8.6.09

Especial imagens fantásticas

Bem, já está rolando mas vamos fazer um post para deixar as coisas oficiais.

Durante este mês vou dar um tempo nos contos e artigos para publicar algumas imagens de inspiração em temas fantásticos.

Charges, tiras, fotos, caricaturas, ilustrações em geral baseadas na ficção científica, fantasia ou terror vão passar por aqui.

Se alguém que estiver lendo quiser mandar alguma contribuição é só entrar em contato.

Vai ser um prazer publicar no TerrorCon.

Charge científica

Por Clóvis Geyer



Falei do Clóvis no post sobre o Batman e acabei descobrindo, via Twitter, um site dele que eu não conhecia, com charges, ilustrações, quadrinhos e artigos. É só clicar no nome do cara lá em cima.

7.6.09

Olhos no escuro

Uma tira de fantasia por Rita Maria Felix da Silva e Strix Van Allen

Grandes Malacos

Então, ainda falando de nostalgia e de desenhos. Me deu vontade de republicar uns verbetes da Galeria dos Grandes Malacos, uma das seções de um site que fazíamos aqui, em Santa Catarina, logo após a citada revista Gárgula, do post abaixo: O Malaco. O e-zine ficava alojado no antigo HPG e foi tirado do ar, mas acho que ainda temos os arquivos guardados em algum lugar. Mais tarde, quando voltamos à net com um outro projeto, a mesma seção foi integrada ao Marca Diabo, este sim ainda disponível na rede.

Basicamente, a Galeria era um depositário de figuras que admirávamos de todos os campos de atuação, cinema, música, quadrinhos e afins. Vou republicar neste post dois dos verbetes que escrevi e que foram ilustrados pelo Ivan Jerônimo.



DICK, Philip K. - Se a intenção de Hollywood com Uma Mente Brilhante era contar a história de um criador genial envolvido em um mundo de paranóia e maluquice, a platéia teria muito a ganhar se o matemático mala John Nash fosse substituído pelo escritor Philip Kindred Dick (1928-82). Ganharia muito mais ainda se não houvesse os famosos cortes melosos (como aqueles que tornaram o giletão do Nash em um marido fiel e salvo da tal paranóia pelo amor incondicional de sua esposa...) e focasse a vida regada a anfetaminas, um pouco de LSD e a meia dúzia de casamentos malsucedidos de Dick. Se não levou um Nobel, o escritor recebeu o prêmio máximo da categoria a que se dedicou por um quarto de século, a literatura sci-fi. O Homem do Castelo Alto, escrito há meio século, foi laureado com o Hugo Awards por sua versão alternativa da II Guerra, com os EUA dominados por alemães e japoneses.

Essa obra, aliás, é um bom exemplo dos métodos exóticos empregados por Dick. O livro foi feito com a ajuda do I-Ching (aquele texto chinês que mistura filosofia e adivinhação). Nas centenas de escritos do cara, sua marca registrada sempre foi um mundo caótico e uma profunda desesperança. Caso do mais famoso deles, Do Androids Dream of Electric Sheep?, de 68, que inspirou o filme Blade Runner, e também do conto de 31 páginas que inspirou o mais recente Minority Report. Aquele improvável filme sobre a vida desse autor nada ortodoxo não poderia deixar de falar da sua fase mais pirotécnica, quando ele se dizia sintonizado com uma divindade alien (ou algo que o valha) chamada VALIS (Vast Active Living Inteligence System) ou sobre as mensagens piradas que ele extraia de músicas dos Beatles, ou, melhor ainda, das notícias que ele ouvia (vindas de um rádio desligado) de uma certa Associação dos Países Portugueses da América... Tudo isso somado faria as viagens daquele matemático sobre a CIA e o FBI parecerem coisa de guri pequeno.

SCORSESE, Martin - Hollywood só não pode ser considerada o mais superestimado latifúndio improdutivo do planeta porque diretores do gabarito de Martin Scorsese surgiram nos anos 70 para espantar o puritanismo reinante. Enquanto o mundo enlouquecia na década de 60 e o clima era coerentemente captado pela música, pelos quadrinhos, pela literatura e até pelas artes plásticas, tudo o que o cinema americano tinha para oferecer eram contos de fadas com final feliz.

