5.3.09

A carta furtada

O exemplo perfeito de um conto de raciocínio
pelo mestre Edgar Allan Poe

Nu sapientiae odiosius acumine nimio.
Sêneca

PARIS, logo depois do escurecer duma ventosa noite do outono gozava eu a dupla volúpia da meditação e dum cachimbo de espuma, em companhia de meu amigo C. Augusto Dupin, em sua pequena biblioteca, ou gabinete de estudos, no terceiro andar do n.0 33, da Rua Dunot, bairro de São Germano. Durante hora, pelo menos, mantivemos profundo silêncio; ao primeiro observador casual, cada um de nós pareceria atenta e exclusivamente ocupado com as crespas volutas de fumaça que tornavam pesada a atmosfera do quarto. Quanto a mim, porém, discutia mentalmente certos tópicos que haviam formado tema de conversa entre nos, no começo da noite. Refiro-me ao caso da Rua Morgue e ao mistério ligado ao assassínio de Maria Roget. Considerava, por conseguinte, a espécie de relação existente entre eles, quando a porta de nosso apartamento foi escancarada e deu entrada ao nosso conhecido, o Sr. G***, Chefe da Polícia parisiense.

Recebemo-lo cordialmente, pois tanto havia naquele homem de encantador como de desprezível, e há muitos anos que não o víamos. Como estivéssemos no escuro Dupin levantou-se a fim acender uma lâmpada, mas sentou-se de novo, sem fazê-lo, ao ouvir G*** dizer que tinha vindo consultar-nos, ou antes, pedir a opinião de meu amigo a respeito de certo negócio oficial que já havia ocasionado grandes complicações.

- Se se trata dum caso que requeira reflexão - observou ao abster-se de acender o pavio -, examiná-lo-emos melhor no escuro.

- É outra de suas esquisitices - disse o Chefe de Polícia tinha o cacoete de chamar de "esquisito" tudo quanto além de sua compreensão e por isso vivia em meio duma completa legião de "esquisitices".

- É bem verdade - disse Dupin, apresentando um cachimbo ao visitante e empurrando para o lado dele uma confortável cadeira.

- E qual a dificuldade agora? - perguntei. - Espero que não seja mais nenhum assassínio.

- Oh, não, nada dessa espécie! O fato é. . . o caso é bastante simples na verdade, e não tenho dúvida que poderíamos nós mesmos resolvê-lo muito bem; mas depois pensei que Dupin gostaria de conhecer-lhe os pormenores, porque é tão extraordinariamente esquisito.

- Simples e esquisito - disse Dupin.

- Mas é mesmo, embora a expressão não seja bem exata. O fato é que todos nós ficamos bastante embaraçados, porque o é tão simples, e, no entanto, desconcerta-nos inteiramente.

- Talvez seja a própria simplicidade da coisa que o induz erro - disse meu amigo.

- Que contra-senso esse seu! - respondeu o Chefe de rindo cordialmente.

- Talvez o mistério seja um tanto demasiado claro - disse Dupin.

- Oh, pelo bom Deus! Quem já ouviu falar de semelhante idéia?

- Um pouco demasiado evidente.

- Ah, ah, ah! Ah, ah, ah! Oh! oh! oh! ria estrepitosamente nosso visitante, intensamente divertido. - Oh, Dupin, você ainda me mata!

- E afinal - perguntei eu -, qual é o caso em questão?

- Bem, vou contar-lhes o caso - respondeu o Chefe de Polícia lançando uma longa, segura e contemplativa fumaçada e sentando-se na cadeira. - Contar-lhes-ei tudo em poucas palavras, mas antes de começar, deixem-me adverti-los de que se trata dum negócio que exige o maior sigilo, e que mui provavelmente perderei o cargo que ora exerço se se souber que o confiei a alguém.

- Comece - disse-lhe eu.

- Ou não comece - disse Dupin.

- Pois vamos lá. Recebi informação particular, na mais alta esfera de que certo documento da mais extrema importância foi furtado dos aposentos reais. O indivíduo que o furtou é conhecido, e não pode haver dúvida a respeito. Foi visto no ato do furto. Sabe-se também que o documento se encontra ainda em seu poder.

- Como se sabe disso? - perguntou Dupin.

- Deduz-se claramente - respondeu o Chefe de Polícia - da natureza do documento e do não aparecimento de certos resultados surgiriam imediatamente se ele saísse das mãos do ladrão, isto ele o utilizasse em vista do fim a que se propunha.

- Seja um pouco mais explícito - disse eu.

- Bem, posso aventurar-me a dizer que o papel dá a seu possuidor certo poder em determinado setor em que tal poder é imensamente valioso.

O chefe de Polícia era doido pela gíria diplomática.

- Não compreendo ainda inteiramente - disse Dupin.

- Não? Pois bem, revelado esse documento a uma terceira pessoa cujo nome omitirei, porá em questão a honra de um personagem da mais alta hierarquia, e este fato dá ao detentor do documento ascendência sobre o ilustre personagem cuja honra e cuja paz ficam assim ameaçadas.

- Mas esta ascendência - interrompi eu - dependerá do seguinte, saberá o ladrão que a pessoa roubada conhece quem furtou o documento ? Quem ousaria...

- O ladrão - disse G*** - é o Ministro D***, que ousa tudo quanto é indecente, bem como tudo quanto é decente para um homem. O processo do furto foi tão engenhoso quanto audaz. O documento em questão - uma carta, para ser franco – tinha sido recebida pela personagem roubada enquanto se achava só na alcova real.

Enquanto a lia, foi ela, de súbito, interrompida pela entrada de outra elevada personagem, de quem desejava especialmente ocultar a carta. Depois de apressada e vã tentativa de lançá-la numa gaveta, foi obrigada a colocá-la, aberta como estava, sobre mesa. O sobrescrito, porém, estava para cima e oculto assim o conteúdo, não chamando a carta atenção. Nesta conjuntura entra o Ministro D***. Seu olhar de lince nota imediatamente o papel, reconhece a letra do sobrescrito, percebe a atrapalhação da personagem, a quem a carta estava endereçada, e descobre-lhe o segredo.

Depois de tratar de alguns negócios, a toda pressa, como costuma tira do bolso uma carta um tanto semelhante à carta em questão abre-a, pretende lê-la, e depois coloca-a bem junto da outra. Começa a conversar, durante uns quinze minutos, a respeito de negócios públicos. Por fim, ao despedir-se, pega de cima da mesa a carta a que não tinha direito. Seu verdadeiro dono viu isso, sem dúvida, não ousou chamar a atenção para o ato, na presença do terceiro personagem, que estava a seu lado. O ministro deixando sua própria carta, que não tinha a menor importância sobre a mesa.

- Aqui, então - falou-me Dupin -, tem você o que é preciso para tornar a ascendência completa: o ladrão sabe que a pessoa furtada conhece o ladrão.

- Sim - replicou o Chefe de Polícia - e o poder assim tem sido utilizado, desde há alguns meses, para fins políticos, amplitude muito perigosa. A pessoa roubada está cada dia inteiramente convencida da necessidade de reaver sua carta. isto, naturalmente, não pode ser feito às claras. Afinal, levada ao desespero, encarregou-me da questão.

- Para isso disse Dupin, em meio a uma perfeita espiral fumaça - nenhum agente mais sagaz poderia, suponho, ser desejado ou sequer imaginado.

- O senhor me lisonjeia - replicou o Chefe de Polícia - é possível que tenha sido expendida alguma opinião dessa espécie.

- É claro - disse eu -, como o senhor observa, que a carta ainda se acha em poder do ministro; visto como é a posse, e não qualquer utilização da carta, que lhe permite o poder. Com emprego, desaparece o ascendente.

- De fato - disse G * * * - e eu procedi de acordo com convicção. Meu primeiro cuidado foi fazer uma busca completa no palacete do ministro. E meu principal embaraço, aí, estava na necessidade de procurar, sem que ele soubesse. Além de tudo. fora prevenido do perigo que resultaria de dar-lhe motivo de suspeitar de nosso desígnio.

- Mas - disse eu - o senhor está perfeitamente au fait nessas investigações. A polícia parisiense já fez tais coisas várias vezes antes.

- Oh, sim! E por essa razão não perdi a esperança. Os hábito do ministro, aliás, dava-me grande vantagem. Freqüentemente se ausenta ele de casa a noite inteira. Seus criados não são numerosos. Dormem distanciados do apartamento de seu patrão , como são napolitanos, embriagam-se facilmente. Eu tenho chaves como sabem, que podem abrir qualquer quarto ou móvel de Paris. Durante três meses, não se passou uma noite em cuja maior parte eu não me entregasse à tarefa de revistar, pessoalmente, o palacete.

- Minha honra está em jogo e, para mencionar um grande segredo, a recompensa é enorme. Assim, não abandonei a busca, até que me convenci completamente de que o ladrão é homem mais astuto do que eu. Creio que investiguei todos os nichos e cantos do edifício em que fosse possível estar o papel escondido.

- Mas é possível - sugeri - que, embora a carta possa estar em poder do ministro, como inquestionavelmente está, ele a tenha ocultado em outra parte que não em sua própria residência?

- Isso é dificilmente possível - disse Dupin. - As atuais condições especiais dos negócios da corte e principalmente dessas intrigas em que se sabe estar D* * * envolvido tornam a eficácia do documento sua possibilidade de ser apresentado em um momento, um ponto de importância quase igual ao de sua posse.

- Sua possibilidade de ser apresentado? - perguntei.

- O que vale dizer, de ser destruído - disse Dupin.

- De fato - observei. - A carta então está claramente no prédio. Quanto a estar na própria pessoa do ministro, devemos considerar isso como coisa fora de questão.

- Inteiramente - disse o Chefe de Polícia. - Ele foi duas vezes vítima de emboscada, como da parte de salteadores, e uma estrita busca foi dada em sua pessoa, sob minha própria inspeção.

- Você podia ter-se poupado esse incômodo - falou Dupin. - - D*** , creio eu, não é de modo algum maluco, e, não o sendo, devia ter previsto essas emboscadas como uma coisa inevitável.

- Não é de modo algum maluco - falou G*** -, mas é porque eu julgo estar só a um passo do maluco.

- Efetivamente - disse Dupin, depois de longa e pensativa fumaça do cachimbo -, embora eu próprio tenha perpetrado alguns versos de pé quebrado.

- Suponho que o senhor pormenorizará - disse eu -, minuciosamente, a sua pesquisa.

- Bem, o fato é que gastamos tempo e procuramos em toda parte. Tenho longa experiência desses assuntos. Explorei o edifício inteiro, aposento por aposento, dedicando as noites de toda uma semana a cada um deles. Examinamos primeiro a mobília de cada apartamento. Abrimos todas as gavetas possíveis; e imagino que o senhor sabe que, para um agente de polícia convenientemente treinado coisa tal como uma gaveta secreta é
impossível. Será um pateta qualquer homem que deixe escapulir-lhe uma gaveta "secreta” numa busca dessa espécie. A coisa é tão fácil. Há certa quantidade de volume, de espaço, a ser examinada em cada móvel. Depois temos regras acuradas. Não nos escapará a quinta parte de uma linha.

- Depois das escrivaninhas passamos às cadeiras. Os estofos foram pesquisados com as finas agulhas compridas, que você me viu empregar. Das mesas, retiramos a parte de cima.

- Por que isso?

- Às vezes, a parte de cima de uma mesa, ou de outra similarmente construída do mobiliário, é removida pela pessoa que deseja esconder um objeto. Depois, escava-se a perna do móvel , deposita-se o objeto dentro da cavidade e recoloca-se a tampa. As partes de cima e do fundo das colunas de camas são também empregadas do mesmo modo.

- Mas não podia a cavidade ser localizada pelo som? - perguntei.

- De modo algum, se, quando o objeto for colocado, se em volta dele um enchimento suficiente de algodão. Além em nosso caso, éramos obrigados a agir sem fazer barulho.

- Mas o senhor não podia ter removido, o senhor não ter feito em pedaços todas as peças do mobiliário, em que seria possível depositar uma coisa do modo que mencionou. Uma carta pode ser comprimida num rolo fino em espiral, não diferindo na forma ou no volume, de uma comprida agulha de crochê e dessa forma, pode ser inserida num pé de cadeira, por exemplo. O senhor não reduziu a pedaços todas as cadeiras?

- Certamente que não; mas fizemos melhor: examinamos os pés de todas as cadeiras do palacete e, para falar verdade, as de todas as peças do mobiliário com o auxílio de um poderoso microscópio. Tivesse havido traços de qualquer alteração recente não deixaríamos de descobri-la no mesmo instante. Qualquer modificação na cola, qualquer afastamento incomum das juntas, bastante para assegurar a descoberta.

- Creio que o senhor examinou os espelhos, entre as tábuas o vidro, e pesquisou as camas e as roupas de cama, assim as cortinas e os tapetes.

