indicava, parecia estar entrando em sua fase final de vida.

Juntamente com ele, fortemente apertado em um dos filamentos que se lhe projetavam do corpo, encontramos um artefato tecnológico interessante. Era uma caixa pequena, cheia de botões coloridos, que tentamos analisar com cuidado. Poderia ser uma arma! Um mecanismo auto-destrutivo! Um sinalizador para outros de sua espécie, o que nos deixou apreensivos porque, quem vai saber, talvez tal criatura fizesse parte de uma raça usurpadora de outros mundos. Uma raça com motivações bélicas. Uma raça guerreira! Sempre tivemos medo, em nossas viagens temporais pelo universo, de esbarrar com alienígenas nada amistosos. Então, tínhamos de descobrir a capacidade tecnológica deles!

Mas a tal caixinha, acabamos descobrindo acidentalmente, não passava de um repositório de informações e imagens da cultura alienígena de onde aquela criatura horrenda viera. Levamos algum tempo para analisar as imagens e os grunhidos que eles emitiam entre si como forma de comunicação! Investimos nossos melhores cientistas nesta área para decifrar a sua linguagem e depois de alguns ciclos de intenso trabalho, obtivemos a real dimensão do contexto em que se encontrava aquele espécime perdido no espaço.

A história dele, é bem verdade, era patética! A “coisa” se achava o último de sua raça e trazia com ele material genético para florescer em outro lugar mais aprazível. Não acho que valha a pena entrar em detalhes de sua história. Vou restringir-me, portanto, a um breve resumo.

O planeta da criatura, em agonia, já definhava a quase 2 séculos. Suas reservas naturais e as condições climáticas que permitiam a manutenção de vida foram se exaurindo aos poucos pela contaminação dos seus próprios habitantes. Em meio a disputa por um líquido precioso que chamavam de “água”, fonte de vida primária de subsistência, houve guerras entre as facções mais fortes. Armas de destruição em massa foram acionadas. Aconteceu o caos!

Antes do colapso total, uma espaçonave, tripulada por cientistas, foi lançada ao espaço com objetivo de perpetuar a espécie em outro lugar! Decorridos alguns anos, infelizmente, um aglomerado de asteróides atingiu a espaçonave comprometendo a vida da tripulação. Entre eles, num acordo bastante polêmico, escolheram alguém mais jovem que pudesse ficar na única cápsula de sobrevivência que ainda funcionava. Deram-lhe material genético e a caixinha em suas mãos: o legado de uma espécie condenada à extinção que se autodenominava orgulhosamente de “A Raça Humana”!

Agora, observo o alienígena deitado a minha frente. Criatura horrível! Há uma protuberância orgânica na parte superior do seu corpo esguio que encerra toda a sua inteligência e possibilita-o, através da mesma, expedir comandos neurais para a locomoção do próprio. Ainda bem que não precisamos de tal expediente para prover nossos corpos de mobilidade!

Bem... a intenção deles de perpetuar a espécie, há que se dar crédito, foi muito inteligente. Uma das luas de nosso planeta, que é do tamanho do planeta deles, pode bem servir para oferecer as condições necessárias para voltarem a prosperar, mas...

Já decidi o seu destino!

Não vou lhes dar esta chance!

Não é pela feiúra deles, não! Já nos relacionamos com criaturas igualmente feias. É porque fico imaginando que se eles tiveram a coragem de se destruir mutuamente, imagine só o que eles não fariam se pudessem entrar em contato com outras culturas! Suas armas de destruição em massa poderiam seriamente nos comprometer também!

Por isso, vou colocar o alienígena, último remanescente de sua raça, com a sua caixinha e material genético, dentro da cápsula de sobrevivência e enviá-la para a estrela incandescente mais próxima!

Posso até estar cometendo um grave erro, mas acho que tal espécie não merece florescer novamente em nosso universo!

2.8.09

Steampunk - A primeira resenha

Por Giseli Ramos

Já ouviu falar de steampunk? Se não, a explicação curta: ficção ambientada na era vitoriana, com o uso da tecnologia das máquinas a vapor alçada ao seu maior desenvolvimento possível – isto é: o que poderia acontecer se tivéssemos ido além dos navios e trens a vapor e se as máquinas mecânicas de Babbage tivessem vingado?

Uma explicação mais longa e bem mais detalhada foi feita pela Ana Cristina aqui. Um excelente post para situar os desavisados =)

Esses dias uma coletânea steampunk me surpreendeu. Melhor ainda, uma coletânea brasileira! Algumas histórias são situadas na época do Brasil Império, quando os trens a vapor eram bem comuns por aqui. Mas há também histórias bacanas de outras partes do mundo.


