– Sr. Neves? O senhor pode falar comigo um minutinho?
– Medina? Mas hoje não é seu dia de folga?
– É, sim.Tava aqui em Copacabana, aproveitando uma praia, mas começou a chover e vim dar um tempo num barzinho aqui do lado, na esquina, o La Granada, conhece? Acho que encontrei um figura e tanto pra ser recrutado...
– Bem, seja breve, tenho uma reunião daqui a pouco.
– Não, tudo certo, também tenho que ser rápido porque a bateria do celular tá pra acabar. Mas como tava dizendo, topei com o camarada aqui tomando um porre federal, misturando cerveja com destilados e falando mais que vendedor de Bíblia, sabe?
– Sei, conheço o tipo que fala mais que a boca e os cotovelos. Vamos direto ao assunto, sim?

– Pois é, no meio da bebedeira, quando nem o garçom dava mais bola pra ele, o cara se virou pra mim e disse que ia confessar uma coisa. Bem, tava esperando qualquer coisa, menos que o sujeito fosse dizer que fazia parte de uma tal de Intempol...
– Interpol? O bebum era da Interpol?!
– Não, não, In-TEM-pol, com eme no lugar do erre. Tipo uma polícia internacional do tempo que, veja só, teria a missão de proteger as linhas temporais de sujeitos que ele chamou de cronoterroristas, não é uma piada?
– Sei, o cara então diz que veio do futuro, acertei? Volta e meia aparece um mendigo com esse tipo de delírio na linha de
Os doze macacos.
– Não é assim tão simples, e esse aqui é um sujeito com o discurso muito elaborado. Ele disse que viajou no tempo com um colega, outro agente da Intempol, para deter um desses cronoterroristas, um renegado russo chamado Potemkin...
– Como no filme do Eisenstein?
– É, isso mesmo! Então, esse tal de Potemkin conseguiu viajar no tempo e promover, nas palavras do nosso amigo, uma Segunda Intentona Comunista no Brasil. Só que essa deu certo!O russo fundou a União das Repúblicas Socialistas das Américas, cuja capital era aqui, no Rio de Janeiro, que foi rebatizada como Prestesgrado. URSA, imagine só.
– A clássica paranóia anticomunista elevada à enésima potência.
– Pois é, e o cara ainda descreveu como ele e o colega perceberam que haviam chegado ao, hã, tempo certo, se é que me entende. Foi quando olharam para o Corcovado e, no lugar do Cristo Redentor, tinha a, heh, Estátua da Igualdade saudando os turistas.
– Que coisa mais carnavalesca!
– E fica melhor! Continua ouvindo, senhor Neves. A dupla conseguiu se infiltrar no que seria a versão carioca do Kremlin para sabotar o equipamento de deslocamento temporal do Potemkin. Mas foram descobertos, ameaçados de serem enviados a um Gulag na Terra do Fogo. Foi aí que decidiram: tinham que acabar com aquela LTA...
– O que é isso agora?
– Eu anotei tudo no meu caderno enquanto ajudava o falastrão a acabar com o estoque do bar. Ele-tê-a, ou linha temporal alternativa. É tipo o resultado indesejável, o efeito colateral, de quando alguém faz uma viagem no tempo não-autorizada e bagunça com a história. Algo que pode criar uma confusão muito grande no, hã, con-ti-nu-um, por isso cabe à tal da Intempol fiscalizar para que malucos não saiam por aí alterando o passado ou o futuro.
– Sei, sei, captei a idéia geral do cenário. Então, seu amigo e o colega dele resolveram acabar com aquele russo antes que a confusão fizesse mais estrago, em um efeito dominó. Ou seria, efeito Orloff?
– Isso e, se possível, levar o responsável pela bagunça para uma coisa chamada de... prisão dos homens que não existem, ou algo assim. Não entendi essa parte direito porque o cara tinha que ir ao banheiro de cinco em cinco minutos. Mas como a idéia do Potemkin era usar aquela LTA para atacar outras realidades, os dois agentes chegaram à conclusão de que seria melhor perder um mundo do que arriscar meia dúzia, incluindo aí a casa deles. Seja como for, o parceiro dele acabou sendo atingindo pelo fogo cruzado e caiu morto. A única saída para nosso amigo aqui foi acionar os códigos do arsenal nuclear da URSA. Imagine, um arsenal nuclear em um palácio soviético no meio do Rio de Janeiro.