- Naturalmente; e quando acabamos de examinar completamente desse modo cada partícula do mobiliário, rebuscamos a própria casa. Dividimos sua superfície completa em compartimentos, numeramos de modo que nenhum podia escapar; depois, investigamos cada polegada quadrada, isoladamente, pelo edifício inteiro com o microscópio, como fizéramos antes, Inclusive as duas casas imediatamente vizinhas.

- As duas casas vizinhas? - exclamei. - O senhor deve ter tido um trabalho enorme!

- Tivemos. Mas a recompensa oferecida é maravilhosa!

- O senhor incluiu o chão em volta das casas?

- Todo o chão é calçado com tijolos. Isso nos deu relativamente pouco trabalho. Examinamos a relva entre os tijolos e verificamos que não se mexera ali.

- O senhor investigou os papéis de D***, naturalmente, e os livros da biblioteca?

- Por certo. Abrimos cada embrulho e cada objeto; não só abrimos todos os livros, mas viramos todas as folhas de todos os volumes, não nos contentando com uma simples sacudidela, como dizem alguns de nossos funcionários da polícia. Também medimos a espessura de cada capa de livro, com a mais apurada precisão e aplicamos a cada uma delas, a mais zelosa pesquisa com o microscópio Se se tivesse inserido alguma coisa em qualquer uma, seria extremamente impossível que tal fato houvesse escapado à observação. Cerca de cinco ou seis volumes que haviam voltado recentemente das mãos do encadernador foram sondados, cuidadosamente, com as agulhas.

- Examinou o assoalho por baixo dos tapetes?

- Sem dúvida. Removemos todos os tapetes e examinamos as tábuas com microscópio.

- E o papel das paredes?

- Também.

- Olharam nas adegas?

- Sim .

- Então - disse eu - o senhor está fazendo um cálculo errado

- Não está no prédio, como supõe.

- Receio que aí o senhor tenha razão - disse o Chefe de polícia.

- E agora, Dupin, que é que você me aconselha a fazer?

- Fazer uma busca completa no edifício.

- Isso é completamente desnecessário - replicou G *** Tenho menos certeza de respirar do que de que a carta não está no palacete.

-Não tenho melhor conselho para lhe dar - disse Dupin. - senhor com certeza tem uma descrição minuciosa da carta? Oh, sim!

E então, o Chefe de Polícia extraiu um caderno de notas e leu, em voz alta, um minucioso relatório sobre a aparência interna e, especialmente, a externa do documento perdido. Logo depois de terminar a leitura dessa descrição, partiu, mais inteiramente abatido do que eu jamais vira antes o bom cavalheiro.

Cerca de um mês depois, nos fez ele outra visita e achou-nos ocupados quase da mesma forma em que nos encontrou da vez anterior . Pegou do cachimbo, assentou-se e iniciou qualquer conversa comum. Afinal, disse eu:

- Bem, mas G* *, que há a respeito da carta furtada? Presumo afinal, se convenceu de que não é coisa de pouca monta vencer em astúcia o ministro?

- Maldito seja, digo eu, sim, maldito seja. Refiz as buscas, no entanto, como Dupin sugeriu, mas foi tudo trabalho perdido, como sabia que seria.

- De quanto era a recompensa oferecida, a que você se referiu?-Perguntou Dupin.

- Ora, é muita coisa... uma recompensa bastante generosa... não gosto de dizer quanto, precisamente, mas uma coisa direi: que não me importaria de dar, do meu próprio bolso, cinqüenta mil a quem quer que pudesse obter para mim essa carta. O fato é que a coisa está-se tornando dia a dia mais importante e a recompensa foi recentemente duplicada. Mesmo, porém, que a triplicassem, não poderia fazer mais do que tenho feito.

- Mas, sim. . - disse Dupin, arrastando as palavras, as baforadas de seu cachimbo de espuma. - Na verdade... G***, que você não se tem esforçado. . . não tem feito o que pode nesse negócio. Você devia - penso eu fazer um pouco mais, hein?

- Como?... Em que sentido?

- Ora.. . puff. . . você poderia. . . puff, ....... aconselhar- se com alguém nesse caso. . . não acha?. . . puff, puff, puff Lembra-se da estória que contam do Abernethy?

- Não. Que vá Abernethy para o diabo!

- Com efeito! Mande-o para o diabo, se lhe apraz. Mas uma vez, certo ricaço porreta concebeu o desígnio de extrair Abernethy uma consulta médica. Travando, com esse objetivo, conversa comum, num grupo de íntimos, insinuou seu caso ao médico, como o de um indivíduo imaginário. "Vamos disse o avaro que os sintomas dele são tais e tais; ora, que lhe aconselharia tomar?" 'Eu lhe mandaria que tomasse" disse Abernethy , o conselho de um médico, com certeza."

- Mas.. . - disse o Chefe de Polícia, um tanto desconcertante, estou perfeitamente disposto a tomar conselho e a pagar pelo conselho. Daria realmente cinqüenta mil francos a quem quer me ajudasse nesse negócio.

- Neste caso - respondeu Dupin, abrindo uma gaveta, e sentando um livro de cheques - você poderia muito bem escrever-me um cheque do montante que acaba de mencionar. Depois que o tiver assinado entregar-lhe-ei a carta.

Fiquei atônito. O Chefe de Polícia parecia ter sido fulminado, durante alguns minutos permaneceu sem fala e sem movimento olhando incredulamente para meu amigo, de boca aberta, e olhos quase fora das órbitas. Depois parecendo, de certo dominar-se, agarrou uma pena e, após muitas pausas e olhos vagos, encheu afinal e assinou um cheque de cinqüenta mil francos , entregando-o, por cima da mesa, a Dupin. Este examinou-o detidamente e meteu-o depois na carteira. Em seguida, abrindo a escrivaninha, dela tirou uma carta e entregou-a ao Chefe de polícia . O funcionário agarrou-a, num perfeito transe de alegria, abriu com mão trêmula, lançou um rápido olhar a seu conteúdo, e, arrastando- se com esforço para a porta, precipitou-se, afinal, sem mais cerimônia, para fora do quarto e da casa sem ter pronunciado uma só sílaba, desde que Dupin lhe havia pedido que enchesse o cheque.

Quando ele saiu, meu amigo passou a dar algumas explicações.

- A polícia parisiense - disse ele - é excessivamente hábil no seu ofício. Seus agentes são perseverantes, engenhosos, e inteiramente versados nos conhecimentos que sua profissão principalmente exige. Por isso, quando C * * * nos expunha seu processo de pesquisa nos aposentos da residência de D***, tive inteira confiança no resultado satisfatório da busca, dentro dos limites de seus esforços.

- Dentro dos limites de seus esforços? - perguntei eu.

- Sim disse Dupin. - As medidas adotadas eram não só de sua espécie, mas foram conduzidas com absoluta perfeição. Se a carta tivesse sido depositada dentro do alcance dos agentes teriam, sem dúvida alguma, dado com ela.

Ri simplesmente. Ele, porém, parecia dizer tudo aquilo com toda a seriedade.

- As medidas, pois - continuou ele - eram boas no seu gênero e bem executadas. Seu defeito jazia em serem inaplicáveis ao caso e ao homem. Certo grupo de recursos altamente engenhoso ao Chefe de Polícia, uma espécie de leito de Procusto, tem de forçosamente adaptar seus planos. Mas ele erra, sem cessar, por ser demasiado profundo ou demasiado raso no assunto em questão, e muito menino de colégio raciocina melhor
do que ele. Conhecia um, de cerca de oito anos de idade, cujos triunfos em acertar no jogo do "par e ímpar" atraíam a admiração geral . Este jogo é simples e joga-se com bolinhas. Um jogador tem na mão certo número dessas bolinhas e pergunta a outro número é par ou ímpar. Se a adivinhação dá certo, o adivinhador ganha uma bola; se está errada, perde uma. O menino a quem me referi ganhava todas as bolas da escola. Tinha ele, sem dúvida algum meio de adivinhação e este consistia na simples observação e comparação da astúcia de seus adversários.

- Por exemplo simplório chapado é seu adversário, e, mantendo a mão, pergunta: "São pares ou ímpares?" O nosso colegial responde "Impares", e perde; mas, na segunda prova, acerta, porque a si mesmo: "O simplório pusera número par da primeira vez e sua dose de astúcia é o suficiente para fazê-lo ter bolas em ímpar, da segunda vez; portanto, adivinharei ímpar"; adivinha ímpar e ganha. Ora, com um simplório um grau acima do
primeiro caso, ele teria raciocinado assim: "Este rapaz vê que, no primeiro caso, eu adivinhei ímpar, e no segundo, proporá a si mesmo, de acordo com o primeiro impulso, uma simples variação de par como fez o primeiro simplório; mas depois um segundo pensamento lhe sugerirá que isto é uma variação demasiado, e, finalmente, decidirá pôr número par como antes. Eu, lo, adivinharei par; adivinha par e ganha. Ora, este modo de raciocinar do colegial que seus camaradas chamam de "sorte", em última análise, qual é?
-
É simplesmente - disse eu -, uma identificação do intelecto do raciocinador com o de seu antagonista.

- É - disse Dupin. - Quando perguntei ao menino por que era efetuada aquela perfeita identificação na qual consistia seu êxito, recebi a resposta que se segue: “Quando eu quero descobrir quando alguém é sensato, ou estúpido, ou bom, ou perverso, ou quais são seus pensamentos no momento, componho a expressão de meu rosto, tão cuidadosamente quanto possível, de acordo a expressão dele, e então espero ver que pensamentos ou sentimentos são despertados na minha mente ou no meu coração, como para se equiparar ou corresponder à "minha fisionomia". Esta resposta do colegial mergulha fundamente em toda aquela profundeza errônea que tem sido atribuída a La Rochefoucauld, a La Bougive, a Machiavelli e a Campanella.

- E a identificação - disse eu - do intelecto do raciocinador com o de seu adversário depende, se bem o compreendo, da exatidão com que é apreciado o intelecto do adversário.

- Para seu valor prático, depende efetivamente disso -pondeu Dupin -, e se o Chefe de Polícia e sua corte são freqüentemente mal sucedidos é, primeiro, por falta dessa identificação, e, em segundo lugar, pela má apreciação, ou antes, não apreciação do intelecto com que se estão medindo.Consideram somente suas próprias idéias engenhosas e, na procura de oculto, só cuidam dos meios de que eles se teriam servido
ocultá-lo. Têm bastante razão nisto de ser sua própria engenhosidade uma representação fiel da massa; mas quando a astúcia malfeitor particular é de caráter diverso da deles, o malfeitor naturalmente os "enrola". Isso sempre acontece quando essa astúcia está acima da deles e, muito comumente, quando está abaixo. Eles não variam de princípios em suas investigações; no máximo, quando premidos por alguma emergência insólita, por alguma recompensa extraordinária, ampliam ou exageram seus velhos métodos de ação,
sem mexer-lhes nos princípios.

- Que, por exemplo, caso de D***, se fez para variar o princípio de ação? Que significam todas essas perfurações e exames e sondagens e investigações com o microscópio e divisões da superfície do edifício polegadas quadradas numeradas? Que significa tudo isso senão exagero da aplicação do único princípio ou grupo de princípios pesquisa, que se baseiam sobre o único grupo de noções relata à engenhosidade humana, com as quais o Chefe de Polícia se acostumou na longa rotina de suas funções? Você não vê que tomou
como assegurado que todos os homens procuram, para esconder uma carta, se não exatamente um buraco feito a verruma numa perna de cadeira, pelo menos algum canto ou orifício, indo pelo mesmo curso de idéias que impeliria um homem a esconder uma carta, num buraco feito a verruma, numa perna de cadeira ? E você não vê também que tais esconderijos recherchés só prestam para ocasiões comuns e só seriam adotados por
intelectos comuns? Porque, em todos os casos de ocultamento, a colocação do objeto escondido, a colocação dele desse modo recherché, é logo no primeiro momento, presumível e presumida; e sua descoberta assim depende não absolutamente da agudeza, mas inteiramente do simples cuidado, paciência e obstinação dos que procuram; e quando o caso é de importância (o que significa a mesma coisa aos olhos dos policiais quando a recompensa é elevada), nunca se soube que falhassem as qualidades em apreço. Você compreenderá agora o que eu queria dizer, ao sugerir que, se a carta furtada tivesse escondida em qualquer lugar dentro dos limites de pesquisa do chefe de polícia, em outras palavras, se estivesse o princípio de seu esconderijo compreendido dentro dos princípios do Chefe de polícia sua descoberta teria sido um assunto completamente fora de questão.

- Esse funcionário, contudo, foi inteiramente mistificado e a fonte remota de sua derrota está na suposição de que o ministro é um maluco, porque adquiriu renome como poeta. Todos os malucos são poetas; é isso o que o Chefe de Polícia sente; e ele é simplesmente culpado de um non distributio meda, ao deduzir que todos os poetas são malucos.