Comentarei rapidinho sobre cada um dos contos:

O Assalto ao Trem Pagador, de Gianpaolo Celli – Apesar de ter achado um pouco confusa algumas descrições de cenas, a história é bem legal e dá uma causa diferente e interessante à Guerra Franco-Prussiana.

Uma Breve História da Maquinidade, de Fábio Fernandes – Fantástico conto steam adaptado de “The Boulton-Watt-Frankenstein Company” (também escrito pelo Fábio), onde ele expande a história de Victor Frankenstein, que não para no primeiro experimento apenas, também se volta às máquinas e não imagina suas consequências futuras.

A Flor do Estrume, de Antônio Luiz M. C. Costa – A história é legal, se passa numa linha alternativa onde o Brasil já é uma potência respeitável, comparável à Inglaterra. A trama se trata basicamente da medicina andando de mãos dadas com o avanço tecnológico a vapor. Eu só achei a linguagem um tanto rebuscada demais e tem vez que a leitura não flui legal. O autor podia ter pegado mais leve na linguagem. Fora essa parte, o conto é bem bacana de se ler.

A Música das Esferas, de Alexandre Lancaster – Conto leve e bem divertido de se ler. Até se parece com uma HQ bacana ambientada na era do Brasil Imperial. Narra sobre as aventuras e problemas que um adolescente inventor tem que resolver. Soube há um tempinho que está em projeto (ou foi lançado já?) uma HQ justamente sobre o herói e personagem principal do conto.

O Plano de Robida: Un Voyage Extraordinaire, de Roberto de Sousa Causo – Conto com várias referências a personagens reais e ficcionais, muito bacana de se ler. Eu achei legal ver Landell de Moura e Santos Dumont em ação, coisa raríssima de se ver na ficção. A trama flui bem, com engenhos a là Verne e aprimorados com o máximo que a tecnologia a vapor pudesse oferecer, eu só esperava um pouco mais do final.

O Dobrão de Prata, de Cláudio Villa – Conto com leves pitadas de suspense/terror. Apesar de eu não ter lido Lovecraft (ainda!), dá para perceber sua influência na trama. Tudo isso em um ambiente steampunk, claro, onde o personagem conta com o auxílio da tecnologia de exploração do mar, já um pouco mais avançada graças ao vapor.

Uma Vida Possível Atrás das Barricadas, de Jacques Barcia – Não sei porque, mas quando li esse conto, me lembrei de Perdido Street Station. Apesar de ter me estranhado bem no começo, a coisa melhorou no decorrer da leitura, com personagens máquinas-quase-humanas e seres esquisitos metidos em uma revolução. Só achei alguns pontos do conto meio obscuros e podiam ser melhor desenvolvidos e descritos. Mas o final compensa, meio que leva a um clímax.

Cidade Phantástica, de Romeu Martins – Conto ambientado na época de D. Pedro II (bem mais liberal) e onde não houve a Guerra do Paraguai. É um faroeste brazuca pulp permeado de referências a vários personagens ficcionais e reais, mas sem descambar em clichês típicos. O autor reinventou várias ideias e personagens.

Por um Fio, de Flávio Medeiros – História de dois grandes homens em tempos de guerra e em lados opostos, na era vitoriana e onde é comum o uso de balões e de submergíveis. A trama é muito bem contada e o autor ainda soube manter um certo suspense no calor da batalha.

Gostei de praticamente todos os contos, apesar dos percalços de alguns. A ilustração da capa ficou ótima e reflete bem o espírito vaporoso. Eu só acho que a revisão de alguns contos meio que deixou a desejar… mas acontece.

Recomendável sua leitura! =D Pode ser adquirida aqui no site da Tarja.

24.7.09

A Malta do Vapor

O trecho inicial, revisto e revisado, da noveleta Cidade Phantástica
Por Romeu Martins

Estrada de Ferro Gibson-Mauá que liga Manaus ao Rio de Janeiro. Interior do vagão-restaurante do trem puxado pela locomotiva Barão.

— Que ninguém se mova ou a Malta do Vapor vai atirar para matar!

Os quatro homens se levantam ao mesmo tempo de seus lugares, provocando pânico entre os passageiros bem vestidos, justo na hora do almoço. Até então, desde que embarcara na penúltima estação, o quarteto viajava de forma discreta; um em cada extremidade do carro. Agora, com disciplina marcial, sacam armas e erguem lenços para tapar os rostos. O líder dá ordens, primeiro para o parceiro à direita, depois para os outros à sua frente.