Foi a geração de Scorsese que impediu a repetição da história nos dez anos seguintes, e o impacto que tais pessoas provocaram fez valer a fama de "Década dos Diretores". Isso até a poeira baixar nos últimos tempos, fazendo todo o poder voltar às mãos dos produtores e sua sanha de tirar dinheiro de nossos bolsos a todo custo. De todos os seus companheiros de empreitada, mais notadamente, Francis Ford Coppola, George Lucas e Steven Spielberg, Scorsese é o que tem a obra mais consistente, ao mesmo tempo sem os altos e baixos ou os apegos comercias tão marcantes nas carreiras dos demais. Além disso, o diretor de obras-primas como Taxi Driver, Touro Indomável, Cabo do Medo, Os Bons Companheiros, entre vários outros, é o mais malaco de sua geração, o que torna sua presença nesta lista obrigatória.

O que poderia ter sido um talento desperdiçado caso seguisse o desejo de virar padre, felizmente foi em outra direção, fortemente inspirada pelos muitos amigos de infância que acabaram virando gangsters. Uma prova da citada malaquice é dada pelo jornalista Peter Biskind, no livro Easy Riders, Raging Bulls. O autor conta que no lançamento do documentário The Last Waltz, no Festival de Cannes, Scorsese se mostraria irredutível ao ver que seu suprimento pessoal de cocaína havia acabado. O diretor decretou para quem quisesse ouvir: "Sem cocaína, sem entrevista". A saída dos produtores foi arrumar um avião e ir para Paris renovar o estoque do malaco.

5.6.09

Batman 60 + 10

Bateu uma sessão nostalgia quando eu percebi que este ano o alter ego de Bruce Wayne comemora 70 anos de criação. A sensação veio quando eu vi na net o belíssimo desenho que Rafael Grampá (de Mesmo Delivery) fez para o personagem e seu ajudante.

É que me lembrei que há dez anos, quando o Morcego se transformava em um sexagenário, tentou-se fazer em Florianópolis uma exposição em que artistas plásticos, chargistas e quadrinistas locais iriam dar sua versão pessoal para a criação de Bob Kane.

Como na época eu estava contribuindo para um projeto de conclusão do curso de Jornalismo da UFSC chamado Gárgula, uma publicação experimental sobre arte e cultura na qual eu fazia resenhas em quadrinhos sobre quadrinhos - uma mistura de Scott McCloud e Joe Sacco - veio a ideia: uma batgárgula seria minha contribuição para a mostra.

Então, primeiro eu fiz o traço a lápis, misturando uma daquelas estátuas que podemos ver nos prédios de Gotham com o Cavaleiro das Trevas. O resultado, que achei nas minhas papeladas ontem, foi este:

Depois, pedi para um dos editores do Gárgula, Diego Singh, para dar um trato no computador. Bem, computador é modo de dizer, já que o equipamento que ele usava então já era uma relíquia jurássica uma década atrás. Mas o cara era muito bom, e mesmo com aquela máquina de escrever elétrica e um programa de arquitetura, ele fez o seguinte com meu grafite:


Dez anos atrás. A exposição acabou não rolando, o desenho foi publicado, junto com um cartum do Clóvis Geyer, na edição de lançamento da saudosa Gárgula (naquele mesmo número, publiquei uma resenha em quadrinhos sobre a graphic novel Asilo Arkham, de Grant Morrison e Dave McKean).

Agora eis que o velho Batman é um setentão. Eita nostalgia.

3.6.09

Underground Amazon

By Romeu Martins from Brazil
Translated by Ludimila Hashimoto

Percy Fawcett told me he still felt he’d die in the Amazon. If I didn’t find a way to help him, that would be the day: the young explorer would be sliced by the man hired to guide him in the forest. Torres was a slave hunter before slavery abolition in Brazil. I never trusted him, but did not expect the bastard would blow up the tunnel right after he left the cave, leaving me unarmed and isolated. Thanks to a helmet I survived the landslide.