- Mas esse é realmente o poeta? - perguntei. - Sei que são ambos irmãos, e que ambos alcançaram renome nas letras. O ministro creio eu, escreveu eruditamente sobre o cálculo diferencial. É um matemático e não um poeta.

- Você se engana. Eu o conheço bem; é ambas as coisas. Como matemático, ele raciocinaria bem; como simples matemático não raciocinaria absolutamente e assim estaria à mercê do chefe de Polícia.

- Você me surpreende - disse eu - com essas opiniões que sido contraditadas pela voz geral. Você não tem a intenção de deduzir a nada as idéias bem assentadas através dos séculos. Raciocínio matemático tem sido considerado, há muito, como o raciocínio par excellence.

- Deve-se apostar - replicou Dupin, citando Chamfort - que toda idéia pública, toda convenção aceita é uma tolice, porque conveio ao numero maior. Os matemáticos, concedo-lhe, fizeram o melhor que puderam para divulgar o erro popular a que você alude e que não deixa de ser um erro só por ser promulgado verdade. Com uma arte digna de melhor causa, por exemplo, insinuaram a palavra "análise" nas operações algébricas. Os
franceses são os criadores desse engano particular, mas se uma palavra tem alguma importância, se as palavras extraem qualquer valor de aplicabilidade, então "análise" significa "álgebra", quase tanto, no latim, ambitus significa "ambição", religio quer dizer "religião", ou homines honesti, um punhado de "homens honrados".

- Vejo que você está tendo alguma polêmica - disse eu – com alguns dos algebristas de Paris. Mas continue.

- Contesto a eficácia, e portanto o valor, daquele raciocínio que se cultiva por qualquer forma especial que não seja a lógica abstrata. Contesto, em particular, o raciocínio deduzido pelo estudo matemático . As matemáticas são a ciência da forma e da quantidade; o raciocínio matemático é simplesmente lógico se aplicado à forma e à quantidade. O grande erro está em supor que mesmo as verdades do que se chama
álgebra pura são verdades gerais ou abstratas. E esse erro é tão evidente que me espanta a universalidade de sua aceitação. Os axiomas matemáticos não são axiomas de verdade geral. O que é uma verdade de relação (de forma e quantidade) é muitas vezes enormemente falso, com respeito à moral, por exemplo.

- Nesta última ciência, é muito comumente inverídico que a soma das partes seja igual ao todo. Também na química esse axioma falha. Na apreciação de motivos, falha, porque dois motivos, cada um de um dado valor, não têm, necessariamente, quando unidos, um valor igual à soma de seus valores separados. Há numerosas outras verdades matemáticas que só são verdades dentro dos limites da relação. Mas os matemáticos mentem com suas verdades finitas pelo hábito, como se elas fossem de uma aplicabilidade absolutamente geral, tal como o mundo em verdade imagina que sejam.

- Bryant, em sua mui erudita Mitologia menciona uma fonte análoga de erro quando diz que, embora as fábulas pagãs não sejam cridas, esquecemo-nos, contudo, continuamente, e tiramos deduções delas como de realidades existentes. Entre os algebristas, porém, que são igualmente pagãos, as fábulas pagãs" são criadas, e as inferências são feitas, não tanto de falta de memória como por causa de uma inexplicável perturbação do cérebro. Em suma, nunca encontrei um simples matemático em quem pudesse ter confiança fora das raízes quadradas, nenhum que, clandestinamente, não mantivesse, como um ponto de fé que x2+px era absoluta e incondicionalmente igual a q.

- Diga a algum desses cavalheiros, só para experimentar, se lhe aprouver, que você acredita possam ocorrer ocasiões em que x2 + px não seja igual a q, e tendo feito com que ele compreenda o que você quer dizer, coloque-se fora de seu alcance, com toda a rapidez conveniente, pois sem dúvida ele tentará atirá-lo ao chão.

- Quero dizer - prosseguiu Dupin, enquanto eu apenas ria de suas observações - que se o ministro não fosse mais do que matemático o Chefe de Polícia não teria passado pela necessidade de dar-me este cheque. Conheço-o, contudo, tanto como matemático quanto como poeta, e minhas medidas foram adaptadas à capacidade dele com referência às circunstâncias que o rodeavam. Sabia também que ele era um cortesão e um ousado intrigante. Um homem assim, pensei, não podia deixar de ser conhecedor dos modos comuns de agir da polícia. Não podia deixar de prever - e os acontecimentos provaram que ele não deixou de prever - as emboscadas a que estava sujeito. Deve ter pressuposto, refleti, as investigações secretas de sua residência. Suas freqüentes ausências de casa, à noite, que foram saudadas pelo Chefe de Polícia como auxílio certo para seu sucesso, olhei-as apenas como astúcia para fornecer oportunidade a uma busca completa pela polícia e acentuar-lhe a convicção a que G***, de fato, finalmente chegou de que a carta não estava no prédio. Pensei, também, que toda série de pensamentos que me estava custando detalhar-lhe mesmo com relação ao principio Invariável da ação policial na procura de objetos escondidos, pensei que toda essa série de pensamentos necessariamente passaria pela mente do ministro. Ela o levaria imperativamente, a pôr de parte todos os esconderijos comuns.

- Não podia, refleti, ser fraco a ponto de não ver que os mais intrincados e remotos recessos de seu palacete ficariam tão abertos como as mais comuns antecâmaras aos olhos, às pesquisas, às verrumas e aos microscópios do Chefe de Polícia. Vi, finalmente, seria levado, como coisa natural, à simplicidade, senão deliberadamente induzido a isso, por uma questão de gosto. Você se lembrará talvez, de como o Chefe de Polícia riu, desbandeiramente de quando eu sugeri, em nossa primeira entrevista, que era bem que esse mistério o perturbasse tanto por causa de ser tão claro. - disse eu. - Lembro-me perfeitamente de sua hilaridade. Realmente pensei que ele ia cair em contorções de riso.

- O mundo material - continuou Dupin - é abundante em analogias muito estreitas com o imaterial e, assim, certa coloração de verdade foi dada ao dogma retórico de que a metáfora ou o sorriso podem servir tão bem para fortalecer um argumento como para embelezar uma descrição. O princípio de vis inertiae, por exemplo, parece ser idêntico na física e na metafísica. Não verdade é, na primeira, que um corpo grande se põe com maior dificuldade em movimento do que um menor e que seu menor subseqüente está em proporção com essa dificuldade, do que o é, na segunda, que às inteligências de maior capacidade, se unem e mais poderosas, mais constantes e mais cheias de acontecimentos em seus movimentos, do que as de grau inferior, são, contudo, as que se movem menos prontamente, com mais embaraço e cheias de hesitação, nos primeiros poucos passos de
seu progresso. E mais: já observou você quais dos letreiros de rua, nas das lojas, mais atraem a atenção?

- Nunca cogitei disso - disse eu.

- Há um jogo de adivinhação - continuou ele - que se exerce sobre um mapa. Um parceiro, que joga, pede ao outro para descobrir uma dada palavra, um nome de cidade, rio, estado ou império; qualquer palavra, em suma, sobre a matizada e intrincada superfície do mapa. Um novato no jogo procura, geralmente, embaraçar seus parceiros dando-lhes os nomes de letras mais miúdas, veterano escolhe palavras de grandes caracteres que se estendem de uma extremidade a outra do mapa. Estes, como os letreiros e tabuletas de rua, com grandes letras, escapam à observação pelo de serem excessivamente evidentes, e aqui a inadvertência física é precisamente análoga à inapreensão moral por meio da qual o intelecto deixa passar inadvertidas aquelas considerações, que são demasiado importunamente e demasiado palpavelmente evidentes. Mas este é um ponto, ao que parece, um tanto acima ou um tanto abaixo da compreensão do Chefe de Polícia. Ele, nem uma vez sequer julgou provável ou possível que o ministro tivesse depositado a carta bem por baixo do nariz de todo mundo, com o fim de melhor impedir que qualquer porção desse mundo a percebesse.

- Mas quanto mais refleti sobre a habilidade atrevida, ousada inteligente de D***, sobre o fato de que o documento devia estar sempre à mão, se ele tencionava utilizá-lo para um devido fim, sobre a decisiva prova obtida pelo Chefe de Polícia de que não estava oculto dentro dos limites das buscas comuns daquele, funcionário, tanto mais convencido fiquei de que, para ocultar a carta, o ministro tinha apelado para o expediente compreensível e sagaz de não tentar ocultá-la absolutamente.

- Cheio destas idéias, muni-me de um par de óculos verdes e dirigi-me, um belo dia, completamente por acaso, ao edifício ministerial. Encontrei D** * em casa, bocejando, espreguiçando-se, o como de costume e demonstrando achar-se no mais extremo tédio. Ele é, talvez, a criatura humana mais realmente enérgica que existe mas somente quando ninguém o vê.

- Para emparelhar com ele, queixei-me de meus olhos fracos lamentei a necessidade de usar óculos, e, a coberto disto, atenta e completamente investiguei todo o aposento, enquanto dava mostras, de estar apenas atento à conversa de meu interlocutor.

- Prestei especial atenção a uma grande escrivaninha, junto a qual estava ele sentado e sobre a qual achavam-se confundidas várias cartas misturadas e outros papéis, com um ou dois instrumentos musicais e uns poucos livros. Ali, porém, depois de longa e bem decidida pesquisa, nada vi que despertasse particular suspeita.

- Afinal meus olhos, circulando o quarto, caíram sobre um barato porta-cartões de filigrana e papelão que pendia, oscilando, amarrado por uma suja fita azul, de um pequeno prego de bronze, justamente sob o meio da cornija da lareira. Nesse porta-cartões, tinha três ou quatro compartimentos, viam-se cinco ou seis cartões de visita e uma carta solitária. Esta última estava bastante manchada e amassada. Estava quase rasgada em duas, no meio, se uma intenção, no primeiro momento, de rasgá-la inteiramente como coisa sem importância tivesse sido alterada, ou adiada, em segundo momento. Ostentava um grande selo negro, levando bem claramente o sinete de D***, e estava endereçada, com letra feminina bem miúda, ao próprio D* **, o ministro. Fora atirada descuidadosamente e mesmo, como parecia, desdenhosamente numa das divisões superiores do porta-cartões.

- Logo depois que lancei a vista para aquela carta, concluí que deveria ser a tal que eu procurava. Decerto era, segundo todas as aparências, radicalmente diferente daquela de que o Chefe Polícia nos dera tão minuciosa descrição. Nela o selo era grande e negro, com o sinete de D**.*; lá era pequeno e vermelho, com as armas ducais da família . Aqui o endereço do ministro era em letras miúdas e femininas; na outra, o sobrescrito, para certo personagem real, estava em letras marcadamente abertas e firmes; só o formato constituía um ponto de relação. Mas justamente o radicalismo dessas diferenças, que era excessivo; o sujo; o estado do papel manchado e amassado, tão de desacordo com os verdadeiros hábitos metódicos de D***, e tão sugestivo de uma intenção de induzir erradamente o observador a uma idéia da falta de importância do documento; estas coisas, juntamente com a posição, exageradamente ostensiva desse documento, bem à vista de qualquer visitante e dessa forma exatamente em acordo com as conclusões a que eu tinha previamente chegado; tudo isso, repito, corroborava fortemente a suspeita de quem ali fosse com a intenção de suspeitar.

- Prolonguei minha visita o mais possível, e, enquanto mantinha com o ministro, a respeito de um assunto que eu bem sabia jamais deixara de interessá-lo e excitá-lo, conservava na realidade minha atenção fixa sobre a carta. Neste confiei à memória sua aparência externa e posição no porta cartões e, por fim, cheguei também a uma descoberta que afastou a mais ligeira dúvida que eu pudesse entreter. Observando as extremidades do papel, notei que elas estavam mais estragadas do que parecia necessário. Apresentavam o aspecto enxovalhado, que se manifesta quando um papel duro, tendo sido uma vez dobrado e repassado por uma espátula, é desdobrado em direção contrária , nas mesmas dobras, ou extremidades que haviam formado a dobra primitiva.

- Esta descoberta foi suficiente. Tornava-se claro para mim que a carta tinha sido revirada como uma luva, de para fora, reendereçada e relacrada. Despedi-me do ministro e imediatamente, deixando uma tabaqueira de ouro sobre a mesa. No dia seguinte, fui buscar a tabaqueira e então retomamos, com a mesma avidez, a conversa do dia anterior.

- Enquanto estávamos entretidos, ouviu-se uma forte detonação, como de uma pistola, ali bem por baixo das janelas do edifício, seguida de uma de uma série de terríveis gritos e do vozerio de uma populaça aterrorizada. D*** correu para uma sacada, abriu-a e olhou para fora. Enquanto encaminhei-me para o porta-cartões, tirei a carta, meti-a no bolso e substitui-a por um fac-símile (quanto às aparências externas que eu tinha cuidadosamente preparado nos meus aposentos, usando o sinete de D***, muito facilmente, por meio de um feito de miolo de pão.

