3.3.09

A Ponte de Thor

Um caso clássico do maior detetive do mundo

por seu criador Sir Arthur Conan Doyle

Em algum ponto das abóbadas do banco de Cox & Cia., na Charing Cross, há uma caixa de estanho com vários documentos. Essa caixa, bastante estragada pelas viagens e pelo uso, tem o meu nome pintado na tampa. "Dr. John H. Watson, do Antigo Exército Indiano". Os inúmeros papéis de que está atulhada são quase todos relatórios de casos ou problemas curiosos, nos quais, em várias ocasiões, o Sr. Sherlock Holmes andou envolvido. Alguns, e por sinal não os menos interessantes, foram autênticos fracassos, e como tal quase não merecem ser narrados, uma vez que não oferecem nenhuma explicação final. Um problema sem solução pode interessar ao estudioso, mas dificilmente deixará de aborrecer o leitor casual. Entre esses contos não terminados, está o do sr. James Phillimore, que, voltando à sua casa para buscar o guarda-chuva, nunca mais foi visto neste mundo. Não menos notável é o do navio Alicia, que, numa manhã de primavera, fez-se ao mar penetrando num nevoeiro não muito denso e dele nunca mais emergiu, nada mais se tendo ouvido em tempo algum a respeito dele e de sua tripulação. Um terceiro caso digno de nota é o de Isadora Persano, conhecido jornalista e duelista, que foi encontrado completamente doido, tendo diante de si uma caixa de fósforos que continha um verme notável, que, segundo diziam, era desconhecido da ciência. Exceto esses casos não resolvidos, há alguns que envolvem segredos de família, a tal ponto que só a idéia de divulgá-los em letra de imprensa produziria consternação entre os freqüentadores da alta-roda. É ocioso dizer que tal abuso de confiança está completamente fora das nossas cogitações, e que esses relatórios vão ser separados e destruídos agora que o meu amigo tem tempo para dirigir sua atenção para o assunto. Resta ainda um considerável número de casos, de maior ou menor interesse, que eu já podia ter dado a público, não fosse o receio de afetar a reputação do homem que venero acima de todos. Em alguns, estive diretamente envolvido, e posso falar como testemunha ocular, ao passo que, em outros, ou não estive presente ou desempenhei papel tão insignificante que eles só podem ser narrados como se eu fosse uma terceira pessoa. A história que se segue é extraída da minha própria experiência.

Era uma manha desabrida de outubro, e reparei, enquanto me vestia, que as últimas folhas secas caíam rodopiando do solitário plátano silvestre que enfeita o terreno de trás da nossa casa. Desci para a refeição matinal preparado para encontrar meu companheiro um tanto abatido, pois, como todos os grandes artistas, ele se deixava facilmente impressionar pelo meio ambiente. Ao contrário, surpreendi-o quase terminando o repasto, e percebi que estava em excelente disposição de espírito, mesclada àquela alegria um pouco sinistra que era característica de seus momentos de despreocupação.

— Vejo que tem um caso para resolver, Holmes — observei.

— A faculdade de dedução é certamente contagiosa, Watson — respondeu ele. — Essa faculdade habilitou-o a sondar o meu segredo. Sim, tenho um caso. Depois de um mês de banalidades e estagnação, as rodas começam mais uma vez a entrar em movimento.

— Posso ter o meu quinhão?

— Não há muito o que dividir, mas podemos discuti-lo depois que eu tiver consumido os dois ovos cozidos com que hoje nos brindou a nossa nova cozinheira. Pode ser que o estado destes ovos tenha qualquer relação com o número de Family Herald que notei ontem em cima da mesa do vestíbulo. Até mesmo uma coisa tão trivial como cozinhar um ovo exige uma atenção que dá conta da passagem do tempo e que é incompatível com o romance de amor que se publica naquele excelente periódico.

Um quarto de hora mais tarde, a mesa estava limpa, e nós nos encontrávamos um em frente do outro. Ele tirara uma carta do bolso.

— Já ouviu falar em Neil Gibson, o Rei do Ouro? — perguntou.

— Refere-se ao senador americano?

— De fato, ele já foi senador por um Estado qualquer do oeste, mas é mais conhecido como o maior magnata do ouro no mundo.

— Sim, conheço-o de nome. Ele certamente reside na Inglaterra há já algum tempo. O nome é bastante familiar.

— E verdade. Adquiriu uma imensa propriedade em Hampshire há uns cinco anos. Já ouviu falar no fim trágico de sua esposa?

— Naturalmente. Agora me lembro. É por isso que o nome dele é conhecido. Mas ignoro os pormenores.

Holmes fez um gesto vago na direção de uns jornais que se achavam em cima de uma cadeira.

— Não fazia a mínima idéia de que esse caso viesse parar em minhas mãos, do contrário já teria os meus recortes e as minhas notas — disse ele. — O fato é que o problema, conquanto tremendamente sensacional, não parecia apresentar dificuldades. A interessante personalidade da acusada não obscurece a clareza da prova. Foi essa a opinião do júri encarregado do caso, e não divergiu disso o ponto de vista do tribunal de polícia. O caso está agora entregue ao tribunal comum de Winchester. Temo que seja uma tarefa ingrata. Posso descobrir fatos, Watson, mas não posso alterá-los. A menos que surja qualquer outro inteiramente novo e inesperado, não vejo como o meu cliente possa nutrir qualquer esperança.

— O seu cliente?

— Ah, esqueci que não lhe tinha dito. Já estou adotando o seu velho e complicado hábito de contar uma história começando pelo fim. É melhor você ler isto primeiro.

A carta que me entregou, escrita numa letra rasgada e firme, dizia o seguinte:

"Prezado sr. Sherlock Holmes,

Meu coração não suporta ver condenarem à morte a melhor mulher que Deus pôs no mundo sem fazer tudo o que for possível para salvá-la. Não consigo explicar os fatos, não consigo sequer tentar explicá-los, mas não tenho a menor dúvida quanto à inocência da Srta. Dunbar. O senhor com certeza sabe o que aconteceu. Não há ninguém que não o saiba. Também não há quem não comente o que sucedeu. E não se ergue uma voz para defendê-la! É a clamorosa injustiça de tudo isso que me põe fora de mim. Uma mulher com um coração tão sensível, incapaz de fazer mal a uma mosca! Pretendo aparecer aí amanhã, às onze horas, para ver se o senhor consegue lançar um raio de luz sobre tanta treva. Eu talvez disponha de algum indício sem o saber. Seja como for, tudo o que sei, tudo o que tenho e tudo o que sou estão ao seu dispor, contanto que o senhor a salve. Se jamais na vida o senhor mostrou seus poderes, ponha-os agora todos no presente caso.

Com elevado apreço,

J. Neil Gibson".

— Aí tem — disse Sherlock Holmes, batendo na beira da mesa com o seu cachimbo, que acabara de fumar após a ligeira refeição matinal, e reabastecendo-o lentamente. — E esse o cavalheiro cuja visita aguardo. Quanto à história, você mal tem tempo de ler todos esses jornais; por isso vou expô-la a você resumidamente, para que se interesse pelo processo. Esse homem é a maior potência financeira do mundo, e é um indivíduo, segundo estou informado, de caráter violento e difícil. Casou-se com uma mulher, a vítima desta tragédia, a respeito de quem nada sei a não ser que já passara da flor da idade, circunstância que ainda mais se agravou quando uma aia muito atraente veio superintender a educação das duas crianças. São esses os três protagonistas, e a cena é um grande e velho solar, centro de uma propriedade histórica inglesa. Agora vamos à tragédia. A esposa foi encontrada no terreno da propriedade, a pouco menos de um quilômetro da casa, a hora avançada da noite, elegantemente vestida, com um xale sobre os ombros e o crânio perfurado por uma bala de revólver. Não foi encontrada nenhuma arma perto da morta, não havendo, no local, qualquer indício relativo ao assassinato. Nenhuma arma perto da morta, Watson, note bem! O crime parece ter sido cometido no começo da noite, e o corpo foi descoberto por um couteiro, mais ou menos às onze horas, sendo nessa ocasião examinado pela polícia e por um médico antes de ser transportado para casa. Está resumido demais ou você entendeu bem?

— Está tudo muito claro. Mas por que suspeitar da aia?

— É que, em primeiro lugar, existe uma prova direta contra ela. Foi encontrado no guarda-roupa dela um revólver com falta de uma bala do mesmo calibre do projétil. — Com os olhos parados, repetiu, destacando as palavras: — No guarda-roupa dela. — Dito isso, emudeceu, e percebi que o fio das suas ideias começava a mover-se e que seria tolice interrompê-lo. De repente, com um estremeção, voltou à sua vida ativa. — Sim, Watson, foi encontrado. Não é condenatório? Foi o que pensaram os dois júris. Depois, a morta tinha consigo um bilhete assinado pela aia em que era marcado um encontro naquele mesmo lugar. Que tal? Finalmente, há o motivo. O senador Gibson é um homem atraente. Morrendo-lhe a mulher, quem provavelmente seria sua sucessora senão a jovem dama, que, afinal de contas, já recebera as maiores atenções de seu patrão? Amor, fortuna, poder, tudo na dependência de uma existência já a caminho do declínio. Feio, Watson, muito feio!

— Sim, realmente, Holmes.

— E nem um álibi ela pôde dar. Pelo contrário, teve de confessar que se encontrava perto da Ponte de Thor (foi esse o teatro da tragédia) mais ou menos àquela hora. Não pôde negar isso, porque um dos aldeões que passou viu-a lá.

— Isso na verdade parece definitivo.

— E no entanto, Watson, no entanto... Essa ponte, uma larga passagem de pedras com balaústres dos lados, passa por cima da parte mais estreita de um longo lençol de água, profundo, cercado de junco. Seu nome é lagoa de Thor. Na entrada da ponte, jazia o corpo da morta. São esses os principais fatos. Mas aqui está, se não me engano, o nosso cliente, antecipando-se consideravelmente à hora aprazada.