Rocks blocked the cave mouth, leaving just a gap through which I saw the traitor threaten the boy outside. A damn time for J. Neil Gibson to come up with the idea of the expedition! The American became a millionaire when he was young and found gold in the Amazon. But he wanted more. He used money to get the English adventurer to search for new precious resources under the jungle. Now the Brazilian slaver was doing the same, using a knife instead. He was forcing the boy to tell him the location of a diamond streak.

How did I get myself into this? Luckily or not, I met Gibson two decades ago. I had just entered the Brazilian police and saved his life in Rio. My reward, twenty years later: he decided to take me on the expedition. He is a U.S. senator, influential in the court of the Brazilian Empire, so I came against my will. Everyone calls me John Steam. Not my real name: my mother delivered me in a steam train in England. I am Fawcett’s fellow citizen, but I came from a village called Wold Newton, whose only memorable event was a rock falling from the sky, 45 years before I was born.

The thought of the meteor gave me an idea. The explosion had disarmed me. Except for the underground exploration helmet, I only had a pickaxe. Not enough to break through the rocks, but I had my tricks. The engineers had added an oxygen canister to the helmet so that I could breathe in closed environments. Though it was not the case in the gallery, the accessory would be useful. I took it off my back, detached it from the hose that connected it to the mask and placed it in the hole.

Without that opening I would be in the darkness if it weren’t for the electric candle adjusted to the helmet. Thanks to the artificial glow I could lift the pick and strike the safety valve on the canister. Not enough. Just caused sparks that would have pierced my eyes, if it weren’t for the goggles. Torres had certainly heard the clap. My second blow had to be precise.

So it was: the seal was opened and the compressed oxygen released. As if it were a Chinese rocket, the canister took off. My makeshift projectile only stopped after breaking the assassin’s spine. Percy Harrison Fawcett’s omen of death in the Amazon would have to wait.

Um ano conspirando

No dia 29 passado foi o primeiro aniversário deste blog. Como eu estava em viagem, não pude comemorar por aqui. Mas não poderia deixar a data passar sem uma lembrança, certo?

Então, que seja a oportunidade de publicar um conto novo meu, mesmo que não seja diretamente ligado ao universo ficcional que dá nome a este blog. Na verdade, é uma chance de promover uma conexão com meu outro blog, o que utilizei para me ajudar a planejar uma noveleta steampunk - para uma coletânea ainda a ser publicada - chamada Cidade Phantástica.

O conto abaixo foi originalmente escrito para participar de uma competição promovida por Tom Banwell, um artista plástico californiano especializado em objetos inspirados em períodos vitorianos alternativos e dono deste blog. O objetivo de Banwell era escolher um texto que apresentasse uma de suas obras, um capacete de exploração subterrânea, algo inspirado em Viagem ao Centro da Terra, de Jules Verne.

Como Verne é uma das maiores influências de minha já citada noveleta, não pude resistir à tentação de enviar um conto para a competição. Ao todo, o californiano recebeu oito colaborações, vindas de cinco países: além do Brasil, foram enviados textos do Reino Unido, Cingapura, Canadá e Estados Unidos. O escolhido foi Terry Sofian de St. Louis, Missouri, com um belo texto que acaba de ser publicado no blog de Banwell.

O promotor do concurso avisa que logo vai postar os demais sete textos. Será uma oportunidade de ler a versão em inglês do conto aqui debaixo, uma tradução feita por minha querida amiga Ludimila Hashimoto (tenho uma coisa em comum com Alan Moore agora, fora a barba e o cabelo compridos: ambos tivemos a honra de termos textos retrabalhados por essa competentíssima nipo-carioca-paulistana). Meus agradecimentos a ela, a Tom Banwell e os parabéns ao Terry Sofian.



Segue uma breve lista de referências do conto "Amazônia Underground".

Percy Harrison Fawcett
(1867 – 1925) foi o militar e explorador inglês que inspirou a criação de Indiana Jones e do livro Lost world, de 1912. Ele desapareceu em sua última expedição à Amazônia.

Torres é um personagem criado por Jules Verne (1828 – 1905) para o livro La Jangada - huit cents lieues sur l'Amazone, publicado em 1880, mas ambientado em 1852.