- A desordem na rua tinha sido ocasionada pela conduta furiosa m homem armado de um mosquete. Havia-o detonado, em meio de uma multidão de mulheres e crianças. Ficou provado, porque o fizera sem balas e deixaram o camarada seguir seu caminho, tendo-o como um maluco ou um bêbedo. Logo que ele se foi, D*** voltou da janela, aonde eu o havia seguido, logo depois de ter-me apoderado do objeto em vista. Sem demora tratei de despedir-me. O pretenso maluco era um homem pago por mim.

- Mas qual a sua intenção - pergunte, substituindo a carta por um fac-símile? Não teria sido melhor, logo à primeira visita, haver-se apoderado dela francamente e partido?

- D*** - replicou Dupin é um homem violento e nervoso.Além disso, em sua casa não faltam servidores devotados a seus interesses. Se eu tivesse feito a grosseira tentativa que você sugeriu talvez jamais tivesse podido sair vivo da presença do ministro. Talvez o bom povo de Paris nunca mais ouvisse falar de mim. Mas tinha eu um objetivo, fora dessas considerações. Você conhece minhas simpatias políticas. Neste assunto, ajo como partidário da senhora em questão. Durante dezoito meses o ministro a teve em seu poder. Ela agora o tem no seu, uma vez que, não sabendo a carta não se acha em seu poder, ele continuará com suas extorsões, como se ainda a possuísse. Por isso será inevitavelmente reduzido, de pronto, à sua destruição política. Sua queda, será tão precipitada quanto desastrada. E muito bom falar a respeito do jacilis descensus Averni; mas em todas as espécies de subida, como diz Catalani sobre o canto, é bem mais fácil do que descer. No presente caso, não tenho eu simpatia, ou pelo menos não tenho piedade, por aquele que cai. Ele é aquele monstrum horrendum, um homem de gênio sem caráter. Confesso, contudo, que gostaria bastante de conhecer a precisa natureza de seus pensamentos quando, sendo desafiado por aquela a quem o Chefe de Polícia denomina "certo personagem", se vir reduzido a abrir a carta que eu deixei para ele no porta-cartões.

- Como? Escreveu você qualquer coisa de especial nela?

- Ora... não pareceria absolutamente direito deixar o interior da carta em branco! Teria sido insultante. E outrora, em Viena, pregou-me uma má peça, de que, lhe disse eu, completamente de bom-humor, sempre haveria de lembrar-me. Assim, como soube que ele sentiria alguma curiosidade a respeito da identidade da pessoa que o tinha excedido em astúcia, achei que era uma pena não lhe dar um indício. Ele conhece muito bem minha letra e justamente copiei, no meio da folha branca, as palavras:.un dessein si funeste,s'il n'est digne d'Atrée, est digne de Thyeste.

Elas se encontram na Atrée, de Crébillon.

Este conto foi publicado originalmente em The Gift: A Christmas and New Year's Present for 1844, com o título "The purloined letter" e é mais conhecido no Brasil como "Carta roubada". Não consegui idenficar o nome do tradutor responsável por esta versão.

4.3.09

Sobre o Sherlock

O texto abaixo é o primeiro de um autor estrangeiro que eu publico neste blog. O motivo para isso, além da qualidade da história narrada por Conan Doyle, é que "A ponte de Thor" é muito importante para o contexto de uma noveleta que escrevi recentemente e sobre a qual tenho mantido um blog paralelo a este, o Cidade Phantástica.

Vale lembrar ainda, que esta aventura canônica de Sherlock Holmes tem uma ressonância muito grande com um outro conto do personagem, não-oficial, que foi publicado no Brasil pela versão nacional da Isaac Asimov Magazine (a edição número 18, para ser exato). Originalmente impresso na revista Analog de janeiro de 1990, "O caso do ácido carbônico" (ou "The carbon papers"), foi escrito pelo inglês John Gribbin, e na solução daquela aventura, o detetive mais famoso do mundo utilizou um método dedutivo bastante semelhante ao empregado no caso abaixo, no qual ele investiga a morte de uma cidadã brasileira, Maria Pinto, nascida em Manaus e casada com um multimilionário americano, J. Neil Gibson.

3.3.09

A Ponte de Thor

Um caso clássico do maior detetive do mundo

por seu criador Sir Arthur Conan Doyle

Em algum ponto das abóbadas do banco de Cox & Cia., na Charing Cross, há uma caixa de estanho com vários documentos. Essa caixa, bastante estragada pelas viagens e pelo uso, tem o meu nome pintado na tampa. "Dr. John H. Watson, do Antigo Exército Indiano". Os inúmeros papéis de que está atulhada são quase todos relatórios de casos ou problemas curiosos, nos quais, em várias ocasiões, o Sr. Sherlock Holmes andou envolvido. Alguns, e por sinal não os menos interessantes, foram autênticos fracassos, e como tal quase não merecem ser narrados, uma vez que não oferecem nenhuma explicação final. Um problema sem solução pode interessar ao estudioso, mas dificilmente deixará de aborrecer o leitor casual. Entre esses contos não terminados, está o do sr. James Phillimore, que, voltando à sua casa para buscar o guarda-chuva, nunca mais foi visto neste mundo. Não menos notável é o do navio Alicia, que, numa manhã de primavera, fez-se ao mar penetrando num nevoeiro não muito denso e dele nunca mais emergiu, nada mais se tendo ouvido em tempo algum a respeito dele e de sua tripulação. Um terceiro caso digno de nota é o de Isadora Persano, conhecido jornalista e duelista, que foi encontrado completamente doido, tendo diante de si uma caixa de fósforos que continha um verme notável, que, segundo diziam, era desconhecido da ciência. Exceto esses casos não resolvidos, há alguns que envolvem segredos de família, a tal ponto que só a idéia de divulgá-los em letra de imprensa produziria consternação entre os freqüentadores da alta-roda. É ocioso dizer que tal abuso de confiança está completamente fora das nossas cogitações, e que esses relatórios vão ser separados e destruídos agora que o meu amigo tem tempo para dirigir sua atenção para o assunto. Resta ainda um considerável número de casos, de maior ou menor interesse, que eu já podia ter dado a público, não fosse o receio de afetar a reputação do homem que venero acima de todos. Em alguns, estive diretamente envolvido, e posso falar como testemunha ocular, ao passo que, em outros, ou não estive presente ou desempenhei papel tão insignificante que eles só podem ser narrados como se eu fosse uma terceira pessoa. A história que se segue é extraída da minha própria experiência.

Era uma manha desabrida de outubro, e reparei, enquanto me vestia, que as últimas folhas secas caíam rodopiando do solitário plátano silvestre que enfeita o terreno de trás da nossa casa. Desci para a refeição matinal preparado para encontrar meu companheiro um tanto abatido, pois, como todos os grandes artistas, ele se deixava facilmente impressionar pelo meio ambiente. Ao contrário, surpreendi-o quase terminando o repasto, e percebi que estava em excelente disposição de espírito, mesclada àquela alegria um pouco sinistra que era característica de seus momentos de despreocupação.

— Vejo que tem um caso para resolver, Holmes — observei.

— A faculdade de dedução é certamente contagiosa, Watson — respondeu ele. — Essa faculdade habilitou-o a sondar o meu segredo. Sim, tenho um caso. Depois de um mês de banalidades e estagnação, as rodas começam mais uma vez a entrar em movimento.

— Posso ter o meu quinhão?

— Não há muito o que dividir, mas podemos discuti-lo depois que eu tiver consumido os dois ovos cozidos com que hoje nos brindou a nossa nova cozinheira. Pode ser que o estado destes ovos tenha qualquer relação com o número de Family Herald que notei ontem em cima da mesa do vestíbulo. Até mesmo uma coisa tão trivial como cozinhar um ovo exige uma atenção que dá conta da passagem do tempo e que é incompatível com o romance de amor que se publica naquele excelente periódico.

Um quarto de hora mais tarde, a mesa estava limpa, e nós nos encontrávamos um em frente do outro. Ele tirara uma carta do bolso.

— Já ouviu falar em Neil Gibson, o Rei do Ouro? — perguntou.

— Refere-se ao senador americano?

— De fato, ele já foi senador por um Estado qualquer do oeste, mas é mais conhecido como o maior magnata do ouro no mundo.

— Sim, conheço-o de nome. Ele certamente reside na Inglaterra há já algum tempo. O nome é bastante familiar.

— E verdade. Adquiriu uma imensa propriedade em Hampshire há uns cinco anos. Já ouviu falar no fim trágico de sua esposa?

— Naturalmente. Agora me lembro. É por isso que o nome dele é conhecido. Mas ignoro os pormenores.

Holmes fez um gesto vago na direção de uns jornais que se achavam em cima de uma cadeira.

— Não fazia a mínima idéia de que esse caso viesse parar em minhas mãos, do contrário já teria os meus recortes e as minhas notas — disse ele. — O fato é que o problema, conquanto tremendamente sensacional, não parecia apresentar dificuldades. A interessante personalidade da acusada não obscurece a clareza da prova. Foi essa a opinião do júri encarregado do caso, e não divergiu disso o ponto de vista do tribunal de polícia. O caso está agora entregue ao tribunal comum de Winchester. Temo que seja uma tarefa ingrata. Posso descobrir fatos, Watson, mas não posso alterá-los. A menos que surja qualquer outro inteiramente novo e inesperado, não vejo como o meu cliente possa nutrir qualquer esperança.

— O seu cliente?

— Ah, esqueci que não lhe tinha dito. Já estou adotando o seu velho e complicado hábito de contar uma história começando pelo fim. É melhor você ler isto primeiro.

A carta que me entregou, escrita numa letra rasgada e firme, dizia o seguinte:

"Prezado sr. Sherlock Holmes,

Meu coração não suporta ver condenarem à morte a melhor mulher que Deus pôs no mundo sem fazer tudo o que for possível para salvá-la. Não consigo explicar os fatos, não consigo sequer tentar explicá-los, mas não tenho a menor dúvida quanto à inocência da Srta. Dunbar. O senhor com certeza sabe o que aconteceu. Não há ninguém que não o saiba. Também não há quem não comente o que sucedeu. E não se ergue uma voz para defendê-la! É a clamorosa injustiça de tudo isso que me põe fora de mim. Uma mulher com um coração tão sensível, incapaz de fazer mal a uma mosca! Pretendo aparecer aí amanhã, às onze horas, para ver se o senhor consegue lançar um raio de luz sobre tanta treva. Eu talvez disponha de algum indício sem o saber. Seja como for, tudo o que sei, tudo o que tenho e tudo o que sou estão ao seu dispor, contanto que o senhor a salve. Se jamais na vida o senhor mostrou seus poderes, ponha-os agora todos no presente caso.

Com elevado apreço,

J. Neil Gibson".

— Aí tem — disse Sherlock Holmes, batendo na beira da mesa com o seu cachimbo, que acabara de fumar após a ligeira refeição matinal, e reabastecendo-o lentamente. — E esse o cavalheiro cuja visita aguardo. Quanto à história, você mal tem tempo de ler todos esses jornais; por isso vou expô-la a você resumidamente, para que se interesse pelo processo. Esse homem é a maior potência financeira do mundo, e é um indivíduo, segundo estou informado, de caráter violento e difícil. Casou-se com uma mulher, a vítima desta tragédia, a respeito de quem nada sei a não ser que já passara da flor da idade, circunstância que ainda mais se agravou quando uma aia muito atraente veio superintender a educação das duas crianças. São esses os três protagonistas, e a cena é um grande e velho solar, centro de uma propriedade histórica inglesa. Agora vamos à tragédia. A esposa foi encontrada no terreno da propriedade, a pouco menos de um quilômetro da casa, a hora avançada da noite, elegantemente vestida, com um xale sobre os ombros e o crânio perfurado por uma bala de revólver. Não foi encontrada nenhuma arma perto da morta, não havendo, no local, qualquer indício relativo ao assassinato. Nenhuma arma perto da morta, Watson, note bem! O crime parece ter sido cometido no começo da noite, e o corpo foi descoberto por um couteiro, mais ou menos às onze horas, sendo nessa ocasião examinado pela polícia e por um médico antes de ser transportado para casa. Está resumido demais ou você entendeu bem?

— Está tudo muito claro. Mas por que suspeitar da aia?