– Prestesgrado. Tá, e então, o mundo foi salvo ou devo vender minhas ações e esperar pelo pior?
– É, ele conseguiu, acionou os foguetes e aquele planeta entrou em modo
Mutual Assured Destruction, com a URSA e os Estados Unidos da Europa – acho que esqueci de dizer que existia um Estados Unidos da Europa, né? – trocando gentilezas atômicas.
– Sei, e o rapaz conseguiu fugir exatamente como?
– Bem, aí entra a parte que eu mais gostei. Os agentes da Intempol viajam no tempo com uma maquininha registradora e um cartão cronal. Basta digitar a data e a coordenada desejadas, passar o cartão na máquina e presto! Deslocamento espaço-temporal. Só que existem algumas salvaguardas de emergência para quando não for possível cumprir todas as formalidades. Parece que a máquina registradora dele, quando não era acionada do jeito certo, estava programada pra enviar o sujeito a alguma alternativa especial. Um destino aleatório entre certas encruzilhadas cronológicas que impediriam uma pessoa má-intencionada de fazer muito estrago, caso ele não fosse um agente autorizado da Intempol.
– No caso, o homem veio parar direto em um boteco de Copacabana?
– Bem, vou voltar a consultar minhas anotações. Consta que nosso mundo, ou nossa LTA como ele prefere chamar, é um caso à parte. Não existe nem representação da Intempol por aqui, nem de nenhum dos inimigos deles – não me pergunte quem são esses inimigos, porque nessa hora quem precisou ir ao banheiro fui eu. Bem, mais que isso, existe uma particularidade em nosso espaço-tempo que dificulta o acesso.
– Vai falando, vai falando.
– Pois é, o ano de 2008 de nosso mundo é uma espécie de zona cega do radar da Intempol, algo que o agente chamou de, abre aspas, zona de pulso eletro-cronal, ou ECP na sigla em inglês. Parece que tem a ver com as experiências do LHC...
– Outra sigla? LHC é o quê, o irmão gêmeo do FHC? Ou seria algum derivado do THC que o cara fumou?
– Não, pelo menos LHC existe mesmo, li numa reportagem da
Superinteressante. É aquele acelerador de partículas lá da França, que ainda tá pra ser acionado. Pelo que eu entendi, um efeito de quando os franceses vierem a ligar a máquina vai ser – ou, para o ponto de vista de nosso amigo já foi – a contaminação de nossa atmosfera com um tipo de partícula chamada de – esta é difícil – an-ti-tá-qui-ons. Parece que nossos cientistas ainda não conhecem isso, mas é alguma coisa que impede viagens no tempo enquanto estiver espalhada no ar. Uma parada associada a alguma coisa que o cara chamou de buraco de minhoca. Mas imagino que, com esse nome, buraco de minhoca, deve ter sido alguma brincadeira dele. Não é possível uma coisa dessas.
– Tá, uma coisa que nem foi ligada ainda já está impedindo a tal máquina registradora do rapaz de funcionar, é isso?
– Bem, sempre de acordo com o homem, os... antitáquions se espalham não só pelo espaço, pela atmosfera, mas também por um período de tempo anterior e posterior ao evento que os liberou, ou criou, não entendi essa parte direito. Foi o que ele chamou, rodopiando o dedo indicador no ar, de, aham, espiral de tempo neutro. Para todos os efeitos, no que diz respeito às viagens do tempo, vivemos em um período de apagão que pode durar de seis a oito meses.
– Muito útil como explicação para quem perguntar a nosso amigo porque o equipamento dele não funciona.
– É, foi o que eu pensei. Mas a versão dele é que a máquina registradora escolheu o exato segundo anterior ao início da espiral para trazê-lo aqui, a salvo de algum possível inimigo que o seguisse pelos labirintos do tempo. Assim que a nuvem de antitrecos sumir, a maquininha volta a funcionar e ele vai poder voltar pra casa, em algum Rio de Janeiro paralelo a este nosso aqui.