— Tu, vem comigo, vamos revistar os homens. Os dois procurem o alvo. E todo mundo quieto! Fechem a boca agora ou vamos fechar por vocês!

Ele e sua sombra executam movimentos de apalpar paletós com uma das mãos enquanto seguram pistolas com a outra. Não hesitam em estapear quem não colabora. Do outro lado, um dos mascarados segura um cartaz com a foto de uma jovem, com a qual o outro compara ao rosto de cada uma das mulheres. Também armados e violentos, arrancam chapéus caríssimos e seguram as mais chorosas pelo queixo.

O líder examina os bolsos de alguém quando desconfia de um sujeito que ocupa sozinho uma mesa de canto, encostado a uma janela aberta. O homem está tossindo com a cabeça baixa, o chapéu impede que se veja sua cara. A roupa é toda de um cinza cor de fuligem. Casacão, camisa, calças e botas, apesar do calor de início de novembro.

— Deixa as mãos longe dos talheres e olha pra mim, magricelo — A arma é erguida a dois palmos da cabeça que se levanta devagar.

— Satisfeito? — Ele encara o mascarado. O rosto é quadrado e uma barba de três dias o deixa com aparência tão cinzenta quanto à do figurino. Pela cara lisa, passaria por uns vinte anos, não fossem fios brancos nos cabelos a dar ao conjunto um derradeiro toque grisalho.

A resposta vem na forma de uma coronhada no queixo, seguido de um empurrão que lhe esfrega o rosto contra o vidro superior da janela veneziana. O atacante sobe no veludo do banco duplo e encosta o cano da arma contra as costelas do homem solitário. O braço livre derruba prato, copo e talheres ao chão e em seguida começa a revistar o desconhecido.

— És o tipo de encrenqueiro que estou a procurar! Se eu encontrar algo de suspeito...

— Espero que isso não inclua meus charutos — O comentário sai esbaforido pela pressão nas costas e pela cara espremida contra a tremulante vidraça do carro em movimento.

De fato, a única coisa além da carteira, um relógio barato e do bilhete de passagem são dois charutos. Tudo aquilo é desprezado e o mascarado alivia a pressão, afastando-se. Ele parece indeciso se deve deixar o homem vivo. O indicador da mão direita encosta no gatilho. Deve disparar ou não?

— Aqui! Encontrei um que carrega revólver.

Quem fala é o outro responsável pela averiguação dos homens. É o que faz a decisão ser tomada. Na mesma hora o mascarado-chefe recua e segue na direção de seu comandado.

Um senhor de meia idade, três mesas adiante, tem os braços erguidos, rendido pelo algoz que agora porta duas armas, uma delas exibida de lado para o líder do bando.

— Um colt? Não é o padrão deles... Há alguma identificação?

— Não. Só a arma — O integrante da Malta do Vapor fala sem tirar os olhos da presa.

— Juro que era só para minha defesa pessoal — choraminga a vítima. — Não sou quem vocês procuram, seja lá quem for. Sou o coronel Ferreira, da antiga fazenda de Araruna...

— Não vamos arriscar. Sempre existe um agente em carros de luxo. Atira —A ordem é dada sem emoção, nem por isso deixa de ser cumprida.

O tiro à queima-roupa abre um pequeno rombo na testa do homem e estoura a base do crânio por trás. Miolos grudam na parede, contrastando com a madeira de lei envernizada a ponto de virar espelho. Gritos em português e espanhol são ouvidos e logo silenciados por novos disparos dados pelo líder em direção ao teto, quase acertando luminárias de cristal. Ele olha para o homem de quem suspeitara e que não parece mais tão confiante, pois se limitando a baixar o rosto em direção às mãos apoiadas na mesa esvaziada.

Um corpo sem vida, com três olhos bem abertos e desalinhados, desaba ao chão.

Novamente, um dos assaltantes armados grita. O aviso parte dos que estavam caçando entre as mulheres e o que fala segura uma jovem pelos cabelos ao lado do fotograma.

— Cá está. Temos a rapariga em mãos.