J. Neil Gibson é um personagem criado por Arthur Conan Doyle (1859 – 1930) para o conto “The problem of Thor Bridge”, de 1922, mas que se passa em 1900.

Wold Newton é o nome de uma cidade real da Inglaterra onde de fato caiu um meteoro em 1795. O acontecimento foi usado pelo escritor americano Philip José Farmer (1918 – 2009) para escrever suas biografias fictícias Tarzan alive, de 1972, e Doc Savage – His apocalyptic life, do ano seguinte.

João Fumaça é um personagem meu criado este ano em uma noveleta escrita este ano para uma antologia steampunk brasileira mas que se passa no ano de 1866, aproximadamente.

No mais, feliz aniversário para os Terroristas da Conspiração.

Amazônia underground

Uma história do mesmo universo da noveleta Cidade Phantástica

Por Romeu Martins

Percy Harrison Fawcett me disse que sentia que ainda morreria na Amazônia. Caso eu não encontrasse um meio de ajudá-lo aquele seria o dia: o jovem explorador seria fatiado pelo homem contratado para guiá-lo naquela floresta. Torres tinha sido um caçador de negros muitos anos atrás, antes da abolição da escravatura no Brasil. Nunca confiei nele, com suas cicatrizes de cortes espalhadas pelo corpo, mas não esperava que o desgraçado fosse provocar a explosão do túnel, logo depois de deixar a caverna, me deixando desarmado e isolado. Sobrevivi porque o capacete protegeu minha cabeça do deslizamento.



As pedras barravam a passagem, deixando só uma fresta por onde eu enxergava o traidor ameaçar o garoto no lado de fora. Maldita hora em que J. Neil Gibson inventou aquela expedição! O americano ficou milionário por descobrir ouro na Amazônia quando jovem. Mas ele queria mais. Usou dinheiro para convencer o aventureiro inglês a buscar novas riquezas debaixo da mata. O ambicioso escravista brasileiro fazia o mesmo, mas usando um facão de lâmina larga, chamado machete: obrigava o rapaz a lhe contar a localização de um veio de diamantes.

Como me meti naquilo? Por sorte ou azar, conheci Gibson duas décadas atrás. Eu tinha acabado de entrar para a polícia ferroviária brasileira e salvei a vida dele no Rio de Janeiro. Minha recompensa, tantos anos depois: fez questão que eu participasse daquela empreitada. Como ele é senador nos EUA, influente junto à corte do Império do Brasil, virei voluntário contra a vontade. Todos me chamam de João Fumaça. Não é meu nome verdadeiro: minha mãe me deu à luz em um trem a vapor na Inglaterra. Sou conterrâneo de Fawcett, mas eu vim de um vilarejo chamado Wold Newton, cujo único acontecimento memorável foi uma pedra que despencou dos céus lá, 45 anos antes de meu nascimento.

Lembrar do meteorito me deu uma ideia. Como eu disse, a explosão me desarmara, tirando o capacete de exploração subterrânea, só me restava uma picareta. Ela não seria suficiente para abrir caminho pelas pedras, mas tenho meus truques. Os engenheiros que projetaram o capacete instalaram um tanque de oxigênio para eu respirar em ambientes fechados. Não era o caso daquela galeria, mesmo assim o cilindro seria útil. Eu o tirei das costas, desatei da mangueira que o prendia à máscara e o posicionei no buraco.

Sem aquela abertura eu ficaria na escuridão não fosse outra engenhosidade, a vela elétrica embutida no capacete. Graças ao brilho artificial, pude erguer a picareta e golpear a válvula de segurança do cilindro. Não foi o bastante. Provoquei faíscas que, não fossem os óculos de proteção, teriam furado meus olhos. Torres certamente ouvira o badalo. Meu segundo golpe teria que ser certeiro.

E foi: abriu o lacre e libertou o oxigênio comprimido. O assobio lembrava um furacão, como se fosse um foguete chinês, o tubo alçou voo. Meu projétil improvisado só parou depois de quebrar a coluna do assassino. Foi assim que Percy Harrison Fawcett sobreviveu à sua primeira aventura amazônica.

Ibope