– Desconfio que ele estava armando uma oportunidade para vender essa máquina do tempo para você, isso sim. Uma espécie de golpe do bilhete premiado com efeitos especiais.
– Exatamente o que eu tava imaginando, mas acontece que o senhor agente caiu com a cara na mesa antes de fazer qualquer tipo de proposta. Ele me disse que já estava em nosso mundo desde o início do ano, perambulando por aí com cuidado pra não criar, sem querer, outra... LTA. Só na moita, enquanto esperava a nuvem se dissipar. Mas hoje ele não aguentou mais o tranco. Foi visitar a casa onde morariam antepassados dele em nosso período do tempo. O cara se emocionou tanto que resolveu enfiar o pé na jaca. De qualquer jeito, mesmo com a cabeça cheia de álcool, achei todo o discurso muito coerente. Ele não cai em contradições nem deixa de falar de detalhes técnicos sobre toda essa tecnobugiganga ou dados históricos ou geográficos desses mundos todos.
– “Esse cara é ótimo. Delírios paranóicos costumam ser confusos, mas ele é brilhante”.
– Por que será que essa frase aí me soou como citação?
– Porque é uma citação. É mais ou menos isso que falam naquela cena da delegacia – aquela com o Lance Henriksen – sobre o sujeito que viaja no tempo para ajudar a Sarah Connor, no primeiro
Exterminador do futuro.
– Peraí, o Lance Henriksen tá naquele filme? Tem certeza? O mesmo cara de
Aliens, o resgate? O Frank Black de
Milênio?
– Claro, ele é um dos policiais daquela delegacia invadida pelo Scharzenegger com um carro.
– Lembro dele, não. Putz, tenho que ver esse filme de novo! E dizer que o cara acabou fazendo ponta naquela novela de mutantes da Record...
– Tá, tá, Medina. Estou com pressa, marquei uma reunião de Produção de Conjuntura para daqui... a meia hora. O governo se meteu em mais um escândalo e nos contratou para criar alguma cortina de fumaça que disperse a atenção do público e das CPIs. Tenho que escolher entre um acidente ecológico de proporções globais, um novo crime que cause histeria nacional ou ainda o sequestro de alguma celebridade. Mandei que elaborassem relatórios para cada um dos cenários e devo fazer a melhor escolha.
– Dia típico, não é mesmo? Bem, e o meu amigo dorminhoco aqui? Recruto ele pra uma de nossas células ou o deixo em paz pra curar a ressaca sozinho?
– Traga-o. Ligue para alguma unidade aí do Rio e diga que autorizei o uso de uma viatura e de um aparelho que esteja disponível para os procedimentos padrões. Gostei do jeito que parece funcionar o cérebro desse camarada aí. Sem falar que um evento em que as consequências se antecipem as causas é o meu sonho de consumo.
– Só tem um problema. Enquanto me mostrava a caixa e o cartão, ele derramou cerveja na máquina e a deixou cair no chão. Acho que quebrou o treco... Foi neste momento, aliás, que ele entrou em desespero e entornou um uísque caubói como se fosse o último copo de água do deserto. No minuto seguinte, tava roncando com o nariz enfiado na mesa do bar.
– E o que isso importa? É claro que não passa de alguma dessas máquinas de verificação de cartão de crédito, ou coisa assim, que o rapaz roubou e está tentando vender para algum incauto. Deixe essa porcaria aí. O que nos interessa é a mente criativa de nosso agente da Intempol.
– Tá certo, sr. Neves. Vou usar o resto da carga da bateria do celular pra pedir a carona. Antes, só uma última pergunta: diz aí, o governo tem culpa no cartório neste novo escândalo?
– Ora, senhor Medina, nem parece que já está há tanto tempo conosco. Regra Número 1 dos Terroristas da Conspiração: o governo sempre é culpado. Mas desde que nos pague o que pedirmos, isso não tem a menor importância. Boa tarde e parabéns pela descoberta de nosso novo recruta.
– Obrigado, pode contar comigo para descobrir novos talentos e novas oportunidades de negócio. Um abraço.