Os olhos da mulher são nada menos que selvagens. O rosto tem feições indígenas, acentuadas pelo cabelo de um preto brilhante e liso — despenteado pela ausência não-voluntária do chapéu — e seu bronzeado é de um vermelho igual a brasa, realçado pelo vestido branco, de corte europeu, que usa. Mesmo se não fosse o sangue índio a dar tal impressão, o olhar dela não deixaria dúvidas de que se trata de alguém disposto a matar ou morrer. Ela se esforça para não morder, cuspir ou xingar a dupla que lhe aponta pistolas.

— Ótimo, não vamos mais nos demorar. Temos ordens de acabar com a mestiça caso alguém se intrometa — É o chefe da Malta quem fala. — Vamos render o maquinista e...

— Abaixem-se! Você também, garota, para o chão, já!

O berro rouco é do homem acinzentado que, a despeito da revista pela qual passou, segura nas mãos um objeto de cuja ponta rebrilham explosões barulhentas.

Mesmo assustada a mulher obedece. Tão rápido que fios de sua cabeleira continuam nas mãos do mascarado que a prendia. Ele e o que segurava o papel com a estampa da mulher são varejados por balas. Sem soltar gemido, despencam contra uma das paredes.

Reação mesmo cabe à outra dupla. O que estava mais próximo do estranho de cinza dispara contra ele, obrigando-o a se jogar para baixo da mesa. Já o líder corre na direção oposta.

Protegendo a vista da chuva de lascas de madeira, o único homem armado e sem máscara daquele carro volta a fazer mira com seu trabuco. Ele dispara contra a perna esquerda e o ombro direito do bandoleiro. Indiferente à dor, o sujeito continua atirando.

O mascarado só para quando o peito dele se torna o alvo da rajada ininterrupta de balas.

— Vem cá, desgraçada! Saio contigo ou morreremos os dois — O líder da Malta gruda a mão no pescoço da garota e a suspende. — Estás a me ouvir, magricelo? Vais me deixar sair daqui ou eu e esta mulher levaremos bala, sim, mas da minha pistola!

Com meio corpo para fora da proteção do tampo da mesa e com o cano de sua arma soltando lufadas fumegantes feito a locomotiva que puxa aquele vagão, o homem de cinza hesita. Cospe, tosse, pragueja e hesita. O próximo passo, entretanto, não é dado por ele.

A garota suspensa com facilidade pelo captor ergue um braço para trás, às cegas. Todos ouvem o disparo, mesmo os passageiros que se encolheram em seus lugares desde que o tiroteio começou. Ninguém entende nada quando quem desmorona para o lado não é ela.

Só quando a jovem deixa cair uma pistola — recolhida no chão de outro dos seus pretensos captores — é que se percebe que ela não é tão desprotegida quanto aparentava.

— Nunca havia dado um tiro antes — Ela fala devagar olhando a própria mão com nojo.

— Espero que a madame não tenha que se habituar. No mundo em que vivemos, depois que a gente começa, é bem difícil parar — O homem se levanta, olha para os cinco mortos, limpa o sangue que escorre de onde levou a coronhada, e tenta acalmar os outros passageiros. — Está tudo bem, tudo bem. Sou da Polícia dos Caminhos de Ferro.

— Além de policial deve ser mágico — Diz a mulher, a única pessoa além dele em pé. — Como essa espingarda apareceu em suas mãos de uma hora pra outra?

— Espingarda? Este é um fuzil de tiro fixo Guarany, fabricado no Paraguai, arma exclusiva do Império. Uma obra-prima da mecânica: o coice de um tiro engatilha o seguinte. Basta apertar o gatilho uma vez pra disparar até acabarem os cartuchos — O policial recolhe seus pertences novamente para os bolsos do casaco, relógio, carteira; ele para e sente o cheiro dos charutos. — Sou obrigado a fazer meus truques. Já perdi três colegas para este bando de assaltantes. Por isso, quando faço a escolta de um trem, ou até quando estou de carona, chego antes no vagão-restaurante, sento em uma mesa no fundo e penduro o Guarany do lado de fora da janela, preso pela tira. E não uso uniforme ou distintivo. É o jeito de me manter vivo. Que o diga nosso amigo paulista ali, que levou uma bala com o meu nome escrito. Que Deus o tenha! — Ele faz o sinal da cruz em passes rápidos de mão.

— Uma arma pendurada por uma corda, nunca pensaria nisso — Ela olha para baixo, o homem cujo sangue está espalhado pela parte de trás de seu vestido tem a cabeça furada e descoberta, sem chapéu nem lenço. — É... é um desses estrangeiros, não é? Um desses chinas que substituíram os escravos na construção das ferrovias!