Billy tinha aberto a porta, mas o nome que anunciou não era o esperado. O Sr. Marlow Bates era um desconhecido para nós dois. Era um homenzinho magro e nervoso, de olhos espantados, de modos hesitantes e um tanto bruscos, um homem no qual meu olho clínico entreviu um candidato a um completo esgotamento nervoso.

— O senhor parece agitado, sr. Bates — disse Holmes.— Queira sentar-se. Receio só lhe poder conceder muito pouco tempo, porque tenho uma entrevista marcada para as onze horas.

— Eu sei — volveu o nosso visitante, arquejando, pondo-se a soltar frases curtas como quem estivesse esbaforido.

— O Sr. Gibson vem aí. Ele é meu patrão. Sou o administrador da herdade dele. Sr. Holmes, ele é um vilão, um rematado vilão.

— Linguagem forte, Sr. Bates.

— Tenho de ser rápido, Sr. Holmes, porque o tempo é pouco. Por nada no mundo desejaria que ele me surpreendesse aqui. Deve estar chegando. Mas não me foi possível vir mais cedo. O secretário dele, o Sr. Ferguson, só hoje de manhã me falou na entrevista com o senhor.

— E o senhor é o seu administrador?

— Já o avisei de que pretendo deixar o emprego. Dentro de duas semanas deverei acabar com essa escravidão. Homem ruim, Sr. Holmes, ruim para todos quantos o cercam. As caridades que faz não passam de um biombo para esconder as vilanias privadas. Mas a sua principal vítima foi a esposa. Ele era brutal para com ela, sim, brutal! Não sei quem foi que a matou; mas foi ele que transformou a vida dela num suplício. Ela era natural dos trópicos, brasileira de nascimento, como o senhor deve saber.

— Não. Isso me escapou.

— Tropical de nascimento e de índole. Uma filha do sol e da paixão. Amara-o como só mulheres assim sabem amar, mas, quando os seus encantos físicos se dissiparam (ouvi dizer que foram grandes em outros tempos), não houve mais nada que o detivesse. Todos nós gostávamos dela, tínhamos pena da vida que levava e o odiávamos devido à forma como a tratava. Mas ele tem muita lábia. Só lhe digo isso, Sr. Holmes. Não se fie naquelas aparências. Por trás há muito mais. Agora vou embora. Não, não me detenha! Ele está quase chegando.

Lançando um olhar assustado ao relógio, nosso estranho visitante correu para a porta e desapareceu.

— Muito bem! — disse Holmes, após um intervalo de silêncio. — Parece que o Sr. Gibson tem uma criadagem leal a toda prova. Mas a advertência tem a sua utilidade. Agora só nos resta aguardar até que o homem apareça.

Às onze horas em ponto, ouvimos pesados passos na escada, e o famoso milionário foi introduzido na sala. Assim que olhei para ele, compreendi não somente os temores e a aversão de seu administrador, mas também as pragas que tantos rivais nos negócios lhe têm amontoado sobre a cabeça. Se eu fosse escultor e desejasse idealizar um bem-sucedido homem de ação, de nervos de aço e consciência impenetrável, escolheria o Sr. Neil Gibson como modelo. A figura alta, atlética, angulosa, tinha um não sei quê de faminto e ganancioso. Um Abraham Lincoln que tivesse sido talhado para o mal, em vez de o ser para atos elevados, daria uma idéia do homem. O rosto podia ser esculpido em granito, tão duros eram os traços, anguloso, indiferente ao remorso, com sulcos profundos como marcas de muitas crises. Dois olhos cinzentos e frios, encimados por sobrancelhas eriçadas, examinaram-nos astutamente. Fez uma inclinação superficial, e, quando Holmes mencionou o meu nome, logo, com um ar soberano de quem manda e não pede, puxou uma cadeira para perto do meu companheiro e sentou-se, quase tocando-o com seus joelhos ossudos.

— Consinta que lhe diga logo de início, Sr. Holmes — disse ele —, que neste caso o dinheiro é o que menos me preocupa. O senhor pode queimá-lo se a sua chama lhe servir para descobrir a verdade. Aquela mulher está inocente e tem de ser absolvida, e cabe ao senhor fazer com que ela o seja. Diga quanto quer!

— Meus honorários profissionais obedecem a uma escala fixa — tornou Holmes com frieza. — Não me afasto dela exceto quando os dispenso inteiramente.

— Bem. Se o dólar não o tenta, pense na sua reputação. Se deslindar essa trama, não haverá jornal aqui e na América que não exalte o seu nome. Será falado em dois continentes.

— Obrigado, Sr. Gibson. Não creio que necessite assim de tanta publicidade. Talvez o senhor fique surpreso ao saber que prefiro trabalhar anonimamente e que o que mais me atrai é o problema em si. Mas estamos perdendo tempo. Vamos ao que importa.

— Creio que achará os fatos principais nas notícias da imprensa. Não sei se poderei acrescentar alguma coisa que o ajude. Se, porém, deseja algum esclarecimento, aqui estou para lhe prestar.

— Pois bem, há apenas um ponto.

— Qual é?

— Quais eram exatamente as suas relações com a Srta. Dunbar?

O Rei do Ouro teve um estremeção e soergueu-se da cadeira. Depois, sua calma voltou.

— Suponho que esteja no seu direito... e talvez cumprindo o seu dever, ao fazer-me tal pergunta, Sr. Holmes.

— Concordemos em supô-lo — disse Holmes.

— Então posso assegurar-lhe que nossas relações foram sempre e exclusivamente as de um patrão com uma jovem empregada com a qual ele nunca conversou e a quem jamais viu, a não ser quando ela estava em companhia de seus filhos.

Holmes levantou-se de sua cadeira.

— Sou um homem bastante ocupado, Sr. Gibson — disse —, e não tenho tempo nem gosto por conversas sem rumo certo. Passe muito bem.

Nosso visitante também se levantara, e sua figura imensa dominava a de Holmes. De sob aquelas sobrancelhas eriçadas, saía um brilho de cólera e nas faces pálidas notava-se um rubor insólito.

— Que diabo significa isso, Sr. Holmes? O senhor abandona o meu caso?

— Pelo menos, abandono o senhor. Pensei que as minhas palavras tivessem sido claras.

— Claras, mas o que é que se esconde atrás delas? Quererá o senhor valorizar excessivamente o seu serviço, ou receia encarregar-se do caso, ou o que é? Tenho direito a uma resposta também clara.

— Sim, talvez o senhor tenha — disse Holmes. — E vou lhe dar. Esse caso já é em si bastante complicado, e não precisa que o atrapalhem ainda mais com uma informação falsa.

— Acha que estou mentindo?

— Bem. Eu procurava exprimir isso o mais delicadamente possível, mas, se o senhor insiste sobre o termo, não irei contradizê-lo.

Pus-me de pé num salto, porque a expressão que se lia no semblante do milionário era maligna na sua intensidade, e ele erguera o punho nodoso. Holmes sorriu languidamente e estendeu a mão para apanhar o seu cachimbo.

— Nada de barulho, Sr. Gibson. Acho que depois de uma refeição, ainda que ligeira, qualquer insignificante discussão é prejudicial. Penso que um passeio ao ar da manhã e um pouco de reflexão tranqüila só lhe poderão fazer bem.

Com esforço, o Rei do Ouro dominou sua fúria. Não pude deixar de admirá-lo, pois com um supremo domínio de si mesmo ele passara, num minuto, da mais descabelada ira à mais desdenhosa indiferença.

— Bem. O senhor manda; deve saber como dirigir os seus negócios. Não serei eu quem vai obrigá-lo a encarregar-se de um caso. Cometeu hoje um erro, Sr. Holmes, porque eu já amansei homens mais fortes. Ninguém que se pôs no meu caminho lucrou alguma coisa com isso.

— Não é o senhor a primeira pessoa que me diz o mesmo, e no entanto aqui estou — disse Holmes, sorrindo. — Bem, até logo, Sr. Gibson. O senhor ainda tem muito o que aprender.

Nosso visitante saiu ruidosamente. Holmes, porém, imperturbável, fumava em silêncio, com os olhos sonhadores fixos no teto.

— A sua opinião, Watson? — indagou.

— Olhe, Holmes, devo confessar que, vendo que esse homem é capaz de arredar qualquer obstáculo do seu caminho, e lembrando-me de que a mulher podia ter sido um obstáculo e era alvo de sua aversão, conforme esse Bates nos revelou, francamente parece-me...

— Exatamente. A mim também parece.

— Mas quais eram as relações dele com a ama, e como foi que você as descobriu?

— Ora, Watson, eu simplesmente blefei! Quando considerei o tom apaixonado, original e até extravagante da sua carta, comparei esse tom com a sua aparência e os seus modos reservados, tornou-se-me evidente que havia uma profunda emoção que se concentrava mais na acusada que na vítima. Cumpre-nos compreender as relações exatas dessas três pessoas, se quisermos alcançar a verdade. Você viu o ataque direto que eu lhe fiz e com que tranqüilidade ele o recebeu. Em seguida, iludi-o dando-lhe a impressão de que estava absolutamente certo, quando na realidade estava apenas muitíssimo desconfiado.

— Quem sabe se ele ainda volta?

— Não há a menor dúvida de que volta. Tem de voltar. Ele não pode deixar a coisa no ponto em que está. Escute! Não é um toque de campainha? Sim, ouço passos. Bem, Sr. Gibson, eu acabara de dizer ao Dr. Watson que o senhor era novamente esperado aqui.

O Rei do Ouro entrava na sala com disposição mais branda do que quando dela saíra. O orgulho ferido ainda transparecia nos olhos de um fulgor sinistro, mas o senso comum mostrara-lhe que devia ceder se queria atingir os seus fins.

— Refleti melhor, Sr. Holmes, e vi que fui um pouco precipitado ao levar a mal as suas observações. Justifica-se o seu desejo de querer aprofundar os fatos, sejam eles quais forem, e isso fez com que o senhor subisse no meu conceito. Posso, entretanto, garantir-lhe que as relações entre mim e a Srta. Dunbar nada têm a ver com este caso.