— É que, em primeiro lugar, existe uma prova direta contra ela. Foi encontrado no guarda-roupa dela um revólver com falta de uma bala do mesmo calibre do projétil. — Com os olhos parados, repetiu, destacando as palavras: — No guarda-roupa dela. — Dito isso, emudeceu, e percebi que o fio das suas ideias começava a mover-se e que seria tolice interrompê-lo. De repente, com um estremeção, voltou à sua vida ativa. — Sim, Watson, foi encontrado. Não é condenatório? Foi o que pensaram os dois júris. Depois, a morta tinha consigo um bilhete assinado pela aia em que era marcado um encontro naquele mesmo lugar. Que tal? Finalmente, há o motivo. O senador Gibson é um homem atraente. Morrendo-lhe a mulher, quem provavelmente seria sua sucessora senão a jovem dama, que, afinal de contas, já recebera as maiores atenções de seu patrão? Amor, fortuna, poder, tudo na dependência de uma existência já a caminho do declínio. Feio, Watson, muito feio!

— Sim, realmente, Holmes.

— E nem um álibi ela pôde dar. Pelo contrário, teve de confessar que se encontrava perto da Ponte de Thor (foi esse o teatro da tragédia) mais ou menos àquela hora. Não pôde negar isso, porque um dos aldeões que passou viu-a lá.

— Isso na verdade parece definitivo.

— E no entanto, Watson, no entanto... Essa ponte, uma larga passagem de pedras com balaústres dos lados, passa por cima da parte mais estreita de um longo lençol de água, profundo, cercado de junco. Seu nome é lagoa de Thor. Na entrada da ponte, jazia o corpo da morta. São esses os principais fatos. Mas aqui está, se não me engano, o nosso cliente, antecipando-se consideravelmente à hora aprazada.

Billy tinha aberto a porta, mas o nome que anunciou não era o esperado. O Sr. Marlow Bates era um desconhecido para nós dois. Era um homenzinho magro e nervoso, de olhos espantados, de modos hesitantes e um tanto bruscos, um homem no qual meu olho clínico entreviu um candidato a um completo esgotamento nervoso.

— O senhor parece agitado, sr. Bates — disse Holmes.— Queira sentar-se. Receio só lhe poder conceder muito pouco tempo, porque tenho uma entrevista marcada para as onze horas.

— Eu sei — volveu o nosso visitante, arquejando, pondo-se a soltar frases curtas como quem estivesse esbaforido.

— O Sr. Gibson vem aí. Ele é meu patrão. Sou o administrador da herdade dele. Sr. Holmes, ele é um vilão, um rematado vilão.

— Linguagem forte, Sr. Bates.

— Tenho de ser rápido, Sr. Holmes, porque o tempo é pouco. Por nada no mundo desejaria que ele me surpreendesse aqui. Deve estar chegando. Mas não me foi possível vir mais cedo. O secretário dele, o Sr. Ferguson, só hoje de manhã me falou na entrevista com o senhor.

— E o senhor é o seu administrador?

— Já o avisei de que pretendo deixar o emprego. Dentro de duas semanas deverei acabar com essa escravidão. Homem ruim, Sr. Holmes, ruim para todos quantos o cercam. As caridades que faz não passam de um biombo para esconder as vilanias privadas. Mas a sua principal vítima foi a esposa. Ele era brutal para com ela, sim, brutal! Não sei quem foi que a matou; mas foi ele que transformou a vida dela num suplício. Ela era natural dos trópicos, brasileira de nascimento, como o senhor deve saber.

— Não. Isso me escapou.

— Tropical de nascimento e de índole. Uma filha do sol e da paixão. Amara-o como só mulheres assim sabem amar, mas, quando os seus encantos físicos se dissiparam (ouvi dizer que foram grandes em outros tempos), não houve mais nada que o detivesse. Todos nós gostávamos dela, tínhamos pena da vida que levava e o odiávamos devido à forma como a tratava. Mas ele tem muita lábia. Só lhe digo isso, Sr. Holmes. Não se fie naquelas aparências. Por trás há muito mais. Agora vou embora. Não, não me detenha! Ele está quase chegando.

Lançando um olhar assustado ao relógio, nosso estranho visitante correu para a porta e desapareceu.

— Muito bem! — disse Holmes, após um intervalo de silêncio. — Parece que o Sr. Gibson tem uma criadagem leal a toda prova. Mas a advertência tem a sua utilidade. Agora só nos resta aguardar até que o homem apareça.

Às onze horas em ponto, ouvimos pesados passos na escada, e o famoso milionário foi introduzido na sala. Assim que olhei para ele, compreendi não somente os temores e a aversão de seu administrador, mas também as pragas que tantos rivais nos negócios lhe têm amontoado sobre a cabeça. Se eu fosse escultor e desejasse idealizar um bem-sucedido homem de ação, de nervos de aço e consciência impenetrável, escolheria o Sr. Neil Gibson como modelo. A figura alta, atlética, angulosa, tinha um não sei quê de faminto e ganancioso. Um Abraham Lincoln que tivesse sido talhado para o mal, em vez de o ser para atos elevados, daria uma idéia do homem. O rosto podia ser esculpido em granito, tão duros eram os traços, anguloso, indiferente ao remorso, com sulcos profundos como marcas de muitas crises. Dois olhos cinzentos e frios, encimados por sobrancelhas eriçadas, examinaram-nos astutamente. Fez uma inclinação superficial, e, quando Holmes mencionou o meu nome, logo, com um ar soberano de quem manda e não pede, puxou uma cadeira para perto do meu companheiro e sentou-se, quase tocando-o com seus joelhos ossudos.

— Consinta que lhe diga logo de início, Sr. Holmes — disse ele —, que neste caso o dinheiro é o que menos me preocupa. O senhor pode queimá-lo se a sua chama lhe servir para descobrir a verdade. Aquela mulher está inocente e tem de ser absolvida, e cabe ao senhor fazer com que ela o seja. Diga quanto quer!

— Meus honorários profissionais obedecem a uma escala fixa — tornou Holmes com frieza. — Não me afasto dela exceto quando os dispenso inteiramente.

— Bem. Se o dólar não o tenta, pense na sua reputação. Se deslindar essa trama, não haverá jornal aqui e na América que não exalte o seu nome. Será falado em dois continentes.

— Obrigado, Sr. Gibson. Não creio que necessite assim de tanta publicidade. Talvez o senhor fique surpreso ao saber que prefiro trabalhar anonimamente e que o que mais me atrai é o problema em si. Mas estamos perdendo tempo. Vamos ao que importa.

— Creio que achará os fatos principais nas notícias da imprensa. Não sei se poderei acrescentar alguma coisa que o ajude. Se, porém, deseja algum esclarecimento, aqui estou para lhe prestar.

— Pois bem, há apenas um ponto.

— Qual é?

— Quais eram exatamente as suas relações com a Srta. Dunbar?

O Rei do Ouro teve um estremeção e soergueu-se da cadeira. Depois, sua calma voltou.

— Suponho que esteja no seu direito... e talvez cumprindo o seu dever, ao fazer-me tal pergunta, Sr. Holmes.

— Concordemos em supô-lo — disse Holmes.

— Então posso assegurar-lhe que nossas relações foram sempre e exclusivamente as de um patrão com uma jovem empregada com a qual ele nunca conversou e a quem jamais viu, a não ser quando ela estava em companhia de seus filhos.

Holmes levantou-se de sua cadeira.

— Sou um homem bastante ocupado, Sr. Gibson — disse —, e não tenho tempo nem gosto por conversas sem rumo certo. Passe muito bem.

Nosso visitante também se levantara, e sua figura imensa dominava a de Holmes. De sob aquelas sobrancelhas eriçadas, saía um brilho de cólera e nas faces pálidas notava-se um rubor insólito.

— Que diabo significa isso, Sr. Holmes? O senhor abandona o meu caso?

— Pelo menos, abandono o senhor. Pensei que as minhas palavras tivessem sido claras.

— Claras, mas o que é que se esconde atrás delas? Quererá o senhor valorizar excessivamente o seu serviço, ou receia encarregar-se do caso, ou o que é? Tenho direito a uma resposta também clara.

— Sim, talvez o senhor tenha — disse Holmes. — E vou lhe dar. Esse caso já é em si bastante complicado, e não precisa que o atrapalhem ainda mais com uma informação falsa.

— Acha que estou mentindo?

— Bem. Eu procurava exprimir isso o mais delicadamente possível, mas, se o senhor insiste sobre o termo, não irei contradizê-lo.

Pus-me de pé num salto, porque a expressão que se lia no semblante do milionário era maligna na sua intensidade, e ele erguera o punho nodoso. Holmes sorriu languidamente e estendeu a mão para apanhar o seu cachimbo.

— Nada de barulho, Sr. Gibson. Acho que depois de uma refeição, ainda que ligeira, qualquer insignificante discussão é prejudicial. Penso que um passeio ao ar da manhã e um pouco de reflexão tranqüila só lhe poderão fazer bem.

Com esforço, o Rei do Ouro dominou sua fúria. Não pude deixar de admirá-lo, pois com um supremo domínio de si mesmo ele passara, num minuto, da mais descabelada ira à mais desdenhosa indiferença.

— Bem. O senhor manda; deve saber como dirigir os seus negócios. Não serei eu quem vai obrigá-lo a encarregar-se de um caso. Cometeu hoje um erro, Sr. Holmes, porque eu já amansei homens mais fortes. Ninguém que se pôs no meu caminho lucrou alguma coisa com isso.

— Não é o senhor a primeira pessoa que me diz o mesmo, e no entanto aqui estou — disse Holmes, sorrindo. — Bem, até logo, Sr. Gibson. O senhor ainda tem muito o que aprender.

Nosso visitante saiu ruidosamente. Holmes, porém, imperturbável, fumava em silêncio, com os olhos sonhadores fixos no teto.

— A sua opinião, Watson? — indagou.

— Olhe, Holmes, devo confessar que, vendo que esse homem é capaz de arredar qualquer obstáculo do seu caminho, e lembrando-me de que a mulher podia ter sido um obstáculo e era alvo de sua aversão, conforme esse Bates nos revelou, francamente parece-me...

— Exatamente. A mim também parece.

— Mas quais eram as relações dele com a ama, e como foi que você as descobriu?

— Ora, Watson, eu simplesmente blefei! Quando considerei o tom apaixonado, original e até extravagante da sua carta, comparei esse tom com a sua aparência e os seus modos reservados, tornou-se-me evidente que havia uma profunda emoção que se concentrava mais na acusada que na vítima. Cumpre-nos compreender as relações exatas dessas três pessoas, se quisermos alcançar a verdade. Você viu o ataque direto que eu lhe fiz e com que tranqüilidade ele o recebeu. Em seguida, iludi-o dando-lhe a impressão de que estava absolutamente certo, quando na realidade estava apenas muitíssimo desconfiado.

— Quem sabe se ele ainda volta?

— Não há a menor dúvida de que volta. Tem de voltar. Ele não pode deixar a coisa no ponto em que está. Escute! Não é um toque de campainha? Sim, ouço passos. Bem, Sr. Gibson, eu acabara de dizer ao Dr. Watson que o senhor era novamente esperado aqui.

O Rei do Ouro entrava na sala com disposição mais branda do que quando dela saíra. O orgulho ferido ainda transparecia nos olhos de um fulgor sinistro, mas o senso comum mostrara-lhe que devia ceder se queria atingir os seus fins.

— Refleti melhor, Sr. Holmes, e vi que fui um pouco precipitado ao levar a mal as suas observações. Justifica-se o seu desejo de querer aprofundar os fatos, sejam eles quais forem, e isso fez com que o senhor subisse no meu conceito. Posso, entretanto, garantir-lhe que as relações entre mim e a Srta. Dunbar nada têm a ver com este caso.

— Isso cabe a mim decidir, não acha?

— Sim, creio que sim. O senhor é como o cirurgião que quer saber de todos os sintomas antes de fazer o diagnóstico.

— Isso mesmo. É uma analogia perfeita. E só um doente que tencionasse enganar o médico dissimularia os fatos do seu caso.

— Pode ser, mas o senhor há de convir, Sr. Holmes, que muitos homens se retrairiam um pouco por acanhamento quando lhe perguntassem à queima-roupa quais são as suas relações com uma mulher... se há realmente no caso algum sentimento sério. Suponho que a maioria dos homens tenha um lugarzinho reservado, em algum recanto da alma, onde não lhe agrada muito a presença de estranhos. E o senhor forçou de repente a entrada. Mas o fim com que o fez desculpa-o, uma vez que seu objetivo foi tentar salvá-la. Pois bem. Já não há muros vedando a entrada, e o senhor pode explorar à vontade. Que deseja, então?

— A verdade.

O Rei do Ouro deteve-se um instante, como quem põe em ordem as suas idéias. Sua fisionomia severa, cheia de sulcos, tinha-se tornado ainda mais triste e sisuda.