— Isso mesmo, a Malta do Vapor é formada por chineses. Este grupo, pelo sotaque lusitano, veio da província de Macau — Ele segue chutando e escarrando em cada integrante do bando, para confirmar suas mortes. — Roubaram o nome “malta” dos grupos de capoeiras e, desconfio, que o “vapor” seja pelo derivado de ópio que fumam antes dos ataques. Por isso levam tiros, socos, chutes sem piscar. Não sentem dor, os desgraçados.

O policial se aproxima da mulher. Sorri, limpa a boca e a garganta antes de tirar o chapéu.

— Já que falei em nomes, permita que me apresente. Sou João Octavio Ribeiro, seu criado. Porém até meus colegas de corporação só me chamam de João Fumaça.

— Vestindo-se como um saco de carvão não é de se admirar uma alcunha dessas.

— Na verdade, me chamam assim porque minha mãe me deu à luz em uma Maria-fumaça, quando ainda vivia numa cidadezinha da Inglaterra. Posso perguntar sua graça, madame?

— Senhorita. Sou a senhorita Maria Pinto, futura senhora Gibson. Estou vindo de Manaus para encontrar meu noivo na Cidade Fantástica.

— Que sorte a minha — O homem devolve o chapéu à cabeça e abandona o sorriso. —Desconfio que Mr. Gibson possa ser a razão de tudo o que está acontecendo por aqui.

23.7.09

A obra de Lovecraft como paródia do cristianismo

Um artigo sobre o criador de Cthulhu
Por Carlos Orsi

Um ser dotado de poder ilimitado promete trazer a realidade como a conhecemos ao fim, em meio a uma série de pragas e sofrimentos, e criar outro mundo em seu lugar, onde esse ser reinará absoluto, e seus adoradores fiéis, principalmente os que sofreram agruras e perseguições em seu nome, terão uma vida eterna de delícias. Já seus adversários serão condenados a um sofrimento indescritível e infindável.

Responda rápido: estou falando de Jesus Cristo ou do Grande Cthulhu?

A vida e o trabalho do escritor americano H(oward) P(hilips) Lovecraft, criador do supracitado Cthulhu – monstro alienígena que dá nome ao conto O Chamado de Cthulhu – , foram analisados sob as mais diversas chaves, desde a psicanalítica (onde o desapreço do autor por frutos do mar, explícito na concepção de monstros sob a forma de lulas, peixes e crustáceos, já foi interpretada como sinal de repugnância pela genitália feminina) à política (onde os críticos costumam chamar atenção para o posicionamento racista e elitista que transparece em várias obras lovecraftianas). Menos conhecidas, no entanto, são as análises filosóficas e teológicas do trabalho de Lovecraft – e que, no entanto, existem.

As melhores dentre essas análises, principalmente por parte do biógrafo ST Joshi e do escritor, editor, crítico (e teólogo protestante!) Robert M. Price, apontam para um forte senso de humor subjacente ao trabalho desse escritor, que foi uma das vigas mestras da literatura de horror em língua inglesa no século passado.

Até hoje a indústria cultural, por meio de cinema, quadrinhos e livros, não se cansa de reciclar os temas e clichês que estabelecidos por ele, como a ideia de que a mitologia humana não passa de uma distorção da ciência de alienígenas que visitaram a Terra no passado distante (não, isso não foi invenção de Erich Von Däniken).

Esse senso de humor se faz presente, por exemplo, no jogo estabelecido entre Lovecraft e outros escritores do mesmo período, como Robert E. Howard (criador do bárbaro Conan), no qual um autor citava criações do outro – monstros, livros, personagens – dentro de sua obra, dando a impressão de que ambos estavam a se referir a uma fonte comum – uma mitologia obscura, ou algum tipo de iniciação mística.

O melhor exemplo desse jogo é o Necronomicon, livro fictício que conteria a verdadeira história do planeta Terra e de suas interações com raças de outros mundos e de outras dimensões.

Inventado por Lovecraft e logo adotado pelos demais autores de seu círculo – que submetiam a terríveis torturas personagens que ousassem ler o tomo proibido – o livro que nunca existiu acabou sendo levado a sério por ocultistas os mais diversos, e não são poucas as supostas “traduções” do original que circulam no mercado. Ateu, materialista e racionalista, Lovecraft certamente acharia graça disso.