— Isso cabe a mim decidir, não acha?

— Sim, creio que sim. O senhor é como o cirurgião que quer saber de todos os sintomas antes de fazer o diagnóstico.

— Isso mesmo. É uma analogia perfeita. E só um doente que tencionasse enganar o médico dissimularia os fatos do seu caso.

— Pode ser, mas o senhor há de convir, Sr. Holmes, que muitos homens se retrairiam um pouco por acanhamento quando lhe perguntassem à queima-roupa quais são as suas relações com uma mulher... se há realmente no caso algum sentimento sério. Suponho que a maioria dos homens tenha um lugarzinho reservado, em algum recanto da alma, onde não lhe agrada muito a presença de estranhos. E o senhor forçou de repente a entrada. Mas o fim com que o fez desculpa-o, uma vez que seu objetivo foi tentar salvá-la. Pois bem. Já não há muros vedando a entrada, e o senhor pode explorar à vontade. Que deseja, então?

— A verdade.

O Rei do Ouro deteve-se um instante, como quem põe em ordem as suas idéias. Sua fisionomia severa, cheia de sulcos, tinha-se tornado ainda mais triste e sisuda.

— Posso contá-la em breves palavras, Sr. Holmes — disse por fim. — Há certas coisas que são ao mesmo tempo penosas e difíceis de dizer, de modo que não as aprofundarei mais que o necessário. Conheci minha mulher quando andava pelo Brasil em busca de ouro. Maria Pinto era filha de um funcionário público de Manaus e muito bonita. Naquele tempo, eu era jovem e fogoso, mas mesmo agora, olhando para o passado com a necessária calma e espírito crítico, vejo que ela era de uma beleza rara e maravilhosa. Era dotada também de uma natureza profundamente rica, apaixonada, tropical, sem grande equilíbrio, muito diferente das mulheres americanas que eu tinha conhecido. Para encurtar: amei-a e casamo-nos. Somente quando o idílio passou... e ele durou anos, foi que percebi que não tínhamos nada, absolutamente nada em comum. O meu amor acabara. Se ela pudesse dizer o mesmo do seu, tudo seria mais fácil. Mas o senhor sabe como são as mulheres! Por mais que eu fizesse, não havia maneira de afastá-la de mim. Se fui rude com ela ou mesmo brusco como alguns disseram, foi porque sabia que, se conseguisse dar cabo do amor que me dedicava, ou se o convertesse em ódio, a coisa seria mais fácil para ambos. Nada, porém, a modificou. Ela me adorava naqueles bosques ingleses como me havia adorado vinte anos antes, nas margens do Amazonas. Fizesse eu o que fizesse, era-me devotada como sempre.

"Nisso, vem para nossa casa a Srta. Grace Dunbar, que respondeu ao nosso anúncio e tornou-se ama dos nossos dois filhos. É provável que o senhor tenha visto o seu retrato nos jornais. Todos são unânimes em proclamá-la uma mulher bonita. Ora, não tenho a pretensão de ser mais puritano que os meus semelhantes, e confesso-lhe que não me foi possível viver debaixo do mesmo teto com tal mulher, e em contato diário com ela, sem sentir qualquer coisa que não o simples respeito. O senhor me censura, Sr. Holmes?

— Eu não o censuro por sentir o que sentiu. Censurá-lo-ia se o senhor desse forma concreta a esse sentimento, pois evidentemente essa moça, em certo sentido, estava sob a sua proteção.

— É possível — disse o milionário, e por um momento a reprovação pôs de novo nos seus olhos uma chama sinistra. — Não quero passar por melhor do que sou. Creio que em toda a minha vida fui um homem que teve tudo o que quis, e nunca desejei mais fortemente uma coisa que o amor e a posse dessa mulher. E disse isso a ela.

— Disse mesmo?

Holmes, quando estimulado, era capaz de assumir um ar temível.

— Disse-lhe que, se pudesse desposá-la, eu o faria, mas que tal coisa não era possível. Disse mais, que o dinheiro não constituía obstáculo e que tudo o que eu pudesse fazer para torná-la feliz seria feito.

— Muito generoso, pode crer — observou Holmes, irônico.

— Escute uma coisa, Sr. Holmes. Vim aqui para tratar de uma questão de provas e não de uma questão de moral. Não solicitei as suas críticas.

— É apenas em atenção à Jovem que me ocupo do senhor — volveu Holmes gravemente. — Não sei se alguma coisa de que a acusam é pior do que aquilo que o senhor próprio confessou, isto é, que tentou destruir uma jovem indefesa que estava sob o seu teto. Alguns de vocês, os ricos, precisam saber que há muita gente neste mundo que sabe resistir ao suborno e que não perdoa as ofensas que lhes fazem.

Admirei-me de ver o Rei do Ouro suportar a censura com impassibilidade.

— É essa igualmente a opinião que agora tenho do assunto. Dou graças a Deus pelo fato de os meus planos não terem saído como eu os arquitetara. Ela não só repeliu minha proposta como quis até deixar a casa no mesmo instante.

— E por que não o fez?

— É que, em primeiro lugar, havia outros que dependiam dela, e não era coisa fácil sacrificá-los de um momento para o outro. Quando jurei... como realmente o fiz, que ela nunca mais seria molestada, consentiu em ficar. Havia, porém, outra razão. Ela sabia que tinha influência sobre mim e que essa influência era mais forte que qualquer outra no mundo. Sabia disso, e quis usá-la para o bem.

— De que maneira?

— Ela sabia alguma coisa dos meus negócios. Eles são grandes, Sr. Holmes, tão grandes que o homem comum não faz ideia. Posso construir ou destruir, e geralmente destruo. Não apenas indivíduos. Mas também comunidades, cidades, até mesmo nações. Os negócios não são nenhuma brincadeira, e os fracos sucumbem. Eu tratava os negócios como negócios, doesse a quem doesse. Por mim nunca chorei mágoas, e pouco se me dava que alguém chorasse. Ela, porém, via as coisas por um prisma diferente, e creio que tinha razão. Acreditava e dizia que a fortuna de um só homem, imensa, maior do que o razoável, não devia ser construída sobre a ruína de dez mil que ficavam reduzidos à miséria. Era essa a sua opinião, e suponho que ela vislumbrava, além da riqueza, algo mais duradouro. A srta. Dunbar verificou que eu dava ouvidos ao que dizia e julgou estar sendo útil à humanidade influindo nos meus atos. Por isso permaneceu conosco, e de repente aconteceu o que é do domínio público.

— O senhor pode prestar alguns esclarecimentos sobre o debatido caso?

O Rei do Ouro ficou parado durante um minuto, ou talvez mais, com a cabeça pendida entre as mãos, absorto em profundos pensamentos.

— Não há como negar que as evidências são todas contra ela. As mulheres levam uma vida muito íntima, e são capazes de praticar atos que escapam à apreciação de um homem. A princípio, fiquei tão surpreso, tão abalado que cheguei a pensar que ela se deixara arrastar por um impulso contrário à sua índole. Ocorreu-me uma explicação. Transmito-a ao senhor, pelo que lhe possa valer. Não há dúvida de que minha mulher era extremamente ciumenta. Existe um ciúme da alma que pode ser tão violento como qualquer ciúme do corpo, e conquanto minha mulher não tivesse nenhum motivo (e creio que ela sabia disso) para sentir este último ciúme, percebia perfeitamente que essa jovem inglesa exercia sobre o meu espírito e os meus atos uma influência que ela nunca teve. Era um influência benéfica, mas isso de nada adiantava. Ela estava louca de ódio, e o ardor do Amazonas não lhe saía do sangue. Não é impossível que tivesse planejado matar a Srta. Dunbar ou, quem sabe, a ameaçasse com uma arma para intimidá-la, obrigando-a, assim, a sair de nossa casa. Pode ter havido uma briga, a arma teria disparado e atingido a mulher que a segurava.

— Já havia me ocorrido tal possibilidade — disse Holmes. — E é essa, com efeito, a única alternativa evidente, capaz de explicar o assassinato deliberado.

— Ela, porém, nega essa hipótese completamente.

— Mas isso só não basta, não é verdade? Uma mulher colocada numa posição tão horrorosa bem podia voltar apressadamente para casa, segurando ainda o revólver, invadida como estava por extrema perplexidade. Poderia atirá-lo no meio das roupas, mal sabendo o que fazia, e, quando ele fosse encontrado, ela, para se livrar do embaraço, tentaria mentir negando tudo, uma vez que qualquer explicação seria impossível. Que há contra tal hipótese?

— A própria Srta. Dunbar.

— Pode ser.

Holmes consultou o relógio.

— Não tenho dúvidas de que hoje de manhã obteremos a necessária licença e chegaremos a Winchester no trem da noite. Depois de me avistar com essa jovem, é bem possível que eu lhe possa ser útil nesse assunto, embora eu não prometa que as minhas conclusões sejam forçosamente as que o senhor deseja.

Houve certa demora na expedição do passe oficial, e, em vez de chegarmos a Winchester naquele dia, fomos à Vila Thor, a herdade que o Sr. Neil Gibson possuía em Hampshire. Ele não nos acompanhou pessoalmente, mas levou-nos ao sargento Coventry, da polícia local, que fora o primeiro a examinar o caso. Coventry era um homem alto, magro, de uma palidez doentia, e umas maneiras secretas e misteriosas, que davam a idéia de que sabia ou suspeitava muito mais do que ousava dizer. Tinha também o hábito de baixar a voz de repente, reduzindo-a a um cochicho, como se fosse tratar de assunto da mais alta importância, embora geralmente fosse uma informação trivial qualquer. Mas, exceto por essas ligeiras excentricidades, logo se revelou um sujeito decente e honesto, que não tinha pejo em confessar que estava no fundo de um buraco e que agradeceria a quem quer que lhe desse a mão.