— Posso contá-la em breves palavras, Sr. Holmes — disse por fim. — Há certas coisas que são ao mesmo tempo penosas e difíceis de dizer, de modo que não as aprofundarei mais que o necessário. Conheci minha mulher quando andava pelo Brasil em busca de ouro. Maria Pinto era filha de um funcionário público de Manaus e muito bonita. Naquele tempo, eu era jovem e fogoso, mas mesmo agora, olhando para o passado com a necessária calma e espírito crítico, vejo que ela era de uma beleza rara e maravilhosa. Era dotada também de uma natureza profundamente rica, apaixonada, tropical, sem grande equilíbrio, muito diferente das mulheres americanas que eu tinha conhecido. Para encurtar: amei-a e casamo-nos. Somente quando o idílio passou... e ele durou anos, foi que percebi que não tínhamos nada, absolutamente nada em comum. O meu amor acabara. Se ela pudesse dizer o mesmo do seu, tudo seria mais fácil. Mas o senhor sabe como são as mulheres! Por mais que eu fizesse, não havia maneira de afastá-la de mim. Se fui rude com ela ou mesmo brusco como alguns disseram, foi porque sabia que, se conseguisse dar cabo do amor que me dedicava, ou se o convertesse em ódio, a coisa seria mais fácil para ambos. Nada, porém, a modificou. Ela me adorava naqueles bosques ingleses como me havia adorado vinte anos antes, nas margens do Amazonas. Fizesse eu o que fizesse, era-me devotada como sempre.

"Nisso, vem para nossa casa a Srta. Grace Dunbar, que respondeu ao nosso anúncio e tornou-se ama dos nossos dois filhos. É provável que o senhor tenha visto o seu retrato nos jornais. Todos são unânimes em proclamá-la uma mulher bonita. Ora, não tenho a pretensão de ser mais puritano que os meus semelhantes, e confesso-lhe que não me foi possível viver debaixo do mesmo teto com tal mulher, e em contato diário com ela, sem sentir qualquer coisa que não o simples respeito. O senhor me censura, Sr. Holmes?

— Eu não o censuro por sentir o que sentiu. Censurá-lo-ia se o senhor desse forma concreta a esse sentimento, pois evidentemente essa moça, em certo sentido, estava sob a sua proteção.

— É possível — disse o milionário, e por um momento a reprovação pôs de novo nos seus olhos uma chama sinistra. — Não quero passar por melhor do que sou. Creio que em toda a minha vida fui um homem que teve tudo o que quis, e nunca desejei mais fortemente uma coisa que o amor e a posse dessa mulher. E disse isso a ela.

— Disse mesmo?

Holmes, quando estimulado, era capaz de assumir um ar temível.

— Disse-lhe que, se pudesse desposá-la, eu o faria, mas que tal coisa não era possível. Disse mais, que o dinheiro não constituía obstáculo e que tudo o que eu pudesse fazer para torná-la feliz seria feito.

— Muito generoso, pode crer — observou Holmes, irônico.

— Escute uma coisa, Sr. Holmes. Vim aqui para tratar de uma questão de provas e não de uma questão de moral. Não solicitei as suas críticas.

— É apenas em atenção à Jovem que me ocupo do senhor — volveu Holmes gravemente. — Não sei se alguma coisa de que a acusam é pior do que aquilo que o senhor próprio confessou, isto é, que tentou destruir uma jovem indefesa que estava sob o seu teto. Alguns de vocês, os ricos, precisam saber que há muita gente neste mundo que sabe resistir ao suborno e que não perdoa as ofensas que lhes fazem.

Admirei-me de ver o Rei do Ouro suportar a censura com impassibilidade.

— É essa igualmente a opinião que agora tenho do assunto. Dou graças a Deus pelo fato de os meus planos não terem saído como eu os arquitetara. Ela não só repeliu minha proposta como quis até deixar a casa no mesmo instante.

— E por que não o fez?

— É que, em primeiro lugar, havia outros que dependiam dela, e não era coisa fácil sacrificá-los de um momento para o outro. Quando jurei... como realmente o fiz, que ela nunca mais seria molestada, consentiu em ficar. Havia, porém, outra razão. Ela sabia que tinha influência sobre mim e que essa influência era mais forte que qualquer outra no mundo. Sabia disso, e quis usá-la para o bem.

— De que maneira?

— Ela sabia alguma coisa dos meus negócios. Eles são grandes, Sr. Holmes, tão grandes que o homem comum não faz ideia. Posso construir ou destruir, e geralmente destruo. Não apenas indivíduos. Mas também comunidades, cidades, até mesmo nações. Os negócios não são nenhuma brincadeira, e os fracos sucumbem. Eu tratava os negócios como negócios, doesse a quem doesse. Por mim nunca chorei mágoas, e pouco se me dava que alguém chorasse. Ela, porém, via as coisas por um prisma diferente, e creio que tinha razão. Acreditava e dizia que a fortuna de um só homem, imensa, maior do que o razoável, não devia ser construída sobre a ruína de dez mil que ficavam reduzidos à miséria. Era essa a sua opinião, e suponho que ela vislumbrava, além da riqueza, algo mais duradouro. A srta. Dunbar verificou que eu dava ouvidos ao que dizia e julgou estar sendo útil à humanidade influindo nos meus atos. Por isso permaneceu conosco, e de repente aconteceu o que é do domínio público.

— O senhor pode prestar alguns esclarecimentos sobre o debatido caso?

O Rei do Ouro ficou parado durante um minuto, ou talvez mais, com a cabeça pendida entre as mãos, absorto em profundos pensamentos.

— Não há como negar que as evidências são todas contra ela. As mulheres levam uma vida muito íntima, e são capazes de praticar atos que escapam à apreciação de um homem. A princípio, fiquei tão surpreso, tão abalado que cheguei a pensar que ela se deixara arrastar por um impulso contrário à sua índole. Ocorreu-me uma explicação. Transmito-a ao senhor, pelo que lhe possa valer. Não há dúvida de que minha mulher era extremamente ciumenta. Existe um ciúme da alma que pode ser tão violento como qualquer ciúme do corpo, e conquanto minha mulher não tivesse nenhum motivo (e creio que ela sabia disso) para sentir este último ciúme, percebia perfeitamente que essa jovem inglesa exercia sobre o meu espírito e os meus atos uma influência que ela nunca teve. Era um influência benéfica, mas isso de nada adiantava. Ela estava louca de ódio, e o ardor do Amazonas não lhe saía do sangue. Não é impossível que tivesse planejado matar a Srta. Dunbar ou, quem sabe, a ameaçasse com uma arma para intimidá-la, obrigando-a, assim, a sair de nossa casa. Pode ter havido uma briga, a arma teria disparado e atingido a mulher que a segurava.

— Já havia me ocorrido tal possibilidade — disse Holmes. — E é essa, com efeito, a única alternativa evidente, capaz de explicar o assassinato deliberado.

— Ela, porém, nega essa hipótese completamente.

— Mas isso só não basta, não é verdade? Uma mulher colocada numa posição tão horrorosa bem podia voltar apressadamente para casa, segurando ainda o revólver, invadida como estava por extrema perplexidade. Poderia atirá-lo no meio das roupas, mal sabendo o que fazia, e, quando ele fosse encontrado, ela, para se livrar do embaraço, tentaria mentir negando tudo, uma vez que qualquer explicação seria impossível. Que há contra tal hipótese?

— A própria Srta. Dunbar.

— Pode ser.

Holmes consultou o relógio.

— Não tenho dúvidas de que hoje de manhã obteremos a necessária licença e chegaremos a Winchester no trem da noite. Depois de me avistar com essa jovem, é bem possível que eu lhe possa ser útil nesse assunto, embora eu não prometa que as minhas conclusões sejam forçosamente as que o senhor deseja.

Houve certa demora na expedição do passe oficial, e, em vez de chegarmos a Winchester naquele dia, fomos à Vila Thor, a herdade que o Sr. Neil Gibson possuía em Hampshire. Ele não nos acompanhou pessoalmente, mas levou-nos ao sargento Coventry, da polícia local, que fora o primeiro a examinar o caso. Coventry era um homem alto, magro, de uma palidez doentia, e umas maneiras secretas e misteriosas, que davam a idéia de que sabia ou suspeitava muito mais do que ousava dizer. Tinha também o hábito de baixar a voz de repente, reduzindo-a a um cochicho, como se fosse tratar de assunto da mais alta importância, embora geralmente fosse uma informação trivial qualquer. Mas, exceto por essas ligeiras excentricidades, logo se revelou um sujeito decente e honesto, que não tinha pejo em confessar que estava no fundo de um buraco e que agradeceria a quem quer que lhe desse a mão.

— Seja como for, antes o senhor que a Scotland Yard, Sr. Holmes — disse. — Se a Yard é chamada para examinar um caso, a polícia local perde todo o crédito pelo êxito alcançado e ainda pode ser censurada pelo malogro. O senhor, segundo ouço dizer, faz jogo limpo.

— Não preciso aparecer nesse assunto — disse Holmes, para evidente satisfação do nosso melancólico conhecido. — Se conseguir deslindá-lo, não irei pedir que mencionem o meu nome.

— Isso muito o honra, Sr. Holmes. E sei que também se pode confiar no seu amigo, o Dr. Watson. Agora, enquanto vamos caminhando para o lugar, há uma pergunta que eu desejaria fazer-lhe. Quero fazê-la em particular. — Olhou em redor, como se lhe faltasse coragem para dizer o que queria. — O senhor não acha que não seria despropositado um processo contra o próprio Sr. Neil Gibson?

— Tenho pensado nisso.

— O senhor ainda não viu a Srta. Dunbar. É uma mulher maravilhosa em todos os sentidos. É bem possível que ele quisesse afastar a esposa do caminho. E esses americanos são mais rápidos no uso da pistola do que a nossa gente. Como o senhor sabe, a arma era dele.

— Isso ficou realmente comprovado?

— Sim, senhor. Era uma de um par que lhe pertence.

— Uma de um par? E a outra, onde está?

— O Sr. Gibson possui grande quantidade de armas de fogo das mais diferentes espécies. Não comparamos as armas, mas o estojo foi feito para duas.

— Se a arma fazia parte de um par, o senhor devia ter encontrado a outra.

— Bem, temos as duas lá na casa. Se o senhor quiser, poderá examiná-las.

— Mais tarde, talvez. Penso que agora convém irmos juntos até o lugar da tragédia.

Essa conversa se passara na saleta da frente do modesto chalé do sargento Coventry, que servia de delegacia de polícia local. Uma caminhada de um quilômetro, mais ou menos, através de uma charneca varrida pêlos ventos, toda dourada e cor de bronze, com os fetos definhados, levou-nos a um portão lateral, que dava acesso aos terrenos da Vila Thor. Uma vereda conduziu-nos através dos viveiros de faisões, e logo, de uma clareira, vimos o casarão em estilo meio Tudor e meio georgiano, sobre a crista da colina. Ao nosso lado, havia uma comprida lagoa, coberta de caniços, estreita no centro, onde a principal estrada de veículos passava sobre uma ponte de pedra, lagoa que se estendia de uma banda a outra, formando pequenos lagos. Nosso guia deteve-se à entrada dessa ponte e apontou para o chão.

— Aqui foi encontrado o corpo da Sra. Gibson. Marquei-o com esta pedra.

— Ouvi dizer que o senhor esteve aqui antes que o corpo fosse removido, é verdade?

— Sim, senhor. Mandaram me chamar imediatamente.

— Quem mandou chamá-lo?

— O próprio Sr. Gibson. No momento em que foi dado o alarme, ele acorreu apressadamente com outras pessoas e fez questão de que não se tocasse em nada até a chegada da polícia.

— Foi uma medida sábia. Pela leitura dos jornais, concluí que o tiro foi desfechado à queima-roupa.

— Sim, senhor, é exato.

— Muito próximo da têmpora direita?

— Logo atrás da têmpora.

— Em que posição foi encontrado o corpo?

— Deitado de costas, Sr. Holmes. Não havia vestígio de luta. Nenhuma marca. Nenhuma arma. O conciso bilhete da Srta. Dunbar estava bem seguro na mão esquerda da morta.

— Bem seguro, diz o senhor?

— Sim. Foi com dificuldade que conseguimos abrir os dedos.

— Isso é de grande importância. Exclui a idéia de que alguém tenha colocado ali o bilhete depois de ela morrer, a fim de apresentar um indício falso. Se bem me lembro, o bilhete dizia apenas o seguinte: "Estarei na Ponte de Thor às nove horas. G. Dunbar". Não é?

— Exatamente.

— A Srta. Dunbar confessa tê-lo escrito?

— Sim, senhor.

— Que explicação deu?

— Sua defesa ficou reservada para o tribunal. Ela nada quis dizer.

— O problema é por certo muito interessante. O pormenor do bilhete é muito obscuro, não acha?

— Oh, Sr. Holmes — tornou o nosso guia —, esse pormenor pareceu-me, se me permite dizê-lo, o único realmente claro em todo o assunto.

Holmes abanou a cabeça.

— Partindo do princípio de que o bilhete seja autêntico e que tenha realmente sido escrito, decerto foi recebido algum tempo antes, digamos, uma ou duas horas antes. Por que motivo, então, essa senhora ainda o segurava fortemente na mão esquerda? Ela não tinha necessidade de se referir a ele no encontro. Isso não parece digno de nota?