A defesa de uma releitura ampla da obra lovecraftiana sob a chave da paródia não cabe aqui (e eu certamente não tenho a competência para fazê-la: quem se interessar em perseguir o assunto pode começar pelo volume The Weird Tale, de ST Joshi, e então partir para as edições da obra de Lovecraft anotadas pelo mesmo autor), mas o paralelo entre sua mitologia e o cristianismo é forte demais para não ser notado – embora, de fato, não tenha sido, durante muito tempo.

Isso talvez se deva à roupagem popularesca em que as histórias apareceram originalmente (impressas em pulp magazines) e à influência posterior de August Derleth. Principal popularizador da mitologia lovecraftiana, Derleth era católico e, talvez inconscientemente, retrabalhou muito do “mito artificial” deixado por Lovecraft num molde mais palatável de um duelo milenar entre anjos e demônios.

Mas, como escreve Robert M. Price, “os leitores de The Dunwich Horror não demoraram em notar a paródia da narrativa do Evangelho nesse conto”. Na história, uma virgem norte-americana é sexualmente possuída por uma “divindade” e dá à luz um filho que é morto pelas autoridades, depois de manifestar poderes sobrenaturais e pretensões “messiânicas”.

No conto, no entanto, os eventos são narrados fora da ordem clara apresentada nesta sinopse, e toda a trama aparece sob a forma da investigação do roubo de um exemplar do Necronomicon. Isso permite encarar a narrativa como uma simples aventura de terror e investigação, na linha que seria explorada, décadas depois, por séries como Arquivo X (ou, mais recentemente, Fringe).

Mas quando o mote principal da trama é explicitado, o paralelo com os Evangelhos é inegável, e a sugestão de que o “horror de Dunwich” representa a Segunda Vinda torna-se inescapável.

Já em O Chamado de Cthulhu, um monstro alienígena que dorme sob os oceanos reúne, por meio de mensagens telepáticas que surgem sob a forma de sonhos, um culto dedicado a adorá-lo e a preparar o mundo para o seu despertar – depois do qual a Terra será destruída e recriada.

O paralelo com a escatologia cristã – com as aparições do Cristo Ressuscitado, como a que animou Saulo de Tarso a vestir o manto do apostolado, substituídas pelos sonhos de Cthulhu, a igreja cristã pelo culto do monstro, a Nova Jerusalém do Apocalipse substituída pelo Reino de Cthulhu – também é claro.

Uma última curiosidade: The Dunwich Horror foi filmado em 1970, com o papel da virgem condenada a dar à luz o filho do alienígena a cargo de... Sandra Dee.

22.7.09

Resenha de O que o olho vê

Acabo de publicar no Overmundo uma resenha da novela O que o olho vê, de Carlos Orsi, publicado pela editora Scarium. Para ler e votar no texto, basta clicar neste link.

Abaixo, vou publicar os primeiros parágrafos da resenha "Catecismos científicos":

Quando chegou à minha caixa de correspondência o mais recente livro de Carlos Orsi não pude deixar de pensar nos catecismos pornográficos que Alcides Caminha assinava com o pseudônimo Carlos Zéfiro durante a década de 60 no Rio de Janeiro. O saudosismo foi despertado pela forma como foi produzida a novela O que o olho vê, pela Scarium, editora mantida pelo carioca Marco Bourguingnon. Responsável pela mais longeva publicação em papel dedicada à ficção fantástica no país – um zine com o mesmo nome da editora por onde já publicaram os melhores escritores de ficção científica, horror e fantasia brasileiros que já está indo para a edição de número 26, com chamada para submissão de contos de FC – a empresa mantém sua loja virtual desde 2002. Mesmo com esse pé na tecnologia, não perde o status artesanal de seus impressos, como os livros de sua coleção Scarium Fantástica, da qual a nova obra do jundiaiense que já foi assunto do Overmundo por três vezes – primeira, segunda e terceira – é o terceiro volume.

Editada em um formato de bolso, com 13 cm por 18,5 cm, 48 páginas, encadernação grampeada e a capa, monocromática roxa, colada por cima, a novela tem o charme das primeiras publicações do gênero, na época pioneira das pulp magazine. Só faltou o papel já vir amarelado para dar ainda mais o clima de folhetim, que já começa com a citação escolhida pelo autor, de Iam Fleming, no original, na língua de James Bond: “Nunca mande um homem quando puder mandar uma bala”. Uma citação muito adequada, já que a trama é também de espionagem e de intriga internacional. Mas se fosse apenas isso que fizesse parte da receita, O que o olho vê não seria uma representante da literatura fantástica. O que a insere nesta vertente é que a novela também é uma ótima história alternativa, subgênero dos mais respeitados da ficção científica.

Ibope