— Seja como for, antes o senhor que a Scotland Yard, Sr. Holmes — disse. — Se a Yard é chamada para examinar um caso, a polícia local perde todo o crédito pelo êxito alcançado e ainda pode ser censurada pelo malogro. O senhor, segundo ouço dizer, faz jogo limpo.

— Não preciso aparecer nesse assunto — disse Holmes, para evidente satisfação do nosso melancólico conhecido. — Se conseguir deslindá-lo, não irei pedir que mencionem o meu nome.

— Isso muito o honra, Sr. Holmes. E sei que também se pode confiar no seu amigo, o Dr. Watson. Agora, enquanto vamos caminhando para o lugar, há uma pergunta que eu desejaria fazer-lhe. Quero fazê-la em particular. — Olhou em redor, como se lhe faltasse coragem para dizer o que queria. — O senhor não acha que não seria despropositado um processo contra o próprio Sr. Neil Gibson?

— Tenho pensado nisso.

— O senhor ainda não viu a Srta. Dunbar. É uma mulher maravilhosa em todos os sentidos. É bem possível que ele quisesse afastar a esposa do caminho. E esses americanos são mais rápidos no uso da pistola do que a nossa gente. Como o senhor sabe, a arma era dele.

— Isso ficou realmente comprovado?

— Sim, senhor. Era uma de um par que lhe pertence.

— Uma de um par? E a outra, onde está?

— O Sr. Gibson possui grande quantidade de armas de fogo das mais diferentes espécies. Não comparamos as armas, mas o estojo foi feito para duas.

— Se a arma fazia parte de um par, o senhor devia ter encontrado a outra.

— Bem, temos as duas lá na casa. Se o senhor quiser, poderá examiná-las.

— Mais tarde, talvez. Penso que agora convém irmos juntos até o lugar da tragédia.

Essa conversa se passara na saleta da frente do modesto chalé do sargento Coventry, que servia de delegacia de polícia local. Uma caminhada de um quilômetro, mais ou menos, através de uma charneca varrida pêlos ventos, toda dourada e cor de bronze, com os fetos definhados, levou-nos a um portão lateral, que dava acesso aos terrenos da Vila Thor. Uma vereda conduziu-nos através dos viveiros de faisões, e logo, de uma clareira, vimos o casarão em estilo meio Tudor e meio georgiano, sobre a crista da colina. Ao nosso lado, havia uma comprida lagoa, coberta de caniços, estreita no centro, onde a principal estrada de veículos passava sobre uma ponte de pedra, lagoa que se estendia de uma banda a outra, formando pequenos lagos. Nosso guia deteve-se à entrada dessa ponte e apontou para o chão.

— Aqui foi encontrado o corpo da Sra. Gibson. Marquei-o com esta pedra.

— Ouvi dizer que o senhor esteve aqui antes que o corpo fosse removido, é verdade?

— Sim, senhor. Mandaram me chamar imediatamente.

— Quem mandou chamá-lo?

— O próprio Sr. Gibson. No momento em que foi dado o alarme, ele acorreu apressadamente com outras pessoas e fez questão de que não se tocasse em nada até a chegada da polícia.

— Foi uma medida sábia. Pela leitura dos jornais, concluí que o tiro foi desfechado à queima-roupa.

— Sim, senhor, é exato.

— Muito próximo da têmpora direita?

— Logo atrás da têmpora.

— Em que posição foi encontrado o corpo?

— Deitado de costas, Sr. Holmes. Não havia vestígio de luta. Nenhuma marca. Nenhuma arma. O conciso bilhete da Srta. Dunbar estava bem seguro na mão esquerda da morta.

— Bem seguro, diz o senhor?

— Sim. Foi com dificuldade que conseguimos abrir os dedos.

— Isso é de grande importância. Exclui a idéia de que alguém tenha colocado ali o bilhete depois de ela morrer, a fim de apresentar um indício falso. Se bem me lembro, o bilhete dizia apenas o seguinte: "Estarei na Ponte de Thor às nove horas. G. Dunbar". Não é?

— Exatamente.

— A Srta. Dunbar confessa tê-lo escrito?

— Sim, senhor.

— Que explicação deu?

— Sua defesa ficou reservada para o tribunal. Ela nada quis dizer.

— O problema é por certo muito interessante. O pormenor do bilhete é muito obscuro, não acha?

— Oh, Sr. Holmes — tornou o nosso guia —, esse pormenor pareceu-me, se me permite dizê-lo, o único realmente claro em todo o assunto.

Holmes abanou a cabeça.

— Partindo do princípio de que o bilhete seja autêntico e que tenha realmente sido escrito, decerto foi recebido algum tempo antes, digamos, uma ou duas horas antes. Por que motivo, então, essa senhora ainda o segurava fortemente na mão esquerda? Ela não tinha necessidade de se referir a ele no encontro. Isso não parece digno de nota?

— Bem, com essa sua explicação, talvez pareça.

— Creio que gostaria de ficar sentado sozinho por alguns minutos, para refletir um pouco.

Sentou-se na balaustrada de pedra da ponte, e pude ver seus olhos cinzentos movendo-se agilmente em todas as direções, como que à procura de alguma coisa. De súbito, levantou-se e deu uma corrida até o parapeito oposto, tirou a lente do bolso e pôs-se a examinar a obra de alvenaria.

— Isto é curioso — disse ele.

— Realmente. Vimos o rebordo de pedra lascado. É provável que tenha sido algum transeunte.

A alvenaria era cinzenta, mas naquele ponto apresentava-se branca por um espaço não maior que o de uma moeda de tamanho médio. A um exame mais detido, via-se que a superfície fora lascada por um golpe violento.

— Foi preciso força para fazer isso — disse Holmes, pensativo. Bateu várias vezes com a bengala no rebordo, sem deixar marca. — Sim, foi uma pancada forte. E num lugar curioso. Não foi de cima, mas de baixo, pois vê-se que está na borda inferior do parapeito.

— Mas está pelo menos a uns quatro metros e meio do corpo.

— Sim, está a uns quatro metros e meio do corpo. Pode não ter nada a ver com o caso, mas é um pormenor digno de nota. Parece-me que daqui não levamos mais nenhuma informação. Vestígios não havia, não foi o que o senhor disse?

— O terreno estava duro como pedra, Sr. Holmes. Não havia rastro algum.

— Então podemos ir. Iremos primeiro à casa examinar as armas a que o senhor se referiu. Depois iremos a Winchester, pois desejo me avistar com a Srta. Dunbar antes de prosseguirmos.

O Sr. Neil Gibson ainda não voltara da cidade, mas encontramos em casa o neurótico sr. Bates, que nos havia visitado pela manhã. Ele nos mostrou, com gesto feroz, o formidável arsenal de armas de fogo, de vários formatos e tamanhos, que o seu patrão tinha acumulado no decurso da sua aventurosa existência.

— O Sr. Gibson tem seus inimigos, como era de esperar, sabendo-se quem ele é e quais são os seus métodos — disse o Sr. Bates. — O homem dorme com um revólver carregado, que fica na gaveta da mesinha-de-cabeceira. É um homem violento, sr. Holmes, e há ocasiões em que todos nós temos medo dele. Estou certo de que a pobre falecida ficava muitas vezes horrorizada com o marido, — Alguma vez o senhor presenciou violência física em relação a ela?

— Não, isso não posso dizer. Mas ouvi palavras que feriam como pedras, palavras do mais vivo desprezo, até mesmo na presença de criadas.

— O nosso milionário não parece ter uma vida doméstica das mais invejáveis — observou Holmes, enquanto íamos andando para a estação. — Bem, Watson, já estamos cientes de um bom número de fatos, alguns deles novos, e, contudo, parece-me que estou um pouco longe da conclusão. A despeito da manifesta antipatia do Sr. Bates pelo seu patrão, soube por ele que, quando foi dado o alarme, o Sr. Gibson estava no seu escritório. O jantar terminara às oito e meia, e, até essa hora, tudo havia corrido normalmente. Verdade é que o alarme foi dado já um pouco tarde, mas a tragédia certamente ocorreu mais ou menos à hora especificada no bilhete. Não há nenhuma prova de que o Sr. Gibson tenha estado fora desde o seu regresso da cidade, que se verificou às cinco horas. Por outro lado, a Srta. Dunbar, conforme me foi dito, confessa haver combinado o encontro com a Sra. Gibson na ponte. A não ser isso, ela não quis dizer mais nada, visto que seu advogado a aconselhou a adiar a defesa. Temos várias perguntas importantes para fazer a essa jovem, e, enquanto eu não a vir, não me darei por satisfeito. Devo confessar que o caso se me afiguraria muito desfavorável para ela se não fosse uma circunstância.

— E qual é, Holmes?

— A pistola encontrada no guarda-roupa.

— Caramba, Holmes! — exclamei. — Para mim, esse parece ser o pior dos pormenores contra a Srta. Dunbar.

— Não é tanto assim, Watson. Aquilo me causou uma impressão muito estranha logo após atenta leitura dos jornais, e agora, que estou tratando diretamente do caso, é a minha única âncora firme de esperança. Devemos procurar coerência nos fatos. Se verificamos que ela falta, temos de desconfiar de alguma armadilha.

— Quase não chego a compreender, Holmes.

— Ora, meu caro Watson, suponhamos por um momento que você represente o papel de uma mulher. Essa mulher, com frieza e premeditação, está prestes a desembaraçar-se de uma rival. Você planejou o golpe. Foi escrito um bilhete. A vítima chegou. Você está de posse da arma. O crime é praticado. Foi um crime magistralmente executado. Depois de perpetrar um delito tão hábil, você estragaria a sua reputação de criminoso esquecendo-se de atirar a arma para cima daqueles caniços próximos, que para todo o sempre a encobririam, e levando-a com cuidado para casa, para colocá-la no guarda-roupa, justamente o lugar em que primeiro dariam busca? Os seus melhores amigos, Watson, não haveriam de lhe gabar a astúcia, e no entanto eu não seria capaz de imaginá-lo praticando algo tão grosseiro como isso.