— Bem, com essa sua explicação, talvez pareça.

— Creio que gostaria de ficar sentado sozinho por alguns minutos, para refletir um pouco.

Sentou-se na balaustrada de pedra da ponte, e pude ver seus olhos cinzentos movendo-se agilmente em todas as direções, como que à procura de alguma coisa. De súbito, levantou-se e deu uma corrida até o parapeito oposto, tirou a lente do bolso e pôs-se a examinar a obra de alvenaria.

— Isto é curioso — disse ele.

— Realmente. Vimos o rebordo de pedra lascado. É provável que tenha sido algum transeunte.

A alvenaria era cinzenta, mas naquele ponto apresentava-se branca por um espaço não maior que o de uma moeda de tamanho médio. A um exame mais detido, via-se que a superfície fora lascada por um golpe violento.

— Foi preciso força para fazer isso — disse Holmes, pensativo. Bateu várias vezes com a bengala no rebordo, sem deixar marca. — Sim, foi uma pancada forte. E num lugar curioso. Não foi de cima, mas de baixo, pois vê-se que está na borda inferior do parapeito.

— Mas está pelo menos a uns quatro metros e meio do corpo.

— Sim, está a uns quatro metros e meio do corpo. Pode não ter nada a ver com o caso, mas é um pormenor digno de nota. Parece-me que daqui não levamos mais nenhuma informação. Vestígios não havia, não foi o que o senhor disse?

— O terreno estava duro como pedra, Sr. Holmes. Não havia rastro algum.

— Então podemos ir. Iremos primeiro à casa examinar as armas a que o senhor se referiu. Depois iremos a Winchester, pois desejo me avistar com a Srta. Dunbar antes de prosseguirmos.

O Sr. Neil Gibson ainda não voltara da cidade, mas encontramos em casa o neurótico sr. Bates, que nos havia visitado pela manhã. Ele nos mostrou, com gesto feroz, o formidável arsenal de armas de fogo, de vários formatos e tamanhos, que o seu patrão tinha acumulado no decurso da sua aventurosa existência.

— O Sr. Gibson tem seus inimigos, como era de esperar, sabendo-se quem ele é e quais são os seus métodos — disse o Sr. Bates. — O homem dorme com um revólver carregado, que fica na gaveta da mesinha-de-cabeceira. É um homem violento, sr. Holmes, e há ocasiões em que todos nós temos medo dele. Estou certo de que a pobre falecida ficava muitas vezes horrorizada com o marido, — Alguma vez o senhor presenciou violência física em relação a ela?

— Não, isso não posso dizer. Mas ouvi palavras que feriam como pedras, palavras do mais vivo desprezo, até mesmo na presença de criadas.

— O nosso milionário não parece ter uma vida doméstica das mais invejáveis — observou Holmes, enquanto íamos andando para a estação. — Bem, Watson, já estamos cientes de um bom número de fatos, alguns deles novos, e, contudo, parece-me que estou um pouco longe da conclusão. A despeito da manifesta antipatia do Sr. Bates pelo seu patrão, soube por ele que, quando foi dado o alarme, o Sr. Gibson estava no seu escritório. O jantar terminara às oito e meia, e, até essa hora, tudo havia corrido normalmente. Verdade é que o alarme foi dado já um pouco tarde, mas a tragédia certamente ocorreu mais ou menos à hora especificada no bilhete. Não há nenhuma prova de que o Sr. Gibson tenha estado fora desde o seu regresso da cidade, que se verificou às cinco horas. Por outro lado, a Srta. Dunbar, conforme me foi dito, confessa haver combinado o encontro com a Sra. Gibson na ponte. A não ser isso, ela não quis dizer mais nada, visto que seu advogado a aconselhou a adiar a defesa. Temos várias perguntas importantes para fazer a essa jovem, e, enquanto eu não a vir, não me darei por satisfeito. Devo confessar que o caso se me afiguraria muito desfavorável para ela se não fosse uma circunstância.

— E qual é, Holmes?

— A pistola encontrada no guarda-roupa.

— Caramba, Holmes! — exclamei. — Para mim, esse parece ser o pior dos pormenores contra a Srta. Dunbar.

— Não é tanto assim, Watson. Aquilo me causou uma impressão muito estranha logo após atenta leitura dos jornais, e agora, que estou tratando diretamente do caso, é a minha única âncora firme de esperança. Devemos procurar coerência nos fatos. Se verificamos que ela falta, temos de desconfiar de alguma armadilha.

— Quase não chego a compreender, Holmes.

— Ora, meu caro Watson, suponhamos por um momento que você represente o papel de uma mulher. Essa mulher, com frieza e premeditação, está prestes a desembaraçar-se de uma rival. Você planejou o golpe. Foi escrito um bilhete. A vítima chegou. Você está de posse da arma. O crime é praticado. Foi um crime magistralmente executado. Depois de perpetrar um delito tão hábil, você estragaria a sua reputação de criminoso esquecendo-se de atirar a arma para cima daqueles caniços próximos, que para todo o sempre a encobririam, e levando-a com cuidado para casa, para colocá-la no guarda-roupa, justamente o lugar em que primeiro dariam busca? Os seus melhores amigos, Watson, não haveriam de lhe gabar a astúcia, e no entanto eu não seria capaz de imaginá-lo praticando algo tão grosseiro como isso.

— No nervosismo do momento...

— Não, não, Watson, não admito essa possibilidade. Quando um crime é friamente premeditado, são também premeditados os meios de encobri-lo. Creio, portanto, que estamos diante de um sério mal-entendido.

— Mas há tanta coisa a explicar!

— Pois então vamos começar a explicar alguma coisa. Uma vez modificado um ponto de vista, a própria circunstância que parecia mais grave converte-se no caminho que conduz à verdade. É, por exemplo, o caso do tal revólver. A Srta. Dunbar nega qualquer conhecimento desse pormenor. De acordo com a nossa nova teoria, ela, ao afirmar isso, diz a verdade. Portanto, a arma foi colocada no seu guarda-roupa. Quem a colocou ali? Alguém que desejava acusá-la. Não seria essa pessoa o verdadeiro criminoso? Vê como de repente chegamos a uma série de indagações frutíferas?

Fomos forçados a passar a noite em Winchester, uma vez que ainda não haviam sido completadas as formalidades legais, mas na manhã seguinte, em companhia do Sr. Joyce Cummings, o esperançoso advogado a quem estava confiada a defesa, recebemos permissão para visitar a jovem na sua cela. De tudo quanto eu ouvira dizer, esperava ver simplesmente uma beldade, mas nunca me esquecerei do efeito que em mim produziu a Srta. Dunbar. Não era de admirar que até mesmo o arrogante milionário tivesse descoberto nela alguma coisa mais poderosa que ele próprio — alguma coisa capaz de dominá-lo e guiá-lo. Sentia-se também, quando se olhava para aquele semblante forte, de traços firmes e contudo reveladores de alta sensibilidade, que mesmo que ela se deixasse arrastar à prática de algum ato menos pensado, sua profunda nobreza de caráter sempre a levaria de novo à prática do bem. Era morena, alta, tinha uma figura nobre e uma aparência imponente, mas notava-se nos seus olhos negros a expressão quase de súplica do animal que se vê cercado de redes e não descobre maneira de se livrar da armadilha. Agora, ao perceber a presença e a ajuda do meu famoso amigo, suas faces pálidas criaram cores, e um lampejo de esperança começou a brilhar no olhar que nos dirigiu.

— Talvez o Sr. Neil Gibson lhe tenha dito alguma coisa do que houve entre nós — disse, em voz baixa e agitada.

— Sim — respondeu Holmes. — Não precisa se afligir entrando nessa parte da história. Depois de vê-la, estou inclinado a aceitar a declaração do Sr. Gibson tanto relativamente à influência que a senhora teve sobre ele como quanto à inocência das suas relações com ele. Mas por que não pôr tudo em pratos limpos perante as autoridades?

— Pareceu-me incrível que uma acusação dessas pudesse ser levada a sério. Pensei que, se aguardássemos um pouco, tudo se esclareceria por si mesmo, sem sermos forçados a entrar em penosos pormenores da vida íntima da família. Mas, pelo que me disseram, a situação, longe de se aclarar, cada vez se complica mais.

— Minha estimada senhora — exclamou Holmes, com voz firme —, rogo-lhe que não tenha ilusões quanto a este ponto. O seu advogado lhe assegurará que todas as cartas presentemente são contra nós e que temos de fazer tudo o que for possível se quisermos sair vitoriosos. Seria um engano cruel virmos aqui dizer-lhe que a senhora não corre grande risco. Dê-me, pois, todo o auxílio que puder para chegarmos à verdade.

— Não ocultarei nada.

— Fale-nos, então, sobre as suas verdadeiras relações com a esposa do Sr. Gibson.

— Ela me odiava, Sr. Holmes. Odiava-me com todo o ardor da sua natureza tropical. A Sra. Gibson era uma mulher que não fazia nada pela metade, e a medida do seu amor ao marido era também a medida do ódio que ela me votava. É provável que tivesse interpretado mal as nossas relações. Não é meu desejo ser injusta com a morta, mas ela amava de uma maneira tão intensa, num sentido tão físico que era quase incapaz de entender o laço mental, e até mesmo espiritual, que prendia seu marido a mim, ou de imaginar que a única coisa que me conservava debaixo do seu teto fosse o meu desejo de dirigir sabiamente o poder dele para uma boa finalidade. Agora reconheço que fiz mal. Nada podia justificar a minha permanência num lugar onde eu era causa de infelicidade, e todavia é certo que a infelicidade continuaria, mesmo que eu saísse de casa.

— Agora, Srta. Dunbar — disse Holmes —, peco-lhe que nos conte com exatidão o que sucedeu naquela noite.

— Posso dizer-lhe a verdade, Sr. Holmes, até o ponto em que a conheço, mas não estou em condições de provar nada, e existem pontos, justamente os mais importantes, que não posso explicar e para os quais não posso sequer imaginar qualquer explicação.

— Se a senhora contar os fatos, talvez outros possam encontrar explicação.

— Quanto à minha presença na Ponte de Thor naquela noite, devo dizer que recebi de manhã um bilhete da Sra. Gibson. Esse bilhete estava em cima da mesa da sala de aula, e talvez ela própria o tivesse deixado lá. Nele, ela me implorava que eu a procurasse depois do jantar, alegando ter uma coisa importante para me dizer, e pedia-me que deixasse uma resposta por escrito sobre o relógio de sol no jardim, visto que desejava que estivéssemos apenas as duas no nosso encontro. Eu não via razão para tanto segredo, mas fiz conforme ela pediu, aceitando a entrevista. Pediu-me ainda que destruísse o seu bilhete, e eu queimei-o na lareira da sala de aula. Ela tinha muito medo do marido, que a tratava com uma rudeza pela qual eu freqüentemente o censurei, e apenas me ocorreu que ela procedia dessa maneira porque não queria que ele soubesse da nossa entrevista.

— E no entanto ela conservou cuidadosamente a sua resposta.

— Sim. Fiquei surpresa, ao saber que a tinha na mão quando morreu.

— E que sucedeu então?

— Fui ao lugar designado, conforme prometera. Quando cheguei à ponte, ela estava à minha espera. Até aquele momento, eu jamais avaliara a que ponto a pobre criatura me detestava. Parecia louca. Na verdade, penso que era louca, sutilmente louca, com o imenso poder de enganar que os loucos podem ter. Só assim consigo explicar a calma com que todos os dias se encontrava comigo, nutrindo intimamente um ódio feroz contra mim. Não vou repetir aqui o que ela me disse. Explodiu a sua imensa fúria em palavras candentes e horríveis. Eu nem sequer respondi; não pude fazê-lo. Vê-la era coisa de estarrecer. Tapei os ouvidos com as mãos e fugi dali. Quando a deixei, ela ainda vociferava cobras e lagartos contra mim, à entrada da ponte.

— No mesmo lugar em que foi encontrada depois?

— A poucos metros dali.

— Presumindo que ela tenha morrido pouco depois que a senhora se retirou, não ouviu nenhum tiro?

— Não ouvi nada. Mas, sr. Holmes, a verdade é que eu ficara tão nervosa e horrorizada com aquela súbita explosão de ódio que me apressei a me recolher à tranqüilidade do meu quarto e não pude perceber nada do que aconteceu.

— Diz a senhora que voltou para o seu quarto. Acaso tornou a sair antes do dia seguinte?

— Sim. Quando chegou a notícia de que a pobre criatura tinha morrido, saí correndo com os outros.

— Viu o Sr. Gibson?

— Vi. Ele vinha da ponte. Tinha mandado chamar o médico e a polícia.

— Pareceu-lhe muito perturbado?

