8.9.09

I'm Overdriven

Um cyberconto com direito a trilha sonora Por Lidia Zuin

You’re not the only one who’s suffering from the world outside. You’re not the only one who’s give in to fear...



Esmago os pedaços de vidro com a sola do meu coturno, fecho suas fivelas por passos mais certos, fumo um cigarro para aliviar a tensão na garganta. Pigarreio um resto de vida orgânica por entre meus ossos, cuspo fumaça azulada como uma SurGirl* a fumar seu narguilé digital.

Your face is always clear...


Murmuro um verso musical porque meus pulmões não me permitem mais o assovio. Entretanto, deram-me a oportunidade de chegar até aqui, aos pés de sua poltrona, sobre o tapete avermelhado por vestígios de gente que outrora foi mais viva que eu.
Meus olhos doem. Fagulhas da falta de sintonia entre o cérebro e a retina fazem-me ver o mundo ainda mais distorcido e escuro. Meus dispositivos falham e eu sei, pelo meu visor, que ainda vou dar tilt e cair numa esquina qualquer. Mas eu não vou morrer... estarei apenas temporariamente fora de área.

It’s your life... Right here, right not. It’s real time!


Ah, os binários. Passam por meus olhos, delineando corpúsculos de roedores pelos cantos das paredes. These darkest walls. Esvazio poças d’água pelo meu caminho antes que elas por demais cresçam e me afoguem no limbo da chuva amanhecida.
São seis horas da manhã e o frio me faz soprar fumaça mesmo após apagar o fumo. Damn, minhas pernas estão fraquejando.

This is not like TV only better.


God, it seems it’s neverending. Acho que faz umas três horas que caminho por esse lugar e não deixo de sair de um círculo de mesmos postes, mesmos latões, mesmos transeuntes, mesmas latinhas de Whatever-Cola jogadas no chão.
This is not fun. Você sabe que estou morrendo e que esses implantes estão enferrujando minhas têmporas, overdriving my brain.
Chega um momento em que é preciso botar para fora, deletar alguns arquivos, reiniciar o sistema. Foi por ralo abaixo o resto de yakisoba de ontem, meio copo de substituto de whisky, além de uma xícara de chá esquisito que eles dão em templos asiáticos. Respingou um pouco disso tudo pelas minhas pernas, mas minhas mãos fizeram o trabalho de afastar os vestígios que estavam pela minha boca. Sinto-me mais leve e limpa, porém fraca.

Failed to see the tragedy turning into magic.



PS: foram usados trechos de músicas do Flesh Field e Marilyn Manson. O título é o mesmo de uma música da banda Dope Stars Inc.

*Contração de surgery girl, meninas "plásticas", com muitas cirurgias plásticas.

4 comentários:

Ludimila Hashi disse...

As imagens cyberviscerais são fortes e poéticas. Isso faria um baita sucesso no Letra & Vídeo.

Romeu Martins disse...

Sabe que também pensei no L&V quando li este conto? Mesmo sendo um mashup de músicas, ficaria muito bem naquele blog.

Ana Cristina Rodrigues disse...

O L&V adoraria republicá-lo...:)

Lidia Zuin disse...

E eu adoraria tê-lo lá! :)))

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