— No nervosismo do momento...

— Não, não, Watson, não admito essa possibilidade. Quando um crime é friamente premeditado, são também premeditados os meios de encobri-lo. Creio, portanto, que estamos diante de um sério mal-entendido.

— Mas há tanta coisa a explicar!

— Pois então vamos começar a explicar alguma coisa. Uma vez modificado um ponto de vista, a própria circunstância que parecia mais grave converte-se no caminho que conduz à verdade. É, por exemplo, o caso do tal revólver. A Srta. Dunbar nega qualquer conhecimento desse pormenor. De acordo com a nossa nova teoria, ela, ao afirmar isso, diz a verdade. Portanto, a arma foi colocada no seu guarda-roupa. Quem a colocou ali? Alguém que desejava acusá-la. Não seria essa pessoa o verdadeiro criminoso? Vê como de repente chegamos a uma série de indagações frutíferas?

Fomos forçados a passar a noite em Winchester, uma vez que ainda não haviam sido completadas as formalidades legais, mas na manhã seguinte, em companhia do Sr. Joyce Cummings, o esperançoso advogado a quem estava confiada a defesa, recebemos permissão para visitar a jovem na sua cela. De tudo quanto eu ouvira dizer, esperava ver simplesmente uma beldade, mas nunca me esquecerei do efeito que em mim produziu a Srta. Dunbar. Não era de admirar que até mesmo o arrogante milionário tivesse descoberto nela alguma coisa mais poderosa que ele próprio — alguma coisa capaz de dominá-lo e guiá-lo. Sentia-se também, quando se olhava para aquele semblante forte, de traços firmes e contudo reveladores de alta sensibilidade, que mesmo que ela se deixasse arrastar à prática de algum ato menos pensado, sua profunda nobreza de caráter sempre a levaria de novo à prática do bem. Era morena, alta, tinha uma figura nobre e uma aparência imponente, mas notava-se nos seus olhos negros a expressão quase de súplica do animal que se vê cercado de redes e não descobre maneira de se livrar da armadilha. Agora, ao perceber a presença e a ajuda do meu famoso amigo, suas faces pálidas criaram cores, e um lampejo de esperança começou a brilhar no olhar que nos dirigiu.

— Talvez o Sr. Neil Gibson lhe tenha dito alguma coisa do que houve entre nós — disse, em voz baixa e agitada.

— Sim — respondeu Holmes. — Não precisa se afligir entrando nessa parte da história. Depois de vê-la, estou inclinado a aceitar a declaração do Sr. Gibson tanto relativamente à influência que a senhora teve sobre ele como quanto à inocência das suas relações com ele. Mas por que não pôr tudo em pratos limpos perante as autoridades?

— Pareceu-me incrível que uma acusação dessas pudesse ser levada a sério. Pensei que, se aguardássemos um pouco, tudo se esclareceria por si mesmo, sem sermos forçados a entrar em penosos pormenores da vida íntima da família. Mas, pelo que me disseram, a situação, longe de se aclarar, cada vez se complica mais.

— Minha estimada senhora — exclamou Holmes, com voz firme —, rogo-lhe que não tenha ilusões quanto a este ponto. O seu advogado lhe assegurará que todas as cartas presentemente são contra nós e que temos de fazer tudo o que for possível se quisermos sair vitoriosos. Seria um engano cruel virmos aqui dizer-lhe que a senhora não corre grande risco. Dê-me, pois, todo o auxílio que puder para chegarmos à verdade.

— Não ocultarei nada.

— Fale-nos, então, sobre as suas verdadeiras relações com a esposa do Sr. Gibson.

— Ela me odiava, Sr. Holmes. Odiava-me com todo o ardor da sua natureza tropical. A Sra. Gibson era uma mulher que não fazia nada pela metade, e a medida do seu amor ao marido era também a medida do ódio que ela me votava. É provável que tivesse interpretado mal as nossas relações. Não é meu desejo ser injusta com a morta, mas ela amava de uma maneira tão intensa, num sentido tão físico que era quase incapaz de entender o laço mental, e até mesmo espiritual, que prendia seu marido a mim, ou de imaginar que a única coisa que me conservava debaixo do seu teto fosse o meu desejo de dirigir sabiamente o poder dele para uma boa finalidade. Agora reconheço que fiz mal. Nada podia justificar a minha permanência num lugar onde eu era causa de infelicidade, e todavia é certo que a infelicidade continuaria, mesmo que eu saísse de casa.

— Agora, Srta. Dunbar — disse Holmes —, peco-lhe que nos conte com exatidão o que sucedeu naquela noite.

— Posso dizer-lhe a verdade, Sr. Holmes, até o ponto em que a conheço, mas não estou em condições de provar nada, e existem pontos, justamente os mais importantes, que não posso explicar e para os quais não posso sequer imaginar qualquer explicação.

— Se a senhora contar os fatos, talvez outros possam encontrar explicação.

— Quanto à minha presença na Ponte de Thor naquela noite, devo dizer que recebi de manhã um bilhete da Sra. Gibson. Esse bilhete estava em cima da mesa da sala de aula, e talvez ela própria o tivesse deixado lá. Nele, ela me implorava que eu a procurasse depois do jantar, alegando ter uma coisa importante para me dizer, e pedia-me que deixasse uma resposta por escrito sobre o relógio de sol no jardim, visto que desejava que estivéssemos apenas as duas no nosso encontro. Eu não via razão para tanto segredo, mas fiz conforme ela pediu, aceitando a entrevista. Pediu-me ainda que destruísse o seu bilhete, e eu queimei-o na lareira da sala de aula. Ela tinha muito medo do marido, que a tratava com uma rudeza pela qual eu freqüentemente o censurei, e apenas me ocorreu que ela procedia dessa maneira porque não queria que ele soubesse da nossa entrevista.

— E no entanto ela conservou cuidadosamente a sua resposta.

— Sim. Fiquei surpresa, ao saber que a tinha na mão quando morreu.

— E que sucedeu então?

— Fui ao lugar designado, conforme prometera. Quando cheguei à ponte, ela estava à minha espera. Até aquele momento, eu jamais avaliara a que ponto a pobre criatura me detestava. Parecia louca. Na verdade, penso que era louca, sutilmente louca, com o imenso poder de enganar que os loucos podem ter. Só assim consigo explicar a calma com que todos os dias se encontrava comigo, nutrindo intimamente um ódio feroz contra mim. Não vou repetir aqui o que ela me disse. Explodiu a sua imensa fúria em palavras candentes e horríveis. Eu nem sequer respondi; não pude fazê-lo. Vê-la era coisa de estarrecer. Tapei os ouvidos com as mãos e fugi dali. Quando a deixei, ela ainda vociferava cobras e lagartos contra mim, à entrada da ponte.

— No mesmo lugar em que foi encontrada depois?

— A poucos metros dali.

— Presumindo que ela tenha morrido pouco depois que a senhora se retirou, não ouviu nenhum tiro?

— Não ouvi nada. Mas, sr. Holmes, a verdade é que eu ficara tão nervosa e horrorizada com aquela súbita explosão de ódio que me apressei a me recolher à tranqüilidade do meu quarto e não pude perceber nada do que aconteceu.

— Diz a senhora que voltou para o seu quarto. Acaso tornou a sair antes do dia seguinte?

— Sim. Quando chegou a notícia de que a pobre criatura tinha morrido, saí correndo com os outros.

— Viu o Sr. Gibson?

— Vi. Ele vinha da ponte. Tinha mandado chamar o médico e a polícia.

— Pareceu-lhe muito perturbado?

— O Sr. Gibson é um homem muito forte e calmo. Não creio que jamais deixe transparecer suas emoções. Eu, porém, que o conhecia muito bem, percebi que estava seriamente preocupado.

— Chegamos agora ao ponto mais importante... a pistola que foi encontrada no seu quarto. Já tinha visto a arma antes disso?

— Nunca, juro.

— Quando é que ela foi encontrada?

— Na manhã seguinte, quando a polícia fez uma busca.

— Entre as suas roupas?

— Sim. No fundo do meu guarda-roupa, debaixo dos meus vestidos.

— Não faz idéia de quanto tempo a arma ficou ali?

— Não estava lá na manhã do dia anterior.

— Como sabe disso?

— Porque eu estive arrumando o guarda-roupa.

— Isso é decisivo. Segue-se que alguém entrou no seu quarto e colocou lá a arma para comprometê-la.

— Deve ter sido assim.

— E quando?

— Só pode ter sido à hora da refeição ou nas horas em que eu estive na sala de aula com as crianças.

— Foi onde a senhora estava quando recebeu o bilhete?

— Sim. Dessa hora em diante, durante a manhã inteira.

— Muito obrigado, Srta. Dunbar. Há mais algum ponto que me possa ajudar na investigação?

— Que eu saiba, não.

— Há um sinal de violência no parapeito da ponte... uma lasca de pedra, coisa recente, bem em frente do corpo. Quem sabe se a senhora seria capaz de sugerir uma explicação para o fato.

— Deve ser decerto mera coincidência.

— Coisa curiosa, Srta. Dunbar, muito curiosa. Por que haveria de aparecer isso justamente na ocasião da tragédia e por que iria aparecer exatamente naquele lugar?

— Mas qual seria a causa desse pequeno fenômeno? Somente uma grande violência poderia produzir tal efeito.

Holmes não deu resposta. Seu rosto pálido adquirira repentinamente aquela expressão absorta que eu me habituara a relacionar com as supremas manifestações do seu gênio. Era tão evidente a crise que se formava no seu espírito que nenhum de nós ousou falar, e ficamos sentados — o advogado, a prisioneira e eu — a observá-lo em concentrado silêncio. De repente, ele pulou da cadeira, vibrando de energia e estimulado pela necessidade de agir.

— Venha, Watson, venha! — gritou.

— O que é que há, sr. Holmes?