— O Sr. Gibson é um homem muito forte e calmo. Não creio que jamais deixe transparecer suas emoções. Eu, porém, que o conhecia muito bem, percebi que estava seriamente preocupado.

— Chegamos agora ao ponto mais importante... a pistola que foi encontrada no seu quarto. Já tinha visto a arma antes disso?

— Nunca, juro.

— Quando é que ela foi encontrada?

— Na manhã seguinte, quando a polícia fez uma busca.

— Entre as suas roupas?

— Sim. No fundo do meu guarda-roupa, debaixo dos meus vestidos.

— Não faz idéia de quanto tempo a arma ficou ali?

— Não estava lá na manhã do dia anterior.

— Como sabe disso?

— Porque eu estive arrumando o guarda-roupa.

— Isso é decisivo. Segue-se que alguém entrou no seu quarto e colocou lá a arma para comprometê-la.

— Deve ter sido assim.

— E quando?

— Só pode ter sido à hora da refeição ou nas horas em que eu estive na sala de aula com as crianças.

— Foi onde a senhora estava quando recebeu o bilhete?

— Sim. Dessa hora em diante, durante a manhã inteira.

— Muito obrigado, Srta. Dunbar. Há mais algum ponto que me possa ajudar na investigação?

— Que eu saiba, não.

— Há um sinal de violência no parapeito da ponte... uma lasca de pedra, coisa recente, bem em frente do corpo. Quem sabe se a senhora seria capaz de sugerir uma explicação para o fato.

— Deve ser decerto mera coincidência.

— Coisa curiosa, Srta. Dunbar, muito curiosa. Por que haveria de aparecer isso justamente na ocasião da tragédia e por que iria aparecer exatamente naquele lugar?

— Mas qual seria a causa desse pequeno fenômeno? Somente uma grande violência poderia produzir tal efeito.

Holmes não deu resposta. Seu rosto pálido adquirira repentinamente aquela expressão absorta que eu me habituara a relacionar com as supremas manifestações do seu gênio. Era tão evidente a crise que se formava no seu espírito que nenhum de nós ousou falar, e ficamos sentados — o advogado, a prisioneira e eu — a observá-lo em concentrado silêncio. De repente, ele pulou da cadeira, vibrando de energia e estimulado pela necessidade de agir.

— Venha, Watson, venha! — gritou.

— O que é que há, sr. Holmes?

— Não se importe, minha estimada senhora. O senhor terá notícias minhas, Sr. Cummings. Com o auxílio de Deus e da justiça, dar-lhe-ei um caso que terá a maior repercussão na Inglaterra. Amanhã será informada, Srta. Dunbar, e por ora só lhe afirmo que as nuvens estão se dissipando e que tenho esperança de que a luz da verdade apareça à superfície.

Não era longo o trajeto de Winchester à Vila Thor, mas foi longo para mim devido à impaciência, enquanto para Holmes era evidente que a jornada parecia interminável. Na agitação nervosa que o dominava, não conseguia ficar quieto; passeava pela carruagem ou tamborilava com os longos dedos sensíveis nas almofadas a seu lado. Mas, de súbito, quando nos aproximávamos do nosso destino, sentou-se defronte de mim (tínhamos um compartimento de primeira classe reservado para nós) e, pondo uma mão sobre cada um dos seus joelhos, olhou-me fixo, com o ar particularmente divertido que lhe era característico quando se sentia eufórico e folgazão.

— Watson — disse ele —, tenho uma vaga lembrança de que costuma andar armado quando me acompanha nestas excursões.

E bem fazia eu em andar armado, porque ele pouco cuidava da sua segurança pessoal quando tinha o espírito absorvido por um problema, de modo que mais de uma vez o meu revólver nos prestara bons serviços. Chamei-lhe a atenção para o fato.

— Sim, sim, sou um pouco distraído nesses assuntos. Mas você tem aí o seu revólver?

Tirei-o do bolso e dei-o a ele. Era uma arma pequena, mas útil. Holmes desmontou-a, tirou os cartuchos e examinou-a cuidadosamente.

— É pesado, bastante pesado — comentou.

— Sim, é uma peça sólida.

Ele refletiu um momento, conservando-o.

— Sabe, Watson — disse ele —, parece-me que o seu revólver vai ter uma relação íntima com o mistério que estamos investigando.

— Meu caro Holmes, está gracejando?

— Não, Watson, falo a sério. Estamos diante de um teste. Se esse teste der resultado, tudo ficará claro. E esse teste está dependendo do comportamento desta pequena arma. Um cartucho fica de fora. Agora vamos repor os outros cinco e ajustar de novo a trava de segurança. Pronto! Assim, aumenta-se o peso e torna-se mais perfeita a reprodução.

Eu não fazia idéia do que lhe ia no espírito, e ele não me deu nenhuma explicação, mas quedou-se mergulhado nas suas reflexões até a carruagem parar na pequena estação de Hampshire. Alugamos uma carruagem velha, e em quinze minutos estávamos em casa do nosso amigo, o sargento Coventry.

— Um indício, Sr. Holmes? Qual é?

— Tudo depende do comportamento do revólver do Dr. Watson — comentou o meu amigo. — Ei-lo. Agora, delegado, é capaz de me arranjar dez metros de barbante?

A loja da aldeia forneceu-nos um rolo de barbante forte, de fio duplo.

— Creio que vamos precisar apenas deste — disse Holmes. — Agora, se me dão licença, vamos partir para aquilo que eu espero seja a derradeira etapa de nossa viagem.

O sol começava a declinar e convertia a ondulante charneca de Hampshire num maravilhoso panorama outonal. O sargento, com várias olhadelas de crítica e incredulidade, reveladoras das suas profundas dúvidas sobre a sanidade mental do meu companheiro, caminhava um tanto contrafeito ao nosso lado. À medida que nos aproximávamos do local do crime, percebi que o meu amigo, apesar da sua calma habitual, estava na verdade profundamente agitado.

— Sim — disse ele, em resposta a uma observação minha —, você já me viu errar o alvo, Watson. Tenho uma espécie de instinto em relação a esses episódios, e contudo ele às vezes me prega peças. A coisa me pareceu simplicíssima, quando primeiro me passou pela idéia na cela de Winchester, mas uma das desvantagens de um espírito atilado é que sempre a gente pode conceber mais de uma explicação, e isso costuma prejudicar o faro. E contudo... e contudo... Bem, Watson, o que nos resta fazer é experimentar.

Enquanto andava, tinha atado com firmeza uma ponta do cordel ao cabo do revólver. Chegamos ao local da tragédia. Com grande cuidado, marcou, guiado pelo policial, o ponto exato onde caíra o corpo. Procurou então, diligentemente, por entre a urze e os fetos, até que achou uma pedra bastante grande. Amarrou-a à outra ponta do cordel e pendurou-a por cima do parapeito da ponte, de modo a deixá-la balançando livremente sobre a água. Em seguida tomou posição, ereto sobre o lugar fatal, a certa distância da beira da ponte, com o meu revólver na mão, estando o cordel bem esticado entre a arma e a pesada pedra do lado distante.

— Vamos lá!

Ditas essas palavras, ergueu a pistola à altura da cabeça e logo a largou. Num instante, ela foi arrebatada pelo peso da pedra, bateu com violento estalo contra o parapeito e sumiu do outro lado, dentro da água. Nem bem a arma se fora, Holmes ajoelhou-se ao lado da alvenaria de pedra e um alegre grito anunciou que encontrara o que esperava.

— Já alguma vez houve uma demonstração mais exata? — bradou. — Veja, Watson, o seu revólver resolveu o problema! — Enquanto dizia essas palavras, indicou uma segunda lasca do mesmo tamanho e forma da primeira, que tinha aparecido sobre o rebordo inferior da balaustrada de pedra.

— Esta noite ficaremos na estalagem — prosseguiu, ao mesmo tempo em que se levantava e se punha em frente do atônito sargento. — Se o senhor arranjar um gancho apropriado, com facilidade retirará da água o revólver do meu amigo. Ao lado dessa arma, encontrará a outra, bem como o cordel e o peso com que essa mulher vingativa tentou disfarçar o seu próprio crime e elaborar uma acusação de assassinato sobre uma vítima inocente. Pode dizer ao Sr. Gibson que irei procurá-lo pela manhã, a fim de se tomarem providências para a defesa da Srta. Dunbar.

Já muito tarde na noite, enquanto fumávamos juntos os nossos cachimbos na estalagem da aldeia, Holmes recapitulou brevemente os principais lances daquele caso.

— Receio, Watson — disse ele —, que você não melhore a reputação que eu possa ter adquirido acrescentando aos seus anais o "Misterioso caso da Ponte de Thor". Mostrei-me lento de intelecto e falho daquela mistura de imaginação e realidade que constitui a base da minha arte. Confesso que a lasca na alvenaria era um indício suficiente para sugerir a verdadeira solução, e que me censuro por não ter atinado antes com ela.

"Temos de admitir que a trama urdida pela inteligência dessa desditosa mulher era profunda e sutil, de modo que não era tarefa fácil desvendá-la. Creio que nunca, nas nossas aventuras, deparamos com um exemplo mais estranho daquilo que o amor pervertido é capaz de produzir. Que a Srta. Dunbar fosse sua rival no sentido físico ou no sentido puramente mental parece ter sido igualmente imperdoável a seus olhos. Sem dúvida, ela atribuía à inocente jovem todos aqueles modos rudes e as palavras duras com que seu marido procurava repelir o seu afeio demasiado exuberante. Sua primeira resolução foi pôr termo à própria vida. A segunda, foi fazê-lo de tal maneira que envolvesse a sua vítima numa sorte muito pior que qualquer morte súbita.

"Podemos acompanhar perfeitamente as várias etapas, que revelam uma notável sutileza de espírito. A infeliz senhora arrancou muito habilmente da Srta. Dunbar um bilhete que faria parecer que a ama escolhera o local do crime. Desejando ansiosamente que descobrissem o bilhete, excedeu-se um pouco, conservando-o na mão até o fim. Isso, por si só, devia ter despertado as minhas suspeitas desde o início.

"Em seguida, tirou um dos revólveres do marido (havia, como você viu, um verdadeiro arsenal na casa) e reteve-o para seu uso. Naquela manhã, escondeu no guarda-roupa da Srta. Dunbar um revólver semelhante, depois de descarregar um cano, o que lhe seria fácil fazer na mata sem chamar a atenção. Dirigiu-se depois para a ponte, onde idealizara aquele método extraordinariamente engenhoso, para se desembaraçar da sua arma. Quando a Srta. Dunbar chegou, utilizou as últimas forças extravasando todo o seu fel, e depois, quando já ninguém a ouvia, levou a efeito o seu terrível propósito. Cada elo agora está no seu lugar, e a cadeia está completa. Os jornais poderão perguntar por que motivo o lago não foi dragado logo no início, mas é fácil adivinhar uma coisa depois de alguém tê-la adivinhado e explicado, e, seja como for, não é fácil dragar toda a extensão de uma lagoa coberta de caniço, a não ser que se tenha uma idéia clara daquilo que se procura e do lugar onde deve estar. Pois bem, Watson, nós ajudamos uma mulher notável e também um homem não menos notável. Se eles no futuro juntarem suas forças, o que não parece impossível, o mundo das finanças verificará que o Sr. Neil Gibson aprendeu alguma coisa na escola da dor, que é uma grande mestra neste mundo.

Texto originalmente publicado com o título
The Problem of Thor Bridge na Strand Magazine de fevereiro/março de 1922. Ilustrações de Alfred Gilbert e tradução de Lígia Junqueiro para o livro As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VII

22.2.09

Terrorismo no papel


Agora é oficial e a divulgação foi liberada pela editora: em março um dos contos criados originalmente para este blog vai ser publicado em uma coletânea que reúne novos nomes da ficção fantástica nacional. Não é qualquer conto, é justamente o que deu origem a série, "A teoria na prática", agora em uma versão revisada e ligeiramente modificada. Assim como não é qualquer coletânea, é o número de estreia de Paradigmas uma publicação da Tarja que pretende inovar em forma e conteúdo o trio ficção científica, fantasia e horror em nosso país.

Nesta primeira edição, estarei acompanhado de uma dúzia de outros escritores, alguns deles já publicados por aqui, como os leitores podem conferir na lista abaixo (nos nomes em negrito):

Ana Cristina Rodrigues
Bruno Cobbi
Camila Fernandes
Cristina Lasaitis
Eric Novello
Jacques Barcia
Leonardo Pezzella
M. D. Amado
Maria Helena Bandeira
Osiris Reis
Richard Diegues
Roberta Nunes

A capa reproduzida acima é de autoria de uma destas escritoras, que também assina a revisão dos textos e é minha beta reader em outro projeto, Camila Fernandes, aka Mila F.

Falta apenas definir a data e o local do lançamento. Assim que tiver os detalhes, eu conto.

Ibope