15.10.09

Tarantino inédito

Um texto bem antigo sobre o diretor de Bastardos Inglórios
Por Romeu Martins

O esquema de distribuição de filmes no Brasil é coisa de doido. Se X-Men 2 chegou às nossas salas um dia antes de sua estréia nos próprios cinemas americanos (medo da pirataria foi a desculpa da época), o mais que esperado novo filme de Quentin Tarantino, Kill Bill, só aportará por aqui quatro meses depois do lançamento lá na matriz e em dezenas de outros países equipados com projetores e salas escuras. Sim, se desde outubro americanos, ingleses, argentinos e etc. já tiveram a oportunidade de conferir o fim de um bloqueio criativo de seis anos, nós só vamos ter a chance de assistir oficialmente ao quarto filme do diretor e roteirista mais comentado dos anos 90 em fevereiro de 2004. Ou melhor, a primeira parte do quarto filme do diretor e roteirista mais comentado dos anos 90, uma vez que o pessoal da Miramax resolveu chupar a estratégia de marketing do finado Matrix (que o Diabo o carregue) e também lançar um filme pelo preço de dois.

Atraso de quatro meses, bloqueio criativo de seis anos, marketing copiado de trilogia picareta... Tudo isso seria mais que suficiente para abortar qualquer expectativa, caso não estivéssemos falando do cara que há 10 anos criou o sensacional Cães de Aluguel, talvez o único filme que supere em termos de violência Sob o Domínio do Medo, do sempre nocivo Sam Peckimpah. O mesmo sujeito que dois anos depois voltava a surpreender com a estrutura complexa e os excelentes diálogos de Pulp Fiction. Tá certo que o raio se recusou a cair no mesmo lugar na terceira tentativa, e Jackie Brown foi bem meia boca (e também o único que não partiu de um roteiro original de Tarantino, mas sim de uma adaptação feita pelo diretor de um romance de Elmore Leonard).

Para quem não está afim de se aventurar a ver Kill Bill em uma cópia pirata com a costumeira qualidade medonha, nem tem grana para se mandar pra um país em que o filme esteja em cartaz, há uma chance de conferir trechos da obra tarantinesca que nunca passaram no cinema. A dica não é nova, mas continua valendo nesses tempos de expectativa; faz um tempo saíram no Brasil versões impressas dos roteiros do cara, quase todos com algum extra em relação ao que passou nas salas. A editora desses livros é a Rocco, a mesma responsável pelo lançamento da maior parte de bibliografia do imortal Paulo Coelho. Apesar deles terem lançado a obra completa do grande falastrão, vamos falar aqui só dos dois primeiros filmes roteirizados e dirigidos por ele, Cães de Aluguel e Pulp Fiction, já que Jackie Brown, além de ser fraco não apresenta diferenças marcantes entre o que tava escrito e o que foi filmado.

Cães de Aluguel foi exibido pela primeira vez no Festival de Cannes de 1992. Logo após, o próprio diretor veio apresentá-lo ao Brasil, onde foi devidamente esnobado pela crítica local, acusado de plagiar o Scorsese, essas coisas. Não demorou muito para a maior parte da crítica perceber que havia mais naquela história de assalto frustrado, policiais torturados e tiras infiltrados que apenas cópias e referências a filmes antigos. Cães de Aluguel abriu a picada para uma nova leva de diretores independentes, não só nos EUA, dispensando efeitos especiais tolos, astros adolescentes da moda e outras bobagens. No lugar disso tudo, ótimo roteiro e grandes atuações, ou seja, cinema puro, simples e direto. O roteiro deste que ainda é o melhor trabalho de Tarantino traz alguns extras bacanas e até uma entrevista com o figura. Resumindo, os trechos que não passaram no cinema são os seguintes:

· Logo no início, na cena que fez história com os cães de aluguel e seus ternos bacanas andando em direção da câmera, estava previsto um cartaz com o aviso: "Um desses caras é tira. No final estarão todos mortos, menos um";
· Foi cortado um diálogo entre Harvey Keitel (Sr. White) e o chefão do bando sobre mulheres e livros;
· Na melhor das cenas deletadas, é explicado por que White tem tanto ódio de agentes infiltrados: uma história sanguinolenta é narrada para o camarada que ficou com a missão de atuar camuflado dentro do bando. Essa parte merece virar curta-metragem, HQ, qualquer coisa do tipo;
· Joe (o chefão, interpretado por Lawrence Tierney) conta uma piada sobre como um francês, um americano e um polonês fazem para deixar suas mulheres loucas. No filme a cena foi substituída por outra em que o personagem reclama dos outros sujeitos por só ficarem contando piadas;
· Logo à frente, surge uma explicação do porquê da polícia não ter esvaziado a joalheria onde iria ocorrer o tal assalto, substituindo clientes e funcionários por agentes disfarçados;
· No último trecho relevante, apagaram um diálogo entre White e Eddie Legal (o Chris Penn) sobre as providências a se tomar para ajudar o cara que foi baleado durante o assalto.

Pulp Fiction, se não fosse pelo fato de ser um ótimo filme, já mereceria todos os prêmios que ganhou pela façanha de ter convencido uma divisão da Disney (a Miramax) a investir em uma história sobre pessoas com overdose de heroína, policiais sádicos e estupradores e assassinos religiosos. Bacana (ou cool, se preferir) até o osso e, com sua montagem louca, o filme não saiu da cabeça de quem o assistiu em 1994. O livrinho da Rocco com o roteiro não é tão recheado quanto o de Cães de Aluguel (sem entrevistas, só com um texto introdutório contando a importância de Tarantino), mas também revela seqüências que ficaram de fora do filme original:

· Um bom diálogo cortado estava previsto: era entre Vincent Vega (o papel da vida de John Travolta) e seu trafica Lance (Eric Stoltz). Na mesma seqüência em que Vincent compra a heroína que vai lhe trazer tanta dor de cabeça, Lance desata a falar de seu ódio sobre pessoas que dão informações erradas a motoristas perdidos;
· Na parte seguinte, quando Vincent vai bancar o acompanhante da mulher do seu patrão, foi abduzido o trecho em que Mia (Uma Thurman, a protagonista de Kill Bill , como se você não soubesse) banca a videomaker. Ela grava as opiniões de Vincent sobre filmes, seriados de TV e quadrinhos;
· Mais falas cortadas entre Vincent e Mia. Já na lanchonete estilo anos 50, os dois trocam informações sobre amigos em comum em Amsterdã e sobre os bares de haxixe de lá;
· Tá lembrado da cena em que Vincent acerta, acidentalmente, um tiro em um carinha dentro de um carro guiado por Jules (Samuel L. Jackson)? No cinema o sujeito morre na hora, no papel ele precisou levar um segundo tiro pra acabar com seu sofrimento;
· O papel que o próprio Tarantino faz era para ser um pouco maior do que vimos no cinema, com ele sendo mais rabugento;
· O Sr. Lobo (Keitel de novo) também teve falas cortadas, principalmente na seqüência no ferro-velho para onde foi levado aquele carro todo sujo de sangue e miolos.

Vale uma lida, ou até uma relida se você comprou os livros na época do lançamento, lá por 1997. Existem também à disposição os roteiros escritos por Tarantino e que foram dirigidos por outros caras e que de tão modificados daria um segundo texto por aqui. Por enquanto, basta dizer que Oliver Stone deixou Assassinos Por Natureza ainda mais insano e violento que o original e que Tony Scott eliminou a estrutura circular (tipo Pulp Fiction) de Amor à Queima-Roupa, além de arranjar o final feliz por conta própria. Já no caso de Kill Bill, o chefão da Miramax, Harvey Weistein, afirmou que ninguém mete a mão nas mais de 200 páginas do roteiro, daí a necessidade de dividir a produção em duas partes. Mas se isso é verdade e se valeu a aposta, só esperando até fevereiro.
Texto originalmente publicado no e-zine Marca Diabo

2 comentários:

Lidia Zuin disse...

Muito bom o texto. Não sabia que tinha demorado 4 meses pra Kill Bill chegar no Brasil. Aff! Já acho absurdo quando demora semanas... huauhauhau

Romeu Martins disse...

Pois então, lembro que naquela época o pessoal do site Omelete foi até a Argentina só pra assistir à segunda parte do filme!

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