— Não se importe, minha estimada senhora. O senhor terá notícias minhas, Sr. Cummings. Com o auxílio de Deus e da justiça, dar-lhe-ei um caso que terá a maior repercussão na Inglaterra. Amanhã será informada, Srta. Dunbar, e por ora só lhe afirmo que as nuvens estão se dissipando e que tenho esperança de que a luz da verdade apareça à superfície.

Não era longo o trajeto de Winchester à Vila Thor, mas foi longo para mim devido à impaciência, enquanto para Holmes era evidente que a jornada parecia interminável. Na agitação nervosa que o dominava, não conseguia ficar quieto; passeava pela carruagem ou tamborilava com os longos dedos sensíveis nas almofadas a seu lado. Mas, de súbito, quando nos aproximávamos do nosso destino, sentou-se defronte de mim (tínhamos um compartimento de primeira classe reservado para nós) e, pondo uma mão sobre cada um dos seus joelhos, olhou-me fixo, com o ar particularmente divertido que lhe era característico quando se sentia eufórico e folgazão.

— Watson — disse ele —, tenho uma vaga lembrança de que costuma andar armado quando me acompanha nestas excursões.

E bem fazia eu em andar armado, porque ele pouco cuidava da sua segurança pessoal quando tinha o espírito absorvido por um problema, de modo que mais de uma vez o meu revólver nos prestara bons serviços. Chamei-lhe a atenção para o fato.

— Sim, sim, sou um pouco distraído nesses assuntos. Mas você tem aí o seu revólver?

Tirei-o do bolso e dei-o a ele. Era uma arma pequena, mas útil. Holmes desmontou-a, tirou os cartuchos e examinou-a cuidadosamente.

— É pesado, bastante pesado — comentou.

— Sim, é uma peça sólida.

Ele refletiu um momento, conservando-o.

— Sabe, Watson — disse ele —, parece-me que o seu revólver vai ter uma relação íntima com o mistério que estamos investigando.

— Meu caro Holmes, está gracejando?

— Não, Watson, falo a sério. Estamos diante de um teste. Se esse teste der resultado, tudo ficará claro. E esse teste está dependendo do comportamento desta pequena arma. Um cartucho fica de fora. Agora vamos repor os outros cinco e ajustar de novo a trava de segurança. Pronto! Assim, aumenta-se o peso e torna-se mais perfeita a reprodução.

Eu não fazia idéia do que lhe ia no espírito, e ele não me deu nenhuma explicação, mas quedou-se mergulhado nas suas reflexões até a carruagem parar na pequena estação de Hampshire. Alugamos uma carruagem velha, e em quinze minutos estávamos em casa do nosso amigo, o sargento Coventry.

— Um indício, Sr. Holmes? Qual é?

— Tudo depende do comportamento do revólver do Dr. Watson — comentou o meu amigo. — Ei-lo. Agora, delegado, é capaz de me arranjar dez metros de barbante?

A loja da aldeia forneceu-nos um rolo de barbante forte, de fio duplo.

— Creio que vamos precisar apenas deste — disse Holmes. — Agora, se me dão licença, vamos partir para aquilo que eu espero seja a derradeira etapa de nossa viagem.

O sol começava a declinar e convertia a ondulante charneca de Hampshire num maravilhoso panorama outonal. O sargento, com várias olhadelas de crítica e incredulidade, reveladoras das suas profundas dúvidas sobre a sanidade mental do meu companheiro, caminhava um tanto contrafeito ao nosso lado. À medida que nos aproximávamos do local do crime, percebi que o meu amigo, apesar da sua calma habitual, estava na verdade profundamente agitado.

— Sim — disse ele, em resposta a uma observação minha —, você já me viu errar o alvo, Watson. Tenho uma espécie de instinto em relação a esses episódios, e contudo ele às vezes me prega peças. A coisa me pareceu simplicíssima, quando primeiro me passou pela idéia na cela de Winchester, mas uma das desvantagens de um espírito atilado é que sempre a gente pode conceber mais de uma explicação, e isso costuma prejudicar o faro. E contudo... e contudo... Bem, Watson, o que nos resta fazer é experimentar.

Enquanto andava, tinha atado com firmeza uma ponta do cordel ao cabo do revólver. Chegamos ao local da tragédia. Com grande cuidado, marcou, guiado pelo policial, o ponto exato onde caíra o corpo. Procurou então, diligentemente, por entre a urze e os fetos, até que achou uma pedra bastante grande. Amarrou-a à outra ponta do cordel e pendurou-a por cima do parapeito da ponte, de modo a deixá-la balançando livremente sobre a água. Em seguida tomou posição, ereto sobre o lugar fatal, a certa distância da beira da ponte, com o meu revólver na mão, estando o cordel bem esticado entre a arma e a pesada pedra do lado distante.

— Vamos lá!

Ditas essas palavras, ergueu a pistola à altura da cabeça e logo a largou. Num instante, ela foi arrebatada pelo peso da pedra, bateu com violento estalo contra o parapeito e sumiu do outro lado, dentro da água. Nem bem a arma se fora, Holmes ajoelhou-se ao lado da alvenaria de pedra e um alegre grito anunciou que encontrara o que esperava.

— Já alguma vez houve uma demonstração mais exata? — bradou. — Veja, Watson, o seu revólver resolveu o problema! — Enquanto dizia essas palavras, indicou uma segunda lasca do mesmo tamanho e forma da primeira, que tinha aparecido sobre o rebordo inferior da balaustrada de pedra.

— Esta noite ficaremos na estalagem — prosseguiu, ao mesmo tempo em que se levantava e se punha em frente do atônito sargento. — Se o senhor arranjar um gancho apropriado, com facilidade retirará da água o revólver do meu amigo. Ao lado dessa arma, encontrará a outra, bem como o cordel e o peso com que essa mulher vingativa tentou disfarçar o seu próprio crime e elaborar uma acusação de assassinato sobre uma vítima inocente. Pode dizer ao Sr. Gibson que irei procurá-lo pela manhã, a fim de se tomarem providências para a defesa da Srta. Dunbar.

Já muito tarde na noite, enquanto fumávamos juntos os nossos cachimbos na estalagem da aldeia, Holmes recapitulou brevemente os principais lances daquele caso.

— Receio, Watson — disse ele —, que você não melhore a reputação que eu possa ter adquirido acrescentando aos seus anais o "Misterioso caso da Ponte de Thor". Mostrei-me lento de intelecto e falho daquela mistura de imaginação e realidade que constitui a base da minha arte. Confesso que a lasca na alvenaria era um indício suficiente para sugerir a verdadeira solução, e que me censuro por não ter atinado antes com ela.

"Temos de admitir que a trama urdida pela inteligência dessa desditosa mulher era profunda e sutil, de modo que não era tarefa fácil desvendá-la. Creio que nunca, nas nossas aventuras, deparamos com um exemplo mais estranho daquilo que o amor pervertido é capaz de produzir. Que a Srta. Dunbar fosse sua rival no sentido físico ou no sentido puramente mental parece ter sido igualmente imperdoável a seus olhos. Sem dúvida, ela atribuía à inocente jovem todos aqueles modos rudes e as palavras duras com que seu marido procurava repelir o seu afeio demasiado exuberante. Sua primeira resolução foi pôr termo à própria vida. A segunda, foi fazê-lo de tal maneira que envolvesse a sua vítima numa sorte muito pior que qualquer morte súbita.

"Podemos acompanhar perfeitamente as várias etapas, que revelam uma notável sutileza de espírito. A infeliz senhora arrancou muito habilmente da Srta. Dunbar um bilhete que faria parecer que a ama escolhera o local do crime. Desejando ansiosamente que descobrissem o bilhete, excedeu-se um pouco, conservando-o na mão até o fim. Isso, por si só, devia ter despertado as minhas suspeitas desde o início.

"Em seguida, tirou um dos revólveres do marido (havia, como você viu, um verdadeiro arsenal na casa) e reteve-o para seu uso. Naquela manhã, escondeu no guarda-roupa da Srta. Dunbar um revólver semelhante, depois de descarregar um cano, o que lhe seria fácil fazer na mata sem chamar a atenção. Dirigiu-se depois para a ponte, onde idealizara aquele método extraordinariamente engenhoso, para se desembaraçar da sua arma. Quando a Srta. Dunbar chegou, utilizou as últimas forças extravasando todo o seu fel, e depois, quando já ninguém a ouvia, levou a efeito o seu terrível propósito. Cada elo agora está no seu lugar, e a cadeia está completa. Os jornais poderão perguntar por que motivo o lago não foi dragado logo no início, mas é fácil adivinhar uma coisa depois de alguém tê-la adivinhado e explicado, e, seja como for, não é fácil dragar toda a extensão de uma lagoa coberta de caniço, a não ser que se tenha uma idéia clara daquilo que se procura e do lugar onde deve estar. Pois bem, Watson, nós ajudamos uma mulher notável e também um homem não menos notável. Se eles no futuro juntarem suas forças, o que não parece impossível, o mundo das finanças verificará que o Sr. Neil Gibson aprendeu alguma coisa na escola da dor, que é uma grande mestra neste mundo.

Texto originalmente publicado com o título
The Problem of Thor Bridge na Strand Magazine de fevereiro/março de 1922. Ilustrações de Alfred Gilbert e tradução de Lígia Junqueiro para o livro As Aventuras de Sherlock Holmes, Volume VII

22.2.09

Terrorismo no papel


Agora é oficial e a divulgação foi liberada pela editora: em março um dos contos criados originalmente para este blog vai ser publicado em uma coletânea que reúne novos nomes da ficção fantástica nacional. Não é qualquer conto, é justamente o que deu origem a série, "A teoria na prática", agora em uma versão revisada e ligeiramente modificada. Assim como não é qualquer coletânea, é o número de estreia de Paradigmas uma publicação da Tarja que pretende inovar em forma e conteúdo o trio ficção científica, fantasia e horror em nosso país.

Nesta primeira edição, estarei acompanhado de uma dúzia de outros escritores, alguns deles já publicados por aqui, como os leitores podem conferir na lista abaixo (nos nomes em negrito):

Ana Cristina Rodrigues
Bruno Cobbi
Camila Fernandes
Cristina Lasaitis
Eric Novello
Jacques Barcia
Leonardo Pezzella
M. D. Amado
Maria Helena Bandeira
Osiris Reis
Richard Diegues
Roberta Nunes

A capa reproduzida acima é de autoria de uma destas escritoras, que também assina a revisão dos textos e é minha beta reader em outro projeto, Camila Fernandes, aka Mila F.

Falta apenas definir a data e o local do lançamento. Assim que tiver os detalhes, eu conto.

17.1.09

Dias de um futuro esquecido

Estou envolvido em um projeto bastante interessante: a criação de uma noveleta de um subgênero da ficção científica do qual gosto muito. O steampunk trabalha com formas de retrofuturismo, ou seja, imagina cenários em que inovações tecnológicas tenham ocorrido no passado. Para ser exato, na Era Vitoriana, auge da revolução industrial, quando o carvão e o vapor moviam o mundo, impulsionando locomotivas e forjando o progresso nos fornos das fábricas.

Para dar alguns detalhes do texto, criei um blog novo, com o mesmo título provisório desta noveleta: Cidade Phantástica. Lá estão postados algumas referências do gênero e a primeira parte da história. Boa leitura a quem já acompanha o TerrorCon.

8.1.09

Taikodom: a entrevista

Depois da pausa de final de ano, retomei a divulgação do livro citado no post abaixo. Desta vez, através de uma entrevista com seu autor, João Marcelo Beraldo, em um texto que está em votação no site Overmundo (para ler e votar, basta clicar aqui).

Cito abaixo uma das perguntas e a resposta que ele me deu, por e-mail:

Antes do lançamento de Taikodom: Despertar e de ser contratado como game designer pela empresa responsável pelo projeto, a Hoplon, você já tinha experiência tanto literária quanto com jogos, certo? Poderia falar um pouco sobre seus livros, impresso e on-line, anteriores e sobre outros games com que trabalhou?

Bom, meu primeiro livro impresso foi Véu da verdade, uma ficção Space Opera em um universo próprio. A proposta dele era criar um universo ficcional com estilo próprio, com um jeitinho brasileiro, e com espaço o suficiente para vários tipos de história não necessariamente interligadas. O Véu foi a primeira, mas longe de ser a única. Quando o livro foi publicado no final de 2005, já tinha terminado de escrever a primeira versão de Jogos de Guerra, que se passa na mesma época, mas com personagens diferentes. Em seguida tive vários contos publicados online e um na revista Scarium. De lá para cá também lancei dois ebooks sobre algumas das raças alienígenas desse UF para o mercado de RPG internacional e um RPG com sistema próprio para o mercado nacional.

Antes do Taikodom, fui um dos fundadores de um grupo chamado SomniumStudio, que pretendia lançar jogos de computador no Brasil. Chegamos a ser convidados a palestrar sobre o assunto em algumas universidades do Rio de Janeiro. Nessa época chegamos a trabalhar em alguns projetos como a Nave-Escola do Planetário da Gávea, no Rio de Janeiro, quando desenvolvemos um simulador espacial com física realista, além de projetos em multimídia. Nessa mesma época estávamos trabalhando no desenvolvimento de um space sim chamado Border Wars, com um Universo Ficcional desenvolvido por mim.

Mas, talvez a origem dessa relação escrita+jogos tenha sido um período de quatro anos em que desenvolvi e mestrei através da internet um RPG de sistema próprio baseado na série de jogos Wing Commander. Chegamos a ter 30 jogadores de todo o mundo. Foi apenas a falta de tempo que nos privou de continuar esse projeto. Sei que aprendi muito dessa época o que aplico hoje no desenvolvimento de Taikodom.

16.12.08

Taikodom: o primeiro livro

Hoje foi publicada no Overmundo uma resenha minha sobre o livro Taikodom: Despertar, romance que marca a estréia do universo ficcional, criado por Gerson Lodi-Ribeiro, para o game on line que está sendo produzido aqui em Santa Catarina.

Abaixo segue o primeiro páragrafo do texto que pode ser lido aqui e brevemente em meu outro blog:

No dia 15 de outubro de 2003 uma nova palavra entrou de vez para o vocabulário e para o imaginário dos que se interessam por temáticas espaciais. Naquela data, ao orbitar a Terra a bordo da nave Shenzhou 5 Yang Liwei, um chinês de 38 anos, se tornou o primeiro taikonauta da história, o nome que as autoridades de seu país escolheram para o mesmo profissional que, em tempos de guerra fria, foi chamado de astronauta pelos americanos e de cosmonauta pelos russos. O prefixo utilizado para diferenciar a conquista chinesa daquela feita pelos rivais históricos décadas atrás – derivado de “taikong”, espaço em mandarim – serviu de inspiração para batizar a mais ousada e ambiciosa iniciativa multimídia ligada à ficção científica no Brasil. Seu lançamento oficial ocorreu exatamente meia década depois da longa marcha espacial de Yang Liwei: foi em 27 de outubro deste ano que a empresa catarinense Hoplon Infotainment apresentou ao público o game on-line Taikodom, um produto que passou justamente os últimos quatro anos e meio em desenvolvimento, consumiu investimentos na ordem de R$ 15 milhões e será o mote de vários outros meios nos quais se contarão histórias sobre o Domínio do Espaço. O primeiro deles foi lançado em outubro em São Paulo, juntamente com o game, e também no início de dezembro, em Florianópolis, e é o motivo desta resenha, o romance Taikodom: Despertar, editado pela Devir e escrito por João Marcelo Beraldo.


A capa, que pode ser vista ali em cima, foi criada pelo jornalista, artista gráfico e meu amigo Ivan Jerônimo.

FC na TV

No dia primeiro de outubro um trio de escritores de Ficção Científica, quase todos colaboradores deste blog, foi entrevistado pelo programa Atitude.com da TV Brasil, antiga TVE. Ana Cristina Rodrigues, Clinton Davisson e Mariana Gouvin participaram ao longo de quase uma hora respondendo perguntas da apresentadora e de telespectadores sobre a literatura e o cinema do gênero. O resultado demorou a cair na rede mas agora tá lá, no Youtube. A primeira parte (de quatro) pode ser vista aqui. As demais estão na listinha ali do lado direito da tela.

Meme pró-FC

A convocação foi feita pelo Fábio Fernandes seguindo o conceito original de John Ottinger. O objetivo é criar uma lista colaborativa de sites e blogs especializados em resenhas de obras de ficção fantástica. A explicação abaixo é de Mr. Ottinger em tradução do Fábio:

Minha lista de resenhistas de livros de FC e fantasia está terrivelmente desatualizada. Preciso da ajuda de vocês para me ajudar a corrigir isso. Mas em vez de passar por todo o trabalho de vocês me enviarem recomendações ou postá-las nos comentários, o que vocês podem fazer é pegar a lista abaixo e copiá-la para seus websites, adicionando sua URL à lista, de preferência mantendo a ordem alfabética. Assim, eu serei capaz de rastreá-la pela web e adicionar cada novo blog ao meu blogroll à medida que ela for aumentando. Então peguem esta lista, adicionem-a aos seus blogs e adicionem um link sobre ela. Se vocês já estiverem na lista, repostem este meme nos seus blogs para que outros possam vê-la, e descubram novos blogs a partir dos links que outros colocarem nos blogs deles. Assim todo mundo sai ganhando! Não esqueça de enviar a lista para outras pessoas também.
Como esta me pareceu uma ótima idéia, reproduzo a lista que consta no Pós-Estranho acrescentando a ela o endereço do meu outro blog, o Ponto de Convergência, no qual republico resenhas e entrevistas que escrevo originalmente para o Overmundo. Estamos linkados ali na seção dedicada aos Brazilian, Portuguese.

Aqui vai:

7 Foot Shelves
The Accidental Bard
A Boy Goes on a Journey
A Dribble Of Ink
A Hoyden's Look at Literature
Adventures in Reading
The Agony Column
Andromeda Spaceways
The Antick Musings of G.B.H. Hornswoggler, Gent.
Ask Daphne
Australia Specfic in Focus
Author 2 Author
Barbara Martin
Bees (and Books) on the Knob
Bibliophile Stalker
Bibliosnark
BillWardWriter.com
Bitten by Books
The Black Library Blog
Blog, Jvstin Style
Blood of the Muse
The Book Bind
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1.12.08

Cidadão Wayne

O que aconteceria se Orson Welles

tivesse dirigido um filme do Batman?

Por Romeu Martins


No último dia 30 de outubro, uma transmissão de rádio que entrou para a história completou 70 anos. Foi em 1938 que um então jovem radialista da rede americana CBS resolveu adaptar para um formato de falsos boletins noticiosos o clássico de ficção científica A Guerra dos Mundos, de H.G. Wells. O ritmo do comunicador aumentava conforme se desenrolavam os relatos de uma invasão marciana envolvendo várias naves espaciais. Acostumados a se informar por aquela que era a principal mídia da época, cerca de um milhão de nova-iorquinos acreditaram que a história era real e entraram em pânico, alguns saindo em correria pelas ruas, outros se protegendo de gases venenosos com toalhas enroladas na cabeça. Aqueles programetes viraram alvos de estudos sobre o poder da imprensa, podem ser considerados o marco inicial das onipresentes pegadinhas e projetaram à fama o tal jovem radialista, um certo Orson Welles que apenas três anos depois voltaria às páginas da história ao escrever, dirigir e protagonizar Cidadão Kane, o filme considerado pela crítica como o melhor de todos os tempos.

Provavelmente foi inspirado nessa tradição de criar fatos a partir do cruzamento entre a ficção e a realidade que o roteirista Mark Millar (autor da série Ultimate dos Vingadores) invocou o nome de Orson Welles para agitar o mundo dos fãs de HQs e de cinema ao imaginar como seria um filme do Batman realizado pelo mitológico diretor.

Se Millar tivesse feito um simples texto com suposições a esse respeito talvez até alcançasse alguma repercussão, mas ele optou por explorar outro caminho na coluna que assinou no dia 26 de setembro no site Comic Book Resources. O autor afirmou que teria recebido com exclusividade parte do material de pesquisa para uma biografia de Welles que comprovaria o empenho do diretor para fazer tal adaptação em 1946. O livro seria escrito por um certo Lionel Hutton, supostamente crítico e historiador de cinema, que pesquisando o espólio de Welles descobrira notas de produção, cartas de confirmação do elenco, esboço de roteiro... O texto de Millar é terrivelmente convincente. Mas, provavelmente de propósito, deixava pistas de que tudo não passava de um trote. A maior delas envolve o Charada, vilão de Batman famoso por justamente sempre deixar dicas de como resolver seus crimes: Millar afirmava que esse personagem faria parte do filme de 1946, mas ele só foi criado três anos depois daquela data.

As supostas revelações de Millar provocaram alvoroço. É verdade que seria exagero comparar à movimentação causada pelos marcianos de Wells e Welles dos anos 30, mas que o colunista conseguiu agitar o modorrento cenário que estávamos atravessando, isso conseguiu. Quem acompanha essa história desde o início esperava que o ponto alto acontecesse na coluna seguinte de Millar, anunciada para o dia 3 de outubro. Só que no lugar de um texto assumindo o engodo e revelando as reais intenções, havia apenas um aviso: o autor deve voltar a escrever naquele espaço dentro de algumas semanas. Sem fazer especulações dos objetivos do autor, vamos ver um breve resumo com as “informações” do já polêmico texto “Orson Welles and Bat-man” para entender porque esse possivelmente é o melhor roteiro já criado por Mark Millar e, na tradição do velho Vigia, pensar no que aconteceria se tudo não passasse de uma pegadinha.

DESENHO DE PRODUÇÃO

”Muitos dos desenhos de produção que Orson Welles encomendou a Gregg Toland estão em notas e elas farão você sentir um arrepio na coluna assim que puder vê-las”, testemunhou o colunista. Vale lembrar que Gregg Toland é o mesmo cinegrafista responsável por várias das inovações técnicas de Cidadão Kane. Mark Millar dizia não poder revelar muitos detalhes para não estragar surpresas do livro de seu amigo Lionel Hutton, mas dava uma canja com um desenho bastante fiel ao conceito visual original do personagem criado por Bob Kane e Bill Finger em 1939.

ROTEIRO

Millar informa que Welles tinha planos bem ousados para a produção. Em supostas anotações do próprio diretor sobre o projeto Batman, teria sido registrada a pretensão de fazer do filme uma “experiência cinematográfica, um caleidoscópio de heroísmo e pesadelos jamais vistos antes, salvo no subconsciente de Goya e de Hawksmoor”. Esses dois citados são o pintor espanhol Francisco de Goya e o arquiteto inglês Nicholas Hawksmoor, referências expressionistas e góticas perfeitas para um filme sobre o Cavaleiro das Trevas. Mais para frente, Welles teria dito ainda que a intenção era fazer do filme um “psico-drama adulto” combinado com o nível de emoção e excitação dos seriados que passavam nas matinês de sábado nos EUA. Para tocar tudo isso, Welles queria imprimir “um estilo totalmente novo de dinâmica de direção como nunca havia sido visto no cinema americano”.

Mais detalhes da trama do filme estariam em 36 páginas de tratamento inicial do projeto, todas elas encontradas pelo tal Hutton. As pistas indicariam que a fita começaria de modo clássico, com a morte dos pais do jovem Bruce Wayne (uma curiosidade aqui: o nome da mãe do personagem que mais tarde se tornaria o vigilante Batman foi modificado de Martha para Mary Wayne. Quer coisa mais típica de produção cinematográfica que fazer alterações desse tipo?). A conclusão da história seria uma cena de luta com o protagonista, sem a máscara, lutando contra Coringa, Duas-Caras, Charada e Mulher Gato em uma prisão rebelada.

ELENCO

Para interpretar todos esses personagens o diretor escalaria um elenco estelar. O Coringa seria vivido pelo britânico Basil Rathbone, notório vilão de filmes de ação como As Aventuras de Robin Hood, de 1938, e A Marca do Zorro (aqui é impossível deixar de registrar uma das coincidências do texto: em uma das muitas revisões bibliográficas de Batman, ficou estabelecido que os pais do personagem foram assassinados justamente quando a família foi assistir a esse filme, de 1940). Quem viveria o anacrônico Charada seria James Cagney, astro de fitas policiais, a mais conhecida é Inimigo Público, de 1931. Para o Duas-Caras, com a recusa de Humphrey Bogart para o papel, foi escalado George Raft, marcado pelo envolvimento com gângsteres na vida real e por interpretá-los no cinema em filmes como Scarface, de 1932, e Quanto Mais Quente Melhor, de 1942. A Mulher Gato seria vivida por ninguém menos que Marlene Dietrich, mundialmente conhecida por seu papel em Anjo Azul, de 1930.

Mas a grande confusão que teria acabado com as chances do filme foi a briga em torno da escolha do ator para fazer o papel de Bruce Wayne/Batman. Welles queria aquele que provavelmente era seu ator favorito: ele próprio. Por algum motivo, os sempre inconvenientes produtores não gostaram da idéia e faziam questão de chamar Gregory Peck, recém-falecido na época da publicação do texto de Millar e um novato na década de 40. Na trama elaborada por Millar, eles chegaram a sugerir a Welles que caso ele quisesse mesmo participar no filme, que trocasse de lugar com Rathbone para viver o Coringa. O diretor teria ficado furioso com a interferência, largou o projeto que teria consumido cerca de oito meses de trabalho e, com isso, nesse universo paralelo, Batman entrou para o rol de seus trabalhos inacabados (assim como aquele lendário filme que se passaria no Brasil).

O QUE PODERIA TER SIDO

Tirando essa parte final, tudo ia tão bem que de fato era difícil acreditar nessas informações... A noção de “psico-drama adulto” teria sido uma atitude visionária, que anteciparia em pelo menos 40 anos o tratamento mais bem acabado do personagem. Na verdade, Batman só ganharia de fato uma marca digna dessa definição nos anos 80, a partir da reformulação que autores como o americano Frank Miller (O Cavaleiro das Trevas e Ano UM) e os britâncios Alan Moore (A Piada Mortal) e Grant Morrison (Asilo Arkham) fizeram em cima do trabalho pioneiro de Denny O´Neil no fim da década de 60. Quanto às pistas disponíveis a todo o resto, do visual dos personagens até a escolha dos autores, aparentemente servem como aula aos responsáveis pela atual onda de adaptações de quadrinhos, isso para não falar nas obras de safras anteriores. Isso, obviamente, inclui a seqüência de quatro produções da qual o próprio Batman foi vítima nas mãos de Tim Burton e Joel Schumacher. Millar daria um excelente consultor para Hollywood, concordam?

O que mais impressiona nessa idéia do colunista é o timing perfeito para que a tal produção, caso viesse mesmo às telas, pudesse realmente redefinir rumos e conceitos. Primeiro no cinema, que ainda vivia um momento de portas abertas para fitas de qualidade; não havia sido feita até então a escolha que marcou os anos 70 e 90 (com uma folga curta na geração dos 80) para que praticamente tudo o que se produzisse em um grande estúdio fosse feito mirando em adolescentes com pobrema no célebro.

Mas seria, com toda certeza, nos quadrinhos que este pretenso filme do Batman dos anos 40 teria maior potencial para modificar o mundo como o conhecemos hoje. Até a metade daquela década, essa mídia, mais notadamente o gênero de super-heróis, vivia sua fase mais popular. Se hoje um sucesso de vendas é medido em tiragem de algumas dezenas de milhares, naqueles tempos as cifras eram milhões de exemplares. Na década seguinte o gênero cairia em desgraça, virando alvo de gozação do público pós-guerra e de patrulhamento de autoridades preocupadas com o poder subversivo daquele meio. O resultado é que tais HQs passaram por um ciclo de auto-censura, perda de qualidade e queda nas vendas que só seria revista muito, muito lenta, no meio dos anos 60. Só que ai já era tarde. O encanto dos primeiros dias já havia se perdido.

Com o aval de uma pessoa como Orson Welles essa história de coito interrompido poderia ter sido bem diferente. Vale lembrar que ele nunca foi um sucesso garantido de público, mas desde sempre seu nome é apontado como o mais influente dos diretores. Dessa forma, os quadrinhos teriam recebido o impulso que faltou para alcançarem o status de seus co-irmãos, o crime, o suspense, a ficção científica. Todos esses gêneros também nasceram meio marginalizados, mas em algum momento de suas histórias, ao contrário das HQs, tiveram uma chance de redenção, seja no cinema, seja na literatura. O gênero poderia assim ter deixado de ser refém de um gueto de nerds (aquele tipo de gente que liga para sua casa sábado de manhã para repassar todas as novidades da semana), mudando o modo como o público pós-guerra passou a encarar essas revistas. Poderia ainda ter levado outros diretores renomados a realizar suas próprias adaptações: Millar encerra seu texto imaginando um possível filme do Capitão América feito por John Ford, mas por que não ir mais longe? Como seria um Super-Homem de Stanley Kubrick? Um Surfista Prateado de Ingmar Bergman? Um Mandrake de Federico Fellini? Um Homem-Aranha de Woody Allen? Uma Mulher-Maravilha de Dorothy Azner? Um Dr. Estranho de Roman Polanski? Um...

Este texto foi publicado originalmente no site Omelete como parte de um especial sobre os 65 anos da transmissão radiofônica de A guerra dos mundos. Republiquei aqui para atualizar a efeméride para os 70 anos e porque descobri no Youtube dois vídeos que simulam trailers do batfilme dirigido por Welles. A primeira parte pode ser vista aqui e a segunda neste endereço.


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